segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Autobiografia na Música - Pedra - Capítulo 83 - Por Luiz Domingues

O início de 2007, foi marcado por uma diminuição drástica de agenda. Todo o embalo bom de 2006, pareceu haver esvaído-se e eu só não digo que a fase foi de total baixa, por conta de ainda termos as boas notícias de que a música: "Sou Mais Feliz", ainda tocava com frequência em uma emissora de rádio e que matérias & resenhas estavam a serem publicadas em revistas e jornais, ao apoiarem a divulgação do primeiro CD lançado.

A falta de uma empresário ainda pesara e assim, desprevenidos nesse sentido, não tivemos como aproveitarmos o "momentum" positivo das ondas altas, e quando elas quebravam na areia, para movimentá-las novamente, seria quase como um começar tudo de novo. 

Todavia sem desânimo, aproveitamos para concentrarmo-nos em ideias novas e de fato, uma nova safra de músicas foi a surgir, para começar a insinuar um novo álbum, ainda que no início de 2007, tal projeto fosse algo diáfano.

O primeiro show do ano, estava marcado apenas para o mês de março, mas de uma forma inusitada, eis que nos surpreendemos quando uma oportunidade apareceu para que em fevereiro fizéssemos um show, sem muito tempo prévio para planejar, mas aproveitamos para colocar em prática, uma ideia que já tínhamos anteriormente.

Pensamos em unir três modalidades artísticas em um só espetáculo, a criarmos um autêntico "happening sessentista". E dessa forma, nós tocamos, a dividirmos o palco com uma outra banda, mas também com intervenções teatrais com atores e performances de um artista plástico genial, a pintar ao vivo, simultaneamente. 

Foi corrido, mas tornou-se um dos shows com mais atrativos visuais que fizemos e sobre o qual, eu conto a seguir.

Continua...

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Os Barcos - Por Marcelino Rodriguez


Durante anos, a música "Ships", da trilha da Novela Água Viva, trazia-me a imagem dos barcos da praia de Botafogo. 

E ficava dentro de mim algo me incomodando, como um sonho vago e indefinido. A imagem do ator que pegava o barco e ganhava o mar, deixando tudo para trás, sugeria-me uma fantasia vaga.
 

Um dia, finalmente, nasceu o poema “Os Barcos”.

Acredito que um dos mais inspirados da minha vida, pois sempre que passo pela Praia de Botafogo, até hoje, meu olhar se vai ao longe, sonhando, sonhando.
 

Só que aconteceu o inacreditável: um maldito vírus comeu o poema que, sem dúvida, foi um dos que mais demoraram a tomar forma, posto que muitas, a imensa maioria das minhas composições são instantâneas. Esse poema definitivo, que levou mais de década, perdi-o, como tantas outras coisas que já perdi.  

Não sei se tenho forças para tentar reescrevê-lo.
 

Algumas batalhas na vida eu já desisti por cansaço.
 

De qualquer modo, há uma magia entre eu e os Barcos da Praia de Botafogo, uma espécie de promessa de que um dia serei livre para poder estar ali, eu, os barcos e o infinito mar! 


Crônica extraída do livro "Mais Vazio que o Paraíso"



Marcelino Rodriguez é colunista ocasional do Blog Luiz Domingues 2. Escritor de vasta e consagrada obra, aqui nos traz uma crônica de seu livro "Mais Vazio que o Paraíso, lançado em 2002.

Fala sobre como a imagem de um barco o inspirou a escrever um poema, e como este se perdeu de forma efêmera, lhe trazendo a incerteza sobre ter tal epifania novamente, um dilema para todo artista, certamente.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Autobiografia na Música - Patrulha do Espaço - Capítulo 239 - Por Luiz Domingues

Rodrigo Hid a posa como garoto propaganda do estúdio fotográfico da fotógrafa, Ana Fuccia, esta a se mostrar como nossa amiga, e que muitas vezes fotografara-nos (Patrulha do Espaço), ao vivo.

O ano de 2002 foi bom para a banda, não resta dúvida. O advento do ônibus próprio possibilitou a organização das mini-turnês, ao permitir com que a nossa agenda fosse farta em alguns momentos do ano, e claro que a despeito de estarmos a excursionar sob um padrão underground, portanto, bastante sofrido, e não como gostaríamos e merecíamos, o fato é que nos forjamos como uma banda de Rock na estrada, a driblar todas as adversidades.
Ainda tivemos muitas matérias a repercutir o surgimento do álbum Chronophagia, que reluzia vivamente, mesmo dois anos depois de lançado, ao nos dar a impressão de que foi uma prova viva de sua força expressiva, artisticamente a falar.

Isso deu fôlego para que o atraso que tivemos para lançar o segundo álbum de nossa formação, não nos oprimisse. Com o CD Chronophagia ainda a suscitar assunto, essa expectativa por um novo disco não foi gerada entre os fãs e críticos, e dessa forma, só nós sabíamos que tínhamos um apanhado de novas e boas canções para lançar. 

Foi um ano em que ensaiamos pouco também, pois o ritmo frenético de shows nos manteve bem preparados para tocarmos ao vivo e como já tínhamos um álbum novo inteiramente pronto para ser lançado, também não nos preocupamos em compormos novas músicas, fator que só aconteceria novamente em 2003. Portanto, a nossa meta principal para 2003, foi manter o padrão da agenda, e expandi-la, se possível, ao lançarmos um novo álbum.

Como último fato de 2002, um pouco antes do Natal, nós recebemos o convite do guitarrista, Xando Zupo, para participarmos de seu álbum solo, que chamar-se-ia: "Z-Sides". A nossa participação dar-se-ia com duas faixas, uma autoral e a outra, a se tratar de uma releitura de uma música oriunda do repertório da banda norte-americana setentista e que todos gostávamos: "James Gang".

Claro que aceitamos o convite, e logo no início de 2003, teríamos esse compromisso de gravação que muito nos honrara e ofertar-nos-ia prazer.

Continua...

Autobiografia na Música - Patrulha do Espaço - Capítulo 238 - Por Luiz Domingues

A não ser que algum encaixe de última hora ocorresse, este seria o último show de 2002, e assim fomos para Santo André-SP, na região do ABC paulista, já em clima de fim de turnê, e expectativa sobre os novos ventos que 2003, trariam à banda. 

A situação sobre esse show de Santo André-SP foi a seguinte: tratara-se de um show produzido por Vania Cavalera, mãe dos irmãos Cavalera, fundadores do grupo de Heavy-Metal, Sepultura, em parceria com uma motoclube bastante famoso no ABC, o "Abutres", e com apoio da Secretaria de Cultura Municipal de Santo André.

O local, foi o Parque da Juventude, uma gigantesca área livre, com um palco fixo construído de alvenaria e enorme, preparado para abrigar shows, comícios políticos, concentrações religiosas e festas em geral.

Chegamos cedo ao local a cumprir a nossa logística, e havíamos combinamos que pelo menos um carro particular acompanhasse o nosso ônibus, para que voltássemos para São Paulo para almoçar e tomar banho, visto que no local não havia estrutura para tal, com os camarins muito simples, apenas para se aguardar por poucos momentos no antes e pós show, mas sem conforto para uma longa jornada. 

O parque em questão fica muito próximo do estádio Municipal da cidade, onde o time profissional do Santo André manda os seus jogos, e também perto do "Aramaçan", um tradicional clube que tem história na realização de shows de Rock, incluso internacionais (eu mesmo havia assistido o Deep Purple, ali, uma vez, em 1997).

Ainda durante a realização do soundcheck, eu notei a presença do produtor cultural da Secretaria municipal de Cultura de Santo André, um rapaz apelidado como: Lela. Eu o conhecia desde 1984, quando estava a atuar com o Língua de Trapo e desde essa época, ele criara um bordão, sempre que me via: -"estou a te dever um show"...

Isso para fazer alusão ao fato de que ele houvera me prometido um show produzido pela Secretaria, no caso para A Chave do Sol, a minha banda em paralelo ao Língua de Trapo na ocasião, e que nessa época, apresentava sinais de grande ascensão na carreira. 

O tempo passou, eu atuei por outras tantas bandas e ele continuou a repetir essa afirmação sempre que me encontrava, mas o fato é que essa data nunca aconteceu, apesar das inúmeras vezes em que o procurei na Secretaria municipal de cultura de Santo André, para levar-lhe material de praticamente todas as bandas por onde estive a atuar (inclusive da Patrulha do Espaço) e... nada...

Assim que me viu, Lela veio com essa clássica afirmação em tom de bordão, quase humorístico, mas ele não falava isso para fazer graça, mas sim com um certo pesar por estar em dívida comigo há quase trinta anos. Entretanto, eu logo fui a lhe dizer que aquele show em específico não quitava a sua dívida para comigo, pois o convite para participarmos com a Patrulha do Espaço, havia partido da Vania Cavalera, portanto, ele ainda me "devia" uma data em algum teatro ou evento produzido pela Prefeitura de Santo André. 

Bonachão, ele concordou comigo e até no tempo do Pedra, muitos anos depois, eu cheguei a procurá-lo para efetuar essa cobrança, mas essa data nunca veio, e como o reinado do partido em que ele era comissionado pelo seu cargo, encerrou-se em Santo André, doravante é que não iria mesmo acontecer, com outro secretário, e outra equipe a dominar a secretaria.

                    O presidente do Motoclube Abutres, Pateta

A ideia desse festival em específico, seria homenagear o presidente do moto-clube "Abutres", um sujeito conhecido como: "Pateta". Outras bandas tocariam também: "Anjo da Guarda", "Montanha" e "Caça-Níqueis". Eu só não conhecia o "Anjo da Guarda". Haviam mais duas bandas relacionadas, mas estiveram canceladas as suas apresentações. 

O "Montanha" era/é, uma boa banda com orientação Hard-Rock setentista, e cujo baterista, Marcelo, fora roadie em uma etapa da nossa turnê da Patrulha do Espaço, a sofrida fase do azar, ocorrida em fevereiro daquele mesmo ano. Já o guitarrista, Jean, era dono de uma das melhores lojas de CD's de Santo André, onde eu mesmo vendera muitos discos da Patrulha do Espaço e cuja fachada era pintada a reproduzir a capa do segundo disco do grupo britânico setentista, "Captain Beyond" (LP "Sufficiently Breathless", de 1973), para chamar a atenção entre Rockers bem antenados.

E quanto ao "Caça-Níqueis", eu conhecia o trabalho desses músicos há anos, e sabia que era uma banda ligada em Rock'n' Roll visceral e muito adequada para o ambiente dos Moto-Clubes e de fato, era considerada uma banda "oficial" dos Abutres, escalada sempre em seus eventos, como nesse caso. 

O "Dr. Rock", aquele simpaticíssimo agitador cultural do ABC, faria a apresentação do evento e esteve uma tarde ensolarada, portanto, teve tudo para atrair uma multidão, visto que a entrada foi gratuita.

Quando voltamos de São Paulo, o "Montanha" já tocava e eu apreciei o som deles, que era um Hard-Rock bem setentista e competente, tocado com raça e técnica.

A seguir foi ao palco o "Anjo da Guarda", que também apresentava características de Hard-Rock setentista, e eu apreciei, ao assistir a apresentação dessa rapaziada, da coxia. 

Nuvens negras começaram a aparecer no horizonte e o panorama começou a mudar. Víamos pessoas a se retirarem aos montes do Parque, na medida em que a chuva parecia ser inevitável e isso nos aborreceu, pois temíamos contar com um público muito reduzido quando chegasse a nossa vez, e nós fomos o "headliner" do festival.

          Capa de um CD de trabalho autoral do Caça-Níqueis

Finalmente o "Caça-Níqueis" entrou no palco e fez o seu show cheio de energia Rocker e com a extroversão do vocalista, "Beleza", que sabia se comunicar com o público, principalmente essa tribo de moto-clube, aliás, a se pensar nessa banda em específico, foi o seu principal nicho de atuação.

Começou a chover, mas não chegou a ser uma tempestade como todo mundo imaginou que seria. Mesmo assim, claro que afugentou muita gente que ali estava, infelizmente.

Foi por volta de quase sete da noite quando finalmente entramos no palco. Com o horário de verão, fora ainda o crepúsculo, mas a chuva parara. Porém, fatalmente o grosso do público se esvaíra e nesse momento nos restara tocar para um reduzido público, que chegou a ser desagradável, mas afinal de contas, nós fomos vítimas das circunstâncias ali.

A despeito disso, fizemos o nosso show praticamente normal e sem nos importarmos com o pouco público presente em meio a um ambiente que poderia comportar milhares de pessoas, e nesse caso, com poucos gatos pingados que não temeram a tempestade, e ficaram para nos ver em ação. 

Uma equipe de cinegrafistas filmou muitos trechos desse show, e que eu saiba, editou apenas uma música e nos deu uma cópia em formato VHS, na época. Trata-se da execução de: "Não Tenha Medo", música de abertura do nosso show, desde 1999. Há uma qualidade razoável de imagem e áudio, e já está digitalizado, portanto, a qualquer momento vai ser postado no YouTube. 

Aconteceu no dia 14 de dezembro de 2002, sábado, e último show do ano para nós. Pelos cálculos da Polícia Militar, cerca de duas mil pessoas estiveram ali no horário de pico, mas quando subimos, haviam cerca de trezentas apenas, ao nos revelar uma visão desalentadora e ao final, já escuro, havia-se reduzido ainda mais, ao ficarem apenas poucos presentes, infelizmente.

Dali em diante, a meta foi entrar com tudo em 2003, e com a perspectiva de um disco novo a sair do forno, finalmente.

Continua... 

Autobiografia na Música - Patrulha do Espaço - Capítulo 237 - Por Luiz Domingues

No dia seguinte, voltamos à Rio Claro-SP, uma cidade que já havíamos visitado anteriormente. Neste caso, tratou-se de uma casa que já havíamos tocado em 2001, chamada: "Kenoma", mas na verdade quando tocamos anteriormente, a casa se chamava, "Monkey", ao criar uma referência ao dono do estabelecimento que atendia pelo apelido: "Macaco". Não mudara apenas o nome do estabelecimento, mas o "Macaco" havia feito uma boa reforma na casa, inclusive ao mudar o posicionamento do palco e também ao melhorar o equipamento.

O que não mudara foi o espectro da casa, mais afeita às apresentações das bandas covers, e assim a atrair uma juventude não Rocker em essência.

Tudo bem, foram o ossos do ofício, estávamos vacinados com shows assim não tão confortáveis, e além do mais, houve ali mais uma vez a velha praxe: sempre apareciam Rockers e fãs específicos da banda, ainda que em menor contingente, em casas assim, frequentadas por jovens burgueses.  

Não ficaríamos hospedados em hotel, pois o objetivo por nós traçado foi voltar para São Paulo imediatamente após o show, e dali, a distância da capital é de apenas cento e oitenta Km, aproximadamente.

Dessa forma, após o soundcheck, quase todos resolveram passear pela cidade e eu fiz o mesmo, ao me dirigir à enorme Praça Central, super arborizada e ali localizada bem perto da casa noturna em questão.

De volta e ainda ao se constatar ser muito cedo, alguns foram dormir dentro do nosso ônibus, enquanto eu e nosso roadie, Samuel, preferimos ficar do lado de fora do ônibus, a conversarmos, sentados na calçada. Foi quando percebemos a chegada de uns três ou quatro garotos de bicicleta. Não pareciam ameaçadores, mas falavam com gírias típicas de malandros urbanos, ao se parecerem com autênticos marginais que agem nas grandes cidades. Um deles encostou uma bicicleta na parede e pediu-nos para tomar conta dela, enquanto iria supostamente comprar alguma coisa no comércio próximo e voltaria a seguir para resgatá-la. 

Incautos, eu e Samuel não detectamos nenhuma segunda intenção por trás desse aparente pedido, e lhe dissemos que tudo bem, que poderia ir, que ficaríamos ali a guardar a sua bicicleta

Os garotos partiram e a bicicleta ficou ali escorada na parede sem que suspeitássemos que algo desagradável estaria por acontecer...

Foi quando subitamente uma outra horda de malandros infanto-juvenis se aproximou, também montados em bicicletas, e o que pareceu ser o líder mais impetuoso abordou-nos com uma petulância incrível, a usar daquela verborragia incompreensível e até engraçada por conter aquelas gírias usadas por meliantes que atuam nas grandes cidades, porém, com forte sotaque interiorano.
Demorou um pouco para entendermos o que o energúmeno dizia e sobretudo, o que desejava, e a conversa se revelou sobre a tal bicicleta que o outro rapaz deixara, ser supostamente "roubada", e que ele a reivindicava. Por nos tomar como envolvidos nesse imbróglio, eles ficaram ali a nos pressionar para levarem a bicicleta embora e nesse ínterim, quando finalmente o seu suposto dono chegou com os seus amigos, a verborragia acirrou-se entre eles, e eu e Samuel tememos pelo pior, com uma briga a estourar nas vias de fato e nós ali no meio desses imbecis, sem ter nada com isso. Só me lembro que o mais impetuoso deles, não parava de repetir a frase:

-"Vamos trocar um proceder"...

E claro que o real significado dessa frase metafórica foi incompreensível para nós, ao se tratar de alguma expressão idiomática, quase um dialeto do universo paralelo em que eles viviam.

O Marcello, que estava a dormir dentro do ônibus, ficou muito irritado com aqueles sujeitos ali a gritar, e então ele saiu à janela a xingá-los, mas eles nem perceberam que o seu impropério fora desferido diretamente para eles, e ainda bem, pois se a discórdia fora entre eles, por conta da provocação, eles poderiam nos incluir na confusão e partirem para a depredação do nosso ônibus etc.

Bem, por sorte, o imbróglio ficou entre eles mesmo, a caracterizar uma rixa entre gangues rivais e assim, tais garotos partiram a se xingar, e nos deixaram em paz, e se brigaram, deve ter ocorrido longe, pois os perdemos de vista.

Depois desse evento sintomático, eu e Samuel ficamos a conversar sobre como o interior estava também contaminado por essa mentalidade e simplesmente não havia mais a pacata paz interiorana, infelizmente.  Alheios à essa situação bizarra e gratuita pela qual passamos, o restante da comitiva dormia e nem percebeu o perigo, a não ser o Marcello que se irritou, e os demais estavam a passear na aprazível praça gigante do centro, ali próximo.
Bem, passado o aborrecimento foi a hora do Rock, naturalmente

Apesar da casa estar completamente abarrotada por um público aparentemente não Rocker, o show foi bem quente e ao final, houve um assédio forte da parte de fãs a caçarem autógrafos e que nos fez ver que tocar naquela casa supostamente não adequada, fora algo ilusório.

Chegamos em São Paulo por volta das quatro e meia da manhã, e a sensação foi de cansaço, mas também de dever cumprido e satisfação pelas duas apresentações desse final de semana, que nos deram alegrias e muita sincronicidade com o público em ambas.

Aconteceu no dia 7 de dezembro de 2002, no Kenoma Bar de Rio Claro, e com cerca de trezentas pessoas na plateia. 

A próxima parada foi em: Santo André-SP, no Grande ABC.
Continua...

Autobiografia na Música - Patrulha do Espaço - Capítulo 236 - Por Luiz Domingues

O nosso próximo compromisso dar-se-ia no dia 6 de dezembro, quando iríamos à cidade de São Carlos-SP, uma localidade com forte tradição Rocker, onde já havíamos nos apresentado anteriormente com expressivos resultados, e por conta dessa experiência pregressa, havíamos adquirido a confiança, certeza, eu diria, de que ali havíamos conquistado fãs fiéis do nosso trabalho.  

Fora a questão de termos muitos amigos de bandas antenadas em nossa vibração "Chronophágica", casos de: "Homem com Asas" e "Tarja Preta". E seria com elas mesmo que contaríamos como bandas de abertura nessa noite.

O local seria um galpão de um Centro Acadêmico de estudantes da USP - Campus São Carlos, chamado: "CAASO", uma sigla a designar o nome de um homenageado relevante para a instituição.
Tratava-se de um galpão rústico, mas com um palco bem razoável, muito maior do que a maioria das casas noturnas com as quais estávamos a lidar durante a turnê inteira de 2002, e eles tinham um PA respeitável e um sistema de iluminação regular, que daria para o gasto, ao nos dar a oportunidade de fazermos um show muito digno, e com uma pressão sonora para lá de boa para o tamanho do salão. 

Ouso dizer que a capacidade sonora ali foi até demais, e que seria prudente reduzir um pouco o volume das potências que alimentavam tal PA, para não massacrar os tímpanos do público. Chegamos na cidade sem problemas, ao fazermos uma viagem tranquila, sem incidentes. 

Fomos direto para um hotel muito confortável e pertencente à própria USP e que possivelmente seria um hotel escola do curso de hotelaria, desconfio, mas não tenho essa confirmação. Só sei que era muito confortável, com serviço ótimo e ficava fora do campus, mas localizado em uma rua com acesso a um dos portões, portanto, mediante uma rápida e prazerosa caminhada por dentro do campus bem arborizado, chegava-se ao tal, CAASO, em menos de dez minutos.

No Caaso - Campus da USP de São Carlos-SP, com alguns membros  das bandas Homem com Asas e Tarja Preta, nossos amigos, na hora do soundcheck

A montagem do som após o almoço, foi extremamente tranquila e amigável, com tantos amigos dessas bandas citadas ali presentes e solícitos ao extremo para auxiliar-nos. O técnico de som também era um estudante da USP e além de ambientado com o local, foi muito rápido para microfonar tudo e estabelecer uma equalização muito boa, a nos dar um conforto sonoro excelente na monitoração. 

Voltamos para o hotel e tudo correu sob uma tranquilidade total, dentro do cronograma, ao nos dar margem para relaxarmos. Um grupo de fãs veio de Ribeirão Preto-SP e nos abordou no hotel. Adoravam a Patrulha do Espaço, haviam nos visto na semana passada em sua cidade e resolveram ver de novo, visto que São Carlos dista cerca de 80 Km apenas de Ribeirão Preto.

Danilo Zanite, atual guitarrista da Patrulha do Espaço, 2015

Como foi um show marcado por uma produção caseira, digamos assim, o Luiz Barata se prontificou a ser o bilheteiro, e apesar de cumprir a sua função com muita boa vontade, lamentou que assim perdesse o show da banda de abertura, "Homem com Asas" e boa parte da segunda banda da noite, a também boa, "Tarja Preta". 

Ironia do destino, das fileiras do Tarja Preta sairia o guitarrista da Patrulha do Espaço que está na banda desde 2007 ou 2008, não sei ao certo, até os dias atuais, 2015: Danilo Zanite, que é um ótimo músico e também uma pessoa muito gentil. 

O nosso show foi um delírio (no ótimo sentido), eu diria. São Carlos era definitivamente uma cidade Rocker e quase todos ali eram universitários, a estudarem na própria, USP, ou estudantes da Universidade Federal de São Carlos, a Ufscar.

Um painel com fotos da cantora, Carla Viana, publicado no Blog do Juma, meu amigo do Paraná, e que abriu-me as primeiras portas na internet para eu começar a escrever, em 2011 

Carla Viana, a vocalista ribeirãopretana de timbre grave e beleza incrível, apareceu e participou conosco, e na última música ocorreu uma verdadeira "Sbornia" que ali instaurou-se, com músicos das três bandas a se misturarem no palco para uma versão kilométrica e  repleta de solos para a nossa clássica canção: "Columbia". 

Mesmo acostumado a lidar com potência sonora de shows de Rock, eu devo salientar que nessa noite eu saí do palco com "tinitus" (aquele zumbido agudo e típico de quem suportou muita carga sonora e permanece depois no silêncio a ouvi-lo por um tempo indeterminado, após um ataque sonoro de muitos decibéis). 

Sem preocupação com a vizinhança, dentro do campus vazio da USP e com apenas os guardas da segurança em portões distantes, o volume foi muito grande, fora os urros dos Rockers ali presentes. A parafrasear a música do grande guitarrista argentino, Eduardo Depose, que é autor de um clássico do repertório da Patrulha do Espaço, foi uma autêntica: "Festa do Rock!" Nesse final apoteótico, vimos pessoas a dançarem em cima do balcão da cantina do salão e definitivamente, elas estiveram a "botar os Ya-Yás para fora" como diria, Charlie Watts, montado em seu burrinho.

Foi um dos shows mais energéticos que a Patrulha do Espaço realizou em 2002, sem dúvida e nesse ano, houveram muitos dessas características.  Aconteceu em 6 de dezembro de 2002, com duzentas e cinquenta pessoas presentes no local.

No dia seguinte, iríamos a uma cidade próxima e que também já havíamos visitado em duas ocasiões anteriores: Rio Claro-SP.

Continua...

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Autobiografia na Música - Patrulha do Espaço - Capítulo 235 - Por Luiz Domingues

Antes de falar sobre os próximos shows e viagens, conto uma história curiosa, ocorrida nessa época mais ou menos, entre novembro e dezembro de 2002.  Geralmente sabíamos que alguma reportagem, entrevista ou resenha sairia publicada na imprensa escrita, pois a abordagem pessoal dos jornalistas pressupunha isso, logicamente, ou em época de divulgação de disco, resenhas eram publicadas quase simultaneamente em diversas publicações, e nós as aguardávamos de antemão. 

Vez por outra, éramos surpreendidos com alguma nota que saía sem aviso, e que descobríamos por acaso ou geralmente avisado por terceiros que haviam visto. Muitas peças do meu portfólio pessoal vieram da parte de parentes e amigos que as viram e me doaram, sem que eu desconfiasse que haviam sido publicadas. Isso por que éramos artistas a militar no underground da música profissional, pois artistas que estão no mainstream gozam de mordomias múltiplas que não tínhamos, como por exemplo, o apoio de uma assessoria de imprensa pessoal, e com serviço de "clipagem". 

Para quem não sabe do que se trata, digo resumidamente que "clipagem" é um serviço de investigação, onde se caça tudo o que sai ao seu respeito na mídia impressa e nos dias atuais, a estender-se às plataformas virtuais de internet. Depende do bolso de cada um traçar a meta de alcance, e existe clipagem de padrão internacional e implacável, que vai achar material que saia a lhe mencionar, em qualquer lugar do mundo, mas claro, isso é caríssimo e somente grandes astros conseguem bancar um serviço caro dessa monta. Mas uma clipagem bem mais modesta e mais barata, garante o básico que se espera. 

Não era o nosso caso, e só tivemos assessoria pontual, mas sem clipagem, por alguns momentos, quando contamos com o apoio de dois jornalistas de peso a escrever releases, casos de Luiz Chagas da revista "Isto é" (este é também um grande guitarrista que atuara nos anos sessenta e setenta e é pai da cantora, Tulipa Ruiz), que assinou o release oficial do CD Chronophagia, e Dum de Lucca, da Revista Dynamite, que assinaria o release do álbum .ComPacto, que lançaríamos em 2003, enfim. 

Fora disso, contávamos com os esforços do Rodrigo Hid que muitas vezes usou um pseudônimo para agir como assessor de imprensa da banda, e graças à tais ações, ele articulou com sucesso, muitas notas em jornais e revistas, certamente. 

Portanto, sem uma assessoria profissional, e muito o menos serviço de "clipagem", algumas vezes éramos surpreendidos positivamente, e foi o que ocorreu quando ao examinar a banca de jornais perto de casa, eu deparei-me com uma revista nova chamada: "Rock Made In Brazil", e que continha uma matéria gigante sobre a Patrulha do Espaço, ao narrar a sua história até os então dias atuais, recheada com fotos, inclusive algumas inéditas de nossa formação em plena voga. 

Comprei-a naturalmente, espalhei a notícia para os demais companheiros imediatamente, e claro que nós apreciamos muito essa reportagem inesperada e bem escrita, por sinal.

Por ter ficado longa e tão recheada de informações precisas, só poderia ter sido escrita por um jornalista que tinha esse costume de escrever longas resenhas de discos e shows, um Rocker muito apaixonado pela causa, chamado: Marcos Cruz, que era colaborador do Site/Portal Wiplash, um dos maiores do país em termos de Rock, ainda que eu ache que o carro-chefe desse veículo seja mesmo o Heavy-Metal. 

Marcos Cruz escrevera duas resenhas maravilhosas sobre a Patrulha do Espaço, em 2000, uma delas a repercutir o lançamento do álbum Chronophagia, e uma outra, a se tratar de uma resenha de um show nosso que assistira em Avaré-SP, a sua cidade, onde inclusive conversamos muito, pessoalmente, e eu pude lhe expor todo o conceito com o qual essa formação da Patrulha do Espaço houvera  sido construída.

E não deu outra, a tal revista "Rock Made in Brazil" teve como editor, ele em pessoa, e assim esteve explicado tamanho capricho em sua edição. Eis abaixo, as páginas de tal publicação:

Ao se basear no texto contido nos encartes da série de coletâneas denominada: "Dossiê", com tal escrita a contar toda a história da Patrulha do Espaço e discografia (com exceção dos dois discos com Arnaldo Baptista na formação, que pertencem à gravadora/editora Warner), mais a resenha do álbum Chronophagia, e do show de Avaré-SP em julho de 2000, escritas por ele mesmo, Marcos Cruz, formou-se assim o texto base dessa extensa reportagem.
 
E o Marcos ainda introduziu uma pequena história, ao descrever a emoção de um fã declarado da nossa banda e que também gostava de uma banda minha da década de oitenta, A Chave do Sol, e com direito a foto do rapaz em questão, comigo.
 
O meu único senão para essa reportagem foi a publicação na capa de um foto de uma formação insignificante da banda. Entendo que houvessem dificuldades técnicas para colocar uma foto melhor na capa, mas a escolha foi absolutamente infeliz, pois aquela formação, com apenas o Rolando Castello Junior da formação original e dois rapazes que fizeram três ou quatro shows sazonais em 1998, não teve significado histórico algum para a banda e tais músicos apenas preencheram uma lacuna em uma fase em que a banda esteve parada, e cumpria shows sazonais e com músicos de ocasião para suprir uma necessidade premente. 
 
Se não dispunham de fotos da nossa formação que era o presente ativo da banda na ocasião, melhor teria sido colocar uma da fase com Arnaldo Baptista ou melhor ainda, a fase de ouro do trio clássico dos anos 1980: Dudu, Serginho & Junior. E como plano "D", a capa de algum álbum importante da banda, menos aquela foto com aqueles rapazes que nada criaram com a banda. Enfim, ninguém é perfeito... 
 
Bem, foi uma grata surpresa ver tal revista estampada nas bancas e claro, foi um bom reforço à nossa divulgação permanente.
Continua....