Neste meu segundo Blog, convido amigos para escrever; publico material alternativo de minha autoria, e não publicado em meu Blog 1, além de estar a publicar sob um formato em micro capítulos, o texto de minha autobiografia na música, inclusive com atualizações que não constam no livro oficial. E também anuncio as minhas atividades musicais mais recentes.
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quarta-feira, 19 de agosto de 2015
Autobiografia na Música - A Chave/The Key - Capítulo 38 - Por Luiz Domingues
A falar sobre os companheiros dessa jornada:
Theo Godinho
Theo Godinho foi guitarrista da banda Hard-Rock oitentista, "Jaguar", ao lado do baterista, José Luiz Rapolli. Ótimo guitarrista, tinha uma orientação pesada, mas certamente vinha de escola setentista.
A sua participação na banda foi curtíssima, apenas pelo fato de que em comum acordo, verificamos que um sexteto seria inviável pela massa sonora envolvida. Ele poderia ter ficado tranquilamente se não houvesse também a presença do Edu Ardanuy.
Pessoa de ótima índole, apesar de sua super curta participação, a impressão que deixou para mim, foi a melhor possível. Depois dessa curta participação em nosso conjunto, foi membro de muitas bandas nos anos posteriores, e também se envolveu com produção de audiovisuais.
Infelizmente Theo Godinho nos deixou em 2012, muito precocemente por sinal, e a deixar uma grande lacuna para a cena.
Atualmente (2015), a sua filha, Thais Godinho, que é jornalista, está a fazer pesquisa de campo para reunir elementos para fazer uma biografia de seu pai, e quem sabe até um documentário para resgatar a sua história e legado artístico. Acho tal atitude dela, belíssima como filha, e certamente que merecida por parte do Theo.
José Luiz Rapolli
Eu o conhecia superficialmente desde 1985, mais ou menos, por conta de ter visto a sua banda, "Jaguar", a atuar, mas só nos cumprimentávamos nessa época, sem estabelecer amizade.
Quando o Beto anunciou que ele seria o baterista da nova banda, fiquei contente com a escolha e a sua aceitação, e não me desapontei, posteriormente.
Rapolli não tinha a mesma técnica de José Luiz Dinola, com o qual trabalhei por cinco anos através d'A Chave do Sol, mas era (é) um ótimo baterista.
Por outro lado, ao contrário do Dinola que era muito fechado no conceito do Jazz-Rock, Rapolli era muito mais próximo do meu espectro musical, no quesito das preferências musicais, a demonstrar um grande apreço pelo som das décadas de sessenta e setenta, itens proibitivos em tempos xiitas de pregação niilista, naquela década de oitenta.
Dessa forma, ficamos rapidamente amigos e sem dúvida, as conversas que tivemos, principalmente em viagens de ônibus onde dividimos os assentos, representaram os poucos momentos agradáveis que guardo na memória sobre o período dessa banda.
Tal impressão favorável, motivou-me a procurá-lo, cerca de nove anos depois, em 1997, para integrar o projeto de uma nova banda que eu estava a criar, chamada Sidharta (história inteiramente contada em capítulo específico na minha autobiografia), mas não deu certo, pois eu interpretara mal essa situação de 1988, e anos depois, tal projeção não faria sentido algum, conforme está explicado na história daquela outra banda.
Independente disso, Rapolli é um sujeito calmo, gentil e solícito, com o qual gostei de ter contado nesse período difícil que foi esse de 1988-1989, na trajetória curta d'A Chave/The Key.
Anos depois, eu soube que ele estava a tocar em bandas cover pela noite paulistana, e que se firmara com um "Pink Floyd Cover", que tornou-se uma dessas bandas tributo que primava pela perfeição em executar o repertório da banda homenageada etc. e tal.
E também foi membro do "Big Balls", banda do guitarrista, Xando Zupo, com o qual eu toquei no "Pedra", anos depois.
Fabio Ribeiro
Desde meados de 1986, eu ouvia pessoas a falar de um jovem tecladista que despontava no cenário do Rock underground, chamado: Fábio Ribeiro. Tais comentários, inicialmente vieram do meu amigo e roadie d'A Chave do Sol, Eduardo Russomano, hoje saudoso, e que o conhecia e admirava.
Ao final de 1987, ele foi convidado pelo Beto Cruz e fez uma participação especial com A Chave do Sol, no Teatro Mambembe e caprichosamente, foi o último show dessa banda que dissolveria-se poucos dias depois graças a um desentendimento entre os seus membros remanescentes: eu, Luiz Domingues, Rubens Gióia e Beto Cruz.
Quando uma nova banda foi criada emergencialmente para suprir a agenda d'A Chave do Sol, recém implodida, Beto não teve dúvidas e convidou, Fábio Ribeiro para fazer parte. Tecladista dotado de uma sólida formação teórica, ele gostava, e isso foi raro naquela época, do Rock Progressivo setentista, apesar de estar bem antenado nas sonoridades modernas e oitentistas, também.
Muito técnico, trata-se de um solista virtuose e piloto de vários sintetizadores, à moda antiga dos tecladistas setentistas clássicos.
Como pessoa, é um rapaz muito educado, simples e isso foi fruto dele ter sido criado por pais extremamente bondosos, que inclusive eu já citei bastante na história desta banda.
Muito jovem, versátil, muito técnico, com vasta bagagem teórica, e virtuose como solista, tornou-se inevitável que ele chamasse muito a atenção, e recebesse muitos convites para outros trabalhos.
Portanto, ainda a fazer parte de nossa banda, estava também envolvido com muitas outras bandas de Hard-Rock e Heavy-Metal, onde gravou discos, tocou ao vivo com tais artistas, e manteve sempre uma banda autoral e sob orientação progressiva setentista chamada:"Desequilíbrios", além de um projeto solo e experimental, "Blezki Zatsaz".
Nos anos 1990 e 2000 foi membro de bandas como "Angra" e "Shaman" do mundo do Heavy Metal, e do Violeta de Outono, além de abrir o seu estúdio particular. Toca com muita gente hoje em dia e é representante de várias marcas de teclados internacionais no Brasil, além de ser um experiente professor de música e programação de teclados/tecnologia.
Eduardo Ardanuy
Descoberto pelo Beto Cruz, Edu Ardanuy chegou para esta nova banda com fama de virtuose, e de fato o era. Toca com uma técnica absurda, e sempre foi obcecado por tocar muito mais ainda, a estudar com muito afinco.
Circunspecto e calado, passou-me a impressão inicial de que era obcecado pela técnica e se esta não era a minha visão da música e nunca será, ao menos eu o respeitava em sua determinação e o admirava por ser focado no seu objetivo, fato raro para um menino de vinte anos de idade, e que geralmente tem dificuldade para focar em um objetivo. Foi por sua mentalidade que a banda se pautou doravante, e construiu a sua curta carreira e isso não foi o que eu desejaria, certamente.
Mas claro que sou-lhe grato pela sua participação, e se não foi som que desejaria trabalhar com aquela sonoridade, isso não foi nem de longe por sua culpa, mas apenas foi um arranjo do acaso que nos uniu ali naquela situação.
Não nos comunicávamos muito nesse período em que trabalhamos juntos. O seu diálogo mais direto sempre foi com o Beto e o Fábio, musicalmente a falar. Mas sempre houve bastante respeito mútuo e lhe sou grato por ter nos socorrido naquele momento inicial muito difícil e pela persistência, também.
Dentro do mundo do Rock pesado e em específico das vertentes do Hard e Heavy oitentistas/noventistas e com orientação virtuose, Edu é uma referência e certamente é considerado um dos maiores guitarristas do mundo, e isso é extraordinário, é claro. Ele é reverenciado em publicações especializadas internacionais, citado por guitarristas do nível de Steve Vai, e tudo isso é muito merecido, logicamente.
Edu Ardanuy tocou por muitos anos no super trio: "Dr. Sin", uma das mais significativas bandas brasileiras do mundo pesado e ultra técnico, além de ter participado muitos trabalhos solo.
Tornou-se um dos maiores professores do Brasil e recentemente abriu com os seus irmãos uma escola de música que é referência nesse mundo dos apreciadores do Rock pesado e do virtuosismo, chamada: "Clã Ardanuy".
Apesar de na época não termos ficado muito próximos, sei que ele é um rapaz de boa índole, e em muitas ocasiões em que nos encontramos em bastidores de shows, nos anos 1990, e 2000 em diante, ele sempre foi muito cordial e simpático comigo.
Beto Cruz
Considero a persona de Beto Cruz, como a força motriz dessa banda chamada: A Chave/The Key. a sua determinação para achar uma solução que parecia impossível de ser encontrada, foi extraordinária no início.
Ao agir como um verdadeiro produtor executivo, ele não mediu esforços para criar uma banda de uma forma instantânea, e fazer com que ela se tornasse apta a competir no difícil mercado da música, em tempo recorde. Sou-lhe muito grato por todo o esforço empreendido, pela solidariedade, pela garra, pela luta, pelos sacrifícios pessoais que teve, pela mão na massa, e tudo mais que eu puder elencar em termos de trabalho árduo e obstinado.
Peço-lhe desculpas se de minha parte, eu não correspondi na mesma intensidade, mas creio que está bem explicado neste relato, os motivos de minhas contrariedades e acentuada perda de energia no decorrer do processo, que esvaiu-me as forças.
Seu prêmio por esse esforço hercúleo, é o disco que registrou tal momento e a descoberta de valores artísticos que muito brilharam, brilham e brilharão ainda, graças ao seu olhar arguto.
Sobre sua personalidade, o que ele fez depois dessa banda, e faz atualmente em termos artísticos, eu já descrevi ao final do capítulo sobre A Chave do Sol, portanto, é só consultar ali.
Está encerrada essa etapa da minha trajetória na música.
Agradeço aos companheiros dessa jornada e mais uma vez lhes peço desculpas por ter sido excessivamente franco em relação às minhas impressões contra o trabalho em si, na minha ótica e gosto pessoal, e reitero, nenhuma contrariedade de minha parte tem caráter pessoal contra quem quer que seja, e pelo contrário, eu sou grato a todos pelo companheirismo, em uma etapa que foi muito difícil particularmente para mim.
De todos os capítulos que eu escrevi na minha autobiografia na música, este foi sem dúvida o mais difícil, pela complexidade de escrever e não deixar margem de dúvida a alimentar melindres para ninguém envolvido, seja o Beto Cruz, os membros novos, e tampouco o Rubens Gióia. Espero sinceramente que todos entendam as colocações com a máxima clareza.
E agradeço também aos fãs do trabalho, que não são muitos, devido às circunstâncias que essa banda enfrentou e pela maneira que se expressou artisticamente.
Para efeito de cronologia desta minha autobiografia, daqui em diante, vem a minha história com o Pitbulls on Crack, iniciada em janeiro de 1992, contudo, do período em que saí desta banda, 1989, até o início do Pitbulls on Crcak, há muitas histórias sobre projetos e tentativas de formação de bandas autorais, além de trabalhos alternativos que eu fiz, e que estão relatados nos capítulos dos "Trabalhos Avulsos". Basta consultar ou reler, por ali.
Um agradecimento ao saudoso, Theo Godinho, pela força inicial nos dois primeiros shows emergenciais de 1988!
Muito obrigado aos amigos Fabio Ribeiro, Eduardo Ardanuy e José Luiz Rapolli!
Muito obrigado, Beto Cruz, por absolutamente tudo o que envolveu essa banda!
Grato, A Chave/The Key, pelo esforço em tentar manter uma chama viva!
Muito obrigado, amigo leitor, por ter acompanhado esta etapa da minha autobiografia na música!
sexta-feira, 7 de agosto de 2015
Autobiografia na Música - A Chave/The Key - Capítulo 6 - Por Luiz Domingues
Feito o show para a TV, em meio a uma praia do Guarujá-SP, dois dias depois fomos à zona leste de São Paulo para cumprir um show completo. Nem tão completo assim, eu diria, pois tratou-se de um mini-festival, e portanto, ao termos que compartilhar o palco com outras atrações, naturalmente.
No caso específico desse dia, dividimos o palco com o Made in Brazil, uma super tradicional banda do circuito do Rock brasileiro, e que já era longeva naquela ocasião, dada a circunstância de ser egressa dos anos sessenta.
Desta feita com a presença daquele que seria o baterista dessa nova banda, José Luiz Rapolli, fomos mais preparados para esse compromisso.
Tratou-se de um sábado, dia 30 de janeiro de 1988, no salão conhecido como: "Led Slay", no Tatuapé, zona leste de São Paulo.
Eu havia tocado ali naquele espaço, uma única vez, com o Língua de Trapo, no início de 1984, mas tal banda era versada pela sátira e humor, portanto, seria a primeira vez que tocaria ali com uma banda de Rock de fato, em um ambiente que supostamente era adequado para tal afinidade cultural.
Ao ir além, a Led Slay mantinha a fama de ser um salão anacrônico nos anos oitenta. Assim como seu grande rival, o Fofinho Rock Club, cujo endereço ficava localizado na mesma avenida, mas separado por quase três Km entre um e outro. Portanto, ali naquele ambiente, apesar de haver espaço para as manifestações típicas oitentistas de apelo Hard-Rock e Heavy-Metal, havia tal como no "Fofinho", uma predileção por cultura sessentista e setentista.
Foi um dos poucos ambientes para freaks da "velha guarda", hippies, bichos-grilo, seguidores de Raul Seixas e "micróbios" (uma pejorativa pecha para designar hippies sujos, quase a se equivaler a mendigos). Bem, alheios à essas constatações socioculturais e antropológicas, até, lá fomos nós com nossa banda montada às pressas, quando urgira divulgar o LP The Key, e vendê-lo, a todo custo!
Tocamos antes do Made in Brazil, logicamente, pelo aspecto respeitoso de seu status maior adquirido por anos de labuta, mas também pelo fato do Oswaldo Vecchione, seu baixista, cantor e líder, ser o organizador do festival e dessa maneira, o seu equipamento alimentar o palco e o P.A. do evento. Fizemos um set maior que o show de choque que havíamos feito dois dias antes no "Verão Vivo" da TV Bandeirantes. Ou seja, tocamos o LP The Key inteiro, além da pequena intervenção de solos individuais do Edu Ardanuy e Fabio Ribeiro, que já haviam apresentado no show do Guarujá.
Foi um show mais seguro, é verdade, pois o gelo houvera sido derretido no show da praia. Rapolli tocou tranquilo e ficou o sentimento de que poderia ter tocado no show anterior, mas, tudo bem, creio que a sua decisão fora acertada pelo fator da prudência.
O palco montado era pequeno e estava sob um outro ambiente do salão, que era enorme. Do lado de fora, inclusive, havia uma área ao ar livre que era gigantesca e anos antes havia sido o cenário para que a casa houvesse promovido shows com estrela da MPB, como Gilberto Gil, Alceu Valença e Zé Ramalho, por exemplo, com multidões de mais de vinte mil pessoas presentes em ocasiões assim, mas nesse festival em que tocamos, o palco fora montado na parte interna e era bem menor.Ao se considerar o tamanho do referido salão, creio que o resultado com cerca de trezentas pessoas presentes não poderia ser comemorado como um grande público, inclusive para os parâmetros oitentistas onde o comparecimento das pessoas em shows de Rock, era muito maior, costumeiramente.
Os irmãos Vecchione, Celso e Oswaldo, se impressionaram com a técnica do Eduardo Ardanuy e chegaram a formular um convite para ele ingressar no Made in Brazil, naquela momento. Eu e Beto nos resignamos, pois ficara claro que Eduardo despertaria a atenção não só deles, os Vecchione, mas à medida que avançássemos com essa banda, outros assédios a vir de outros músicos, seriam inevitáveis. Porém, o Eduardo não se seduziu com a proposta e seguiu a apostar nessa nova banda que formávamos, todavia, em um futuro não muito distante, tal fidelidade não seria mais levada à risca e logo mais eu chego nesse ponto.
A nossa luta prosseguiu e nesse ponto, teríamos mais tempo para ensaiar, pois o próximo compromisso de show só esteve marcado para o mês de abril.
Enquanto, isso, concomitante aos ensaios, matérias e resenhas ainda a tratar da velha, A Chave do Sol estavam a sair nas bancas de jornais e revistas e a árdua batalha para vender discos "no braço", literalmente, prosseguira, ao juntarmos moedas para pagar as dívidas adquiridas pela produção do LP The Key.
E na parte artística, esse sexteto montado de forma emergencial, enxugou-se, pois o guitarrista, Theo Godinho, deixou-nos. Foi uma decisão tomada de comum acordo, e muito amigavelmente. De fato, com Edu e Fabio, estávamos super servidos com a parte harmônica e de solos da banda, e ao irmos além, com duas guitarras e teclados, o som ficou pesado e embolado demais. Não houve a necessidade de duas guitarras, mesmo por que, se no caso de uma ou outra música houvesse tal situação de uma base de guitarra a mais ser necessária, o próprio, Beto, poderia suprir tal lacuna, por também ser guitarrista.
Além do mais, com o Theo, que era ótimo guitarrista, sempre haveria a questão de inserir os seus solos, também, é claro. Portanto, com três solistas na banda, pois o Fabio também era um virtuose nos teclados, a tendência seria a de estabelecermos uma overdose de solos nas músicas, ao torná-las maçantes para os ouvintes.
Então, ao ponderarmos tudo isso, Theo Godinho e a banda se despediram amigavelmente, e de nossa parte, ficou o agradecimento pela contribuição muito boa que nos deu, em um momento de dificuldade de nossa parte, ao aceitar o convite para preparar a toque de caixa, as músicas de um LP inteiro, para executá-las em dois shows, com pouco tempo de preparo prévio.
Continua...
quinta-feira, 6 de agosto de 2015
Autobiografia na Música - A Chave/The Key - Capítulo 5 - Por Luiz Domingues
Como de praxe, as bandas que se apresentariam no dia, se reuniram em um ponto de encontro determinado pela produção do show/filmagem. No caso, viajamos em um ônibus da Rede Bandeirantes de TV, acompanhados da agradável presença dos amigos do "Proteus", banda com a qual interagíamos desde 1987, quando ainda eu, Beto e Zé Luiz fomos membros d'A Chave do Sol. No ônibus, além da comitiva das duas bandas, muitos técnicos da TV Bandeirantes, viajaram conosco.
Fazia um calor de rachar, e claro, foi o normal para o mês de janeiro, ainda mais a levar-se em conta que descíamos a serra em direção a uma cidade praiana, tradicionalmente quente, ainda mais em pleno verão.
A viagem foi bastante prazerosa, para quebrar um pouco o clima pesado com o qual eu e Beto vivêramos nos últimos quarenta dias aproximadamente, por conta dos acontecimentos terríveis que culminaram com a extinção d'A Chave do Sol e abrupta formação dessa nova banda dissidente. Não só por isso, eu diria, mas também pela incidência de dívidas que nos atormentavam, e cuja única saída, foi promover a nova banda e vender discos para pagar a conta da anterior que desintegrara-se...
Ao chegarmos à cidade do Guarujá-SP por volta do meio da tarde de uma quinta-feira, dia 28 de janeiro de 1988, fomos conduzidos diretamente à praia, onde o palco estava montado e com o P.A. já inteiramente erguido e a ser afinado pelo técnico.
Fizemos o soundcheck sob forte calor e um sol causticante, com poucos banhistas a se interessar com a movimentação toda pela produção, ainda bem, eu diria, para não tumultuar o trabalho.
Claro, foi um soundcheck rápido, sem maiores requintes e a contar com a má vontade generalizada de técnicos e auxiliares que adotaram a postura de "estrelas", e assim a manter a estúpida praxe de maltratar artistas que não são proeminentes na mídia mainstream, como se os incomodássemos com a nossa simples existência, e muito pior, pela falta de projeção midiática avantajada, como se isso fosse por nossa culpa.
Encerrado esse trabalho, que foi feito bem superficialmente para o nosso gosto (e convenhamos, seria um show para uma grande, supostamente, multidão ao vivo, e com a responsabilidade de se tratar de uma filmagem para a TV, portanto, deveria haver um apuro na qualidade do áudio, muito maior), a produção da TV nos conduziu a um um hotel, onde descansaríamos e nos aprontaríamos, portanto, para o show.
Infelizmente, o hotel alugado pela Rede Bandeirantes se mostrou precário e não reunia condições para que descansássemos adequadamente. Sou muito grato à essa Rede de TV por nos ter inserido nessa programação do seu programa: "Verão Vivo", pela evidente oportunidade de uma exposição em cadeia nacional, mas deixo a pergunta: será que artistas mais famosos do que nós, usavam normalmente aquele hotel "pulgueiro?" Duvido que algum medalhão da MPB, ou até mesmo do BR Rock 80's ainda em voga na mídia, fosse hospedado ali, mas enfim.
Fomos para o show, então e o Proteus tocou primeiro. A sua apresentação era sempre energética, e tendo ou não público, se portavam em cena como se estivessem em um estádio de futebol lotado, e isso era louvável ao meu ver, sob o ponto de vista cênico, na postura deles.
Quando fomos para o palco, a nossa preocupação, além de tocar o melhor possível diante de uma monitoração bem ruim e totalmente diferente da estabelecida durante o soundcheck (para que equalizar o som antes dos shows, se na da apresentação eles mudam tudo?), a ordem foi ter a melhor performance cênica possível, ao pensarmos na audiência de milhares, talvez de milhões de telespectadores, mas a motivação teria que vir de um foco muito forte nesse sentido, por que ali, no calor do show, seria bem difícil extrair ânimo para tal.
O link para assistir o vídeo no YouTube:
https://www.youtube.com/watch?v=qCLUfoAQYSc
Isso por que o público presente foi diminuto e a portar-se muito friamente no geral. Houve sim um pequeno público Rocker presente, perto do palco, mas a grande massa, dos poucos que se manifestavam, estiveram ali apenas para tumultuar, e não mediram esforços para tal...
Link para ouvir no YouTube:
https://www.youtube.com/watch?v=IeQPAr0vxWw
Link para ouvir no YouTube:
https://www.youtube.com/watch?v=rtna5DWn07g
Tratara-se de um pequeno, mas bastante impetuoso grupo de pessoal mal-intencionadas, que debochavam o tempo todo de nós, ao nos provocar com gritos a afirmar: -"hei roqueiros, toquem um pagode aí", e esse tipo de pedido galhofeiro, foi a coisa mais suave que nos disseram naquela noite.
Não contentes em nos hostilizar verbalmente, arremessaram alguns tufos de areia, mas felizmente a distância da grade de segurança que os continha foi o suficiente para que os seus arremessos não chegassem até nós, diretamente, mas apenas a conspurcar a ponta do palco, antes mesmo da linha do "side fill" (um micro P.A. posicionado nas laterais do palco, que visa reforçar a monitoração para os músicos se ouvir melhor), mas mesmo assim, o baixo astral em termos que passar por isso, gratuitamente, foi um horror...
https://www.youtube.com/watch?v=Kia9ARQQ_U8
Acima, eis o Link para ver no YouTube.
Bem, independente dessa deprimente manifestação de um público frio e com manifestações hostis como as que descrevi acima, por parte de alguns gatos pingados, acho que a nossa performance foi digna. Demos o nosso recado para a TV, e quebramos o gelo entre eu & Beto, em relação aos demais novos músicos, e de fato, foi o que mais importara ali naquele instante.
A performance foi bastante energética. Com a segurança do José Luiz Dinola, muito habituado com aquelas músicas, a banda soou como se estivesse junta há tempos. Não transpareceu que havíamos nos juntado há poucos dias, e que a maioria dos músicos não tinham intimidade alguma com aquele repertório.
Ali, logo nessa primeira apresentação, houve uma amostra do que seria essa nova banda, ao ser dada com eloquência eu diria, pois o virtuosismo do Edu Ardanuy e de Fabio Ribeiro, foi proeminente.
Diante de alguns poucos improvisos, pois a base dessa apresentação foram as canções do LP The Key, ambos já mostraram a sua qualidade como músicos excepcionais, com pequenas "camas" harmônicas feitas para dar vazão aos solos longos e virtuosísticos de ambos. Aliás foi um raro momento em que fugimos do repertório do LP The Key, para apresentar algo diferente e que de fato, nortearia o trabalho dessa nova banda doravante.
Link para assistir no YouTube:
https://www.youtube.com/watch?v=ZWq82zrlTFo
O Zé Luiz Dinola tocou como nos velhos tempos, mas não haveria a menor possibilidade de cogitar se juntar a nós, apesar de estar claro que desistira da ideia esdrúxula de abandonar a música, fato que motivou a sua saída d'A Chave do Sol, cerca de seis meses antes, e mesmo por que, mesmo que houvesse tal possibilidade, estávamos fechados com Zé Luis Rapolli, e se fosse para o Dinola voltar, o correto seria que A Chave do Sol se reconciliasse inteiramente e com Rubens Gióia a retomar o seu posto, simples assim!
Depois do show, fomos abordados por alguns fãs, mas poucos sabiam realmente quem éramos. Houve um diminuto contingente de Rockers naquela noite ali presentes, e a maioria que foi nos abordar no improvisado camarim atrás do palco, estava ali pelo embalo de ocasião, simplesmente.
Então, algo ainda mais bizarro ocorreu. Um sujeito ficou a nos abordar com uma insistência bem desagradável, ao pedir um LP de presente. E ficara nítido que esse rapaz mal sabia quem éramos, infelizmente. Durante o show, o Beto arremessara algumas capas para o público, para fazer um agito, e a fazer a promessa ao microfone, de que lhes entregaria a bolacha de vinil no pós-show como um meio de promoção.
Os sujeitos que conseguiram capturar as capas no ar, apareceram para reivindicar os seus vinis, mas isso também atraiu outros rapazes e moças e alguns inconvenientes, que queriam ganhá-los também. Nesse instante, eu a ver aquelas pessoas a pedir discos com insistência, pensei comigo: -"estamos a precisar vender cópias desesperadamente e esses sujeitos que nem sabem quem somos, aí, a pedir discos que provavelmente vão tentar vender em um sebo, no dia seguinte, ou mesmo jogar no lixo"...
Foi quando um dos mais agressivos entre eles, abordou-me e veio com uma conversa absurda de que havia nos ajudado na produção naquele dia, e que "merecia" ganhar um disco, como um direito adquirido! Pois esta foi uma das poucas ou talvez a única ocasião em que eu fiquei muito aborrecido com uma abordagem de pós-show da parte de um estranho em toda a minha carreira, tamanha a insistência pegajosa do sujeito, e somado ao cenário dramático em que estávamos mergulhados, desde a dissolução d'A Chave do Sol, com inúmeros dissabores e preocupações para resolver e ali, aquele sujeito desagradável a passar dos limites...
Sei que tudo resolver-se-ia se eu tivesse cedido e lhe dado um disco de cortesia, mas simplesmente, não o fiz. Primeiro, que criaria um precedente terrível. Se tivesse lhe ofertado o disco, havia pelo menos mais cerca de trinta pedintes ali na mesma situação e isso geraria um tumulto. Em segundo lugar, a abordagem dele houvera sido tão descortês, que ele não fez por merecer, de forma alguma. E em terceiro lugar, por que provavelmente esse rapaz nem se interessava pelo som da nossa banda. E finalmente em quarto lugar, pela situação dramática em que nos encontrávamos naquele instante, onde a ideia de "doar" cerca de trinta discos a esmo, seria cometer uma heresia financeira para nós.
Então, ao sentir-se contrariado, esse rapaz passou a proferir um discurso revanchista de baixo nível. Não partiu para agressões ou ofensas no uso do baixo calão, mas ficou a falar alto para todo mundo ouvir, algo do tipo: -"é assim mesmo... você ajuda um artista desconhecido e ele lhe vira as costas quando sobe um pouquinho"...
Não contente com esse discurso absurdo, ao nos imputar uma suposta "soberba", indevidamente, eis que rogou-nos uma praga... ao afirmar aos seus amigos, ao seu redor, que por conta de "atitudes mesquinhas desse tipo", nós fracassaríamos no avançar da nossa carreira etc. e tal. Em suma: acho que eu nunca vira uma pessoa tão descortês e baixo astral assim, a abordar artistas em um bastidor de show, e no cômputo geral, falo do alto de trinta e nove anos de carreira que somo neste momento em que escrevo este trecho (2015), tive inúmeras experiências com outros inconvenientes de plantão, mas este, superou-se. Bem, entrei no ônibus e pela janelinha, ainda o ouvia a falar e a mostrar-me ironicamente um copo d'água, que usava para enfatizar a sua contrariedade na forma de um brinde que me oferecia, como forma de deboche.
Alheios a essa situação, fomos jantar em um restaurante bom e o fim da noite foi bastante agradável entre amigos, a dissipar a nuvem de baixo astral perpetrada pelo assédio de energúmenos, sem noção de educação básica, como esse rapaz que eu citei acima.
De volta para São Paulo, tivemos mais um pouco de tempo para ensaiar, mas bem pouco, pois no sábado subsequente, teríamos que realizar um show completo.
Acima, um pequeno vídeo sobre os bastidores do pós-show, filmado a esmo pela equipe de cinegrafistas da Rede Bandeirantes e que não foi ar, mas muitos anos depois, alguém disponibilizou-o para um DVD pirata que passou a ser vendido em lojas da Galeria do Rock, e agora está disponível através do YouTube, aliás, caso da maioria das músicas desse show e que na época, também não foram ao ar.
O Link para ver esse curto vídeo de bastidores:
Então foi assim, quinta-feira, dia 28 de janeiro de 1988, tocamos no palco do projeto, "Verão Vivo", patrocinado pela Rede Bandeirantes de TV. Ali na praia, não deve ter havido mais do que quinhentas pessoas na plateia, mas quando o programa foi ao ar, dias depois, em 11 de fevereiro de 1988, a edição "maquiou" a audiência, ao mesclá-la com outros shows onde o público fora bem maior. Naquela circunstância de um show gravado ao vivo em uma praia durante o verão, acredito que nem medalhões do BR-Rock 80's fariam papel muito melhor. Toda a atmosfera seria adequada apenas para artistas populares, quiçá popularescos e assim, bandas de Hard-Rock do underground não fariam sentido, mesmo, para aquela audiência.
O link para assistir no YouTube:
https://www.youtube.com/watch?v=OAgnRlVPros
Portanto, a confusão gerada pela criação de um novo nome e uma nova banda, mas a tocar o material e a divulgar o recém lançado LP de uma banda extinta há poucos dias, não fez diferença alguma aos gatos pingados que nos viram naquela noite ao vivo e para a imensa maioria que nos viu na TV, dias depois.
O link para ver no YouTube:
https://www.youtube.com/watch?v=ASSwPowUeME
Com a ressalva óbvia de que ao tratar-se de exibição na TV, claro que o público Rocker tomou conhecimento também, incluso os fãs da velha, A Chave do Sol, e a confusão gerada foi grande. Pois é... aonde está o Rubens? Onde está o "Sol?" Zé Luiz Dinola voltou? E sobretudo, quem são esses dois guitarristas e o tecladista?
Paciência, foi o que aconteceu ...
Continua...
quarta-feira, 5 de agosto de 2015
Autobiografia na Música - A Chave/The Key - Capítulo 4 - Por Luiz Domingues
A nossa primeira missão foi então o compromisso marcado para a TV. Com esses músicos reunidos e agrupados na sala de estar da residência do Beto Cruz, tivemos dois dias apenas para nos preparar. No show da TV, seria uma típica apresentação de choque. Sete ou oito músicas apenas, e com a possibilidade de três ou quatro irem ao ar, posteriormente.
No entanto, dois dias depois teríamos um show completo para cumprir em um salão de Rock da zona leste de São Paulo e aí, teríamos que no mínimo, tocar o LP The Key inteiro, pois não haveria a menor chance de termos tempo hábil para compormos músicas novas. Aliás, mal tivemos tempo para deixar o material da velha, A Chave do Sol pronto para ser tocado ao vivo, a honrar as suas tradições rompidas indevidamente, por uma série de lamentáveis mal-entendidos.
Ao término do primeiro ensaio, o Zé Luis Rapolli se mostrou pessimista em relação à sua participação. Ele achou precisava de mais um tempo para decorar convenientemente as músicas, e talvez estivesse mais seguro para o show completo no tal salão que eu mencionei, mas para o compromisso da TV, se mostrou inseguro. Portanto, o Beto não teve dúvidas e ligou para o José Luiz Dinola, ex-baterista d'A Chave do Sol e formulou o convite para que ele se apresentasse conosco na TV, ao lhe expor a situação a dar conta de que o seu xará recém ingresso na nova banda, precisava de mais um tempo para adaptar-se etc.
Foi incrível, mas de uma forma absolutamente bizarra, tocaríamos com nosso velho colega, Dinola, mas sem que fosse A Chave do Sol a pisar no palco, mas ao mesmo tempo, a tocar o seu material, e cujo disco recém lançado ainda com a banda clássica, houvesse sido gravado por outro músico, no caso, Ivan Busic!
Foi muito confuso e certamente que só aumentou a nossa percepção de que tudo houvera sido um grande equívoco. Éramos para estarmos unidos e a trabalhar normalmente com a nossa banda, a realizar shows promocionais de nosso novo álbum, com a nossa marca, e a formação clássica sobre os palcos. Mas estávamos ali, com um novo nome, rompidos com o nosso guitarrista cofundador da banda, a cumprir compromissos que seriam da nossa banda, mas que, diante de tais dramáticas novas circunstâncias, nos obrigaram a criar uma nova banda às pressas, com outros componentes, e a ter que recorrer ao nosso velho baterista, que fora o primeiro a deixar o nosso antigo bote. Então, o lado bom disso, se é que existiu algo positivo nesse imbróglio, foi que o Dinola aceitou nos socorrer de pronto, e mesmo sem tempo para ensaiar, nos deu segurança de que mantinha as músicas em sua memória. Não foi para menos, ele as conhecia de cor e salteado, talvez com exceção de três que houveram sido incluídas nos estertores de sua permanência no cotidiano da banda.
Quanto aos demais novos membros, estes estavam mais seguros, mas também não se tratava daquela segurança absoluta de uma banda perfeitamente entrosada e afiada, características inclusive que eu me acostumara em cinco anos a atuar com a na antiga, a Chave do Sol.
Bem, não adiantavam os lamentos... foi o cenário com o qual tivemos que lidar e fim de reclamação. Chegou o dia da viagem para o litoral, enfim...
Continua...
quarta-feira, 29 de julho de 2015
Autobiografia na Música - A Chave/The Key - Capítulo 3 - Por Luiz Domingues
Nesse cenário angustiante, a se pisar em terreno minado, fomos a lutar duramente pela sobrevivência. Atormentados pelas dívidas, a ; vender discos no braço, literalmente, montar uma nova banda desvinculada da velha banda extinta, mas ao mesmo tempo tendo que manter elo estratégico a usar das cinzas ainda quentes da banda antiga destruída.
Já com o protocolo da nova marca em mãos, pelo menos sabíamos que o Rubens não poderia reclamar dessa dissidência forçada de nossa parte.
Agora fora a hora para juntarmos os cacos, e tentar dar dignidade à esse novo trabalho. Em princípio, não havia nenhuma chance de pensarmos em renovação do repertório. Tínhamos que tocar as músicas do LP The Key, mesmo ao se correr o risco de dar-se um nó na percepção dos fãs da velha, A Chave do Sol.
Mas um ponto positivo ocorreu, assim que começamos a conversar com os membros recém chegados: a ideia sempre foi renovar completamente o repertório, a mostrar uma nova identidade. Certo, os dois ex-membros d'A Chave do Sol, estavam a montar uma nova banda, e que não poderia ser entendida como a continuidade d'A Chave do Sol, simplesmente.
Enfim, foi uma situação totalmente embaraçosa e desagradável portanto, porque o ideal teria sido que A Chave do Sol houvesse superado a sua crise interna, e se colocasse disposta a tocar a vida em frente, prioritariamente, ou sob uma segunda hipótese, que essa nova banda fosse formada com um nome completamente desassociado d'A Chave do Sol, e com calma para efetuar o seu processo de montagem. Mas não foi assim que aconteceu, infelizmente...
O contato inicial com os novos componentes foi muito cordial e melhor que isso, eu senti da parte deles, a empolgação para começar a trabalhar. De certa forma, foi bom receber essa energia, pois eu e Beto estávamos bastante desgastados com os acontecimentos dos últimos meses, e principalmente pelo seu desfecho tristíssimo para todos nós, ex-membros d'A Chave do Sol. Ouso dizer que eu estava emocionalmente pior, primeiro pelo fato dele, Beto, ter uma personalidade mais telúrica que a minha, e diante da adversidade, o seu pragmatismo sempre o levava a tomar providências imediatas para mudar o quadro, ao não se deixar levar para um estado depressivo.
Zé Luiz Rapolli e Theo Godinho, eu conhecia superficialmente, por conhecer o "Jaguar", a sua ex-banda. Eu nunca havia conversado com eles, mas já os cumprimentava pelo menos desde 1985, em bastidores de shows, e cheguei a assistir um show do próprio Jaguar, certa vez. Já sobre o tecladista, Fabio Ribeiro, eu tinha tido a experiência dele tocar no último show d'A Chave do Sol, em dezembro de 1987, no Teatro Mambembe. Apenas não conhecia o Eduardo Ardanuy, que fora uma descoberta do Beto Cruz. Pelo que me contou, ele ouvira boatos de que um rapaz muito jovem tocava pela noite, com pequenos combos improvisados e detinha a fama de ser um virtuose ao instrumento, com estilo muito parecido com o do guitarrista sueco, Yngwie Malmsteen.
Tal guitarrista internacional houvera tornado-se uma febre entre os guitarristas que professavam o Hard-Rock oitentista no mundo todo, pela sua absoluta destreza ao instrumento, mas sob um patamar muito acima do normal para um guitarrista considerado excelente. Esse tal Malmsteen, tocava com uma técnica absurda, e sob uma velocidade tamanha, que tratou por encantar muitos guitarristas que passaram a estudar de uma forma estonteante para alcançar tal patamar semelhante de sua técnica.
O som que ele produzia, era uma mescla entre o Hard-Rock com o Heavy-Metal oitentista, mas havia um quê de Hard-Rock setentista nessa mistura, principalmente via Ritchie Blackmore, o mítico guitarrista do Deep Purple, que arregimentara milhões de seguidores de sua guitarra super técnica, a unir os riffs de Jimi Hendrix (incluso o uso e abuso de alavancas e efeitos gerados pela microfonia), com música barroca, principalmente o som de Johann Sebastian Bach, Vivaldi e contemporâneos. Malmsteen fora um desses fanáticos fãs de Blackmore, mas ali na década de oitenta, a sua pegada ficou muito mais puxada para o Hard-Heavy oitentista, naturalmente. Edu Ardanuy foi um admirador de Malmsteen e a sua técnica era tão impressionante, que mesmo ainda sendo um garoto desconhecido, já fora apelidado como: Edu "Malmsteen."
Particularmente, eu nunca gostei de Malmsteen, e muito menos de tudo o que se a circunstância. Mas naquele cenário que se desenhara em 1988, pareceu-nos não haver saída para nós, e com a agravante de estarmos aflitos e a fazermos tudo às pressas, nem teria muito cabimento questionar a linha a ser adotada.
Ao irmos com a maré, portanto, e a contar com Edu e Fabio (que igualmente era um virtuose das teclas e estava a apreciar muito aquela onda de virtuosismo "malmsteeneano" vigente, apesar de ter igualmente uma boa formação Prog-Rock setentista), tornou-se inevitável que entrássemos nessa senda.
Sobre o Theo, este fora uma guitarrista com muitas virtudes, mas não necessariamente um virtuose como Edu. Mais parecia ser um guitarrista clássico de Hard-Rock oitentista, embora apresentasse uma bagagem setentista interessante, também.
A respeito do temperamento desses novos companheiros, achei de princípio, o Zé Luiz Rapolli bastante simples e amigável. Fabio Ribeiro era muito brincalhão, mas sem dúvida um bom menino, e uso esse termo, pois ele tinha dezessete para dezoito anos na ocasião. Theo Godinho pareceu-me gentil, mas mostrava-se tímido, e Edu era calado, parecia um rapaz focado na música e sem muitas palavras. Em suma, em meio a tantas adversidades que estávamos a enfrentar, ao menos ficamos aliviados em constatar que arrumáramos quatro músicos muito competentes; com vontade de encarar o desafio dos compromissos em cima da hora, e com poucos ensaios. E todos eles a se mostrar como pessoas de muito boa índole. E começaram os ensaios, enfim.
O tecladista, Fabio Ribeiro em foto mais ou menos da época em que entrou nessa nova banda que formamos.
Continua...
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