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terça-feira, 17 de março de 2015

Adeus, Fernando ! - Por Marcelino Rodriguez

A morte de Fernando Sabino chegou-me no mesmo dia em que recebia as
provas do meu oitavo livro, Bom Dia, Espanha!
 
Um dia em que estava particularmente reflexivo, sem saber em que
destino vai levar-me essa vida de escritor.
 
Ao saber de sua morte, senti algo parecido como quando estava num
hotel e soube, pela rádio destinada a tocar somente música, da morte
de João Cabral. 
A noticia deixou-me com sentimentos cruzados de tristeza e esperança.
 
"Morte, colar no pescoço da vida", como dizia Drummond que ele tanto citava.
 
A morte de Fernando, gloriosa porém, veio encontrá-lo com uma obra
vasta e um homem relativamente feliz - um belo e raro exemplar da
espécie humana, Fernando Sabino.
 
Figura de simpatia nos tempos aziagos de hoje.
 
Lembro-me frases soltas dele, nas entrevistas: 
" – Eu me considero, graças a Deus, um homem rico. De fato, na
infância tinha que dividir as bolachas.
 
" – O escritor só tem obrigação de escrever. O resto é com a pátria."
 
Era dono de um otimismo à mineira, sem exageros.
 
– "No fim tudo dá certo, senão não é o fim."
 
Fico pensando que atravessei duas décadas lendo e aprendendo com as
crônicas dele.
 
– "A verdade não é preta nem branca, é de outra cor que permeia as duas."
 
Os livros da coleção para gostar de ler... sempre a marca da prosa do Fernando. 
Amante da boa vida, realizou-se nela, olimpicamente.
 
Morreu velho sem parecer velho, dai´minha surpresa, porque jamais
dava-me conta da sua idade. 
Partiu discreto, dentro de casa, sem espanto, na véspera do que seria
seu último aniversário.
 
Véspera também do feriado do dia das crianças e da padroeira. Morreu
de véspera, elegantemente.
 
Talvez Fernando já estivesse a fim de encontrar seus outros amigos.
Fica dele a esperança de encontrar ainda ternura e encanto no elemento
humano da vida.
 
Na última entrevista que vi dele, divertidíssima, dizia:
 
– "Depois de uma certa idade, se um homem tiver um mínimo de
dignidade, tem que jogar fora tudo que os outros e a sociedade jogou
em cima dele e transformar-se novamente no menino que foi".
 
Para ele, tornar-se menino era um ponto de honra. 
TEXTO PUBLICADO NO LIVRO BOM DIA, ESPANHA !
  
Marcelino Rodriguez é colunista sazonal do Blog Luiz Domingues 2. 
Escritor de vasta e consagrada obra, aqui nos traz uma crônica emocionante, 
falando-nos da perda de Fernando Sabino. 
 
Tal crônica é um trecho de seu livro "Bom Dia, Espanha !"