Mostrando postagens com marcador Crônicas de Luiz Domingues.. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Crônicas de Luiz Domingues.. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 30 de agosto de 2022

Humanos Pitorescos - Por Luiz Domingues

Em um distante planeta chamado: “Glapaux”, um cientista se dedicava a estudar civilizações de outros mundos. Dada a sua condição civilizatória bem avançada, ter noção de que havia vida em outros planetas era um senso comum entre os seus habitantes e não tratado como uma crença irreal conforme se observa entre os habitantes de mundos mais atrasados, portanto, um pesquisador que se dedicava a investigar a vida em outros mundos, ia muito além da astrobiologia, pois a questão para os habitantes de Glapaux não era uma mera especulação sobre haver indícios de micro-organismos que comprovassem a possibilidade de haver vida em outros astros, mas sim um estudo sobre como se desenvolveram as diferentes civilizações.

Então, houve o caso de um pesquisador chamado, Etex, que iniciara a sua pesquisa sobre um planeta distante a abrigar uma civilização primitiva ainda, a avançar paulatinamente em termos de conquistas científicas, mas ainda observar um viés atrelado às práticas bárbaras, muito presas aos sentimentos mesquinhos arraigados no ego de cada indivíduo.

Brigavam por posses materiais, territoriais, ciúmes, controle, domínio etc. Tais animosidades eram alimentadas com raiva, fúria, ira, cólera para que se exercesse a força de uns contra os outros.

E por trás de tais demonstrações de força bruta, havia a arrogância, prepotência, desprezo, desdém, vontade de humilhar para se impor ante semelhantes.

Isso sem contar com a falta de escrúpulos para atingir objetivos escusos, artimanhas, sabotagens, manipulação e na arquitetura construída em torno de mentiras para iludir, ludibriar e explorar os seus pares.

Ao discorrer sobre tal civilização que estudava, os seus interlocutores não sentiam repulsa exatamente ao tomar contato com tantas características ruins observadas por habitantes de um planeta, isso por que a posição equidistante já havia sido alcançada há milênios em Glapaux e dessa forma, todo cidadão aceitava intelectualmente a ideia de haver povos em estágios mais primitivos de civilização, por conseguinte, a agirem com tantos traços negativos em sua sociedade tão caótica.

Mais do que isso, sabiam que tais Seres não haviam rompido ainda a percepção do individualismo exacerbado, portanto, tinham consigo a atrasada percepção de competitividade entre si como única forma de se prover a sobrevivência de cada Ser. Ou seja, estavam muito longe de entender o caminho da fraternidade e trabalho coletivo em prol do bem comum.

E para corroborar tal posição, os habitantes de Glapaux sabiam também que esse estágio primitivo existente em outros mundos, não era definitivo. Ainda que lentamente, os habitantes desse mundo primitivo evoluiriam, pois em Glapaux essa consciência de que a evolução é um fato constante, era algo muito claro.

Mas eis que Etex foi perguntado sobre qual civilização ele estava a estudar e ele respondeu aos seus interlocutores que estudava a sociedade desenvolvida pelos humanos do planeta Terra, ou terráqueos como costumavam também se autodenominar.

A falar mais sobre o que estava a observar em seus estudos, salientou que tinha observado que os avanços tecnológicos que os terráqueos haviam conquistado não se coadunavam com outros pontos de seu desenvolvimento. Portanto, o avanço da civilização dos terráqueos não era linear, mas a apontar para ótimas conquistas em alguns pontos, estagnação em outros e em certos casos, até regressão sob certos aspectos.  


A empolgar-se com a sua explicação, Etex disse que havia lido um livro escrito por um terráqueo no começo do século XXI e que tal livro espelhara bem como os humanos eram irregulares em seu desenvolvimento. –“Esse humano escreveu uma série de contos curtos, com caráter atemporal e que mostrou que determinados comportamentos dos seus semelhantes, não haviam mudado ao longo de séculos”, afirmou o pesquisador.

Foi quando um de seus interlocutores perguntou: -“professor Etex, sabemos que os terráqueos vão evoluir e abandonar o egoísmo, um dia, pois faz parte do processo da evolução, mas a pergunta é: por que o desenvolvimento deles não é linear? Eles desenvolvem-se em vários campos da tecnologia, constroem máquinas engenhosas, avançam na biologia, tem arte e pensadores a formular teses filosóficas com profundidade, mas ainda recorrem à matança como uma forma de intimidação entre eles mesmos, além de outras práticas abomináveis. Fazem da produção de alimentos um meio de impingir barganha, assim como a própria medicina avançou muito para os padrões deles, porém, eles simplesmente não tratam a moléstia de um semelhante se este não oferecer algum valor em troca. Como podem não associar tais avanços para o bem da coletividade?”

-“Bem, é exatamente esse o ponto do meu estudo. Eu quero entender por que a civilização terrestre se sofistica em termos científicos, mas os humanos simplesmente não associam tais conquistas ao bem-estar comum da coletividade. Em outros mundos a evolução não avançou assim de forma tão desigual entre a tecnologia e a percepção de coletividade”.

-“então o egoísmo é a explicação para tal fenômeno da Terra em específico?”, perguntou um interlocutor.

-“Sim, certamente, a batalha do Ser individual contra o seu ego que não o faz entender ser parte do todo, certamente o cega e provoca o atraso”.   

Foi quando um outro Ser perguntou ao Etex: -“e qual seria esse livro do século XXI do tempo terráqueo com o qual o senhor teve contato?”

-“Humanos Pitorescos” é o nome do livro escrito por esse humano”, respondeu Etex.

-“Ele dever ter sido um Ser amargurado por ter escrito histórias sobre os seus próprios semelhantes e a conter tantos aspectos negativos, não é?” Questionou um outro partícipe da conversa.

Etex, com a típica calma dos Seres de Glapaux, respondeu-lhe: -“Talvez sim, pois ele estava no mesmo nível dos seus semelhantes e se estava a perceber o egoísmo, como um mal da sua civilização, muito provavelmente sofria ao se deparar com a situação que enxergava ao seu redor e daí se motivou a escrever para denunciar tais disparates”.

Uma última pergunta, mestre Etex, disse um dos Seres ali presentes: -“Mas nesse livro, não há nenhuma história positiva sobre os humanos? Só trata das suas mesquinharias em linhas gerais?” 

Etex o mirou e respondeu com convicção: -“nem todos os contos expuseram apenas mazelas, mas há de se pontuar que mesmo nos contos mais pesados, a denunciar os aspectos negativos dos humanos, nas entrelinhas, sempre houve a sutil mensagem de esperança de que o autor acreditava na possibilidade do seu povo evoluir. Esse humano não estava liberto da mentalidade do egoísmo desenfreado, de seus semelhantes, portanto era rigorosamente igual a eles em todos os sentidos, mas talvez por ter sido um artista em sua existência, tenha tido um vislumbre dessa outra possibilidade e daí teve a motivação para escrever”.

Para encerrar de vez a discussão, mestre Etex, qual o seu veredicto sobre o estágio de evolução dos humanos do planeta Terra?”, inquiriu um jovem cidadão de Glapaux.

-“Humanos são pitorescos” na sua linha de desenvolvimento, mas chegarão em um ponto de equilíbrio, com toda a certeza”.

sábado, 13 de agosto de 2022

O Charlatão de Düsseldorf - Por Luiz Domingues

Uma família que morava em uma cidade grande do Brasil, se colocava de forma simpática no que dizia respeito às diversas práticas místicas que pudessem provocar algum tipo de benefício concreto para eles, ou seja, os seus membros não nutriam preconceitos e tampouco se sentiam engessados por paradigmas religiosos que os impedissem de experimentar terapias ou vivências alternativas, mesmo que não houvesse nenhuma comprovação de que tais atividades teriam de fato alguma eficácia em termos de algum benefício.

No entanto, tal postura aberta não era uma unanimidade no âmago da família e no caso, o patriarca não chegava ao ponto de proibir tais manifestações da parte de seus entes queridos, no entanto, deixava claro que não apreciava os contatos com essas práticas.

Assim, simpatias a usar velas, oferendas, queima de incensos, uso de cristais e outros ritos, eram comuns no ambiente familiar e o velho patriarca não se incomodava em demasia, embora todos os demais componentes da família soubessem que ele nutria sérias dúvidas sobre o resultado prático que reverteria para a família ao se usar tais artifícios.

Então, em uma noite de quarta-feira, um dos filhos desse senhor chegou acompanhado de um homem de meia-idade e logo se pôs a esclarecer para a sua mãe e demais irmãos, que o homem seria um “sensitivo” e que faria uma inspeção no ambiente para detectar fluídos negativos que supostamente estariam a atrapalhar os interesses da família e a seguir, promoveria um “trabalho” a fim de reverter o quadro.

No entanto, o filho sabia que o pai talvez não gostasse da ação feita sem a sua anuência prévia, por isso ele chegara apressado, no afã de que o tal místico fizesse o que precisava executar e partisse antes que o patriarca chegasse do trabalho e assim, sem deixar transparecer tal preocupação de sua parte, se pôs a manipular a situação, com o intuito de que o vidente encerrasse logo o seu ritual e partisse, antes que o seu pai chegasse em casa e flagrasse tal tipo de movimentação com um estranho em sua residência.

No entanto, tal predisposição veio por água abaixo quando o paranormal entrou na residência e a se mostrar muito saliente, antes mesmo de cumprimentar as pessoas ali presentes ou mesmo aguardar respeitosamente para ser apresentado pelo rapaz que o conduzira, ele fez um comentário a sugerir que postergaria a sua estada na casa, ao elogiar com muita ênfase o odor agradável que vinha da cozinha e assim, foi inevitável que a matriarca da família se antecipasse e o convidasse para o jantar.

O homem comemorou o convite com aquele vozeirão grave, e assim a deixar claro que dificilmente seria discreto e pior, ser rápido ali dentro para se evadir antes que o pai da família chegasse e assim ocorresse um clima constrangedor.

Bem, antes que o jantar fosse servido e diga-se de passagem, a família somente o serviria com a presença do pai, o filho que levara o sensitivo, passou a forçar a situação, para que ao menos o sujeito cumprisse a sua missão antes do jantar e com sorte, o pai chegasse sem perceber a motivação e assim ele tentaria disfarçar no jantar a apresentar o homem simplesmente como um amigo seu.

Então, ao tentar apressar o rapaz, ele inicialmente se frustrou, pois, o vidente ironizou a manifestação de pressa do seu interlocutor ao fazer uma piada sobre a ansiedade e a seguir pediu um “aperitivo” para aguçar o seu apetite.

Já arrependido por trazer o sensitivo para a sua casa sob tal circunstância periclitante, o rapaz foi rapidamente à cozinha e trouxe uma lata de cerveja para satisfazer o seu pedido, e o sujeito comemorou ao abri-la imediatamente e degustar o seu conteúdo.

Finalmente após ver o sujeito consumir mais da metade do conteúdo da lata, ele forçou para que o trabalho se iniciasse imediatamente e o rapaz o atendeu ao visitar todos os cômodos da residência, munido de um objeto ritualístico em mãos e passou a produzir resmungos enigmáticos a dar a entender que sentia as supostas vibrações de cada ambiente.

Chamava a atenção igualmente o fato de que ele tinha um forte sotaque germânico, ou seja, não era algo muito comum se achar um místico de origem alemã, mas tudo bem, isso em tese não importava.

Contudo, se tornou curioso ouvir as considerações místicas de sua parte com aquele sotaque, mas sobretudo pela dificuldade que todo cidadão alemão tem ao se expressar em línguas latinas que atribuem gênero para tudo, mesmo que não sejam seres vivos e assim a provocar equívocos no uso de pronomes. Dessa forma, ele a fazer caras & bocas, emitir estranhos ruídos para denotar estar em transe mediúnico, mas ao mesmo tempo afirmar que sentira -“um energia estranha no porta”, também soava engraçado e poderia neste caso desestabilizar a concentração do médium, acaso percebesse que estava a motivar risos e gracejos da parte da família.

Bem, infelizmente os esforços para acelerar tal processo se tornaram infrutíferos, na medida em que todos ouviram o típico som de uma chave a abrir a fechadura da porta principal e sim, o pai estava a chegar.

Quando o dono da casa abriu a porta e deu de cara com aquele homem exótico, arregalou os olhos, mas não deu tempo de dizer nada, pois o místico vociferou com extrema contundência: -“quem é o senhora?”

Estupefato pela cena, o patriarca reagiu com mais veemência ainda ao responder: “sou o dono da casa, rapaz, quem é você, pergunto eu!”

Foi quando um pequeno tumulto se instaurou, com os demais familiares a interpelar o pai para lhe pedir calma e tentar explicar quem seria aquele homem teutônico e o que fazia na residência.

Em meio ao tumulto generalizado a se parecer muito com uma cena de novela de TV, o sensitivo se aproveitou e se pôs a buscar o seu paletó e falou entre os dentes: -“o barra pesou!” 

E a seguir, saiu sem que a família percebesse a sua evasão do ambiente para assim configurar que muito possivelmente fosse um charlatão em potencial e que ao perceber o perigo que o rondava, decretou a sua retirada estratégica para evitar o pior.

sábado, 16 de julho de 2022

Civilização x Barbárie - Por Luiz Domingues

Em um país dominado por um regime fechado, autoritário e bastante hostil às questões culturais, um grupo de amigos se organizou para promover pequenos saraus literários, onde liam-se os textos e poesias que escreviam.

No entanto, ao viverem tempos difíceis, eles tinham medo da opressão do regime que odiava manifestações culturais e dessa forma, eles tomavam toda a precaução para tornar as suas reuniões seguras. E por conta dessa predisposição para se manter um padrão de segurança, eis que um deles sugeriu que os saraus ocorressem na sua casa e havia uma questão inusitada para que tal agendamento ocorresse.

Nesse contexto, por ironia do destino, esse rapaz que oferecera a sua residência para servir como base das reuniões promovidas pelos entusiastas da literatura, era filho de um funcionário de alto escalão desse governo horroroso, frontalmente contra a cultura. No entanto, segundo ele enfatizava sempre aos seus amigos, o seu pai não compactuava com os atos pautados pela barbárie que esse governo protagonizava e tal contraste chamava a atenção de todos, positivamente nesse caso, é claro.

E ao ir além, esse pai era um entusiasta das artes, igualmente, portanto, se posicionava como um verdadeiro antagonista da linha de ação do próprio governo pelo qual ele trabalhava. 

Essa estranha posição tomada por esse pai, ao mesmo tempo que causava admiração dos rapazes e orgulho para o seu filho, gerava dúvidas. Certa vez, um dos rapazes criou coragem e perguntou diretamente para esse senhor, por qual motivo uma pessoa que era intelectualizada, amava as artes e se mostrava a favor da evolução do padrão civilizatório, trabalhava para um governo que cultivava métodos acintosamente bárbaros, no sentido oposto?

Nesse instante, todos ficaram constrangidos e houve até quem temesse pelo pior, com o senhor a se mostrar ofendido e por conta disso, a demonstrar alguma reação violenta. 

Porém, o senhor não se alterou nem um milímetro em seu comportamento padrão e educadamente respondeu que “não concordava com certos exageros que esse governo perpetrava, mas achava que o endurecimento do regime era necessário, pois o povo não estava preparado para viver sob um regime livre e que mediante tal estratégia de ordem educativa, após um tempo de maturação, esse dia sem opressão e com fomento à cultura chegaria para a nação”.

Foi uma boa resposta diplomática, mas na verdade, ninguém ali se satisfez com tal desculpa que lhes pareceu esfarrapada. Mas tudo bem, apesar dos pesares, esse pai “liberal” estava sendo gentil ao extremo ao oferecer a sua residência para os rapazes realizarem os seus Saraus em segurança, inclusive ao se arriscar perante os seus pares no governo e mais do que isso, esse senhor gostava verdadeiramente de participar, pois apesar da sua contradição pessoal completa ao trabalhar para um governo cruel e despótico, ele de fato amava as artes e assim, tinha prazer de participar de tais reuniões como um ouvinte entusiasmado.

Em uma outra ocasião, quando os rapazes chegaram para mais uma noitada do sarau, eis que foram surpreendidos com a presença de um pequeno grupo de pessoas estranhas ali presentes. Vestidos com trajes de gala, eram cantores que faziam parte de um coral com cunho religioso. 

O dono da casa, esse pai acolhedor de um dos rapazes do Sarau estava muito eufórico com essa presença musical que ele considerava esfuziante e fez questão de apresentar o grupo de cantores aos rapazes. E a seguir, os vocalistas se puseram em ação ao cantar uma peça ufanista e bem piegas, típica do cancioneiro que embalava aquele regime, bem naquela predisposição de que “a cultura doravante vai ser assim ou não será nada”, como preconizara um certo publicitário que servira a um regime asqueroso do passado e certamente inspirador para essa gente.

Naturalmente que os rapazes se entreolharam, mas nada disseram, para não ferir os sentimentos do amigo e principalmente do pai dele, que a despeito de suas contradições inexplicáveis, se mostrava extremamente generoso para com eles.

Contudo, gestos assim reforçavam a questão da dubiedade, pois eles pensavam o óbvio em uníssono: como seria possível ser um entusiasta das artes e trabalhar conjuntamente e admirar aquele governo formado por trogloditas empenhados em promover o retrocesso?

Todavia, a mais grotesca situação estava por acontecer! Eis que em uma outra noite marcada para ser promovido o sarau, os rapazes chegaram à residência e ao passarem pela sala de estar, se espantaram ao deparar com as figuras de dois ministros de estado e um parlamentar, a conversarem com o pai de seu amigo.

Estes verdadeiros carrascos da civilização, olharam estupefatos para os rapazes, com aquele olhar de desconfiança de quem certamente os considerara como possíveis opositores do regime. E os rapazes por sua vez, sinalizaram com cumprimentos discretos e se evadiram rapidamente a alegar que iriam estudar em grupo, para disfarçar e certamente a cancelar o sarau naquela noite.   

Bem, se havia dúvida entre os rapazes sobre quem era o pai bondoso de seu amigo a julgar pelo convívio com eles nos saraus, em confronto como ele agia enquanto agente governamental, depois desse evento, eles decididamente ficaram ainda mais confusos.

segunda-feira, 4 de julho de 2022

Crônicas da Autobiografia - Golpe Baixo - Por Luiz Domingues

   Aconteceu bem antes da fundação do Boca do Céu, em 1971

Que a contracultura incomodava os ideólogos simpatizantes da beligerância e enquanto instrumento, algo a ser usado, por conseguinte, para se manter uma visão acre do mundo, isso é uma obviedade. Não apenas pelos aspectos libertários, múltiplos por natureza, entre os quais a se destacar o antagonismo que foi/é se colocar como pacifista em confronto a uma ideologia que pensa de forma diametralmente oposta, justamente por ter o pilar da guerra como algo necessário a justificar a sua visão desumana da civilização, ou seja, a se caracterizar como uma aberração por natureza.

Muito provavelmente os opositores do movimento hippie perceberam que usar da violência para desmantelar tal movimentação social de cunho libertário, geraria a antipatia imediata da opinião pública, no sentido de que jogar os cães raivosos contra os jovens cabeludos que falavam sobre “paz & amor” teria sido um “tiro no pé”, com o devido perdão pela ironia, com o efeito de se causar repulsa ante a truculência desmesurada contra quem propunha oferecer flores ao invés de bombas "Napalm". 

Portanto, ao mudarem a estratégia e assim passar a imputar-lhes a pecha de idiotas alienados e dominados pelos efeitos das drogas, tais estrategistas acharam uma espécie de “calcanhar de Aquiles” do movimento, e doravante como algo bem definido para ser explorado pelas hordas moralistas de plantão, no tocante ao aspecto lisérgico ligado de forma intrínseca à tal movimentação contracultural.

E da parte dos hippies, sobrou a fraqueza evidente de quem sonhou com a construção de um mundo melhor, pleno de fraternidade, porém, mediante a sua ingenuidade extrema ao se colocar como uma tribo apolítica e sem nenhuma intenção de sequer entender o funcionamento do jogo de interesse tradicional e sobretudo na questão da geopolítica que usa e abusa da força bruta para se impor. 

Nesses termos, por ter sido um movimento espontâneo, anárquico em tese, mas sem nenhuma intenção de promover a anarquia propriamente dita como pilar ideológico e político, uma imensa maioria de jovens que se deixaram levar pela ideia da liberdade, apenas se entregara à possibilidade do hedonismo, impactada pela condição de extrair um peso moral das costas, fruto de séculos de subserviência aos paradigmas gerados desde a Idade Média e alguns que remontavam à Antiguidade, carcomidos por crenças, superstições, culpa & medo, ou seja, a ideia de se libertar desses grilhões morais e por conseguinte a se colocarem abertos ao prazer total, os inebriou.

Em suma, o sexo livre, o uso desenfreado das bebidas alcoólicas e sobretudo das drogas com alto teor lisérgico, levou a maioria para um caminho aberto para a alienação e por conseguinte, a enfraquecer o movimento. 

Por outro lado, houve a exceção dos “Yippies” que foi uma facção hippie organizada no âmbito das universidades e que devidamente politizada, tentara levar adiante o ideal, com respaldo sociológico mais firme. Contudo, tal movimentação foi devidamente sufocada em sua iniciativa, dentro do ambiente universitário norte-americano, e mesmo assim, em seu auge fora algo insípido.

Em suma, a euforia Hippie nunca foi uma movimentação política, embora muitos dos ideais sonhados por esses jovens tenham proximidade com os anseios progressistas em torno da igualdade e fraternidade social, certamente.

Bem, diante desse quadro, eis que no ano de 1970, duas mortes trágicas ocorreram por uma questão de dias no mundo do Rock. Em 18 de setembro, Jimi Hendrix e em 4 de outubro, Janis Joplin. Ambos por conta de overdose motivada por drogas químicas usadas em excesso, se bem que a despeito do consumo contumaz desses psicotrópicos, uma delas não foi exatamente por conta disso no caso de Jimi Hendrix, cuja causa mortis foi o sufocamento por uma ação azarada que ele teve entre o momento de crise e o salvamento que não foi possível de ser efetuado a contento por paramédicos plantonistas.  

Passados alguns poucos meses, em 3 de julho de 1971 veio a notícia de que Jim Morrison havia sido encontrado morto em uma banheira de um apartamento em Paris, no qual ele estava a habitar, ou seja, foi a terceira morte próxima, sem deixar de mencionar a perda de Brian Jones também em um dia 3 de julho, mas de 1969, ou seja, foram quatro mortes de "Rock Stars" muito proeminentes, em um curto espaço de tempo e em decorrência do abuso de drogas (no caso de Brian, foi afogamento na sua piscina particular, no entanto, a teoria de que ele ali caiu por estar drogado tomou conta da opinião pública).

Esse foi o estopim para a “intelligentsia” que era a favor da cor cinza e muito incomodada com a explosão de cores proporcionada pela paleta psicodélica, entrar em ação para criar uma peça publicitária absolutamente soturna, com ar macabro e a tentar se comunicar com a juventude de então, que foi exibida à exaustão nas emissoras de TV da ocasião no afã de “provar” que os jovens estavam todos errados por se encantarem com a música, o Rock em pormenor e toda a cultura hippie que lhe amalgamava na época.

Para reforçar tal conceito, as fotos de Hendrix, Joplin e Morrison apareciam de forma macabra, envoltos em túmulos de um cemitério sob a névoa da calada da noite e delineadas com as datas de seus respectivos falecimentos, sob uma locução com tom de terror e com o texto a alertar os jovens de que o “Rock dos hippies” levava à morte.

Tal propaganda foi exibida em diversos horários, no entanto, estrategicamente reforçada durante a exibição dos episódios do seriado: “The Monkees”, na ocasião exibido em período vespertino.

Pois então, em todos os seus “breaks” comerciais, foram exibidos tais comunicados macabros por semanas, naturalmente para se atingir um público adolescente que gostava de assistir tal “sitcom” norte-americana baseada nas aventuras de um grupo de Rock em seus bastidores.

Tal seriado fora produzido entre 1966 e 1968, portanto, em 1971, já estava na terceira ou quarta reprise sistemática, no entanto era ainda muito apreciado e tinha tudo a ver, embora fosse uma sitcom de TV, com a movimentação em torno do Rock, mesmo por que, essa banda saiu da ficção e se jogou na cena artística como um grupo de Rock genuíno a cultivar uma carreira real etc. e tal.

Enfim, é inacreditável, mas eu ali no alto dos meus parcos onze anos de idade e já muito fã de muitos grupos de Rock e Soul, não perdia o seriado dos Monkees, que aliás, assistia desde 1968, e mesmo sendo criança, absolutamente ingênuo e sem nenhum aprofundamento sobre a movimentação política, geopolítica e uso da propaganda como arma de linchamento moral para enfraquecer opositores, no entanto, já percebia a má intenção vilipendiadora e odiava aquela propaganda macabra.

Bem, ao tentar destruir a reputação de três (ou quatro, inclua-se Brian Jones nesse rol), astros do Rock, a utilizar o falecimento desses artistas motivados por seus abusos pessoais, além de ter sido um ato imundo por natureza, em nada desabonou a obra e o legado artístico que eles deixaram. Neste caso, o tiro saiu pela culatra, bem feito para esses energúmenos.

Não recomendo tais abusos cometidos por substâncias lícitas ou ilícitas e certamente não faço uso de tais artifícios químicos e etílicos na minha vida pessoal, portanto, posso morrer por acidentes de toda espécie que a mobilidade nos transportes pode proporcionar, violência urbana decorrente de uma abordagem criminosa, ou qualquer doença que venha a debilitar-me, mas jamais por uma overdose ou degradação gerada pelo álcool, portanto, eu absorvi muito bem a arte deles, mas não tenho nada a ver com as suas escolhas pessoais no sentido de me influenciarem a tomar o mesmo caminho.

E sim, continuo a detestar o oportunismo com o qual usaram as mortes desses artistas para atingir os seus objetivos torpes, a distorcer toda a situação e tal como abutres, a se aproveitarem para disseminar a maledicência. 

Além disso, moralismo por moralismo, se morrer de overdose é algo nada recomendável, usar armas deliberadamente para impor a ideologia de seu interesse, é sem dúvida algo muito pior e isso é um fato concreto e não apenas uma mera opinião pessoal.

quarta-feira, 22 de junho de 2022

Sonho ou Realidade? - Por Luiz Domingues

Quando a consciência ainda não está formada, é praticamente impossível para o pequenino bebê distinguir a diferença das imagens geradas pela experiência onírica de um sonho, da realidade do seu próprio cotidiano que é igualmente difuso por uma questão natural e intrínseca.

Mas quem pode afirmar que não exista uma possibilidade, remota que seja, de haver um lampejo de percepção? Nesse aspecto, é certeza que a ciência trabalhe para buscar tal resposta, porém, enquanto não chega a uma conclusão definitiva, ficamos com o campo aberto para especular e supor que sim, pode ser possível.

Então, eis que a imagem surge na mente do pequeno. Para ele, não é diferente do que já está a se habituar a ver, com aquele humano caloroso que sempre lhe atende tão bem e do qual ele não entende a questão do parentesco, logicamente, mas por uma questão de meses, vai chegar nessa conclusão óbvia de que se trata da sua mãe.

Dessa forma, ao ver a imagem daquela pessoa, o instinto o faz se sentir seguro, pela associação mais primitiva de sobrevivência que o Ser humano pode experimentar ainda em um estágio no qual ele vive uma fase de plena confusão mental.

E sempre que aquele rosto enorme se aproxima a sorrir e a pronunciar sons que soam confortáveis para ele, a sensação é muito agradável a estimular os cinco sentidos de uma maneira completa. Ele gosta do contato físico, do calor que o corpo gigante proporciona, das cores, formas e odor daquele rosto enorme. 

E claro, sempre associa tal presença com coisas boas que advém da sua aproximação. Sempre que chega perto, a fome e a sede são sanadas, a dor decorrente das cólicas pode demorar um pouco, mas passa, o incômodo gerado pelos odores fétidos que o seu próprio corpo produz, são eliminados e odores bons surgem. E tudo isso é relacionado ao gigante humano que sorri, pronuncia palavras incompreensíveis e emite ruídos entoados, a cantar e o bebê não entende, mas intui ser agradável. 

Mas eis que um dia o bebê vê o Ser gigante de costas e quando se vira para ele, o seu rosto não existe. É muito confusa essa visão de um rosto que não possui feições, não tem olhos, nariz, boca, sobrancelhas, e a face é completamente uniforme, imutável, ou seja, logo aquela formação com a qual ele se acostumara desde os seus primeiros dias e com a qual se identificava tanto a lhe dar a sensação de prazer e segurança.

Logo a seguir, tudo volta ao normal. A mãe se aproxima, fala com ele, brinca, canta e o pega no colo. Limpa a sua sujeira, coloca roupas cheirosas e dá o alimento tão saboroso em sua boca. O pequeno nem se lembra que a vira sem rosto e isso se torna algo facilmente esquecível por ele que ainda nem distingue a noite do dia e por conseguinte, não percebe que as horas de sono passam e quando acorda a vida prossegue e vice-versa.

No entanto, mesmo não tendo esse conhecimento ainda, eis que alguns dias depois ele passa pela mesma situação. Aquela humana dedicada está perto dele, mas quando mostra a sua face, ela simplesmente não possui as feições faciais.

Seria um filme de ficção científica a mostrar uma espécie de humanoide de outro planeta que tem tal característica anatômica? Um filme de terror a denotar uma figura fantasmagórica? Nada disso, ele percebe ser a sua mãe, mas de uma forma inexplicável, ela parece assustadora e ele chora.

Ele então é acordado justamente por sua mãe que o conforta e desta feita, a normalidade se faz presente, com a feição normal da sua progenitora, intacta.

Alguns dias depois, e a mesma imagem perturbadora aparece e na verdade, essa sensação desagradável o acompanhará por algum tempo, até que no futuro ele saberá se tratar de um sonho.

Sim, foi algo que se tornou recorrente e só parou de acontecer quando ele já estava maior, com a fala e o raciocínio já formados, porém, dentro da mais completa imaturidade infantil ainda, ou seja,  o que o impediria de entender o motivo de ter tido tais sonhos desde a tenra infância.

Seria um disparo mental de pavor por um motivo desconhecido e a revelar não ter a mãe por perto em algum momento? Ele sabia se tratar dela, mesmo quando nem conseguia compreender, mas sentia isso claramente.

Como um bebê sem a mínima condição de estabelecer tal conexão poderia chegar à tal conclusão? Impossível a grosso modo, mas então, por que o bebê teria um sonho recorrente nesses termos?

Bem, tais respostas um dia teremos, confiemos em nossos pesquisadores. Por enquanto, fiquemos com essa reflexão sobre algo que todos passamos e que parece algo misterioso: nessa primeiríssima fase da vida, a realidade e o campo onírico são praticamente iguais ao pequeno Ser.