segunda-feira, 29 de junho de 2015

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 372 - Por Luiz Domingues

Estávamos escalados para fazer dois shows na cidade de Caraguatatuba, no litoral norte de São Paulo. Seria aniversário daquele município e a prefeitura local desejou promover uma grande festa, com um palco montado em uma de suas praias, e com isso houve a promessa de que arrebataria uma grande multidão.
Bem, isso por si só, já foi sensacional e ajudou a nos dar a sensação de que estávamos a recuperar rapidamente o fôlego, após o rompimento com o Studio V, e a enorme frustração gerada pela falsa expectativa criada por parte dessa produtora, de que seria "fácil" o nosso encaminhamento ao mundo mainstream por intermédio deles. 

Porém, não tratar-se-ia apenas de uma boa oportunidade de fazer um show portentoso para uma multidão, por que envolveu uma série de desdobramentos de bastidores, que ao nosso ver, foram ainda mais interessantes. Tudo começou ainda ao final de março, quando os amigos da banda "Proteus", que foi uma banda que despontara no cenário do Hard-Rock paulistano oitentista, nos alertou que a gravadora BMG-Ariola estava a abrir as suas portas para o Rock pesado e eles, além de muitas bandas, estavam a encaminhar material para a devida avaliação dos mandatários dessa gravadora, e com um detalhe, segundos nos disseram, não havia empecilhos e filtros, portanto, tratar-se-ia de uma porta real a se abrir.

Claro, a BMG-Ariola houvera sido muito grande na história da indústria fonográfica brasileira, mas naquela época, estava aquém de algumas concorrentes suas do mercado e assim, foi possível até entender que não tendo naquele instante, o mesmo status de outrora, talvez estivesse com uma proposta mais humilde e aberta a receber artistas distantes do mainstream para avaliações mais democráticas e sem contaminações com o tráfico de influências, como outras majors que estavam por cima no ranking, naquele instante, observavam.
O saudoso Alex, baixista do Proteus, um bom amigo que nos deixou precocemente.
Joe Moghrabi e Ciro Botini, outros membros do Proteus, também. Joe embrenhou-se no mundo do virtuosismo da escola musical, Jazz-Fusion, após o término das atividades dessa banda, e é muito respeitado nesse meio, e também no mundo didático da guitarra nos dias atuais. Quanto à Ciro Bottini, ele é um apresentador de sucesso, há décadas, a atuar no canal Shoptime, braço comercial dos canais Globosat.

Sabedores disso, e com material na mão, pronto para ser entregue, corremos para o escritório da BMG-Ariola, e o contato inicial sugerido pelos amigos do Proteus, não foi com o diretor de repertório, mas um divulgador de obras da empresa, conhecido por um apelido sui generis: "Bip Bip" (Marco Correa era o seu nome real). 
Esse rapaz, era experiente no meio, conforme apuramos, por trabalhar na empresa há anos como divulgador, e para quem não conhece a hierarquia na indústria fonográfica, o cargo de "divulgador" era muito importante na estrutura dessa indústria. Esses profissionais eram os responsáveis para espalhar os discos produzidos pelas empresas em todas as emissoras de rádio, TV e imprensa escrita, a promover os artistas e a sua obra. 

Antes mesmo de se criarem departamentos de assessoria de imprensa internos, as empresas delegavam aos seus divulgadores tal função e por décadas, foram os divulgadores que agendavam aparições dos artistas nos programas de TV, entrevistas nas emissoras de rádio, e na imprensa escrita. E a "cereja do bolo" para tais profissionais, foi prover a total distribuição dos discos nas emissoras de rádio de todo o Brasil, a garantir a massificação da obra, e houve época, que isso foi TUDO na vida de um artista...
Nos anos oitenta e no caso, já a caminhar para o final da década, essa logística já se conspurcava, pela cada vez maior presença da instituição vergonhosa do "Jabá", portanto, o poder de influência pessoal dos divulgadores, estava a diminuir, ao fazer com que o seu papel estivesse a ser reduzindo drasticamente, e assim remetê-los a uma condição de simples como office-boys, para levar o material às rádios, pois a execução ou não das "músicas de trabalho" de seus artistas, estava condicionada a outro tipo de acordo de bastidores, digamos assim, de forma amena.

Bem, feita essa breve explicação, "Bip Bip" era um divulgador experiente, apesar de ser ainda jovem, a aparentar ter "trinta e poucos anos" na ocasião. 
Esse exótico apelido, que remetera ao intrépido personagem dos desenhos animados (a ema, "Road Runner", oficialmente em inglês, mas também conhecida como: "Papa-Léguas", ou "Beep Beep" pelo ruído que emitia, e aportuguesado para, "Bip Bip").

Ele detinha esse apelido, pelo motivo de ser um sujeito elétrico, tal como a ave do desenho animado, além de muito magro fisicamente, também uma característica da personagem.

Bip Bip era um rapaz receptivo, falante e com muita energia conforme constatamos quando o conhecemos pessoalmente. Muito objetivo e sem nenhuma afetação por trabalhar e conhecer os meandros de uma companhia fonográfica de porte, era simples, humilde, acessível, portanto, convenhamos, algo raro, entre funcionários dessa indústria que geralmente ostentavam "Síndrome de Bozó", insinuada pelo uso do crachá ostensivo pendurado no pescoço, e atitude arrogante, decorrente.
Nessa conversa preliminar que tivemos com ele (eu e Rubens fomos nessa primeira abordagem), ele nos falou que antes de mostrarmos o nosso material para o diretor de repertório da empresa, teria uma proposta a nos fazer.

A Rede Bandeirantes de TV iria transmitir ao vivo, um grande show a ser realizado em uma praia de Caraguatatuba-SP, organizado pela prefeitura local, em comemoração ao aniversário daquela cidade praiana. Não haveria cachê, mas a exposição midiática advinda, seria um tremenda oportunidade de investimento na carreira, e mais que isso, a gravadora enxergaria com "bons olhos" quem se dispusesse a participar.

Claro, não haveriam despesas e toda a infraestrutura estaria garantida, com um bom hotel, restaurante, transporte e a garantia de que o equipamento de som e luz seria de grande porte, com uma empresa de primeira linha no mercado, contratada para garantir tal qualidade técnica.
Bem, não vivíamos mais a euforia total de 1986, e estávamos a nos reconstruir naquele instante, porém, interpretamos isso tudo como uma grande oportunidade.

Além do mais, independente do esforço extra e quase prosaico com o qual a irmã do Zé Luiz faria para tentar mais uma abordagem na Warner, se a BMG-Ariola estava a abrir portas, a nossa obsessão pela Warner ou outras gravadoras que gozavam de maior prestígio na ocasião, deveria ser repensada, para tivéssemos uma nova mudança de rota. Dessa maneira, aceitamos participar do evento.
Continua...

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 371 - Por Luiz Domingues


Saímos de São Paulo não muito cedo, como planejáramos previamente, por que o cansaço adquirido por termos feito dois shows em teatro, seguidamente, nos abateu, certamente. Mesmo assim, não chegou a ser uma perda de tempo desastrosa, mas apenas a configurar a questão de se eliminar a chegada ao Rio com mais calma, e assim, deixarmos a perspectiva de um almoço tranquilo, com direito a "siesta", como algo bem remoto.

Chegamos bem ao Rio, almoçamos rapidamente nas cercanias do Canecão, e entramos no espaço onde funcionava o espaço alternativo: "Caverna II".
Uma semana antes do show, soubemos que o idealizador do espaço, um rapaz chamado, Raul, havia falecido de forma chocante, pois tinha apenas vinte e oito anos de idade e fora vitimado por um ataque cardíaco fulminante. Portanto, sabíamos que haveria uma comoção por conta dessa perda súbita entre músicos, jornalistas, e frequentadores habituais do espaço, e claro que nos chateamos com a tragédia, também. 

Todo o arranjo para esse show ter sido produzido, correu nesse sentido da comoção, e o pessoal das bandas, Azul Limão e Dorsal Atlântica, que também participariam, empenharam-se para tudo sair a contento, com a homenagem ao rapaz a se concretizar da maneira que ele mais gostava de viver, ou seja, a produzir shows de Rock no Rio de Janeiro.

O clima de comoção foi total, naturalmente, mas houve também uma vontade muito grande da parte de todos, incluso nós, que nem muita amizade e convivência tivemos com o Raul, de fazer desse evento uma celebração em sua homenagem. E de fato, o foi mesmo.
Jornal Contracorrente, de abril de 1987, publicou a resenha de um de nossos shows no Centro Cultural São Paulo, em fevereiro

A casa lotou, com cerca de oitocentas pessoas presentes, as bandas cumpriram boas apresentações, e claro que houve uma profusão de discursos em memória do rapaz, muito precocemente falecido.

Não tivemos problemas com o calor desta vez, como houvera acontecido em relação à ocasião anterior, para induzir o Zé Luiz a um desmaio em pleno palco.

O relacionamento com as bandas cariocas era ótimo, e fomos muito bem tratados, por ambas. O público carioca também respondeu de forma excepcional, exatamente como houvera sido em 1986, quando de nosso primeiro show ali mesmo, naquele espaço.
Eis acima uma citação à nossa banda, como dentro do rol de clientes de Hélcio Aguirra, guitarrista do Golpe de Estado, que também era um dos melhores técnicos em amplificadores de São Paulo. Revista Mix

No cômputo geral, foi um excelente fim de semana para nós, e nos fez lembrar de nosso embalo pré-Studio V,  ao levar-nos a acreditar que estávamos por retomar o fôlego.

A outra irmã do Zé Luiz que morava no Rio, Eliana Dinola, esteve presente, e foi sempre uma entusiasta da banda e de seus progressos no avançar da carreira. Nessa noite, após o término do show, ao notar que estávamos bem cansados pela maratona de shows empreendida e a viagem no meio dessa logística, ofereceu-nos o seu apartamento no bairro de Ipanema, para descansarmos e seguirmos viagem no dia seguinte, em melhores condições.

Aceitamos a sua gentil oferta, e na contrapartida, a convidamos para jantar conosco. Fomos ao Sagres, da Gávea, restaurante que eu frequentava desde minha segunda passagem pelo Língua de Trapo, em 1983-1984.

Ali no animado jantar, a Eliana Dinola nos disse que não se conformava com a história de nossa rejeição pela gravadora Warner, diante de tantos indícios de que entraríamos, graças às evidências que cercaram a nossa ascensão na carreira, e também pela associação com o Studio V, e o seu suposto poder de influência nesse meandro da indústria fonográfica.

Então, ela propôs que nós a deixássemos intervir, a se portar como a nossa nova produtora. Ela nos propôs fazer uma nova investida por sua conta e mesmo sem ser do ramo, nos convenceu em dar-lhe essa chance, por alguns motivos básicos: 
1) Ela tinha boa articulação; 
2) Forte poder de persuasão, por ter experiência em vendas;
3) Carisma pessoal;
4) Era uma mulher muito bonita.

Bem, ela tinha todos os atributos citados, mas não ser do ramo poderia ser problemático nesse tipo de abordagem, contudo, nós ponderamos: a Sonia tinha experiência em produção teatral, mas no campo da música, não sabia nada, mal a saber distinguir um embuste como Michael Olivier, o cantor popularesco que contratara, com um artista sério. Portanto, falta de conhecimento técnico do assunto, não seria o maior empecilho, mas por outro lado uma mulher charmosa e bonita, com tino de vendedora, poderia surtir efeito... portanto, por que não mais uma tentativa?
Publicada em fevereiro de 1987, essa reportagem repercutiu os melhores shows de 1986. A matéria citou três shows nossos marcantes na ótica da redação, tudo muito animador para nós, porém, cometeu uma gafe, ao publicar uma foto da banda ao vivo, mas de 1984, com a figura de Chico Dias como vocalista, portanto, algo bem defasado nessa altura de 1987... 

Outro ponto, quem nos garantiria que na ocasião da recusa da Warner, fora o Liminha em pessoa que vira o material e o vetara? Pode ter sido um assessor, cuja função seria justamente filtrar abordagens da parte de aspirantes e não tomar assim o tempo do produtor mais requisitado da companhia...

Então, loucura ou não, aceitamos a proposta e deixamos um material com ela, completo, e lhe demos instruções bem básicas para seguir. Ela não precisava entender de arte, música, Rock'n' Roll, tampouco sobre os desdobramentos de tudo isso. Precisava apenas envolver a pessoa mediante o seu poder de persuasão e convencê-la que o "produto A Chave do Sol" era bom, rentável e já mantinha um nome respeitável no mercado, aliás, sem apoio algum de uma gravadora major. Na cronologia da narrativa, eu voltarei a abordar esse assunto, para falar do seu desenvolvimento, que de fato, ocorreu, a provar que ela, Eliana, teve razão em um aspecto: detinha mesmo o seu poder de conseguir ao menos que a ouvissem, para ultrapassar a barreira da recepção no escritório. 

Quando saímos do restaurante e entramos no carro do Zé Luiz, o lendário, Dodge Dart, uma viatura da polícia nos abordou ainda nas imediações da Rua Marquês de São Vicente, perto do Shopping da Gávea.

Foi uma abordagem de rotina em princípio, mas o policial militar começou a engrossar quando notou que não haveria motivo para nos enquadrar em absolutamente nada e o tom da sua abordagem, denunciara o seu desejo recôndito. Então, tanto que investigou que ele achou uma "irregularidade", baseada no código brasileiro de trânsito. Ao olhar de forma cínica para o Zé Luiz, perguntou-lhe quantas pessoas deveriam ocupar os assentos daquele automóvel, segundo constava no documento. Estávamos em seis, isto é, os quatro membros da banda, a nossa produtora, Eliane Daic, e a irmã do Zé Luiz, Eliana Dinola. Mas no documento, estava escrito que o carro comportava cinco passageiros, e o sujeito apegou-se nessa argumentação. Só que o velho, Dodge Dart era o típico carro no padr5ão de uma "barca" norte-americana, ou seja, continha dois bancos inteiriços, ao estilo de um sofá, ou seja, cabia três pessoas em cada banco, aliás, o carro foi concebido para esse padrão, inclusive com a manopla da troca de marchas instalada junto à direção do automóvel.

Bem, a discussão sobre o óbvio, baseado na física em termos de espaço, versus capacidade declarada no documento, esquentou, até que a irmã do Zé Luiz deu um basta na situação, e conclamou o valoroso policial a nos deixar em paz, a encerrar tal insistência em querer nos enquadrar por algo tão discutível, mas claro, a usar de uma argumentação mais sólida, eu diria, que demoveu-o da ideia de nos conduzir à delegacia por conta disso.

No dia seguinte, partimos para São Paulo em tranquilidade, e animados com outra perspectiva que surgira para cumprirmos no mês de abril, todavia, essa história redundou em desdobramentos e que houveram iniciado-se alguns dias antes, inclusive, de fazermos esses três shows que descrevi neste capítulo. Conto a seguir.
Continua...
   

domingo, 28 de junho de 2015

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 370 - Por Luiz Domingues

Livres da ação inócua da parte do Studio V, tínhamos perdido muito embalo gerencial, e o nosso estado emocional então, fora o mais prejudicado nesse período. Havíamos depositado muitas esperanças no trabalho deles, ao considerá-los como credenciados a nos dar o impulso que nos faltara para chegarmos ao nosso objetivo, que foi a ascensão à primeira divisão da música profissional.

Nesse ponto, em março de 1987, tínhamos que nos levantarmos, sacudir a poeira e dar a volta por cima, conforme rezava a sabedoria de Paulo Vanzolini. E mesmo sem a grande animação que norteara-nos no ano anterior, ainda tivemos forças, e o telefone ainda tocava espontaneamente para nós.

E logo de início, tivemos a chance para dar um pontapé em prol dessa nova retomada. 

Sendo assim, através de uma nova investida no Teatro Mambembe, fizemos um bom show, aliás bem animado, apesar de ter comparecido um público aquém do que estávamos acostumados a reunir nesse mesmo espaço.
 
Mediante um patrocínio de última hora, inédito e bem-vindo, uma tradicional loja de instrumentos no centro de São Paulo, nos possibilitou bancarmos um tijolo nas páginas do Jornal da Tarde de São Paulo.   

Aconteceu no dia 19 de março de 1987, com cerca de cento e oitenta pessoas na plateia, portanto a metade da lotação oficial do teatro, no entanto, houve uma razão mais ou menos plausível para não termos lotado o teatro: em pouco mais de um mês antes, havíamos feito uma mini temporada no Centro Cultural São Paulo, portanto, foi um bom um motivo.

Boas oportunidades novas se apresentaram, até rapidamente, e seria uma chance oportuna para retomarmos o nosso embalo. Seriam cinco shows que faríamos em abril, dois em teatro, na cidade de São Paulo, um no Rio de Janeiro, e dois na cidade de Caraguatatuba, no litoral norte do estado de São Paulo.

Primeiro, tivemos então duas datas a cumprir no Teatro Artur Azevedo, um espaço muito bonito e bem estruturado, localizado no bairro da Mooca, na zona leste de São Paulo, e onde já havíamos feito dois shows em 1985. Naquela ocasião, tais datas foram ofertadas pelo empresário, Mário Ronco, no embalo da formação da "Cooperativa Paulista de Rock". A Cooperativa implodiu rapidamente, mas os shows aconteceram e foram bons (ler em capítulos anteriores).

Agora, voltaríamos ao teatro do simpático bairro da Mooca, com mais duas datas. Foi mais uma oportunidade muito positiva que teríamos em compartilhamento com outras bandas, a reviver de certa forma, muitos shows compartilhados que fizemos no passado, principalmente entre 1984 e 1985.


Seriam quatro dias, com a participação de bandas amigas como o Salário Mínimo, Golpe de Estado e Centúrias, e organizados da forma que as quatro bandas se revezassem na formação em duplas para compartilhar shows a serem realizados de quinta a domingo.

Contudo, esse embaralhamento teve problemas para ser construído em sua logística, pois cada banda apresentou dificuldades advindas de suas agendas próprias, e sendo assim, a visar não atrapalhar a predisposição de cada uma, chegou-se a um arranjo final que nos privilegiou, mas apesar desse mal-estar não foi a nossa intenção fazer isso maquiavelicamente para obter vantagem. Portanto, os compromissos de cada banda, levaram o mini festival, a esse arranjo.

Não pudemos tocar no domingo, pois tínhamos show marcado para o Rio de Janeiro, nesse dia. E outras bandas não poderiam tocar na sexta e sábado, pois se apresentariam em outros locais, também.

Portanto, ocorreu que assumimos as datas consideradas melhores, e sem companhia para compartilhar em cada noite. A despeito dessa situação, foram shows bons, no padrão que tínhamos normalmente, com o público a responder bem, e em bom número, mesmo ao se considerar que havíamos feito cinco shows no Centro Cultural São Paulo, bem recentemente, dois meses antes para ser preciso, e ainda mais próximo, um outro, no Teatro Mambembe.

É uma lástima... mas eu não possuo uma única foto desses shows. E shows feitos em teatros, não podem deixar de serem registrados, jamais. Ainda mais mediante um palco tradicional como os dos teatros municipais espalhados pelos bairros de São Paulo, com estrutura padrão de palco italiano, com amplitude, iluminação de qualidade, bons camarins etc. Portanto, é uma pena não haver registros fotográficos de dois shows realizados em um teatro bonito, com a possibilidade das fotos ficarem com o aspecto típico de um "Book Tour" de bandas internacionais.

No dia 10 de abril de 1987, contamos com oitenta pessoas na plateia e no dia seguinte, 11 de abril de 1987, foram cento e setenta pessoas que compraram ingressos.

Fomos descansar após o show da noite de sábado, pois a nossa logística prevista foi construída no sentido de viajarmos para o Rio de Janeiro bem cedo, no domingo, com a intenção de chegar na hora do almoço, e poder relaxar antes do soundcheck no local do show.

Continua...

sábado, 27 de junho de 2015

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 369 - Por Luiz Domingues


Encerrada a temporada no Centro Cultural São Paulo, passamos por uma fase com muitas mudanças no âmbito interno, e por fatores externos, também. Desde algum tempo, já não estávamos a usar o estúdio da produtora, e aqui cabe uma explicação. 

Não foi apenas por estarmos a atravessar um momento pautado por queixas contra a atuação de nossos empresários, no entanto, estava a ocorrer uma ruptura interna entre eles, também.

Por intermédio da Sonia, soubemos que ela e Toninho haviam rompido com Miguel, e portanto, a estrutura toda do escritório, já não nos seria oferecida, mas na prática, não estávamos mais a ensaiar nesse estúdio, há bastante tempo. Os últimos ensaios houveram ocorrido no início de janeiro, entretanto, a nossa insatisfação generalizada para com eles, nos deixara sem ambiente para frequentar o casarão, diariamente, e assim, fomos a nos afastar.

E agora, sabedores que o Studio V se rachara, ficamos oficialmente sem um local de ensaio.
O nosso QG e sala de ensaios, em foto de 1983, com o Zé Luiz em evidência e o Rubens, encoberto. Click: Seizi Ogawa

Rubens ainda tentou readquirir o nosso velho quarto de ensaios, mas a sua família já o havia reformado, e ele agora apresentava um outro uso para a residência dos Gióia. Além do mais, após quatro anos intensos que tiveram com uma banda de Rock a trabalhar diariamente das 15:00 às 22:00 horas, e às vezes aos domingos e feriados, também, não teria sido nem justo que voltássemos a incomodá-los.

A solução para darmos continuidade ao trabalho, foi caseira também. Beto ofereceu a sua residência para ser o nosso novo QG.
Ele morava sozinho em um sobrado amplo, com vários cômodos disponíveis e poderia designar um deles como a nossa nova sala de ensaio.

Em termos de condições técnicas, perderíamos a mordomia de um estúdio profissional, como tivemos por poucos meses no escritório do Studio V, mas não seria nenhum drama, pois a nossa carreira inteira fora forjada em um quarto caseiro, localizado na residência do Rubens, portanto, a falta de recursos no âmbito da vedação acústica, só seria um problema mesmo para a vizinhança. Dias quentes de verão seriam combatidos com eventuais ventiladores, como sempre, e o horário de ensaios, nunca desrespeitaria a Lei do silêncio, para dar trégua aos vizinhos, às dez da noite em ponto. 

Sobre equipamento, tínhamos o nosso humilde "P.A.zinho" que nos últimos meses descansara na residência Gióia, e reativá-lo novamente seria até romântico, de certa maneira. O único problema sobre a casa do Beto, foi em termos de distância. 

Morador do bairro Jardim Bonfiglioli, na zona sudoeste de São Paulo, era na prática, bem longe para mim, principalmente que morava no Tatuapé, zona leste e moderadamente para o Rubens, na Vila Nova Conceição, na zona sul e Zé Luiz, teoricamente o mais próximo, como morador do bairro de Pinheiros, na zona oeste. Bem, tivemos que nos adaptar à nova realidade.

Sobre a nossa associação com o Studio V, queríamos romper, certamente. E agora que o escritório estava fora dos planos, nem precisávamos pedir para sair, mas havia um contrato registrado em cartório e queríamos sair dessa situação, sem pendências jurídicas posteriores. 

Uma reunião foi marcada na casa de Sonia, e o discurso do casal e também de Arnaldo Trindade, o marqueteiro, foi no sentido de que eles queriam prosseguir, mesmo sem o Miguel, e daí que explica-se o fato de que em algumas notas de imprensa sobre a temporada no Centro Cultural, ter saído o nome do Studio V, e entrado "Carlos Magno e Ferraz Associados" a demarcar uma referência ao novo escritório que haviam fundado, e que representar-nos-ia.

Mas nós não queríamos mais trabalhar com eles, e dessa forma, essa continuidade que se deu de fevereiro até meados de março, na verdade foi um período de transição, onde aguardamos a rescisão do contrato formal que tínhamos com o Studio V.

Nessa reunião ocorrida na residência do casal, eles tentaram nos convencer a continuar, e mesmo com o discurso de mais humildade da parte deles nesse momento, não haveria de nos demover de nossa intenção, pois havíamos perdido a confiança no trabalho deles.

Chegaram a propor que o "Núcleo ZT" tomasse as rédeas da banda, e eles acatariam as nossas metas. Ora, isso foi engraçado, pois logo no começo da nossa associação com eles, em uma daquelas reuniões preliminares realizadas com o intuito de conhecer a nossa organização interna, nós falamos ingenuamente sobre a iniciativa malograda do Núcleo ZT, feita em uma produção equivocada realizada em Bragança Paulista-SP e o Toninho quase teve um ataque de tanto que riu e debochou do nosso relato. Agora a solução era a volta do Núcleo ZT?
Bem, podíamos ser completamente despreparados para lidar com produção, mas nunca contrataríamos um artista tão controverso como Michael Olivier para o nosso elenco de contratados, e certamente que não arrancaríamos 40% do cachê de ninguém, e sem uma contrapartida na mesma proporção.

No passado, chegamos a fazer experiências com aspirantes a empresários sem nenhuma estrutura e o resultado houvera sido desastroso. Portanto, tudo o que ambicionamos naquele instante, foi voltar à condição em que estávamos antes de nos envolvermos com o Studio V, e acima de tudo, recuperarmos o embalo sensacional que havíamos conquistado com nossas próprias forças. 
O telefone ainda estava a tocar espontaneamente, mas já não com aquela profusão de meses antes, portanto, urgiu que retomássemos a nossa independência e readquiríssemos dessa forma o fôlego que perdêramos, através da ilusão depositada nos esforços empreendidos pelo pessoal do Studio V.

O marqueteiro, Arnaldo Trindade, tinha uma fala mansa, recheada de bom senso, é verdade e argumentou que apesar dos pesares, seria um retrocesso não termos uma representação profissional doravante. Tecnicamente a analisar, ele teve razão, é lógico. Mas na prática, teria sido preferível do que estarmos associados a Sonia e Toninho, que não teriam meios para nos conduzir a lugar algum pelo seu rol de influências, fora o fato de que não eram confiáveis em vários outros aspectos.

A qualquer momento, começariam a trabalhar com outro artista, para deixar os nossos interesses de lado e a usar o pífio argumento de que graças à sua improvável expansão, teriam meios para trabalhar melhor conosco. Uma desculpa pronta e inócua, é claro.

Além do mais, podiam ter noção sobre o meio teatral, mas no campo da música, eles eram desastrosos, e a qualquer momento apareceriam com um novo, Michael Olivier, para perder tempo e dinheiro.


Arnaldo era um sujeito com boa índole. Nessa reunião, ele levou discos e DVD's para ouvirmos, a tirar a carga de uma reunião tensa. Ele gostava de som vintage, tínhamos essa conexão boa. Lembro-me dele a colocar o LP Survival, do Grand Funk, na vitrola, e nós conversarmos sobre a vibração boa perdida no Rock. Assistimos também um DVD de show do David Bowie ) vídeo oficial da turnê "Serious Moonlight", nessa tarde, e a conversa foi boa.

Ele nos entendia muito melhor, sem dúvida alguma, mas era um publicitário, portanto sem traquejo e nem mesmo vontade de se aventurar como empresário. A aua contribuição seria somente no âmbito das ideias de marketing, mas a derrocada do Studio V, não lhe deu tempo para mostrar nenhum serviço relevante. O que faria com Sonia e Toninho, doravante, seria uma incógnita pela linha de atuação do casal, mas convenhamos, não foi mais a nossa preocupação dali em diante.

Pressionamos então por uma rescisão do contrato e sem ônus, naturalmente, pois não queríamos problemas doravante. E assim se procedeu, ao encerrarmos a nossa associação o com o Studio V.

Nunca conversamos formalmente com o Miguel para esclarecermos os fatos. Após o show que fizemos no TBC, em dezembro, uma única reunião fora feita, e convocada por ele, para analisar o show. Depois disso, novas reuniões que eram super necessárias para estabelecermos novas metas, principalmente no que tangia à busca de outras gravadoras, nunca se realizaram.

Fora um final de relação profissional muito esquisito, portanto, a contrastar com todas as promessas feitas, e sobretudo pela ideia alardeada por eles, de que adentrar o elenco de uma gravadora major seria "fácil" graças à sua condução e prestígio pessoal.

Se havia se aborrecido com a recusa da Warner, e detectado falhas em nosso repertório, material, visual, posturas, ou seja lá o que fosse, teria sido passível de conversas claras para correções, e ação, da parte dele, para batermos rapidamente em outras portas. Mas de forma inexplicável, isso não teve continuidade.

No tocante aos shows, foi a mesma situação. Em seis meses de trabalho, o escritório só produziu um espetáculo com os seus recursos, e um outro vendido para um contratante, portanto, foi uma produção pífia. 

O grande mérito dessa associação houvera sido a oportunidade de gravar uma nova demo-tape, mas a despeito disso ter sido uma ação concreta e positiva, na prática, o trabalho não ficara melhor do que a demo que graváramos em abril com os nossos parcos recursos. 

Se foi por conta disso, a mediana qualidade da demo-tape, que a Warner recusara-nos, talvez fosse o caso de voltarmos ao estúdio e prepararmos mais uma demo-tape, desta feita com mão de ferro do produtor, e material não nos faltou, pois tínhamos muitas músicas novas para escolher a vontade, a observar o padrão Pop a ser perseguido.

Entretanto, o silêncio de Miguel nesse sentido denotou a sua desistência de nossa causa, e ao levar-se em conta de que estávamos também insatisfeitos com a condução dos nossos interesses, tal atitude não nos chocou tanto quanto deveria.

Fiquei anos sem ter notícia alguma sobre o Miguel. Somente ao final dos anos noventa, já na era da TV a cabo a todo vapor, o descobri com um programa na grade de uma modestíssima TV comunitária. Era exibido às sextas, 23:00 horas e mostrava um Miguel bem envelhecido, a comandar um Talk-Show com produção muito simples, a entrevistar artistas, geralmente obscuros e egressos do segundo ou terceiro escalão da Jovem Guarda, ou da música Pop e popularesca em geral.

Apesar de geriátrico e melancólico de certa forma, eu gostava de assistir o seu programa, pois reconhecia em sua persona, os modos aristocráticos que ainda mantinha, e de fato, eu nunca nutri adversidade pessoal dele por conta dessa associação infrutífera que tivemos em conjunto.

A repercutir um ponto futuro, além desta cronologia, em março de 2001, eu estava a atuar como membro da Patrulha do Espaço. O Junior foi convidado a participar de um debate nesse Talk-Show do Miguel, e eu o levei ao estúdio onde era gravada tal atração. Lá, ele participaria junto aos jornalistas: Régis Tadeu e Toninho Spessoto, além de Sérgio Dias, ex-Mutantes, e o guitarrista de uma banda alternativa, chamada: "La Carne".

Nessa ocasião, eu fiquei estupefato, mas ocorreu que Miguel cumprimentou-me, porém simplesmente não me reconheceu! Fiquei discreto ante a situação desconfortável, pois julguei inconveniente levantar tal reminiscência naquele instante.
Eu, Luiz e Rolando Castello Junior a atuarmos com a Patrulha do Espaço, ao vivo em janeiro de 2001

Alguns dias depois, um outro convite de sua produção surgiu, e nessa ocasião, eu em pessoa, e Rodrigo Hid, iríamos ser entrevistados por ele, Miguel, em seu programa. Desta vez, não seria possível que não me reconhecesse, pensei, e comentei com o Rodrigo, certamente. Mas aconteceu novamente...

Tal história está relatada com detalhes no capítulo da Patrulha do Espaço, mais conveniente para retratar fatos ocorridos em 2001, naturalmente.

Para encerrar, depois desses dois encontros ocorridos em 2001, o vi mais algum tempo através desse programa que levava o seu nome como título e há pelo menos uns dez anos, não o vi mais na TV, e perdi a noção de seu paradeiro.

Sonia e Toninho ainda tentaram continuar a nos representar, mas após o rompimento do contrato, formalmente, nos separamos. 

Só fui vê-la novamente, em julho de 1987, aproximadamente, quando ela me entregou enfim algumas fotos promocionais que ainda estavam em sua posse, e material do qual eu já publiquei em capítulos anteriores. Esse encontro com ela foi marcado em uma boite no Rio de Janeiro, em Copacabana, onde ela estava a trabalhar. Foi um encontro educado, mas frio e bem rápido. 

Nunca mais tive notícias dela, posteriormente, e só quando elaborei uma pesquisa básica de internet, a caçar possíveis fotos para ilustrar a minha autobiografia, vi que ela possui perfil na rede social, Facebook, atualmente (2015). Está bem idosa, e se eu achava que ocupava a faixa dos cinquenta anos de idade naquela época, deve ser ou estar próxima de ser octogenária, nesse novo ponto.

O artista "quixotesco", Toninho Ferraz, sumiu do mapa. Não achei absolutamente nada sobre ele na Internet. Sobre Arnaldo Trindade, nunca mais o vi. Espero que tenha sido e ainda seja feliz. Este foi um rapaz bem-intencionado e ponderado.
Clovis, em foto bem mais atual, e que usa no seu perfil da rede social, LinkedIn

Clovis, o técnico de som, também nunca mais o vi depois que rompemos com o Studio V. Pela pesquisa de Internet, descobri que está bem, sendo dono de um equipamento de P.A, e sonoriza shows e eventos em geral por aí. Rapaz muito gentil e de boa índole, fiquei contente em saber que firmou-se como operador de áudio, dono de uma firma de sonorização de espetáculos e eventos em geral e está bem de vida.

A respeito da secretária, Maria Amélia e os seus filhos, a faxineira e o segurança, nunca mais tive notícias. Nem me lembro dos nomes dos últimos dois que citei, mas lembro-me que o segurança do estacionamento era uma figura engraçada, e não escondia de ninguém que achava a namorada do Rubens bonita. A apelidou como: "Nikita", por conta de achá-la parecida com a atriz que atuou no vídeoclip da música de Elton John, com esse mesmo nome, e que fez muito sucesso em 1986. Ele teve razão, a Claudia detinha traços fisionômicos semelhantes com a atriz que interpretava "Nikita", uma linda garota russa. Rubens era ciumento e não gostava nem um pouco dessa liberdade, mas o rapaz nunca extrapolou, portanto, ele suportou essa admiração respeitosa, digamos assim.

Alguns anos depois, o casarão da Avenida Eusébio Matoso foi demolido. Ali, junto aos escombros, o nosso sonho de chegar a um lugar ao sol, também ficou amontoada às ruínas...

Machucados pelo desgaste todo que sofremos e sem nem a metade da animação que tínhamos antes dessa aventura imprudente em jogar as nossas aspirações nas mãos erradas, tivemos apenas uma saída nesse instante: retomarmos o nosso passo, no exato ponto de onde estávamos anteriormente. E assim o buscamos, mas perigosamente com o tanque de combustível abaixo da metade, eu diria, pois a perda emocional, e sobretudo a gerencial, foi grande. E assim prosseguimos...
No Centro Cultural São Paulo, em fevereiro de 1987, Dinola e mais uma de suas criações: os óculos iluminados por leds verdes...

Continua...