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sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Os Barcos - Por Marcelino Rodriguez


Durante anos, a música "Ships", da trilha da Novela Água Viva, trazia-me a imagem dos barcos da praia de Botafogo. 

E ficava dentro de mim algo me incomodando, como um sonho vago e indefinido. A imagem do ator que pegava o barco e ganhava o mar, deixando tudo para trás, sugeria-me uma fantasia vaga.
 

Um dia, finalmente, nasceu o poema “Os Barcos”.

Acredito que um dos mais inspirados da minha vida, pois sempre que passo pela Praia de Botafogo, até hoje, meu olhar se vai ao longe, sonhando, sonhando.
 

Só que aconteceu o inacreditável: um maldito vírus comeu o poema que, sem dúvida, foi um dos que mais demoraram a tomar forma, posto que muitas, a imensa maioria das minhas composições são instantâneas. Esse poema definitivo, que levou mais de década, perdi-o, como tantas outras coisas que já perdi.  

Não sei se tenho forças para tentar reescrevê-lo.
 

Algumas batalhas na vida eu já desisti por cansaço.
 

De qualquer modo, há uma magia entre eu e os Barcos da Praia de Botafogo, uma espécie de promessa de que um dia serei livre para poder estar ali, eu, os barcos e o infinito mar! 


Crônica extraída do livro "Mais Vazio que o Paraíso"



Marcelino Rodriguez é colunista ocasional do Blog Luiz Domingues 2. Escritor de vasta e consagrada obra, aqui nos traz uma crônica de seu livro "Mais Vazio que o Paraíso, lançado em 2002.

Fala sobre como a imagem de um barco o inspirou a escrever um poema, e como este se perdeu de forma efêmera, lhe trazendo a incerteza sobre ter tal epifania novamente, um dilema para todo artista, certamente.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

A Poesia do Tempo - Por Marcelino Rodriguez

Em algum lugar do tempo antes de entrar nos anos oitenta. 

O lugar, entre Campo Grande e Santíssimo. A casa, grande. Nela, eu, meu padrasto, minha mãe. Ali, vivemos um tempo feliz.
    
Minha vida estava no verão.
Na frente de minha porta, havia um terreno cercado de mato verde, onde um bando de pássaros vermelhos, os biquinhos de lacre, faziam uma orquestra diária. Algumas vezes, meu padrasto me levava com minha bola ao campo de futebol, onde trocávamos passes. Eu estava abrindo os olhos para o mundo misterioso.
    
Certas canções me tiravam da pele.
      
Eu era filho daquela natureza.  

E, se tudo não bastasse de intensidade, havia os biquinhos de lacre.
       
Eu simplesmente amava aqueles pássaros. 

Havia-os.


Marcelino Rodriguez é colunista sazonal do Blog Luiz Domingues 2.
Escritor de vasta e consagrada obra, aqui nos apresenta uma crônica curta, extraída de seu livro : "Mais Vazio que o Paraíso". De forma poética, nos fala sobre o tempo remoto que não volta mais, e onde personagens de outrora, jamais estarão novamente em parte alguma, a não ser na memória.

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Lágrimas de Março - Por Marcelino Rodriguez

Hoje gostaria de escrever uma lágrima, ou pintá-la. 

Que fosse redonda, substancial, lenta de cair, dependurada nos olhos. 

Sim, eu queria chorá-la. 

A sinto em mim, mas ela teima em não nascer do guerreiro cansado. 
Meu corpo pesa como asas molhadas no temporal. 

A última ternura que veio, fora de meus cães, tão distante vai que esqueci-me. 

No mundo da escuridão, os filhos de Deus sofrem para crescer entre os demônios humanos que de tudo tomam conta e sabem, menos do amor e de amar, primeiro e segundo mandamentos ignorados. 

Essa lágrima, se caísse, seria dádiva.

Qualquer mulher a choraria, fácil, fácil. Todavia, em mim ela seca, oprime, em vão pedindo libertar-se. 

Um pouco mais sairei para os combates, com meu coração invisível aos olhos, apodrecendo seus tesouros subutilizados. 

Amor e alegria, ambos crucificados no tempo. 

Porém, é preciso por o site no ar...

E a mulher do sonho da noite, que me fitava com admiração ? 

Ah, era apenas um sonho, e nos tempos que correm, cada vez os sonhos são apenas sonhos, nada mais. 
 
Texto do livro "MAIS VAZIO QUE O PARAÍSO
Marcelino Rodriguez é sazonal fixo do Blog Luiz Domingues 2. Escritor de vasta e consagrada obra, aqui nos traz uma pequena crônica extraída de um de seus livros, "Mais Vazio que o Paraíso". 
A lágrima que teima em não cair, fruto da brutalização do homem, é o tema dessa crônica.