Mostrando postagens com marcador Pedra Capítulo 147. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Pedra Capítulo 147. Mostrar todas as postagens

sábado, 16 de janeiro de 2016

Autobiografia na Música - Pedra - Capítulo 147 - Por Luiz Domingues

Fechado o repertório e bem ensaiados nessa questão dos arranjos semi acústicos especiais para a ocasião, só aguardamos as coordenadas do Sérgio Martins a respeito da produção do seu programa, Veja Música. 

Seria realizado em um estúdio bem montado no bairro da Vila Madalena, zona oeste de São Paulo e na minha avaliação, mediante informações vindas da parte de fontes minhas, tal estúdio teria como um dos seus proprietários, o tecladista, Constant Papineanu, que fora componente do ótimo "O Peso", banda brasileira seminal dos anos setenta.

Não recordo-me com exatidão da data, mas tenho certeza que ocorreu na primeira quinzena de dezembro de 2009. Uma van disponibilizada pela produção veio buscar-nos no estúdio Overdrive, o nosso QG, o que poupou-nos da penosa missão de irmos com carros particulares e nos desgastarmos com questões pueris como encontrarmos estacionamentos nas imediações, por exemplo. 

O estúdio se mostrou amplo, com uma técnica à moda antiga dos estúdios de gravação, com o seu maquinário gigante, inúmeros paramétricos e uma mesa daquelas onde bastava uma rápida olhada e imediatamente vinha à mente um valor a demarcar milhares de dólares. 

A produção da revista Veja alugava tal estúdio para a filmagem, com um suporte de áudio excelente para o artista apresentar-se bem e também terceirizava uma equipe de filmagem. 

Quando chegamos, fomos informados que outros artistas estavam filmar a sua participação e demoraria um pouco para chegar a nossa vez. A dinâmica ali foi gravar dois programas completos, a otimizar a utilização do estúdio e equipe de filmagem.

E os artistas que estavam a filmar naquele instante foram: Zezé Di Camargo & Luciano, a dupla sertaneja mega mainstream. 

A seu equipe de apoio se mostrara enorme. A tal dupla haviam dado-se ao luxo de usar um PA próprio, para prover a monitoração, idêntica a que estavam acostumados a ter em seus shows, com muitos roadies a trabalharem e também o seu técnico particular. 

Não critico, pelo contrário, apesar de ser exagerado (bem exagerado, por sinal), pois o equipamento do estúdio era de primeira qualidade, eu mesmo, se estivesse no patamar de condição deles, com dinheiro e status mainstream, faria o mesmo, em prol da qualidade máxima do meu áudio.

E houveram os maneirismos típicos de artistas que habitam o mainstream, notadamente nesse universo da música popular-sertaneja, pois um verdadeiro séquito de funcionárias responsáveis pela imagem da dupla, estavam ali a trabalharem nesse sentido.

Eles montaram uma sala de maquiagem e cabeleireiro, além de uma verdadeira "lavanderia/tinturaria", em que duas mulheres responsáveis pelo figurino da dupla trabalhavam a todo vapor, a passarem os figurinos deles e a organizá-los em araras, ao parecer uma produção de desfile de modas. 

O desafio de Sérgio Martins à dupla, foi interessante. Acusados de serem artistas popularescos a se aproveitarem da inocência da música de raiz caipira, caso da maioria dessas duplas que dominam a difusão cultural mainstream há anos no Brasil, Martins convidou-os a falarem sobre a verdadeira música caipira e não a pasmaceira popularesca que a maioria das duplas professava em suas carreiras e mais que isso, a cantarem os clássicos desse universo em arranjos absolutamente acústicos e condizentes com as suas tradições brejeiras. 

O Rodrigo, que entre nós quatro, sempre foi o que mais interessava-se em música de raiz, foi assistir a performance da dupla, na técnica e voltou a nos dizer que o som estava super "redondo", como fala-se no jargão dos músicos, a denotar estar com qualidade.

Terminada a filmagem da performance musical da dupla e também o seu bloco de entrevista com Martins, aguardamos a lenta desmontagem do equipamento extra que eles haviam levado consigo. 

Confraternizamo-nos com os músicos da sua banda de apoio, todos gentis e sem estrelismos, que bom. Ficamos a a observar o trabalho da equipe de roadies a transportarem os "cases" para o caminhão da dupla.

Perto de nós, pobre banda de Rock do mundo underground, aquela equipe da dupla parecia algo monstruoso a mostrar-nos a disparidade total que separava-nos de forma abissal. 

Foi um bom "raio x" do que é ser artista no Brasil, mas não coadunado com a expectativa popular, todavia ao ir além, a mostrar claramente como no Brasil, ao contrário dos Estados Unidos, é impossível ter a sua dignidade respeitada fora do mainstream, portanto, por estarmos no "Veja Música" foi uma rara oportunidade pela qual não estávamos acostumados, muito diferente da dupla em questão que habitava (habita) o espaço de difusão de massa, há décadas. 

Nada contra tais artistas, mas apenas a pensar como o Brasil é cruel nesse sentido, pois monopólio esmagador é um horror. Não acho que o Pedra poderia ser mega popular como uma dupla sertaneja, ao se levar em conta o nível educacional e cultural do povo brasileiro, mas deveria haver um espaço mínimo, onde artistas "outsiders" ao gosto popular pudessem atingir o seu nicho e possuir ao menos, uma difusão razoável que fosse, a gerar a possibilidade de subsistência através de um circuito mediano, mas com solidez sustentável.

Ajeitamo-nos com a nossa modesta equipe de apoio e ao usarmos o equipamento do estúdio, sem nenhum problema, fizemos um bom soundcheck e sem direito a pausa, por que com o sinal verde dos técnicos, a equipe de filmagem foi orientada a entrar em ação.

Tocar uma canção amena como "Meu Mundo é Seu" nessa circunstância, veio a calhar, pois já tratava-se de uma canção com forte apelo à MPB e praticamente acústica em sua concepção final no nosso disco. 

Com o Rodrigo a conduzi-la com um violão tradicional, com cordas de nylon, a sua base soava quase como uma Bossa Nova. O baixo e a bateria ao estilo comedido, e por isso, ao não se parecer nem de longe com uma cozinha de banda de Rock, voluptuosa como eu e Ivan formávamos normalmente e com o Xando a cumprir praticamente o seu arranjo de guitarra, delicado por natureza na gravação original e agora mediante um violão eletrificado, tal canção soou bastante leve, como queríamos para a apresentação. 

Foi no nosso imaginário uma maneira também de mostrarmo-nos à um público imensamente maior do que o que normalmente conhecia-nos e acompanhava de uma forma despojada de preconceitos para quem tem visão deturpada do Rock, e espera uma outra coisa, quando dizemos sermos "Rockers". 

Portanto, foi uma forma de se angariar simpatia e até surpresa para pessoas que acham que "Rockeiro" é um cabeludo retardado, que age como um adolescente defasado e expressa-se a usar um vocabulário medíocre, fora a pobreza do "malocchio", um paradigma dos mais infelizes, sem dúvida alguma.

Tocamos: "Filme de Terror" e mesmo sob um arranjo bem semelhante ao que fazíamos de maneira elétrica, por ter esse sabor semi-acústico, esta ganhou uma natural aura "Country Music". 

Não que fosse a nossa intenção e esse estilo não fazia parte do espectro de influências básicas da nossa banda, mas os solos e dedilhados de contra-solos que os nossos guitarristas executaram, naturalmente trouxeram esse sabor à tal execução/ performance. 

Foi uma aposta boa na menção a um artista maldito da MPB setentista, e possivelmente repercutiria bem para a imagem da banda, perante um imenso público novo que conhecer-nos-ia através desse programa.

"Projeções" soou muito bem também, justamente por ter uma forte identificação com a música Folk, a emitir sinais de influências múltiplas dentro desse universo que é amplo por natureza, já que o conceito "folk", subentende raiz folclórica e isso, a se falar como musicólogo que eu não sou, mas tenho uma pálida noção, abre campo para várias interpretações sobre de onde vem as influências, etnicamente a se falar. 

Portanto, fora toda essa questão teórica, na prática, o que importara-nos ali, foi a qualidade da canção, seu arranjo, interpretação e a letra espiritualizada escrita pelo Rodrigo, que possibilitava-nos mostrarmos ao grande público, uma outra nuance nossa, a denotar ecletismo artístico de nossa parte.

E finalmente, por sugestão de Martins, tocamos uma releitura que  o surpreendeu, mas que na hora, ao tocarmos pela primeira vez, não tivemos nenhuma noção de como repercutiria. 

Fizemos um arranjo que privilegiou o uso do slide pelo Xando, ao dar à canção uma feição diferente de seu arranjo natural da parte do Guilherme Arantes, com o piano na condução básica, e a eletricidade da banda de apoio. 

Chegamos a cogitar fazer uma versão semelhante à original e o Rodrigo tocaria piano sem problemas, mas prevaleceu a ideia de a executarmos com dois violões.

Ficamos contentes com a performance e o resultado da captura ficou excelente, quando o conferirmos rapidamente na técnica, posteriormente. 

Na hora da entrevista, eu vi que Xando e Rodrigo posicionaram-se para conversar com Martins e ingenuamente eu pensei que eu e Ivan gravaríamos um outro bloco em separado, para conversarmos em duplas, a visar não perder o foco da entrevista e não tumultuar. 

Mas, ao término da filmagem do bloco com Xando e Rodrigo, percebemos que não haveria tal intenção da parte de Martins e de sua produção, portanto, sem problemas, na edição do programa apenas Xando e Rodrigo representar-nos-iam. Tudo bem, o recado seria dado com qualidade. 

Informaram-nos que a mixagem do áudio da performance ao vivo da banda ficaria pronta em uma semana, mas a edição do programa demoraria mais. Segundo Martins, com festas de fim de ano, a tendência foi que o programa fosse lançado apenas no início de 2010.

Estávamos muito felizes pela oportunidade e o nosso agradecimento ao Martins teve o peso da constatação que a sua lisura profissional como jornalista isentara-o totalmente de qualquer especulação de terceiros mal-intencionados, a acusá-lo maliciosamente como um protecionista, por escalar-nos para o programa, por ele ser nosso amigo. 

Já o conhecíamos bem nessa altura e se convidou-nos, fora pela sua percepção profissional ao enxergar em nossa banda e no trabalho em si, qualidade. Isso animara-nos ainda mais, pois estarmos ali em um veículo de imprensa mainstream não foi uma oportunidade qualquer, mas praticamente uma deferência. 

Começamos o ano de 2009 com um forte indício de que a Revista Veja dar-nos-ia um espaço sem precedentes na história da banda, mas que revelou-se em frustração, por motivos alheios à nossa vontade e do Martins, também. Agora, estávamos a encerrar o ano de 2009, com uma outra grande oportunidade no mesmo veículo e estávamos animados com tal perspectiva que fez com que o final de 2009 e início de 2010, tornasse-se alvissareiro para o Pedra.

Continua...