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quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Autobiografia na Música - Sala de Aulas - Capítulo 10 - Por Luiz Domingues



O primeiro semestre de 1988, foi marcado pelo aumento e consolidação de meu quadro de alunos, e conturbação na minha banda, que teve obrigatoriamente por reformular-se às pressas. Da banda, falo no seu respectivo capítulo, logicamente. Em relação às aulas, ao mesmo tempo que aumentara o meu quadro, eu também cansara-me muito, pois nessa época eu morava no bairro do Tatuapé, zona leste, e a residência do Beto, localizava-se no Jardim Bonfiglioli, no extremo oeste da cidade. Portanto, eu usava o metrô até o centro, e um ônibus que percorria entre quarenta e cinco e sessenta minutos de trajeto, posteriormente. E poucos alunos moravam naquele bairro ou redondezas da casa do Beto. Lembro-me do Glauco Teixeira, e do Marcão Martines, que era do Jardim Peri Peri, um bairro vizinho. A maioria vinha de bairros longínquos dali. Por exemplo havia um rapaz cujo nome esqueci-me completamente, e que vinha de uma cidade do interior !

Para compensar o seu sacrifício, fazia aula dupla e quinzenal. Ele era da cidade de Piracaia, perto de Atibaia e Bragança Paulista. Pois ele deslocava-se por cerca de cem km, ao utilizar ônibus; descia na Rodoviária Tietê, tomava metrô até a praça da Sé, trocava de linha e rumava, ainda de Metrô, até a praça da República, e daí tomava o ônibus : Jardim Bonfiglioli.

Para estar ali às 15:00 h, devia sair de sua casa às 10:00 h. da manhã, eu imagino. Mas não foi o único exemplo de força de vontade extrema. Mais para frente, contarei o caso de um garoto que morava em uma chácara afastada do perímetro urbano de Embu das Artes, uma cidade que faz parte da grande São Paulo, mas é longe. E ainda no primeiro semestre, a criação do hilário "Indoor Games". Minhas aulas não foram apenas para ensinar a tocar baixo, mas também para divertir-se com esportes, digamos... inusitados !

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sábado, 21 de setembro de 2013

Autobiografia na Música - Sala de Aulas - Capítulo 6 - Por Luiz Domingues

Outra motivação que criei logo no começo das aulas em 1987, nessa fase em que utilizei as dependências da residência do Beto Cruz, foi a de trocar vários posters de bandas de Heavy-Metal e Hard-Rock oitentistas, com eles, alunos, por LP's de artistas sessenta / setentistas, que eu apreciava.
Fora uma boa troca, pois eram muitos posters, e em sua maioria de bandas oitentistas que eu não gostava nem um pouco, oriundos de muitas revistas que eu comprara por conter matérias com a minha banda, A Chave do Sol e também a outra banda formada de sua dissidência, A Chave / The Key. E a minha primeira safra de alunos, pelo contrário, gostava dessa onda em torno do Heavy-Metal e Hard-Rock oitentistas. 

Nessa primeira fase, lembro-me mais detalhadamente de um aluno que apareceu mais ou menos em agosto de 1987, chamado, Roberto Garcia Morrone, pois tornou-se amigo, e posteriormente acompanhou toda a trajetória do Sidharta e da Patrulha do Espaço, até a fase do lançamento do CD Chronophagia, em 2000. 
Lembro-me também de Marcelinho "Carioca" Dias (nada a ver com o jogador). Ele tinha esse apelido por ter nascido em Volta Redonda. Mas nem o apelido tinha fundamento, pois se era do interior do estado do Rio, deveria ser Marcelinho "Fluminense", enfim... gente boníssima e muito esforçado, pois morava em São Bernardo do Campo, região do ABC, e para chegar ao Jardim Bonfiglioli, usava três ônibus. Na verdade, seis, ao contar-se a sua volta para a casa. Ele tinha uma banda, que posteriormente chegou a abrir um show d'A Chave em 1989, e ao mudar de nome para "Aura", gravou uma fita demo em 1990, sob minha produção (passagem já devidamente escrita no capítulo : "Trabalhos Avulsos", quando falei do trabalho que fiz com o "Aura").  
Lembro-me de uma vez, em 1988, quando no meio da aula surgiu uma conversa sobre um documentário de um famoso médium espírita, e um tanto quanto afeminado, e com isso a despertar as mais variadas piadas. Enfim, a aula teve de encerrar-se, tamanha algazarra que isso acarretou. Foi uma sessão de gargalhadas contagiantes e intermináveis, ao ponto do Beto descer do andar superior da casa, para saber o que estava a acontecer, e pedir silêncio, pois estávamos a atrapalhar a sua aula de guitarra.

Outro aluno que lembro-me bem, foi o César Cardoso. Sobrinho do cantor, Wanderley Cardoso. Outro sujeito muito gentil e que embrenhou-se posteriormente no mundo da TV. Já em 1990, estaria como estagiário na MTV. Depois acompanhou Serginho Groisman no "Programa Livre", do SBT, e já faz anos, está na Rede Globo, a trabalhar na produção de programas importantes como o Fantástico, por exemplo.
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Autobiografia na Música - Sala de Aulas - Capítulo 5 - Por Luiz Domingues

O ambiente era Rock'n Roll, é lógico, pois a residência do Beto era decorada com posters com bandas sessenta / setentistas, principalmente, pelas paredes, além de ouvir-se boa música, o dia inteiro, oriunda da pick up de sua vitrola. Mas na hora das aulas, não ligava-se o som, obviamente.
Claro que eu recomendava artistas e discos, mas isso tornou-se muito mais forte no período pós-1992, quando surgiu a safra com alunos Neo-Hippies, em minha sala de aulas, e por conseguinte, estabeleceu-se uma sinergia maior entre o que eu tinha como base artística, e os anseios dos garotos, visto que no início, a maioria apreciava Heavy-Metal e Hard-Rock oitentista.
Realmente minhas aulas continham pouca teoria e muita prática. O aluno sofria durante uma hora na cadeira de aluno, pois eu ficava de olho, como um sargento exigente... mas havia a descontração, a conversa amiga, logicamente para quebrar qualquer sentido autoritário. Um aluno tornava-se amigo do outro, geralmente. Grandes turmas formaram-se na minha sala de aulas, e isso ocorreu durante todo o período em que ministrei aulas, desde o começo. Digo que, até que no período em que transferi a sala de aulas para a minha residência, aumentou muito esse fenômeno.
Tornou-se comum o aluno da aula das 16:00 horas (por exemplo), chegar às 14:00 horas para conversar com seus amigos das 14:00 e 15:00 horas e todos permanecerem até às 20:00 horas. Bandas foram formadas; times de futebol foram organizados, e até namoro saiu uma vez (ocorreria em 1990).
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Autobiografia na Música - Sala de Aulas - Capítulo 4 - Por Luiz Domingues



Logo começou a aparecer cartas na caixa postal da banda. O efeito da reportagem onde mencionaram as nossas aulas foi intenso. Tanto, que nem preocupamo-nos em produzir outros meios de propaganda, por um bom tempo. 

Passado o choque inicial da primeira aula, comecei a soltar-me mais, ao definir parâmetros, metodologia, e também ao aprender algo muito importante: o caráter informal que nortearia as aulas, cada vez mais, ao torná-las, leves, descontraídas. Além de tornar o ambiente da aula mais agradável para todos, aprendi na base da prática, que isso teria um efeito pedagógico importante.
Isso por que os alunos, inconscientemente, eram treinados na coordenação motora. Enquanto eram distraídos e falavam sobre assuntos os mais diversos, que não tinham nada a ver com o exercício que eu passava-lhes, aprendiam a tocar com independência, desenvoltura, e sem precisar prestar atenção no instrumento. Isso ocorreu meramente ao acaso, pois pelo bem da verdade, eu não fui professor, eu "estive" professor...

Nesse período, estabeleci uma rotina que perdurou até a minha última aula em 1999 : meu período ia de aulas perdurava de terça a sábado. No início de agosto, notei que o sábado seria naturalmente o dia mais concorrido. Foi tradicionalmente preenchido por alunos que trabalhavam e estudavam nos dias úteis, e os dias de semana, por alunos mais jovens que só estudavam, basicamente. Já em agosto de 1987, eu havia instalado o meu ambiente de aulas, definitivamente na casa do vocalista, Beto Cruz, no bairro Jardim Bonfiglioli, zona oeste de São Paulo. Fora mais conveniente, pois ali foi a sede d'A Chave do Sol em seus últimos momentos e assim, todo o equipamento ficava ali. 

Em agosto, eu possuía entre cinco e sete alunos regulares e o Beto, pelo menos, doze. Isso era natural, pois existem tradicionalmente muito mais alunos interessados em aprender guitarra, do que baixo ou bateria. E ele devia ter no início, mais uns quatro ou cinco alunos de canto, para aumentar a sua carga horária. Eu ministrava as minhas aulas na ampla sala de estar, onde ensaiávamos, e o Beto, em um quarto isolado.

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sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Autobiografia na Música - Sala de Aulas - Capítulo 3 - Por Luiz Domingues

Realmente... a filtragem era necessária, mas sem maiores rigores. Mesmo por que, não havia meios para filtrarmos ainda mais. Foi simples : se demonstrasse interesse na carta, ao mencionar que queria tocar, ou que já possuía uma banda, mostrava-se o suficiente para nós. Tive uma sensação muito estranha na primeira aula. Isso por que em 1983, eu havia tido uma experiência como professor, mas de uma forma diletante. Eu ministrara algumas aulas de teoria musical para um guitarrista de uma banda, que gravitava na órbita d'A Chave do Sol (Archibald's Band, e que posteriormente mudou o seu nome para : "Fênix"), um rapaz chamado : Iran Bressan. Foram poucas e gratuitas. Mas nesse outro momento, seria diferente, pois estava a cobrar, e assim adquiri a responsabilidade em passar informações com muito maior conteúdo e responsabilizar-me pelo aprendizado dos alunos.

Posto isso, digo que a primeira aula foi muito estranha, pois havia absorvido a realidade de que estava a assumir-me como um professor, e foi algo inusitado na minha trajetória musical. Para efeito de informações deste relato, devo alertar o leitor, que infelizmente, perdi o meu caderno com anotações sobre as aulas. Da maioria dos alunos, eu simplesmente esqueci seus nomes e datas precisas de seu início e término de aulas comigo.
Peço desculpas antecipadas à todos que não mencionarei nominalmente neste relato, por essa falha. Citarei alguns que foram mais marcantes, mediante histórias engraçadas  e / ou inusitadas, mas ficarei a dever o nome da maioria. E em alguns casos, citarei apenas nome; ou sobrenome ou ainda, talvez só um apelido, fruto dessa perda lastimável de meu caderno, que muita falta faz agora que trato deste capítulo da minha sala de aulas. Lembro-me que as primeiras aulas em julho de 1987, foram ministradas no escritório do Zé Luiz Dinola, em Pinheiros, onde ele também ministrava as suas aulas de bateria.
A fachada do Edifício Dinola, pertencente à família do José Luiz. Na frente, a loja de produtos finos de cerâmica e porcelana, da irmã dele, Beth Dinola. Em uma das salas, ficava o escritório do José Luiz Dinola.


Mas logo em agosto, mudei-me para a casa do Beto Cruz, para tornar assim, tal endereço, a minha a sala de aulas, dali, até meados de 1989.


Continua...

Autobiografia na Música - Sala de Aulas - Capítulo 2 - Por Luiz Domingues

Com o tempo, criei exercícios, e uma sequência de músicas que aumentava o grau de dificuldade, à medida que os garotos avançavam. Além das lições de música, tornei-me também, conselheiro; psicólogo prático; conselheiro matrimonial; amigo, e em alguns casos, amigo de alguns pais.

No início, nesse período entre 1987 e 1990, principalmente, 99 % dos alunos tinham orientação em termos de Heavy Metal ou Hard Rock oitentista.
Só a partir de 1992, foi aparecer uma nova safra, com garotos muito interessados em Rock 1960 / 1970, principalmente, e claro que foi um alívio em meu caso, pois essa é a minha predileção natural. Ministrei aulas na base da intuição, mesmo por que, cada garoto era um caso diferente, pois nem todos estavam na estaca zero do aprendizado.

Logo de início, aprendi que na primeira aula precisava avaliar o aluno, para ver em que estágio ele encontrava-se. Isso tornou-se uma praxe que usei por doze anos. Os primeiros que apareceram em 1987, mostravam-se mais experientes, não eram novos no aprendizado. Então, já parti de uma etapa mais avançada. 

E antes de prosseguir, preciso recuar um pouco no tempo para dizer como anunciei pela primeira vez que ministraria aulas. Foi através de uma matéria na revista, "Metal" (edição n° 37, de 1987), onde o jornalista, Sérgio Martorelli, publicou as últimas notícias sobre a nossa banda, onde disse que eu (Luiz Domingues); Beto, e Zé Luiz Dinola, estávamos a ministrar aulas.
Como maneira prosaica para estabelecer-se contato, saiu publicada a caixa postal da banda. Dessa forma arcaica, ficávamos a esperar pelas cartas de interessados, e só aí ligávamos para eles. Se fosse hoje em dia, com internet disponível e baseado na fama que a banda tinha, arrumaríamos dúzias de alunos, mesmo por que, mesmo assim, na base do contato paleolítico que tínhamos, muitos surgiram, interessados nos três "professores". Daí o fato de filtrarmos primeiro os interessados, antes de marcar aula, e fornecer-lhes o endereço. Muita gente só queria conhecer-nos, pedir discos etc.
Agora, como triagem, não havia requintes maiores. Líamos as cartas dos interessados e os que demonstravam realmente interesse em aulas, eram contactados por telefone, ou mesmo por resposta via carta. Tempos paleozoicos...

 Continua...

Autobiografia na Música - Sala de Aulas - Capítulo 1 - Por Luiz Domingues




Uma etapa muito diferente na minha trajetória, iniciou-se no segundo semestre de 1987. Sendo assim, minha atividade como professor, aconteceu paralelamente ao fim das minhas atividades com "A Chave do Sol"; atravessou o limbo em que fiquei entre 1989 e 1991; passou pelo "Pitbulls on Crack" (onde teve seu apogeu com a formação de meu exército de alunos "Neo-Hippies"); viu a formação do "Sidharta", e encerrou-se, logo que eu ingressei na "Patrulha do Espaço". Em resumo, ministrei aulas de julho de 1987, a abril de 1999. 
Com 12 anos de aulas, acumulei muitas histórias, e procurarei lembrar delas, neste capítulo. Comecei por necessidade, pois "A Chave do Sol" estava sob um período muito difícil na metade de 1987, e nessa perspectiva sombria, precisei criar uma fonte de renda alternativa. 



No início, comecei a ministrar aulas no velho escritório onde funcionou por anos o fã-clube d'A Chave do Sol, na Rua dos Pinheiros, no bairro de mesmo nome, na zona oeste de São Paulo.
Mas isso durou pouco, pois o espaço estava compartilhado gentilmente peço seu proprietário, Zé Luiz Dinola, onde ele também ministrava suas aulas de bateria, mas por ser pequeno em espaço físico, não comportava outra agenda, no caso, a minha. Fiquei ali por um mês, apenas, e minha primeira aula foi para um rapaz chamado, Zé Roberto, que demonstrava ter um nível avançado, e eu não tinha muito o que ensinar-lhe, portanto. Esse rapaz ficou nas minhas aulas por dois meses aproximadamente, apenas. Tive que buscar outro espaço, e daí, o mais lógico foi ter aceito o convite do vocalista d'A Chave do Sol, Beto Cruz, que também estava por iniciar atividade como professor, ao ministrar aulas de guitarra e vocalização, para eu poder também ministrar as minhas aulas de baixo em sua residência, visto que os ensaios da banda também haviam sido transferidos para tal local, e meu amplificador ficava ali alojado. Ele morava no bairro Jardim Bonfiglioli, na zona sudoeste de São Paulo. Para quem não conhece São Paulo, eu situo o bairro como vizinho do bairro do Butantã, perto do Instituto do mesmo nome, e do campus principal da USP, a Universidade de São Paulo. Era conveniente assim, pois todo o equipamento da banda estava lá, visto que estávamos a ensaiar ali, desde o início de 1987. 

Como eu não tinha nenhuma formação teórica mais avantajada, além do mínimo necessário, passei a desenvolver um método próprio, baseado em minha formação de Rock  das décadas de 19 60 e 1970. Meu método, forjado de uma forma natural, foi 90 % baseado no desenvolvimento da percepção do aluno, e com duas características que são minhas, naturalmente: a paciência, e o incentivo a cada progresso, por mínimo que fosse. Talvez por isso, mesmo por ser um professor despreparado, teoricamente, eu acabei por apresentar tal longevidade como educador informal, pois sempre respeitei o limite de cada um, sem cobranças ou constrangimentos, como muitos professores costumam exercer em sua didática, mais baseada em desafios.
 Continua...