sexta-feira, 21 de outubro de 2016

A Minha Casa não era o Mundo Inteiro - Por Luiz Domingues





Quando se tem poucos meses de vida estamos todos entretidos em observar tudo e a todos, como óbvia curiosidade de quem busca o entendimento do que representa a nossa própria existência.

Se nessa fase, mal sabemos quem somos e ainda mais que isso, o que somos exatamente, mas apenas sentimos conforto e desconforto a serem definidos pelo puro instinto, nós aceitamos a ideia generalizada de que o mundo é aquele conjunto de cômodos por onde os adultos nos conduzem o tempo todo e que demora um pouco para tomarmos consciência de que se chama: “casa”.
Mas um dia você sai à rua e descobre que existem outros locais e tudo fica ainda mais confuso. Pessoas aos montes, trânsito, ruas, ruídos em frenesi.

Você sente-se seguro porque está sob a custódia daqueles adultos  gentis que agradam-lhe e esforçam-se para dirimirem as suas angústias prementes, mas é muito confuso notar a presença de tantos Seres à sua volta e invariavelmente, estranhos. E ao ir além, assustador, também.
O mundo é bastante colorido, ao se observar as fachadas das construções, carros e as roupas das pessoas. E barulhento, também, certamente.
 
Seja lá o que faziam e eu tinha que estar sempre junto, quando um sentimento nasceu dessas saídas para a extensão do mundo que eu desconhecia: quando voltava àqueles cômodos conhecidos, a sensação era boa demais.
Começou aí provavelmente a sensação prazerosa de associar o “Lar” ao seu porto seguro, lugar para onde sempre sentimos alegria em retornar, mesmo quando a jornada empreendida fora dele, houvesse sido das mais satisfatórias.
 
Sim, o mundo mostrava-se gigantesco e eu nem poderia concebê-lo corretamente ali naqueles primeiros meses de vida. E mesmo que o fosses estimulante sob vários aspectos, não suplantava em nada a sensação de prazer e segurança adquirida pelo costume de estar entre aqueles cômodos conhecidos e acompanhados pelos rostos sempre sorridentes daqueles adultos que faziam tudo para resolver os meus problemas e agradar-me. 

Simples assim... 

domingo, 16 de outubro de 2016

Crônicas da Autobiografia - Cantar Ária de Ópera, Soterrado - Por Luiz Domingues

                    Aconteceu no tempo do Terra no Asfalto... em 1980

Uma certa vez, o vocalista da minha banda cover entre 1979-1982, "Terra no Asfalto" (Paulo Eugênio Lima), convidou-me a conhecer um professor com quem estava a ter aulas de canto. Tratava-se de um senhor idoso, com forte sotaque estrangeiro, provavelmente oriundo de algum idioma do leste europeu.
Simpático, porém a se mostrar exigente como professor, ele usava métodos de ensino não usuais e o Paulo Eugênio, nosso vocalista, estava empolgado ao confiar no currículo do seu mestre, mas ao mesmo tempo, a apreciar muito as loucuras por ele propostas como didática. 
 
Nesses termos, fazer exercícios de cabeça para baixo, foi um deles. E lá se pôs o velhinho a falar do fluxo sanguíneo e a pressão na caixa toráxica para emitir-se sons nessas circunstâncias adversas. Parecia fazer sentido pela explicação superficial, mas teria algum fundamento científico, de fato? Eu nunca soube a resposta. 
 
Entretanto, o Paulo Eugênio estava empolgado, porque achava as loucuras fascinantes, bem naquele espírito Rocker de valorizar tudo que não é usual, para se quebrar paradigmas e ignorar fronteiras. Visto por esse aspecto, eu até entendi e também apreciei a loucura toda.
Para reforçar o conceito, "Beatlemaníaco" inveterado que era, Paulo Eugênio citava diversas loucuras perpetradas pelos Beatles nos estúdios Abbey Road de Londres, onde tal banda gravara todos os seus discos e em diversos livros biográficos da banda, constam relatos a dar conta que as ideias mais malucas foram tentadas ali para se obter sons diferentes. 
 
De fato, eu também conhecia algumas dessas histórias, como por exemplo, músicas que o John Lennon gravara pendurado de cabeça para baixo para extrair um timbre vocal exasperante segundo o seu desejo deliberado, para canções tensas. 
 
Portanto, encontrar um professor de canto lírico, com formação de música clássica tradicional, mas com a concepção completamente aberta para métodos nada usuais, foi um achado que ele comemorava e assim, empolgado, fez várias aulas com esse mestre e fez questão de levar-me para conhecê-lo.
Sob uma rápida conversa antes da aula começar, o veterano professor falou-nos que amava a música erudita, mas recusava-se a assistir concertos de qualquer natureza no Brasil. Motivo: ele detinha "ouvido absoluto" e não suportava a desafinação dos músicos brasileiros! Há dois pontos aqui para se observar em torno dessa afirmativa da parte dele: 
 
Primeiro: ouvido absoluto é quando a pessoa tem a percepção de ouvir as notas musicais a identificá-las pela sua vibração. Neste caso, é uma precisão tão grande ou maior do que a dos afinadores eletrônicos. O lado mau de quem tem essa capacidade, é que qualquer som da natureza pode representar uma tortura constante, pois dificilmente vai soar 100% afinado. O sujeito ouve um "toc toc" na porta e a depender da parte da madeira que a pessoa percutiu com a mão, pode ser qualquer nota (digamos que seja uma nota “sol”, como mero exemplo), mas não inteiramente afinada no padrão, todavia alguns “comas” acima ou abaixo da afinação perfeita. E entenda “comas” como subdivisões harmônicas microscópicas de uma nota musical.
Segundo ponto: seria para ofendermo-nos quando ele, sendo um imigrante estrangeiro aqui radicado, falou-nos abertamente que os nossos músicos eruditos, incluso os de alto padrão das grandes orquestras, não afinavam os seus instrumentos corretamente? Creio que não e de fato, nem abalamo-nos com tal afirmação. 
 
Então, a proposta da aula que eu assisti foi bastante exótica sob uma primeira instância. Eu pelo menos nunca havia visto predisposição antes. Pois no fundo do quintal da casa onde esse senhor vivia com a sua esposa, havia uma caixa de areia. Outros moradores devem tê-la usado como uma mini horta ou pomar, mas ele tirou a terra e fez uma espécie de cova, onde mantinha uma quantidade de areia razoável ao lado, para ser usada.
Então ele pediu ao Paulo Eugênio que se deitasse ali e o cobriu com areia a usar uma pá, e deixá-lo inteiramente coberto, só com a cabeça de fora e ali, por cerca de uma hora, deu voz de comando para que ele fizesse exercícios vocais. 
 
Deu para ver que o Paulo fez um esforço tremendo no diafragma completamente comprimido pela areia sobre seu corpo e a voz saia com dificuldade. O professor o incentivava a prosseguir, ao estabelecer correções o tempo todo. 
 
Quando acabou a aula, o Paulo esteve extenuado. Pareceu que havia participado da prova da maratona olímpica. Mas ele relatou-me que o esforço empreendido o ajudava a cantar enfim com o impulso respiratório do diafragma, como cantor profissional deve fazer e não a forçar a garganta. 
Aparentemente fez muito sentido a estranha metodologia do professor. No entanto, perguntado se eu desejava matricular-me no curso do velhinho maluco e passar pelo mesmo tipo de exercício, eu disse a ambos que iria pensar no caso. Bem, isso aconteceu na metade de 1980 e até hoje não decidi se devo aceitar ou não...

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Os Kurandeiros - 16/10/2016 - Domingo / 19 Horas - Fofinho Rock Bar - Belenzinho - São Paulo / SP

Os Kurandeiros


16 de Outubro de 2016


Domingo  -  19:00 Horas


Fofinho Rock Clube


Avenida Celso Garcia, 2728


Belenzinho


Próximo da Estação Belém do Metrô 


São Paulo  -  SP


Show Compartilhado com a banda : Cobra Criada


Ingressos :


Homens   : R$ 7,00
Mulheres : R$ 5,00


Produção : Gigi Jardim


Os Kurandeiros :


Kim Kehl : Guitarra e Voz
Carlinhos Machado : Bateria e Voz
Nelson Ferraresso : Teclados
Renata "Tata" Martinelli : Voz e Percussão
Phil Rendeiro : Guitarra e Voz
Luiz Domingues : Baixo

sábado, 8 de outubro de 2016

Desperdício - Por Telma Jábali Barretto


Tudo, hoje, mostra e conspira para revelar nosso desperdício e em todas áreas da vida: do material ao sutil, do concreto ao subjetivo...e deixamos aí uma pergunta: ficamos assim ou sempre fomos e não tínhamos "cons ciência" ? Pensamos que talvez um pouco  de cada uma e, mais ainda, de novo, perguntamos: quem poderia prever como aqui chegaríamos com a sociedade que construímos, assim como questionamos se seríamos capazes, agora, de vislumbrar onde estaremos daqui a 5, 10 ou mais anos?! Sim...algumas prospectivas baseadas no que aqui temos...bem catastróficas, outras talvez encantadas e até aqueles que vivem uma espécie de estar no ‘agora’, não por confiança ou ‘presença’, mas por puro comodismo inconsequente, irresponsável quem sabe...?!...


Fato é que pelos mais diversos motivos, desperdiçamos comida (e nada mais cruel num mundo que tem fome), desperdiçamos tempo, recursos da natureza, conhecimento, cuidados interpessoais e tantas, tantas coisas mais nos escapam pelos vãos dos dedos, pela nossa incapacidade de bem administrar o conquistado, muitas vezes com árduos empenhos, outras por relapsa atenção a detalhes, pouco valorizados, onde vemos demandas não satisfeitas, jogando fora precioso tempo, investimento de dinheiro ou qualquer outro bem significativo não percebido como necessário...sim, ‘necessário’...?!... talvez aí esteja, seja a chave, insight, a atentar para aquilo que de fato importa e possamos aprender e apreender a filtrar, priorizar e bem eleger, sem desperdício, qualificando entre o supérfluo e o significativo, ainda que seja, para cada momento, situação, circunstância.
Temos vivido como que num enorme e encantador parque de diversões, em que luzes e sons chamam a atenção e...parando aqui, ali, aceitando qualquer tipo de convite, novidade sem nem sempre saber bem onde queremos ir, onde chegar ou  a que viemos... permitindo?!...levando-nos numa enxurrada de informação e atrativo. Assim, entendemos que tudo isso propõe uma outra premissa: não seria, talvez...?!...em muitos/alguns casos...?!...esse o ‘necessário’ encantamento produtor dos frutos, respostas, amargas ou doces, que nos habilitarão a começar a distinguir entre o essencial e o fugaz e, claro, também, assim das mais  diversas percepções de cada um ?!...


Como poder ou querer conter esse apaixonante interesse produtor, ainda que por um momento, longo ou rápido, pulando uma etapa de amadurecimento que, por certo advirá, de cada experimento, vivência, ganho...pessoal ou coletivo. 
Quantas vezes não vivemos ou presenciamos a dor da culpa, arrependimento pela falta de cuidado com a saúde, com o uso criterioso do tempo que, quando desperdiçado, não mais recuperamos, atenção com relações ou finanças fragilizadas pela rigidez, irresponsabilidade, desleixo, inconsequência, excessiva posse...?!...e só mesmo a perda, ausência, promove um outro e mais lúcido olhar ?!... 


Aí, poderemos ter o verdadeiro olhar do desperdício que esse tipo de sofrer do amadurecimento trouxe, traz e trará, continuamente, sendo aprendizado também o engano, erro, inexoravelmente oriundos da própria Vida. Então, porque não  entender, aceitar e assimilar que o envolver-se com as escolhas trará caminhos, desdobramentos, respostas, ganho e perda que, melhor digeridas proporcionarão, cada vez mais, confiança, percebendo, sentindo que presenteados somos por oportunidades, buscadas ou aleatórias, na abundante manifestação cósmica que nos cerca e somos parte no seu infinito e paciente ensinar.


Que nunca abandonemos a boa disposição de professores que foram permeáveis para aprender e alunos incansáveis, insaciáveis !!!


Telma Jábali Barretto é colunista fixa do Blog Luiz Domingues 2. Engenheira civil, é também uma experiente astróloga; consultora para harmonização de ambientes e instrutora de Suddha Raja Yoga. 
Nesta reflexão, fala-nos sobre a questão do desperdício, alertando-nos  sobre a necessidade de o coibirmos, sob a dura pena do arrependimento futuro.

domingo, 2 de outubro de 2016

Versos ao Sintro - Por Julio Revoredo

O que desprende, pende

O que organiza, e pente 

O que tensiona, enchente, o que vibra e surpreende

E fogo sobre a corrente

E o etéreo, ingente

E a ação da surpresa e o ente

Enfim, e a desconstrução, transparente.

Julio Revoredo é colunista fixo do Blog Luiz Domingues 2. Poeta e letrista de diversas canções que compusemos em parceria, em três bandas pelas quais eu atuei: A Chave do Sol, Sidharta e Patrulha do Espaço.

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Meu Amor Culto e Profundo - Por Marcelino Rodriguez

No tempo que as pessoas ainda tinham algum senso de sagrado, as tragédias sentimentais eram menores. Hoje em dia, na era da descartabilidade, temos que tomar cuidado para não sermos deletados. Nos tornamos todos muito solitários e frágeis, porque o amor parece ter abandonado a humanidade. Na verdade, a capacidade de amar, que já não era muita coisa no passado, hoje, tá quase extinta. 
 
Jesus Cristo foi parar na cruz, Gandhi e outros ganharam balaços e martírios por acreditarem no amor. Com as mentes mecanizadas pela web, nos tornamos em geral apenas uma imagem e as pessoas não querem ter trabalho de cultivar relacionamentos que aparentemente dão algum tipo de trabalho. 
A web nos promete milhões de sorrisos "colgates" com apenas um click. Os amores de hoje são profundos como plástico de bolhas. 
Já aconteceu comigo acordar numa manhã, em dúvidas se devia mandar flores ou não para minha amada virtual e um presente que ia pelo correio logo pela manhã, um belo livro de cabala explicando o que era a luz, afinal sou um cara esperto e sábio, quase um erudito em comparação com o país analfabeto, quando ela já tinha antecipado que eu tinha páginas demais no Facebook e era um indeciso que não sabia o que queria. Além do mais, implicou com minhas ex namoradas e fotos antigas do meu perfil dizendo que eu tinha um Harém.
Quando eu percebi, estava deletado do Facebook dela como seu eu fosse um mosquito da dengue. Virei homem de apenas uma noite. Olhando meu perfil, sem a foto dela, me sentia um idiota e não sabia o que fazer nem com minha flor, nem com meu amor e muito menos com meu livro de cabala. Ela descobriu," virtualmente", que eu era um Don Juan, um inconstante de quinta categoria. 
E me deletou, sumariamente, sem direito de defesa. 
Meu amor culto e profundo chorou feio.

Marcelino Rodriguez é colunista sazonal do Blog Luiz Domingues 2. Escritor de vasta e consagrada obra, aqui nos traz uma crônica falando de dor, perplexidade ante o ser humano com seu caráter volátil e incompreensão, fundamentalmente.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Crônicas da Autobiografia - Hippie Chic e Encapotado - Por Luiz Domingues

                        Aconteceu no tempo do Boca do Céu, em 1976...
Sabe aquela clássica cena da Árvore de Natal estilizada como se vivêssemos tal data sob o frio rigoroso do inverno europeu?
Pois é, a síndrome do brasileiro tropical ao querer imitar signos naturais que não correspondem a nossa realidade geográfica, estigmatizou-se em diversos aspectos da nossa cultura. Se nos estados do sul ainda seja possível se experimentar um gostinho de inverno parecido minimamente com o rigor europeu, a verdade é que na maior parte do território de Pindorama, o calor abrasador é que embala o nosso natal, em pleno verão tropical. 
 
São Paulo era considerado um estado da região sul, mas a geopolítica mudou em um dado momento da história quando o nosso estado foi retirado dessa região e passou a ser considerado da região “sudeste”. Não cabe esmiuçar aqui os aspectos pró e contra de tal mudança forçada pelas autoridades federais, mas psicologicamente, digo que o sentimento paulista foi sempre o de sentir-se sulista, em muitos aspectos e aqui, o que importa neste relato é falar sobre a nossa condição climática e o efeito cultural que isso trouxe-nos, principalmente a se abordarem os paulistanos, pois como é sabido, as cidades interioranas do nosso estado, são tradicionalmente muito quentes.
E ao se pensar que por séculos, antes dos eventos causados pelo fenômeno do “El Niño” e do surgimento da imensa selva de pedra em que a cidade transformou-se, o clima típico da cidade de São Paulo era de frio na maior parte do ano, com garoa forte toda noite e com direito a névoas, sentíamo-nos mais próximos da realidade de Londres do que das paisagens tropicais típicas do litoral brasileiro.

Portanto, aliado às tradições culturais múltiplas que recebíamos dos europeus (e reforçado pelo fato da cidade ser um celeiro de imigrantes, com colônias espalhadas pelos bairros da cidade), quando o cinema passou a influenciar-nos ainda mais fortemente, isso acentuou-se. 
 
Passadas mais algumas décadas e o Rock também passou a impressionar-nos com contundência e assim, ao assistirmos os filmes e fotos, víamos que os Rockers muitas vezes usavam roupas pesadas de inverno, o normal para o padrão dos europeus e norte-americanos, a lhes preservar o calor do corpo e consequentemente da sua saúde, mas para o nosso imaginário, o aspecto da moda inerente que isso causara, saltava-nos aos olhos. 

Rockers a usarem roupas de couro na década de cinquenta, dava-lhes um aspecto de elegância inerente, é verdade. Depois vieram os "Mods" britânicos e a sua elegância em terninhos de tweed etc.
Quando a Era hippie chegou, a explosão total de cores mergulhou-nos em meio a um caleidoscópio de infindáveis possibilidades visuais, as mais atrativas, e quando o inverno apertava para os Rockers do meridiano norte, os casacões estilosos surgiam, para que eles usassem até capotes militares (alguns a exagerarem ao fazerem uso de fardas “vintage” de séculos passados), ou vestimentas de peles, para se aludir à moda da Idade Média, fora a influência brutal de culturas exóticas do oriente, notadamente da Índia. 
 
Portanto, nessa transição entre o fim dos anos sessenta e início dos setenta, acostumamo-nos a vermos filmes e fotos de bandas de Rock, com vestimentas pesadas de inverno, super estilosas, o que convencionou-se no mundo da moda a ser designado como um estilo “Hippie Chic”. 
 
Dessa forma, ali no início e na metade da década de setenta, foi o padrão que gostávamos e queríamos seguir, a driblarmos as adversidades climáticas que não favoreciam-nos, exatamente por estarem fora dos nossos padrões naturais.
Eu e muitos amigos queríamos usar casacões o tempo todo e mesmo em dias que não foram exatamente gelados, embora naquela época, ainda existisse a incidência da garoa diária em São Paulo e o outono e inverno fossem bem rigorosos, ao menos para os nossos padrões.

O primeiro vocalista da minha primeira banda, o “Boca do Céu”, foi um desses que usava diariamente um casaco pesado e bem bonito, mas nem sempre necessário e dessa maneira chamava a atenção por isso. Bernardo, conhecido como “Janjão” entre todos na escola que frequentávamos, fora mais um desses jovens Rockers que queria seguir tal padrão, mas que no Brasil, infelizmente para nós que gostamos do frio intenso, não era possível ser usado por muito tempo.
 
Eu também tinha uma dessas vestimentas pesadas, que aliás não era minha exatamente, mas do meu pai. Tratara-se de um “sobretudo” de lã, preto, muito estiloso, daqueles que víamos aos montes em filmes franceses cinquentistas. O meu pai o comprara-o na década de cinquenta e o usou muito. Quando tornei-me adolescente e coube nele, passei a pegá-lo emprestado para usar nas noites frias e sentir-me elegante na porta de shows de Rock que frequentava

Vendo que eu gostava dele, o meu pai doou-me a peça ainda nos anos setenta e tal casaco acompanhou-me até meados dos anos 2000, quando já não houve mais jeito que o alfaiate pudesse dar para reformá-lo.
 
Eu nunca conformei-me com modismos posteriores, acintosamente propostos para afrontar e destruir ícones sessenta-setentistas. Entre outras coisas, abomino as bermudas, as quais considero anti-Rock, mas fazer o que? Essa mania impregnou-se nas gerações posteriores.
Sou do tempo em que o Rock era luxo e não lixo, simples assim...