Por que é que hoje, um dia comum, sem nada de extraordinário acontecendo, me sinto quase afogada em música ?
Que força universal é essa que me faz chorar sem o mínimo receio de libertar essas pobres lágrimas ?
Não há no mundo nenhuma lágrima que seja pobre, mas as minhas nesse
momento o são porque também não sabem o motivo de tanto êxtase, de
tanta dor, de tanta harmonia que cada música traz consigo escondidinha e
quando menos eu espero, pula pra dentro da minha
alma e me leva ao encontro da felicidade ou da mais dilacerante dor.
E essas lágrimas descem arrastando tempos e lembranças e, naquele momento exato, naquele toque que a junção perfeita de notas consegue alcançar, a alma em flor, desabrocha e renasce.
Que furacão me mete no peito essa tal de música, que me faz
engasgar, que faz com que não caiba dentro de mim, pois que a música,
essa tal música, tem o poder de quase matar e ressuscitar ao mesmo
tempo, sem dó nem piedade ?
E, numa mística viagem, faz o tempo voltar e parar onde ela decidir e tanto pode retalhar o coração em milhares de pedacinhos como fazer com que toda a tristeza do mundo desapareça, porque tem o dom de penetrar vales e poros.
Que notas descem do Universo, que coisa intocável é essa, que
força, que poder essas notas trazem, me deixando grávida de luz e dança,
de rodopios enlouquecidos pela brisa que sopra e, linda, me acompanha
(a brisa consegue ver a cor dessas notas) e eu
descobri isso no dia em que vi a brisa chorando e cada lágrima dela
tinha uma cor... era a cor da música que ela ouvia e então eu soube.
Que grandeza é essa que, de mansinho deita no meu colo e de repente salta, girando, girando por tudo quanto é canto e eu, repleta de felicidade e alegria, acompanho esse rodopio e, abruptamente, ela se acalma e deita no meu colo outra vez, enquanto eu me despedaço inteira de saudade daquilo que não sei o que é, e nem onde está.
E a música, essa louca, se sabe, não me conta.
Mas só o fato de sentir esses momentos que ela me traz, vale a pena
cada sorriso, cada lágrima, porque sentir é se tornar, é fazer parte
dessa própria música, que é feita de um tipo de mágica como nenhuma
outra há.
Que espécie de homens são esses que têm música nas veias e por
conta desse toque imponderável, se tornam anjos quando as criam e tocam o
eterno (a casa fulgurante da inspiração), alcançando o ponto exato em
que o espírito, em êxtase, se torna quase que
fluido ?
Através da magia da música, joelhos tocam o chão, peitos e seres se
estilhaçam, felicidades genuínas e incandescentes invadem todos os
sentidos, desafiam tristezas, reconstroem tempos idos, atingindo
recantos onde só esse milagre consegue chegar, reverenciando
o que há de mais sublime e puro em todos os quadrantes do Universo.
Não tem idioma, cor, credo ou fronteiras e irmana a tudo e a todos
pelos jorros de Luz que brotam do seu cerne majestoso, fazendo com que a
Calma, a Paz, a Serenidade e o próprio Cosmos possam ser traduzidos.
E se repararmos bem nas asas dos anjos e dos passarinhos, veremos, grafadas pelo
Universo e pela Vida, em uma asa, a palavra Amor e na outra, Música !
Tereza
Abranches é colunista fixa do Blog Luiz Domingues 2. Escritora e
artesã, desenvolve também estudos sobre literatura e espiritualidade.
Sobre o tema de sua crônica, Tereza é grande entusiasta de música desde a infância, e sendo assim, acredita que esta forma de arte seja um grande combustível para alimentar a evolução de toda a humanidade.









