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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Crônicas da Autobiografia - A Minha Ausência no Baile de Formatura - Por Luiz Domingues

                   Aconteceu no começo do Boca do Céu, em 1976...

No segundo semestre de 1976, eu encontrava-me enlouquecido com a perspectiva sobre estar enfim a fazer parte de uma banda de Rock verdadeira, com pelo menos um músico que sabia tocar o básico com desenvoltura (Osvaldo Vicino), um talento nato e bruto com sinais de genialidade inequívocos (Laert “Sarrumor” Julio), e os demais (eu mesmo, Luiz Domingues), e o caçula da banda (Fran Sérpico), como absolutos iniciantes no estudo musical, mas a nos esforçarmos para vencer a barreira inicial do aprendizado (Wilton Rentero só ingressaria na formação da nossa banda, no início de 1977). 
 
No meu caso em específico a empolgação foi além, visto que a minha própria percepção de avanço, tanto no instrumento em específico, quanto nos rudimentos da teoria musical, aliara-se à euforia por estar inserido na banda e também por toda a ambientação em torno dos ideais aquarianos, quando finalmente passei a sentir-me não apenas como um fervoroso entusiasta da movimentação contracultural como um todo, mas sim, como um personagem atuante dentro do movimento e nesse caso, pouco importava-me a minha então parca condição como reles principiante e tampouco o modestíssimo estágio pelo qual a nossa banda encontrava-se na ocasião. 
 
Então, inebriado por tal “momentum” auspicioso, o choque com as imposições sociais, tanto no âmbito familiar, quanto no aspecto da vida escolar em curso, ganhou contornos interessantes em termos de conflitos e a gerar o seu inerente choque, mediante a oportunidade para acelerar o processo de amadurecimento. Dá para escrever várias crônicas específicas a citar tais situações, separadamente com certeza, e creio que será um caminho a ser percorrido em um futuro bem próximo. 
Neste caso, falo sobre um evento que tornou-se inevitável para testar essa ambivalente situação sobre estar a forjar-me como um Rocker idealista e pleiteante à vida artística profissional, simultaneamente a viver o curso de meus dezesseis anos de idade e por conseguinte, por deter a momentânea mentalidade juvenil sob muitos aspectos e obviamente estar sob o controle dos meus pais e com obrigações escolares a cumprir. 
 
Nesses termos, em 1976, eu estava a concluir a 8ª série, ou o equivalente ao 4º ano ginasial, portanto, naquela época representava o fim do ensino fundamental, com direito a formatura do curso e imprescindível diploma para poder seguir adiante, através do início do estudo secundário. 
 
Bem, eu e meus amigos de classe e alguns de outras salas, éramos os Hippies/Freaks/Rockers do colégio e na média, todos compartilhavam dos ideais, ainda que em graus de diferente entusiasmo e comprometimento pessoal com a causa. Eu e Osvaldo Vicino éramos companheiros de banda e também fazíamos parte dessa turma. 
No entanto, foi quando a professora de desenho geométrico, passou a falar incisivamente para a nossa turma de cabeludos, durante as suas aulas, sobre a “festa de formatura”, a dar conta de que já estávamos bastante atrasados para engajarmo-nos em tal celebração, visto que os demais colegas já haviam aderido oficialmente desde o começo do ano, a pagarem prestações em um carnê organizado para arrecadar os fundos e que todos estavam animados, menos nós, que éramos os “hippies outsiders”. 
 
E apesar de que tal afirmação pelo nosso viés fora um elogio, porém, pela conotação que ela quis enfatizar, no sentido de denegrir a nossa imagem, ao estigmatizar-nos como “párias da sociedade”, em sua visão explícita, mas que devia considerar velada (ou não). Com a nossa negativa sistemática, ele adotou então a tática de alfinetar-nos abertamente. 
Em uma determinada aula, ela esqueceu-se do conteúdo da sua geometria e passou os seus cinquenta minutos de aula a atacar os Beatles, que segundo a sua visão, seriam agentes da decadência do Império Britânico e mediante o uso de uma argumentação pífia, carregada por preconceitos descabidos e certamente que baseada na opinião de seus avós desinformados. 
 
Um de nossos colegas, um rapaz que chamava-se: “Toninho” (que foi um grande fã do King Crimson e ótimo atacante do nosso time de futebol), chegou a pedir a palavra para um contra-argumento pontual, quando afirmou que não entendia o discurso da professora, visto que até a realeza britânica sabia o valor da banda citada e vilipendiada por ela (a professora), tendo em vista a questão da condecoração concedida pela Rainha aos rapazes de Liverpool em 1965, com comendas honrosas em reconhecimento pelos benefícios que a sua fama, sob alcance mundial, trouxera ao Reino Unido em termos de divisas e foi além, ao citar que houve época em que os Beatles representavam mais de 20% do "Pib" do Reino Unido, ou seja, um dado irrefutável, se o viés dela fora o aspecto do materialismo defendido pelo capitalismo conservador. 
 
Sem argumentos plausíveis, mas enfurecida com a sua linha de raciocínio a atacar-nos, a professora respondeu que isso não importava, ao desmascarar o seu ódio desmedido, pois ao arvorar-se de ser “conservadora” assumida e consequentemente uma entusiasta da Revolução Industrial que alavancou a glória material do Império Britânico, ela caíra em contradição, pois ela podia odiar os Rockers cabeludos, mas tal montante que os Beatles movimentaram para os cofres do Reino Unido, alegrou e muito a Sua Majestade, a Rainha Elizabeth II. 
 
E se o problema foi dinheiro, bem, ninguém ofertou mais aos cofres britânicos do que os Beatles, na década de sessenta.
Bem, o que ela quis mesmo, foi desestabilizar-nos, visto que a sua tentativa para ridicularizar-nos falhara, então ela passou a adotar uma outra estratégia, ao apelar para um discurso piegas, em torno de tentar nos provocar o sentimento do remorso.
 
Naquela linha folhetinesca, misturada com valores do catecismo católico, a mestra exortou-nos a não decepcionarmos os nossos pais e sobretudo os avós, que “sonhavam” com tal festa, desde que “nascêramos”. Ora, o seu discurso só piorou, no sentido que a nossa reação foi imediata ao questionarmos se a festa seria para nós ou a representar uma encenação para atender as expectativas familiares? 
 
Pois ao alardear tal juízo de valor, exatamente com aquele bando do Rockers que estavam inebriados pela possibilidade concreta de quebrar paradigmas condicionadores da velha sociedade (a qual chamávamos como: “careta” para fazer uso de uma gíria bem dessa época e na contrapartida em que vivíamos ou queríamos viver o mergulho no “desbunde”, outra gíria a denotar a completa libertação do sistema opressor), fora o seu tiro pela culatra ou no pé, como queira.
Na sua última tentativa, a Dona Jandira, que aliás, nem era idosa e pelo contrário, era bem jovem, provavelmente a viver na casa dos trinta anos de idade nesse instante, veio com um ultimato em tom choroso a provocar-nos o medo ante a possibilidade do arrependimento. Com mais um discurso melodramático, ela exortou-nos que aquela seria a nossa última chance para não cometermos um erro pelo qual arrepender-nos-íamos pelo resto das nossas respectivas vidas. Foi quando ela disse, como se fosse uma personagem de novela piegas da TV Tupi: -“essa lembrança será eternizada em um álbum de fotos e vocês não estarão nele”...

Diante de tal cena, a nossa reação espontânea ao rirmos, não causou-lhe uma explosão nervosa por sentir-se ironizada, ainda bem, por não lhe suscitar a vontade de nos impingir punições escolares, como a diminuição de notas em suas provas ou uma possível ameaça de suspensão. E a seguir, ela apenas resmungou alguma coisa sobre termos feito a nossa equivocada escolha, em ritmo de resignação. 
 
Ao pensar hoje em dia, eu mantenho a mesma postura que tive em 1976 e de fato, ao não ter comparecido em tal festa, isso não mudou em nada a minha vida para pior, como a professora preconizara, amparada pelos seus valores tradicionalistas. Claro que respeito a opção dos demais colegas da minha sala e de outras em terem participado, mas continuo a considerar que não perdi absolutamente nada. 
 
As boas lembranças que guardo dos colegas, não só dos Rockers, mas de todos com os quais convivi, está indelevelmente armazenada na minha memória. Isso vale para os professores, incluso a Dona Jandira que odiava os Hippies e o Rock de uma maneira geral, aos demais professores e aos jogos de futebol do campeonato interno do colégio e que foram muito prazerosos para participar. 
E também por lembrar-me que foi na sala de aula que frequentávamos naquela escola, que o meu amigo e colega, Osvaldo Vicino, convidou-me para formar a minha primeira banda, o Boca do Céu, em uma tarde de abril desse ano de 1976. 
 
Foi também em sua companhia e naquela quadra esportiva, ali presente, que além dos campeonatos que disputamos, tornou-se igualmente um cenário importante para a nossa iniciante banda, quando em um dia do final de agosto desse mesmo ano, recebemos a visita de um jovem aspirante a cantor que interessara-se em conhecer a nossa banda, para talvez trabalhar conosco, motivado pelo anúncio que havíamos publicado em uma importante revista musical da época, a seminal: “Rock; a História e a Glória”. Foi ali que conhecemos então o jovem, Laert Julio, ainda não conhecido como “Sarrumor”, nessa ocasião. 
Sendo assim, a dona Jandira pode ficar descansada, pois da festa de formatura que eu não compareci, não guardo nenhum remorso por tal ausência, mas lembranças ótimas da escola, tanto pelo lado pessoal, mas principalmente pela formação da minha carreira, eu tenho sim, bem armazenadas na memória.

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Quando até Sonhar é Proibido - Por Luiz Domingues


Vivia-se uma época difícil no país, com recessão acentuada e declarada. Dessa forma, o efeito psicológico coletivo que sempre advém da penúria generalizada, trata sempre por manter a impressão (para cada cidadão comum e muitas vezes, de forma proposital para quem obtém algum lucro com a crise), sobre a situação real da economia, estar muito pior do que realmente se apresenta, se fosse analisada por economistas isentos.  
 
E um dos sinais psicológicos que ajuda a piorar a percepção desse caos social, é a existência acima do normal de imóveis vazios, residenciais e comerciais, a ostentarem placas com os dizeres: “aluga-se” e/ou “vende-se”, por semanas, meses e até anos a fio. 
 
E não para por aí, pois os sinais análogos e inerentes tratam de piorar ainda mais os índices. A sujeira acumulada nas casas inabitadas, atrai a bandidagem e a mendicância, as pichações multiplicam-se e tudo isso somado, gera também o desestímulo para possíveis interessados em alugar ou comprar imóveis, a postergar o clima desolador.
Mas há o lado positivo mesmo nesse cenário caótico, por incrível que pareça. Pois é nessa hora sob carência, sufoco & escassez de recursos, que o fator da esperança, move as pessoas de encontro ao sentimento de reação e quando reagem, efetivamente movimentam a economia, primeiro em uma escala microscópica, mas que tem o poder de uma pequenina pedrinha que bate no rio e inicia uma movimentação, que demora, mas pode representar uma virada macro, no futuro.
Bem, economia e motivação humana a parte, o fato foi que nesse cenário todo que descrevi, a crise gerara o aumento de placas a anunciarem a disponibilidade de imóveis em geral, da parte dos corretores. 
 
E naquela perspectiva única de se poder sonhar, que seria a única medida que as pessoas poderiam contar naquele instante mais agudo da situação, um casal a aparentar estar na meia-idade, passou a ocupar o seu tempo a visitar imóveis do bairro onde moravam. 
 
Em cada quarteirão havia pelo menos duas ofertas com casas nessas condições e em muitos deles, havia um funcionário de imobiliária disponível para atender as visitas de clientes, possivelmente interessados. Empolgados com essa oferta, marido e mulher passaram a fazer dessas visitas, uma ocupação diária, como se estivessem a frequentar museus.
Todavia, mais que um lazer, as visitas representavam sonhos. O bem estar que sentiam ao caminharem pelos cômodos das residências vazias e bonitas, foi imenso e eles não furtavam-se a comentarem em voz alta os seus planos para decorá-la, ao projetarem-se como futuros proprietários. 
 
Geralmente os funcionários esboçavam estreitar a relação, quando sentiam um real interesse dessas pessoas e dessa forma, insistiam em pedir-lhes os dados pessoais, a convidá-las a preencherem ficha cadastral etc. e tal... mas o fato, foi que eles só tinham o sonho e a vontade para adquirirem tais imóveis, pois em realidade, não possuíam nem um centavo sequer para pleitear nada, concretamente a falar.
Mesmo assim, eles continuaram o seu périplo diário, a seguir o mesmo padrão em cada imóvel que visitavam. Infelizmente, a atitude sintomática da parte deles gerou uma fama indevida entre os corretores de imóveis e talvez desconfiados, a deduzirem que as intenções do casal, seriam malévolas, estabeleceram um pacto entre imobiliárias, a proibir-lhes a visitação, veladamente. 
 
A ordem que os funcionários receberam foi para exigirem que tais pessoas visadas registrassem-se mediante uma ficha cadastral bem mais detalhada e invasiva, com certificação documental em anexo, para poderem adentrar tais imóveis. Não tratou-se de uma medida ilegal, mas certamente antipática, ao ser adotada doravante. Assim, ao sentirem-se oprimidos, eles encerraram as suas costumeiras visitações.
Portanto, se nem sonhar foi mais possível, a estagnação foi decretada e como consequência direta, as placas continuaram a anunciar imóveis vazios por muito mais tempo, sob um efeito sintomático.