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quarta-feira, 4 de outubro de 2023

Autobiografia na música - Ciro Pessoa & Nu Descendo a Escada - Capítulo 43 - Por Luiz Domingues

Kim Kehl e Ciro Pessoa em ação no Teatro Parlapatões de São Paulo em junho de 2014. Acervo e cortesia: Kim Kehl. Click: Lara Pap

A situação que gerou tais áudios foi a seguinte: o Ciro marcou a noite de autógrafos do seu livro ("Relatos da Existência Caótica") para o dia 23 de outubro de 2015 nas dependências do "Café Delirium" no bairro de Pinheiros em São Paulo, e já a partir de agosto, enviara por e-mail para o Kim e para eu mesmo, Luiz, alguns poemas que fariam parte do livro, com intuito de que nós os musicássemos. Ele queria muito contar com músicas novas na apresentação que faríamos na mesmo noite e principalmente por serem estas criações de sua parte, vinculadas ao livro que apresentaria aos seus leitores e fãs da sua carreira musical. 

Nesses termos, eu e Kim trabalhamos separadamente e compusemos músicas nesse esforço de usarmos seus poemas com forte dose surrealista na essência, uma marca registrada do trabalho do Ciro.

Foi marcado um ensaio de reconhecimento dessas ideias brutas a visar ajustes na métrica, bem básicos, a fim de preparar minimamente o corpo dessas novas canções, para que pudessem ser ensaiadas de forma elétrica em dois apontamentos marcados próximos da data do show e noite de autógrafos. 

Em algum dia de setembro de 2015, nos reunimos então na residência do Ciro Pessoa, que ficava localizada no bairro do Jardim Bonfiglioli, zona sudoeste de São Paulo e lhe mostramos as ideias brutas. Participamos então com a minha (Luiz) presença, além dos demais companheiros, Kim Kehl e Carlinhos Machado. Isabela Johansen não participou do ensaio, apesar de ser componente da banda e esposa do Ciro na ocasião, pois ela estava fortemente gripada e naturalmente indisposta.

Nesses três áudios que eu encontrei em 2023, o que se ouve é o resultado bruto da apresentação de ideias para duas músicas que eu havia proposto mostrar aos companheiros, ao ter musicado os poemas que o Ciro havia me enviado previamente.

As gravações desse esforço de apresentação acústica, foram feitas através do telefone celular do Carlinhos Machado. E ali na hora, eu e Kim usamos violões e o próprio Carlinhos tocou percussão de forma bem simples, apenas para nos guiar ritmicamente.  

"Planície dos Sonhos" (Ciro Pessoa-Luiz Domingues) - Ensaio acústico - parte 1 - Em algum dia de setembro de 2015. Captura de áudio: Carlinhos Machado. Promo para a internet em 2023: Luiz Domingues

Eis o link para assistir no You Tube:

https://www.youtube.com/watch?v=ylQBzarCRwE 

Em suma, se trata de uma captura bem modesta de um ensaio improvisado. Portanto, o áudio é muito precário, deixo essa ressalva bem assinalada para quem se interessar em ouvir o material. E mais um dado, a se tratar de uma preliminar apresentação de ideia, super crua, mediante violões & percussão e além do mais, com a melodia a carecer de muitos ajustes para alcançar a métrica necessária para ser bem moldada ao poema. Em suma, este material tem maior valor pelo seu aspecto de raridade em si do que pela excelência musical exposta.  

"Planície dos Sonhos" (Ciro Pessoa-Luiz Domingues) - Ensaio acústico - parte 2 - Em algum dia de setembro de 2015. Captura de áudio: Carlinhos Machado. Promo para a internet em 2023: Luiz Domingues

Eis o link para assistir no YouTube:

https://www.youtube.com/watch?v=yhymGHmLrak

No caso da canção: "Planície dos Sonhos", eu apresentei uma ideia minha que eu havia apresentado para ser usada no meu tempo como componente do "Pedra", mas como é sabido pelo leitor que acompanha a minha autobiografia com atenção, naquela banda eu tinha muita dificuldade para propor ideias e não apenas as musicais e assim, quando o Ciro me pediu a colaboração para musicar um dos seus poemas, eu tentei resgatar essa concepção.

Musicalmente, o som que eu propus, se mostrava todo registrado em frases semi cortadas a conter o efeito da síncope e também sob o efeito anacruse, ou seja, mais a lembrar R'n'B com certo charme de Jazz'n' Blues do que algo verdadeiramente psicodélico como o Ciro desejaria que eu compusesse, mas isso em sua parte 1, pois eu acrescentei duas outras partes ao mapa primordial da canção e estes a remeter a uma espécie de "Space Rock" bem dos primórdios daquela transição da psicodelia britânica para o Rock progressivo, algo muito difundido principalmente entre 1968 e 1970. E claro que o Ciro adorou a ideia, assim que ouviu a proposta, "floydiano" contumaz que o era, no entanto, e é bem nítido nesses áudios que eu resgatei, a melodia carecia de ajustes para se encaixar na métrica mais complexa registrada entre a proposta de divisão rítmica e a poesia.

Sobre o poema escrito pelo Ciro Pessoa e que faz parte do seu livro, "Relatos da existência caótica", eis o seu teor:

PLANÍCIE DOS SONHOS (Ciro Pessoa-Luiz Domingues) 

"Bem que eles me avisaram: cuidado, cuidado!

Mas uma vez acionado o botão nada mais poderia ser feito em termos de saída a entrada era quem dava o destino. 

Fios de arame cintilantes estendidos em sequência horizontal que conduziam a uma tarde de chuva na silenciosa cidade de vidro onde duas senhoras inglesas tomavam chá.

E mais além uma noite violeta debruçada sobre o livro encantado de uma menina de longos cabelos ruivos. 

Dezenas de quadros fixados simetricamente um ao lado do outro. 

Sequência de luzes coloridas e explosivas. 

Na usina dos desejos paredes de vidro e a extensão infinita da planície dos sonhos".

"Xadrez Cósmico" (Ciro Pessoa-Luiz Domingues) - Ensaio acústico - Em algum dia de setembro de 2015. Captura de áudio: Carlinhos Machado. Promo para a internet em 2023: Luiz Domingues

Eis o link para assistir no YouTube:

https://www.youtube.com/watch?v=AoYQ4681DtU

Sobre " Xadrez Cósmico", a ideia foi em torno de um Rock'n'Roll bem mais básico, com intenção "Rollingstoniana" explícita. A posteriori, o Kim Kehl acrescentou ideias para a composição e se tornou coautor da canção, mas até esse ensaio, a criação esteve restrita ao Ciro e eu (Luiz).

Sobre a letra, apesar da roupagem musical ter ficado mais em torno do Rock visceral, a estrutura poética permaneceu surreal por excelência, o que talvez não fosse o mais adequado em termos de combinação, no entanto, nos soou bem interessante a conjunção proposta e assim, essa música foi bem mais facilmente preparada em seu arranjo e tocada ao vivo, embora a outra, "Planície dos Sonhos" também teve a execução no show que lançou o livro e da minha parte, uma outra canção que já havíamos preparado desde 2014, e igualmente de um poema que faz parte do livro ("ecos da tagarelice mental"), também foi executada. nesse citado espetáculo. Esta canção, por sinal, a conter além de Ciro e eu (Luiz), a coautoria do Carlinhos Machado.

Eis a letra de "Xadrez Cósmico":

XADREZ CÓSMICO (Ciro Pessoa-Luiz Domingues-Kim Kehl) 

"Agora que a ciência é a rainha da Magia-Turbulência e que os contatos de todos os graus são regidos por uma lei inevitável, o homem passa a ser um ser estritamente cósmico! 

Agora que o espaço ocupado pelas certezas ameaça o ciclo das luminosas revelações o vulcão sonâmbulo dá sinais de insanidade e vomita flores quentes sobre o vale azul!

Agora que hostes de extraterrestres e astronautas levitam em acrobático séquito através do espaço tem início o espiral jogo do xadrez cósmico!"

Para colocar esse material no YouTube, eu usei o recurso de um painel de fotos estático para ilustrar, a conter fotos do show que a nossa formação havia feito no Teatro Parlapatões de São Paulo, em junho de 2014, mediante fotos clicadas por Lara Pap e Birão Ramin

E assim foi a história desse resgate de um material bem improvável, mas que no entanto, reforçou o acervo que eu tenho sobre a minha passagem pela banda de apoio a Ciro Pessoa, "Nu Descendo a Escada", trabalho que efetuei de agosto de 2011 a fevereiro de 2016. 

Mas não parou por aí. Pois ao revistar o fundo do baú, eis que eu achei uma gravação a conter uma apresentação ao vivo de Ciro & Nudes e daí fui investigar a viabilidade de colocar esse material no YouTube e quiçá, lançar um CD pirata, o que seria sensacional para agregar mais substância à história desse trabalho.

Portanto, continua...   

domingo, 1 de outubro de 2023

Autobiografia na música - Ciro Pessoa & Nu Descendo a Escada - Capítulo 42 - Por Luiz Domingues

Bem na mesma predisposição de que nos dias então mais atuais de 2022 e 2023, eu tive a felicidade de resgatar materiais raros de diversas bandas das quais eu fui componente, tais oportunidades haveriam de surgir também para outros trabalhos que teoricamente não haveria mais nada para ser resgatado, dada a escassez de material possível ainda a ser encontrado.

Esse é o caso do meu trabalho com Ciro Pessoa & Nu Descendo a Escada, cujo legado com álbum oficial não existe, tampouco uma demo-tape que seja, mas ao menos essa fase da minha carreira a defender a criação de Ciro Pessoa deixou vídeos ao vivo, fotos e portfólio que consegui reunir, a abranger os anos nos quais eu fui componente desse grupo.

E com felicidade, eis que consegui resgatar um material raro, que carece de qualidade de áudio, sim, no entanto, dada a constatação do seu caráter raro, se tornou um pequeno tesouro para eu anexar ao meu museu virtual de carreira e certamente veio a reforçar também o legado de Ciro Pessoa.

Ciro Pessoa nos bastidores do show que fizemos no Sesc Piracicaba em abril de 2014. Click, acervo e cortesia: Kim Kehl

E se falo em legado da parte do Ciro, é com pesar que atualizo para a minha autobiografia o fato que quando eu encerrei o meu relato sobre esse trabalho, apenas elaborei o texto final a agradecer aos companheiros e colaboradores, no entanto, algum tempo depois, o pior aconteceu, quando em 5 de maio de 2020, fragilizado por estar a lutar conta o câncer e consequentemente a contar com baixa imunidade nessa fase, tal quadro clínico o tornou um alvo fácil para a agressiva ação da Covid-19, bem no início da onda de contaminação assustadora.

Em meio ao confinamento, foi com estupefação que eu tomei conhecimento da partida de Ciro, através do jornalismo televisivo. No mesmo instante eu mandei recado aos companheiros que estiveram comigo nesse trabalho e todos estavam muito chocados, naturalmente. 

Por causa das restrições extremas da pandemia, as cerimônias de velório, sepultamento ou cremação estavam restritas a poucos familiares mais próximos e cerimônias essas organizadas mediante um tempo mínimo de duração e mesmo assim, com distanciamento em relação ao ente querido alojado no caixão. Portanto, eu gostaria de ter prestigiado o amigo que partiu em seu último momento físico entre nós, mas isso não foi possível.

Eu (Luiz Domingues) a atuar com Ciro Pessoa & Nu Descendo a Escada, no Teatro Parlapatões de São Paulo em junho de 2014. Click, acervo e cortesia: Birão Ramim

Emiti um recado de condolência para a Isabela Johansen, que apesar de ter se divorciado do Ciro antes mesmo da nossa formação ser extinta e ela houvera sido vocalista da banda, igualmente, certamente que mantinha e manterá um elo eterno com o Ciro através de Antonia Pessoa, a filha que tiveram.

Enfim, mesmo que eu não tivesse tido mais convivência com o Ciro desde 2016, é claro que senti bastante a notícia do seu passamento, e ainda mais da maneira que foi, ceifado pela grande pandemia mundial. 

Por volta de maio de 2023, eu achei um e-mail do Kim Kehl direcionado para todos do grupo, com três arquivos de áudios a conter trechos de um ensaio acústico que havíamos realizado por volta de setembro de 2015, a compor músicas novas e daí, resolvi de imediato utilizar tais áudios para compor três promos e imediatamente os postei em meu canal número três do YouTube.

Faço a seguir uma explanação sobre o material em si.

Continua...

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Autobiografia na Música - Ciro Pessoa & Nu Descendo a Escada - Capítulo 41 - Por Luiz Domingues

Conforme eu especifiquei anteriormente, a situação da nossa formação do "Nudes" ficara em uma espécie de suspensão "sine die". 

Na verdade, o panorama que desenhou-se à nossa frente, foi mais de suspeição do que suspensão, quando notamos, ao observarmos o desenrolar dos fatos, via redes sociais da Internet, que o Ciro estava a todo vapor a empreender todos os seus esforços em prol da criação de sua nova banda, denominada: "Flying Chair". 

Falo isso no bom sentido, certamente, pois nem eu, tampouco os meus colegas, Kim e Carlinhos, nem por um segundo sequer sentimo-nos preteridos, desprestigiados ou a nutrirmos qualquer tipo de ressentimento, mesmo por que se o houvesse, seria descabido. 

Isso por que o Ciro não recrutou novos músicos para formatar o Nudes à nossa revelia, mas simplesmente optou por formar uma banda em paralelo, com outra sonoridade e outro nome, portanto, nós que éramos Os Kurandeiros e tínhamos a nossa própria banda em paralelo, igualmente, jamais poderíamos reclamar de tal predisposição semelhante, adotada por ele. 

Mesmo por que, os próprios Kurandeiros desdobraram-se em "Magnólia Blues Band" por mais de dois anos, e além disso, a nossa banda fora grupo de apoio para artistas como Edy Star e Big Chico, além de ter criado a identidade secreta de: "Os Koveiros" e o próprio 'Nudes", portanto, ver o Ciro a montar o "Flying Chair" tornou-se algo muito natural para a nossa percepção e ao irmos além, gostávamos (gostamos) dos guitarristas, Chico Marques e Claudio "Moco" Costa, com os quais interagimos algumas vezes (com o "Moco", muitas vezes ele fora nosso convidado da Magnólia Blues Band e dos próprios Kurandeiros, por ocasião do Projeto: "Sunday Blues", realizado no "Templo Club" no início de 2016).

Ótimos guitarristas e pessoas gentis, eram componentes da banda Pop-Rock, "8080", cujo primeiro álbum eu tive o prazer de resenhar no meu Blog 1. Veja a resenha, através do Link abaixo:

http://luiz-domingues.blogspot.com.br/search?q=8080

Em suma, estávamos a par de toda a movimentação de Ciro, Chico & Claudio e a comunicação do Ciro via E-mail, nesse ínterim, dizia sobre o Nudes entrar em descanso temporário etc. e tal, conforme já expliquei em capítulo anterior, inclusive. 

Mas o tempo foi a passar e a cada dia, o entusiasmo do Ciro com o seu novo projeto, fez-nos enxergar que sua energia estava 100% baseada nesse novo projeto e mesmo que houvesse intenção de sua parte de fazer algum show específico do "Nudes", como por exemplo um contratante esporádico a aparecer com a proposta de uma boa produção mediante cachê robusto que fosse, dificilmente o Ciro, empolgado que estava com a sua nova banda, pensaria em recrutar-nos para tal tarefa e o mais lógico seria usar a sua nova banda, entrosado e empolgado que estava com seus novos companheiros de trabalho.

Portanto, ficou patente que a nossa formação do "Nudes" esteve encerrada e cabe-me fazer agora, o balanço final dessa etapa pessoal da minha carreira e os agradecimentos finais, como de praxe no meu texto autobiográfico, conforme assim procedi em relação à todas as bandas por onde atuei no passado. 

Ao retroagir ao ano de 2011, quando eu recebi o telefonema do guitarrista, Kim Kehl, em um dia qualquer de julho daquele ano, a sua proposta detinha dupla intenção. Ele convidou-me a integrar a sua banda, Os Kurandeiros, e ao mesmo tempo ofereceu-me vaga na banda de apoio de Ciro Pessoa, denominada, "Nu Descendo a Escada", ou "Nudes" como carinhosamente a chamamos, e na qual ele estava recém-ingresso igualmente, em meio a uma reformulação total do time que o acompanhava o famoso Ciro Pessoa. 

Claro que eu aceitei a dupla jornada, de imediato, mas não sem elucubrar muitas dúvidas a respeito do trabalho do Nudes, ao basear-me na carreira pregressa do Ciro, com a sua atuação em trabalhos fortemente mergulhados no mundo do Pós-Punk da década de oitenta, portanto, a antever um possível conflito motivado por interesses antagônicos, que preocupou-me.

O Pink Floyd em foto entre 1966 e 1967, aproximadamente
 
Todavia, assim que o conheci (Ciro), de sua fala, eu ouvi a expressão: -"o futuro é Pink Floyd", e dessa forma, ele assim demoliu-se por inteiro de qualquer tipo de receio que eu pudesse ter sobre a nossa convivência, ideias & ideais na música, apreço à contracultura & afins e a visão macro da história do Rock, com aberta simpatia à psicodelia sessentista clássica. 

Em síntese, senti-me inteiramente a vontade para integrar-me nesse trabalho e mais que isso, apreciar muito fazer parte dele e dar a minha contribuição, grande admirador da estética sessentista em geral que sou, e mais detidamente ao universo do Rock psicodélico daquela década.

Foto do primeiro show do Nudes na formação em que fiz parte. 9 de dezembro de 2011. Click de Lara Pap

E assim foi, ao realizarmos os primeiros ensaios, com o Kim e os músicos, Paulo Pires (bateria), Caleb Luporini (teclados) e a bela e competente vocalista, Luciana Andrade. 

Vieram os primeiros shows, sob condições modestas de produção, mas relevei, pois o trabalho se mostrara tão interessante e a companhia dessa turma tão boa, que eu nunca incomodei-me com esse início "franciscano". Mas ao mesmo tempo, causava-me espanto como um membro egresso do mundo Pós-Punk que sempre teve o apoio da "intelligentsia" e o beneplácito da mídia mainstream, não tivesse caminho aberto para produções maiores e com direito à agenda sustentável. 

No entanto, eu logo fui a perceber que o Ciro também sofria com barreiras intransponíveis, assim como todo artista que sempre militou na contramão da formação de opinião, meu caso e do Kim, igualmente. Nesse aspecto, o Ciro, apesar de ter sido um ex-"Titãs" e um ex-"Cabine C", fora ter sido parceiro de gente incensada como Edgard Scandurra e Julio Barroso, por exemplo, na verdade estava no limbo da carreira tanto quanto nós, que nunca tivemos tais oportunidades. 

Uma pena, mas essa foi a realidade e não o que imaginei no início, com o autor de "Sonífera Ilha" a fazer muitos shows sob agenda lotada e abertura em uma mídia, senão a mainstream, pois os tempos foram outros, ao menos sob um padrão intermediário entre isso e o mundo abissal da obscuridade underground.

Nesses termos, um novo show só foi ocorrer oito meses depois em uma cidade paulista interiorana, já em agosto de 2012, e foi muito interessante conforme o descrevi com detalhes em capítulo anterior. 

Ciro Pessoa & Nu Descendo a Escada em São Carlos-SP. 11 de agosto de 2012. Click, acervo e cortesia de Pedro Paulo Machado

Com direito a trem de carga a passar durante o show realizado em uma plataforma ferroviária e a fazendo com que a banda flutuasse em alguns instantes, trata-se de uma lembrança das mais queridas. E foi a última vez que essa formação contou com Paulo Pires e Caleb Luporini e já o fizemos sem Luciana Andrade, portanto, muitas modificações ocorreram na formação.

Uma lástima, daí em diante seguiu-se um longo período de inatividade só quebrado em 2014, quando dois shows muito estimulantes foram realizados, um no interior do estado e o outro na capital, e aí sim, ambos em teatros, com uma infraestrutura mais condizente com a psicodelia proposta. 

O amigo, Carlinhos Machado entrou para a banda e então o Nudes definitivamente tornou-se mais mais um braço d'Os Kurandeiros. E a ótima e bela cantora, Isabela Johansen também ingressou. Casada com Ciro na ocasião, Isabela era na verdade uma boa cantora, guitarrista e compositora, portanto, a despeito da relação conjugal com Ciro, Isabela foi uma artista que agregou valor para a banda.

Apesar desses ótimos shows realizados com essa nova formação, e maior interatividade, pois eu (Luiz), Kim e Carlinhos contribuímos com ideias de novas canções para o trabalho. 

O show sofisticou-se ainda mais, com a inserção de mais textos surrealistas, baseados no livro que Ciro preparava para lançar e isso animou-nos ainda mais.

Mas as oportunidades rapidamente escassearam e mais um período de limbo sobreveio. Muito desse hiato foi por conta do furor político forjado sorrateiramente que cresceu ao longo do ano de 2015, e nessa circunstância, Ciro havia empolgado-se com a militância política via "hang outs" de internet e aliado a artistas como Lobão e Roger Moreira, mergulhou com ênfase nessas ações e assim, o trabalho prejudicou-se bastante. 

Tirante um show motivado exatamente por essa militância política da sua parte e da qual participamos a fazermos uma aparição de choque apenas, uma nova ação só foi aparecer no mês de outubro, quando o Ciro propôs um show para coroar a noite de autógrafos de seu livro, enfim lançado.

Noite de autógrafos e show dos Nudes, no Café Delirium de São Paulo. Na foto, momento pré show e durante a sessão de autógrafos da obra "Relatos da Existência Caótica", seu autor, Ciro Pessoa e Luiz Domingues em foto de Lara Pap. 23 de outubro de 2015.
 
Foi muito agradável e honroso para nós, e chegamos a tocar músicas novas compostas especialmente para a ocasião, baseadas em textos do próprio livro. 

No entanto, apesar da noite profícua, pouco tempo depois, a vocalista, Isabela Johansen deixou a banda e desfalcou-nos doravante. Um novo show foi marcado logo a seguir, no mesmo espaço, uma casa noturna de São Paulo, e na formação de um quarteto, o Nudes com a minha presença (Luiz), além de Kim e Carlinhos, apresentou-se pela derradeira vez, no início de 2016. 

Logo a seguir, Ciro começou a empreender esforços em prol de sua nova banda e o Nudes ficou engavetado. Portanto, neste momento que escrevo este trecho e encerro a minha história nesse trabalho, não houve mesmo a possibilidade de mudança de tal panorama, mas como a vida é mutável e / ou volátil, se houver uma continuidade ao menos em termos de resgate de material da nossa fase com a banda, nada impede-me de abrir novo capítulo e relatar tal continuidade, ou sobrevida, como queira o leitor.

Agora, vou agradecer aos personagens que gravitaram em torno do Nudes, nesse período pelo qual eu fui componente, entre 2011 e 2016:

1) Kico Stone 

O grande, Kico Stone (a usar óculos), na foto acima, em companhia do guitarrista superb, Tony Babalu. Acervo e cortesia de Tony Babalu. Click: Karen Holtz
 
Agitador cultural, ator, grande conhecedor da história do Rock e um film-maker de primeira linha, Kico acompanhou os shows do Nudes desde o início de minha entrada na banda, sempre a prestigiá-los com entusiasmo e a filmá-los. Sou-lhe grato por esse apoio e pela amizade expressa, nesse e em outros trabalhos onde estive e estou, quando sempre conto com a sua companhia, conversa inteligente, amizade e filmagens de categoria. Sempre brinco com ele, ao chama-lo como o "D.A. Pennebacker" da pauliceia.

2) Gustavo Johansen
      Gustavo Johansen, irmão da vocalista, Isabela Johansen

Irmão de Isabela Johansen, sou-lhe grato pela filmagem do show no Teatro Parlapatões de São Paulo, em 2014

3) Lara Pap
                        Produtora d'Os Kurandeiros, Lara Pap

Produtora d'Os Kurandeiros, Lara Pap emprestou um pouco de sua força de trabalho para o Nudes e claro que os seus esforços foram muito providenciais e bem-vindos. Agradeço-lhe por ter ajudado-nos tanto.

Hora de falar dos membros da primeira formação do Nudes, onde eu fiz parte:

1) Paulo Pires

Nessa foto promocional da banda: "Lavoura", Paulo Pires é o rapaz na parte de baixo, à esquerda e Caleb Luporini está ao seu lado, com cabelos mais longos
 
Baterista da formação assim que ingressei no trabalho, Paulo era (é) um bom baterista, muito firme e como pessoa, mostrou-se sempre sério na maior parte do tempo. Somente no terceiro show que fizemos juntos, pudemos enfim conhecermo-nos melhor e aí eu verifiquei que ele era (é) um grande conhecedor de música em geral e do Rock em específico, além de colecionador de discos. 

O nosso convívio foi pequeno, com apenas três shows, apesar desses eventos terem espalhado-se por muitos meses entre uns e outros. Sujeito de boa índole e bom músico, fiquei com uma boa impressão ao seu respeito. 

Tempos depois vi notícias suas com um outro trabalho, uma banda com ares experimentais, quiçá, "industriais", chamada: "Lavoura". Torço para que esteja bem e feliz em seus projetos.

2) Caleb Luporini

             O tecladista, baixista e compositor, Caleb Luporini

Simpatizei com a pessoa de Caleb Luporini desde o primeiro ensaio que realizamos juntos em 2011 e de fato, Caleb mostrava-se super simpático, expressivo e gentil. 

Bom tecladista, disse-me ser baixista, também e demonstrava pela conversa, ter boas influências musicais do passado, embora claramente fosse um músico ligado também em sonoridades modernas de cunho "indie", experimentalismos etc. 

Também componente do "Lavoura", vejo o seu nome sempre citado em eventos de música eletrônica e demais modernidades etc. e tal. Estarei sempre a torcer por ele, pessoa boa que o é, para ser bem sucedido e feliz.

3) Luciana Andrade

A cantora, instrumentista e compositora, Luciana Andrade. Foto: Leonardo Pereira
 
Eu tenho a tendência de simpatizar de imediato com pessoas que mesmo ao adquirir proeminência na sociedade, seja lá por qual motivação, mantêm-se humildes, sem que o sucesso altere o seu comportamento social e sobretudo, pessoal. 

É o caso de Luciana Andrade, uma artista que fez sucesso mega popular através da banda: "Rouge", ao frequentar o mundo das celebridades da esfera da TV aberta, revistas de fofocas & afins, mas mesmo assim, ela não mudou o seu comportamento diante dessa fama e não só isso, ao demonstrar amor a arte, pois ela esteve conosco imbuída de cantar as canções surrealistas do Ciro, com o mesmo empenho que teria em cantar os seus hits radiofônicos no programa da Hebe Camargo ou similares. 

Dona de uma linda voz e que coloria sobremaneira o som do Nudes, além disso era (é) muito afinada, tem talento de sobra e é uma mulher muito bonita, portanto sem soar piegas, Lu canta e encanta. 

Assim que saiu do Nudes, logo no começo de 2012, ela colocou os seus esforços em prol de uma carreira solo que teve um começo promissor, muito embalada pela sua fama popular pregressa, portanto eu a vi em muitas ocasiões em programas de TV aberta e afins, o que naturalmente deveria aproveitar ao máximo, vide o caráter efêmero com as quais, essas oportunidades surgem e desaparecem. 

Falei com ela por algumas vezes pelas Redes Sociais e a sua simpatia é muito grande. Torço para que faça muito sucesso e seja feliz!

Hora de falar dos membros da formação mais recente:


1) Isabela Johansen

       Isabela Johansen: cantora, instrumentista e compositora
 
Com uma juventude a flor da pele, Isabela trouxe muita vitalidade à banda, com sua verve Rock'n' Roll bem acentuada. Guitarrista e vocalista de bandas com proposta "Indie-Rock", em um passado próximo, Isabela revelou-se uma boa cantora e com performance bastante interessante no palco, ao mostrar desenvoltura, poder de improviso, uma boa dose de loucura cênica e muito carisma. 

Jovem, muito bonita e vivaz, claro que chamava bastante a atenção nos shows, mas Isabela era mais que um rostinho bonito, pois mostrou-nos ser boa cantora, instrumentista e compositora. 

Infelizmente, o desgaste de seu casamento com Ciro, respingou na banda, pois tornou-se impossível a sua permanência no trabalho, após a separação do casal. Atualmente, Isabela integra uma banda de Rock chamada: "Taberna Escandinava" que tem feito uma boa escalada inicial de carreira, apesar de militar no mundo underground com as suas dificuldades inerentes. Torço pelo sucesso dela, sempre. 

2) Carlinhos Machado

Baterista com currículo gigantesco, Carlinhos Machado somou mais um trabalho à sua enorme lista, ao ter tocado no Nudes, também

Não há muito o que acrescentar sobre Carlinhos Machado, visto que estamos a trabalhar juntos desde 2011 n'Os Kurandeiros, e ele esteve junto nos demais desdobramentos que essa banda teve (tem), incluso o Nudes. 

Portanto, só posso dizer que é um amigo de longa data, leal colega que muito ajudou-me em muitas circunstâncias, grande companheiro de conversas, lembranças & "causos" e um ótimo baterista, com o qual entrosei-me inteiramente, e é sempre bom saber que eu contarei com as suas baquetas a favor de meu baixo, a cada show.

3) Kim Kehl

Kim Kehl, guitarrista de muitas bandas e histórias acumuladas, a serviço dos Nudes, na foto acima
 
O mesmo raciocínio em relação ao Carlinhos, eu e Kim Kehl interagimos em muitos desdobramentos d'Os Kurandeiros, igualmente no caso do Nudes. 

Sou-lhe grato por ter telefonado-me em um dia de julho de 2011, ao fazer-me proposta dupla de trabalho, sendo um dos empreendimentos, o Nudes de Ciro Pessoa. 

Sou-lhe grato também pelo companheirismo dentro do Nudes e por sua capacidade como guitarrista, ao trazer-nos formulações harmônicas e coloridos melódicos para esse trabalho, ao honrar as tradições da psicodelia sessentista. 

Tais momentos deram-me o prazer de atuar ao vivo dentro de uma vertente do Rock que eu aprecio sobremaneira, portanto, apesar da escassez de oportunidades que essa banda obteve, infelizmente, nas poucas vezes em que atuamos nos palcos, a psicodelia fez-se presente com galhardia. 

Estamos a trabalhar juntos n'Os Kurandeiros normalmente e assim espero, por muito tempo.

4) Ciro Pessoa

Cantor, instrumentista, compositor e poeta & escritor, Ciro Pessoa, é um baluarte do surrealismo & psicodelia, no Brasil
 
O protagonista-mor desse trabalho, Ciro Pessoa surpreendeu-me positivamente, quando enfim conhecemo-nos na gelada noite de 24 de agosto de 2011, e ao proferir uma frase de efeito, cativou-me em torno de seus reais propósitos para com esse trabalho: -"o futuro é Pink Floyd". 

Para quem enxerga a verdade expressa em uma frase que para todos os efeitos revela o retrocesso, se interpretada cartesianamente, eis aí o porto seguro que tranquilizou-me a interagir artisticamente com um artista que eu pensava deter ideais antagônicos aos meus.  

Ciro tem grande capacidade criativa, é performático ao extremo e exerce tal loucura no palco, sem parcimônia. Com ele em cena, tudo é possível e eu adorava ter tal elemento ao meu lado como trunfo do trabalho. 

Sentia-me a atuar em uma banda psicodélica ao tocar no auditório Fillmore West, em pleno 1967, com a loucura a dominar todas as ações. 

Como eu já explanei amplamente, Ciro mostra-se empolgado e empenhado com seu novo trabalho através da banda: "Flying Chair". Espero que seja muito feliz nessa nova empreitada e atesto que a banda tem alta qualidade, visto que já resenhei o seu álbum de estreia em meu Blog 1. 

Veja abaixo, o Link para saber de tal impressão que tive desse trabalho:

http://luiz-domingues.blogspot.com.br/2017/08/flying-chair-1-album-por-luiz-domingues.html

             Luiz Domingues em ação com o Nudes, em 2014

A encerrar, eu agradeço ao Ciro Pessoa a oportunidade de tocar ao seu lado, e poder exercer a psicodelia, que é uma das vertentes que eu mais aprecio no Rock sessentista, e se tive lampejos dessa escola em alguns trabalhos pregressos que realizei, com outras bandas onde fui componente (bem sutilmente no "Pitbulls on Crack" e mais incisivamente no "Sidharta" e na "Patrulha do Espaço"), creio que através do Nudes, eu pude exercer isso mais substancial e integralmente.

Está encerrada portanto a minha história com o "Nudes" (Nu Descendo a Escada), banda de apoio do cantor, compositor e poeta, Ciro Pessoa.

Daqui em diante, as atualizações seguem com minha banda atual, Kim Kehl & Os Kurandeiros e sazonais novidades com trabalhos avulsos e/ou reencontros com bandas do passado e/ou campo aberto para trabalhos novos que possam surgir.

Grato por ler a história dessa etapa da minha carreira!

Até logo...