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sábado, 31 de outubro de 2015

Do Fundo do Tempo - Por Marcelino Rodriguez

A voz e a figura de Taiguara atingem-me via correio eletrônico, parecendo vir de um passado remoto, entranhado, porém, nos ossos e sangue da minha afetividade !
 

A mensagem veio pelo seu fã-clube, criado e administrado por suas filhas.  
A tecnologia unindo, enfim, dois companheiros separados pelo tempo.
 

Lembro-me de, menino, emocionar-me sempre que ouvia "Hoje" ou "Universo do teu corpo".
 

Era um momento mágico. "Esse é o cara que me entende", pensava. 
Mais tarde, descobri nele elementos de humanidade e civismo que mais me surpreenderam, pela identificação da sensibilidade e das ideias!
 

Era um grande companheiro,Taiguara! 

Um homem raro!  

Ouvindo-o hoje sinto um pouco de tristeza, porque o futuro que ele sonhou não amanheceu no mundo, nem as crianças cantam livres sobre os muros, ensinado os homens a amar sem dores!
 

Sinto que perdemos, amigo! 

Olho para os homens todos pensando para si, dispersados, alienados, sombrios. 
E, no entanto, quero tocar a mão e alcançar-te.
 

Olhas-me, do computador, e quase sinto sua presença...
 

Não existe, amigo, o mundo que sonhamos. 

Esse mundo é só nosso, privilégio dos exilados! 

Que me dirias do deserto de aço de hoje? 

Do conglomerado de egoísmos? 
Da mediocridade quase absoluta?
 

Não sei, amigo, o que dizer-te...  
Agora vejo-te em tuas filhas bonitas, morenas, filhas do continente...
 

Ainda com residência na terra, amigo, nós os que ficamos, cabe-nos resgatar em tua memória as lições de civilidade, fraternidade e beleza!
 

Em mim és histórico como as rochas! 

23 de junho de 2004

Texto do livro "Bom Dia, Espanha !" (primeira edição esgotada). 



Marcelino Rodriguez é colunista sazonal do Blog Luiz Domingues 2. Escritor de vasta e consagrada obra, oferta-nos com mais uma crônica evocando a figura do saudoso compositor/cantor e pianista, Taiguara. 

Pode-se acrescentar o fato de Taiguara ter sido poeta também e não temos dúvida de que sua música poética nos faz muita falta nos dias atuais, onde a MPB chafurda pela invasão da subcultura e/ou da anticultura.

terça-feira, 17 de março de 2015

Adeus, Fernando ! - Por Marcelino Rodriguez

A morte de Fernando Sabino chegou-me no mesmo dia em que recebia as
provas do meu oitavo livro, Bom Dia, Espanha!
 
Um dia em que estava particularmente reflexivo, sem saber em que
destino vai levar-me essa vida de escritor.
 
Ao saber de sua morte, senti algo parecido como quando estava num
hotel e soube, pela rádio destinada a tocar somente música, da morte
de João Cabral. 
A noticia deixou-me com sentimentos cruzados de tristeza e esperança.
 
"Morte, colar no pescoço da vida", como dizia Drummond que ele tanto citava.
 
A morte de Fernando, gloriosa porém, veio encontrá-lo com uma obra
vasta e um homem relativamente feliz - um belo e raro exemplar da
espécie humana, Fernando Sabino.
 
Figura de simpatia nos tempos aziagos de hoje.
 
Lembro-me frases soltas dele, nas entrevistas: 
" – Eu me considero, graças a Deus, um homem rico. De fato, na
infância tinha que dividir as bolachas.
 
" – O escritor só tem obrigação de escrever. O resto é com a pátria."
 
Era dono de um otimismo à mineira, sem exageros.
 
– "No fim tudo dá certo, senão não é o fim."
 
Fico pensando que atravessei duas décadas lendo e aprendendo com as
crônicas dele.
 
– "A verdade não é preta nem branca, é de outra cor que permeia as duas."
 
Os livros da coleção para gostar de ler... sempre a marca da prosa do Fernando. 
Amante da boa vida, realizou-se nela, olimpicamente.
 
Morreu velho sem parecer velho, dai´minha surpresa, porque jamais
dava-me conta da sua idade. 
Partiu discreto, dentro de casa, sem espanto, na véspera do que seria
seu último aniversário.
 
Véspera também do feriado do dia das crianças e da padroeira. Morreu
de véspera, elegantemente.
 
Talvez Fernando já estivesse a fim de encontrar seus outros amigos.
Fica dele a esperança de encontrar ainda ternura e encanto no elemento
humano da vida.
 
Na última entrevista que vi dele, divertidíssima, dizia:
 
– "Depois de uma certa idade, se um homem tiver um mínimo de
dignidade, tem que jogar fora tudo que os outros e a sociedade jogou
em cima dele e transformar-se novamente no menino que foi".
 
Para ele, tornar-se menino era um ponto de honra. 
TEXTO PUBLICADO NO LIVRO BOM DIA, ESPANHA !
  
Marcelino Rodriguez é colunista sazonal do Blog Luiz Domingues 2. 
Escritor de vasta e consagrada obra, aqui nos traz uma crônica emocionante, 
falando-nos da perda de Fernando Sabino. 
 
Tal crônica é um trecho de seu livro "Bom Dia, Espanha !"  

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Carta à Amiga - Por Marcelino Rodriguez

Verdade, Tany, que ainda que o domingo estivesse nublado, ameaçando cair chuva sobre a minha solidão civil, eu gostaria de estar contigo talvez, falando coisas sobre a maneira como as gaivotas pousam de leve na superfície das ondas do mar...
 

Como andam, aliás, suas esperanças?  
Aqui eu tenho trabalhado com as duas mãos para manter-me, impávido, dispondo somente de um rádio relógio que conta meus dias, a cama para dormir e as vozes que chegam-me do deserto dos computadores, entre as quais a sua, amiga.
 

Te contei que Mariana Brazil mandou-me seu excelente livro "Entre Fronteiras", que fala do sofrimento e da luta de meninas latino-americanas no mundo da prostituição, da Itália? 

Ou que tem sido boa para mim a amizade do autor do blog cosmopolita? 
E que a viúva do Taiguara, escritora e índia, mandou-me um cheiro da mata ? 

Que fiquei alheio a política, porque acredito que sem educação nada é viável? 

Que dedicar-me ao espírito e a arte é toda crença que me resta, depois de Bagdá destruída?  
Sim, amiga. Te digo que sou grato pelos poemas de Neruda que vez ou outra descubro contigo...
 

Não sei como passa contigo a inspiração, mas te queria falar desde ontem, essas coisa borbulhando dentro de mim ! Meu quarto tem sido todo meu universo solitário dentro da literatura.
 

A sorte são que as asas, o sangue e a mitologia, que te digo pois que Deus misturou minha vida com a dos anjos.
 

No mais, espero em breve tomar um café expresso numa livraria qualquer contigo para falarmos, entre outras coisas, desses nossos tempos virtuais. 



Marcelino Rodriguez é colunista sazonal do Blog Luiz Domingues 2.
Escritor de vasta e consagrada obra, aqui nos traz uma crônica curta, leve e saborosa, extraída de seu livro, "Bom Dia Espanha".