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sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

Autobiografia na música - Trabalhos avulsos (Golpe de Estado & Convidados) - Capítulo 128 - Tributo à Nelson Brito - Por Luiz Domingues

Eu, Luiz Domingues, com Roby Pontes na bateria e o grande amigo que partiu, Nelson Brito presente nas imagens do telão. Golpe de Estado + convidados. Sesc Paulista de São Paulo. 18 de outubro de 2024. Click, acervo e cortesia: Billy Albuquerque

Logo a seguir, o Marcello iniciou os acordes da música: "Não é hora" e nós fomos juntos e resolutos a executar mais uma música que construiu a fama do Golpe de Estado, ou seja, mais uma obra que teve a alma de Nelson Brito na concepção de tal criação. O público reagiu com um calor impressionante e eu fiquei feliz por tal reação tão efusiva de forma espontânea, ou seja, a provar que Nelson Brito e Hélcio Aguirra, dois componentes que partiram para não mais voltar, mas que na verdade, jamais estarão esquecidos, pois a música os eternizou.

Os remanescentes da última formação do Golpe de Estado. João Luiz, Roby Pontes e Marcelo Schevano, pela ordem. Golpe de Estado + convidados. Sesc Paulista de São Paulo. 18 de outubro de 2024. Click, acervo e cortesia: Billy Albuquerque

"Cobra Criada" veio a seguir, a imprimir ainda mais energia. Pus-me a tocar e mais preparado para enfrentar os apelos emocionais, vi a presença da viúva de Nelson Brito na plateia e desta vez, eu não me desestabilizei ao ponto de perder a concentração.

"Caso Sério", que é uma balada muito bonita, e com a marca de três micro solos muito melódicos criados pelo Nelson, levantou suspiros da plateia. Tocamos com emoção, certamente, mas concentrados para exercer a missão.

Eu, Luiz Domingues em mais dois flagrantes do show. Golpe de Estado + convidados. Sesc Paulista de São Paulo. 18 de outubro de 2024. Click, acervo e cortesia: Billy Albuquerque

E para encerrar a minha participação no espetáculo, tocamos juntos a música "Forçando a Barra", uma peça que eu não havia tocado no primeiro show.

Música muito energética e ao mesmo tempo com um sentido mais setentista em sua essência, foi um prazer tocá-la. 

Pepe Bueno a preparar o seu pedestal de microfone na primeira foto e na segunda, Ricardo Schevano a tocar enquanto Heloisa Gangora, a viúva de Nelson Brito e Pepe Bueno estão a observar ao lado e eu (Luiz Domingues), mais ao fundo. Fabio Cezzar está no canto direito do enquadramento, por detalhes. Golpe de Estado + convidados. Sesc Paulista de São Paulo. 18 de outubro de 2024. Foto 1: Click, acervo e cortesia: Marinho Rocker e na foto 2, click, acervo e cortesia de Billy Albuquerque

Encerrada a minha participação, Pepe Bueno entrou em cena para defender quatro músicas que a ele foram designadas para tocar.  Acompanhei a sua participação e a seguir, foi a vez de Ricardo Schevano subir ao palco para encerrar o show. Que momento bonito na minha ótica foi ver os dois a atuar, sendo que ambos, foram meus alunos nos anos noventa. Lembrei-me deles naqueles anos, quando estavam bem novos sob o ponto de vista cronológico, e com muita vontade de se tornarem músicos profissionais e agora eu ali a vê-los a brilhar muito, com carreiras solidificadas em plena maturidade de suas vidas, foi também emocionante nesse aspecto.

Na última música, "Noite de Balada", todos os baixistas convidados foram convidados a estar no palco e a viúva de Nelson Brito, Heloisa Gangora também ali compareceu e foi emocionante criar essa energia tão positiva para encerrar o espetáculo em altíssimo astral. 

Heloisa Gangora, Pepe Bueno, eu (Luiz Domingues), João Luiz e Daniel Kid nos momentos finais do show. Golpe de Estado + convidados. Sesc Paulista de São Paulo. 18 de outubro de 2024. Click, acervo e cortesia: Billy Albuquerque

Missão cumprida, saí do Sesc Paulista com a sensação boa de que prestei o meu tributo pessoal ao amigo que nos deixara três meses antes, com muito respeito e força à sua esposa e a honrar a banda que ele tanto amou na sua vida, além de dar um alento aos seus fãs que estavam a sofrer com a perda do baixista fundador da banda.

Na primeira foto, eu, Luiz Domingues, no camarim. Na segunda, as imagens de Nelson Brito no telão ao fundo do palco. Golpe de Estado + convidados. Sesc Paulista de São Paulo. 18 de outubro de 2024. Foto 1: Click, acervo e cortesia: Billy Albuquerque. Foto 2: Click, acervo e cortesia: Ana Cristina Domingues

Obrigado pela amizade, Nelson Brito! Você agora está na companhia de Hélcio Aguirra, John Entwistle, Brian Jones, John Lennon, Keith Moon, George Harrison, Jimi Hendrix e tantos outros. Não demorará muito para eu me juntar a esse seleto rol de Rockers. A música é eterna, você está eternizado na sua música!

1) Golpe de Estado convida Luiz Domingues - "Cobra Criada" - Sesc Paulista-SP - 18 de outubro de 2024. Filmagem e cortesia: Ana Cristina Domingues

Eis o link para assistir no YouTube
https://youtu.be/pcF7kUoMnoI

2) Golpe de Estado convida Luiz Domingues - "Não é hora" - Sesc Paulista-SP - 18 de outubro de 2024. Filmagem e cortesia: Ana Cristina Domingues

Eis o link para assistir no YouTube:
https://youtu.be/pd6hF5EHH-I

3) Golpe de Estado convida Luiz Domingues - "Não é hora" - Sesc Paulista-SP - 18 de outubro de 2024. Filmagem e cortesia: Ana Cristina Domingues

Eis o link para assistir no YouTube:
https://youtu.be/eFXlxtQpyTs 

4) Golpe de Estado convida Luiz Domingues - "Não é hora" - Sesc Paulista-SP - 18 de outubro de 2024. Filmagem e cortesia: Michel Camporeze Teér

Eis o link para assistir no YouTube:
https://www.youtube.com/watch?v=-InKEDdlrT0

5) Golpe de Estado convida Luiz Domingues - "Caso sério" - Sesc Paulista-SP - 18 de outubro de 2024. Filmagem e cortesia: Michel Camporeze Teér

Eis o link para assistir no YouTube:
https://youtu.be/pwixqERP92c

segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

Autobiografia na música - Trabalhos avulsos (Golpe de Estado & Convidados) - Capítulo 127 - Tributo à Nelson Brito - Por Luiz Domingues

O palco montado e sob a fase de preparação de iluminação. Golpe de Estado + convidados (tributo a Nelson Brito). Sesc Paulista de São Paulo. 18 de outubro de 2024. Click, acervo e cortesia: Marinho Rocker

Cheguei cedo às dependências do Sesc Paulista, unidade localizada em plena avenida Paulista, bem perto de uma das saídas da estação Brigadeiro do metrô, ou seja, a apenas duas estações de onde eu morava, foi muito fácil chegar ali a usar o próprio metrô e isso foi possibilitado por conta da extrema gentileza do baixista, Fabio Cezzar, que me emprestara o seu baixo durante a realização do ensaio prévio e atendeu ao meu pedido de um novo empréstimo no show, ou seja, isso viabilizou que eu chegasse às dependências daquela unidade sem instrumento, portanto a usar o transporte público sem nenhum problema. Mais uma vez, o amigo Fabio Cezzar foi extremamente gentil, como aliás, é de seu estilo, como um grande colega que o é.

O pequeno auditório dessa unidade não foi o local do espetáculo. Para tal evento, um palco alternativo foi montado no saguão de entrada, a simular um pequeno salão com maior capacidade, fechado por portas de vidro e cortinas, ou seja, foi uma alternativa interessante para poder receber um público maior.

Marinho Rocker, ativista cultural e colecionador de discos, e eu (Luiz Domingues), durante o exercício vespertino do soundcheck. Golpe de Estado + convidados (tributo a Nelson Brito). Sesc Paulista de São Paulo. 18 de outubro de 2024. Acervo e cortesia: Marinho Rocker. Click: Eduardo dos Santos Drummond  

A passagem de som estava em curso e toda a estrutura que a banda teve no show anterior do qual eu também participei, repetira-se em termos de equipe de apoio. 

O telão já estava ligado para os devidos testes de iluminação e as fotos a exibir imagens do Nelson Brito, estavam a reluzir. Olhei para tais imagens munido de um grande respeito ao amigo que partira, contudo, me senti mais forte desta vez, isto é, percebi que estava preparado para fazer o show sem abalo emocional como ocorrera no espetáculo anterior do qual participei.

Encontrei-me com todos os membros remanescentes da banda, os componentes da equipe técnica, uma série de pessoas ligadas aos bastidores do Golpe de Estado e claro, foi um prazer estar com eles, todos imbuídos da vontade de dar o melhor para reverenciar a memória do Nelson Brito.

Na primeira foto, Pepe Bueno, o empresário do Golpe de Estado, Tiago Claro e eu (Luiz Domingues). Foto 2: banda e convidados minutos antes de irmos para o palco. Da esquerda para a direita: Ricardo Schevano, Roby Pontes, João Luiz, Pepe Bueno, Marcello Schevano, eu (Luiz Domingues), Fabio Cezzar e Daniel "Kid". Na foto 3, João Luiz, Daniel Kid e eu (Luiz Domingues). Golpe de Estado + convidados (tributo a Nelson Brito). Sesc Paulista de São Paulo. 18 de outubro de 2024. Clicks, acervo e cortesia: Billy Albuquerque

No camarim, o clima foi de extrema camaradagem como sempre e inevitavelmente, lembramos de muitas histórias a envolver o Nelson, que realmente deixou saudade para todos ali. Fomos avisados pelo diretor de palco do Sesc que estava na hora da banda se posicionar perto do palco a esperar o áudio protocolar com os anúncios obrigatórios sobre segurança, prevenção de incêndios e saída de emergência do local. 

Bem, a luz de serviço apagou no ambiente e sob os gritos de euforia do público presente ante a adrenalina típica de início de espetáculo, eis que a banda entrou no palco com o primeiro baixista convidado, Daniel Kid, e eles tocaram temas mais modernos da banda, exatamente compostos e gravados por essa formação e a se revelar nesse momento como os últimos trabalhos que Nelson Brito realizou na sua carreira artística e vida, propriamente dita.

Daniel Kid, meu amigo de longa data, ex-roadie da Patrulha do Espaço que me acompanhou durante quase toda a trajetória da nossa formação Chronophágica em turnês. Ele foi o primeiro baixista convidado, exatamente como acontecera no espetáculo anterior. Golpe de Estado + convidados (tributo a Nelson Brito). Sesc Paulista de São Paulo. 18 de outubro de 2024. Clicks, acervo e cortesia: Billy Albuquerque

Fiquei atrás do palco a observar o show e a verificar que a banda estava a tocar com uma energia muito grande e o público estava ainda mais quente, a gerar uma sinergia excelente. Que bom, o Nelson mereceu receber essa energia tão forte lá na dimensão na qual habitava naquele instante.

Terminadas as quatro músicas defendidas pelo Daniel Kid, Fabio Cezzar foi chamado ao palco e mais um amigo meu e do Nelson pôde dar a sua contribuição para reverenciar a arte do nosso amigo em comum que partira. 

O grande Fabio Cezzar, outro amigo que admiro não só pela sua excelência musical, mas também pela sua generosidade que é muito grande. Golpe de Estado + convidados (tributo a Nelson Brito). Sesc Paulista de São Paulo. 18 de outubro de 2024. Clicks, acervo e cortesia: Billy Albuquerque

Fabio Cezzar tocou as suas quatro músicas e chegou a minha vez. Fui chamado ao palco e das mãos desse amigo, sem intervenção de um roadie, peguei o seu belo baixo Fender Precision e me preparei nos últimos ajustes para poder tocar, enquanto o vocalista, João Luiz, anunciava-me mediante palavras bonitas em tom de elogios, de uma forma muito gentil.

Tudo pronto para o show prosseguir! Vamos todos juntos pelo Nelson!

Continua...

domingo, 27 de outubro de 2024

Autobiografia na música - Trabalhos avulsos (Golpe de Estado & Convidados) - Capítulo 126 - Tributo à Nelson Brito - Por Luiz Domingues

Conforme me fora notificado anteriormente, eis que um novo espetáculo ficou marcado para o Golpe de Estado, a se configurar como mais uma homenagem ao seu saudoso baixista, Nelson Brito, meu amigo de muitas décadas. E este com a mesma configuração anterior em relação ao espetáculo no qual eu havia participado, ou seja, a contar com a presença de cinco baixistas convidados, eu incluso, para suprir a ausência do nosso querido amigo que partira.

Eu já havia sinalizado ao Marcello Schevano que aceitaria participar novamente e de fato, assim que ele me confirmou a data, eu reiterei a minha predisposição para estar junto a banda e seus outros convidados, todos eles amigos do Nelson e meus igualmente, portanto, mais uma vez haveria de ser uma bela homenagem.

Marcado para ser realizado na unidade do Sesc Paulista, localizado na avenida homônima, a única diferença em relação ao show anterior foi a inclusão de mais uma música para cada convidado, ou seja, a caracterizar um espetáculo com vinte músicas do repertório da banda, a representar todos os seus discos.

No meu caso, foi acrescentada a canção: "Forçando a Barra", peça de seu segundo disco, o LP homônimo, lançado em 1988. 

Um ensaio foi marcado para ocorrer nas dependências do estúdio Orra Meu, em 14 de outubro de 2024, uma segunda-feira e com a possibilidade de haver um segundo ensaio na quarta-feira, dia 16.

Novamente reunido com os amigos na área livre de convivência do estúdio Orra Meu para preparar o show tributo a Nelson Brito. Da esquerda para a direita: João Luiz, Marcello Schevano, Fabio Cezzar, Ricardo Schevano, Daniel Kid, eu (Luiz Domingues), Pepe Bueno e Roby Pontes. Estúdio Orra Meu de São Paulo. 14 de outubro de 2024. Acervo e cortesia: Marcello Schevano. Click: Letícia Helena

Na parte musical, a banda estava afiada como sempre e todos os convidados haviam feito bem a "lição de casa", portanto, o ensaio se provou eficaz. Tanto que o segundo ensaio foi mantido, mas quem se sentiu seguro logo no primeiro, nem compareceu ao segundo, o que foi o meu caso. Não fiquei sabendo a posteriori, mas creio que esse segundo apontamento foi cancelado, com a sensação de que não seria necessário.

O meu único receio foi poder me controlar melhor, haja visto que no show anterior eu senti a carga emocional pela perda do amigo e me desconcentrei durante o show e principalmente no camarim após a minha saída de cena, quando me senti abalado pela lembrança do dia triste que tive ao lado da esposa do Nelson no dia em que fui visitá-lo no hospital, pois foi justamente no momento no qual cheguei ao quarto, ele estava a ter uma crise e só me restou tentar consolar a sua esposa no pior momento possível. Tal recordação se aflorou assim que avistei a presença dela na plateia durante esse show anterior e ali eu mergulhei em um caldeirão de emoções fortes, por estar a atuar no calor do espetáculo, a ocupar a vaga dele, a tocar as suas músicas, mediante as suas linhas de baixo e a ter consciência do quanto ele amava a sua banda, suas canções e assim, para potencializar ainda mais o apelo emocional, com a sua foto gigante no painel de fundo, a esposa ali e mirar-me e a tocar as suas canções, não foi fácil me controlar. Paciência, sou humano também.

Na mesma intenção da foto anterior. Ensaio do Golpe de Estado e seus convidados. Estúdio Orra Meu de São Paulo. 14 de outubro de 2024. Acervo e cortesia: Marcello Schevano. Click: Letícia Helena

Bem, a julgar pelo ensaio, quando nos reunimos novamente, claro que falamos muito do Nelson, cada qual a expressar as suas muitas lembranças. Lamentamos novamente a sua ausência, mas tudo se atenuou com as lembranças boas que todos evocaram. Portanto, conformado exatamente ninguém ali estava, porém, falar sobre os bons momentos que cultivamos da amizade para com ele, nos deu alento.

E particularmente eu me senti mais forte. Tive a certeza de que nesse segundo show eu não haveria de me desestabilizar tanto, sem perder a concentração e a não gerar uma energia ruim. Se existir de fato uma espécie de "vida após a morte física", nessa dimensão na qual o Nelson foi habitar doravante, ele recebeu a nossa energia boa ali a falarmos coisas boas sobre ele e no show, com toda a carga explosiva do som produzido pela banda que ele tanto amou, através das músicas que criou, a massa energética haveria de ser ainda maior.

Uma ideia surgiu, a proporcionar que cada baixista convidado escrevesse um texto a ser repercutido nas redes sociais, a dar conta de como cada um conheceu e forjou amizade com o Nelson. Tais depoimentos ficaram emocionantes da parte de todos os baixistas convidados e exatamente o texto que eu preparei, o transcrevo abaixo:  

"Foi na metade de janeiro de 1983, que a minha banda na ocasião, A Chave do Sol, conseguiu dar o seu primeiro passo um pouco maior, haja vista que vínhamos desde setembro de 1982 a trilhar a dura labuta da típica banda iniciante, ou seja, a nos apresentarmos em casas noturnas obscuras, festivais underground & afins.
 
Isso ocorreu quando um "olheiro" de uma casa de maior porte nos viu a atuar em uma bar da Alameda Santos e nos convidou a assinarmos um contrato para uma temporada no então badalado, "Victoria Pub", a viver os seus dias de auge e a se constituir na prática de uma casa da jovem burguesia paulistana, embora a programação fosse Rocker na essência.
 
A nossa missão foi nobre: abrir toda terça e quinta os shows do Tutti-Frutti de Luiz Carlini, Simbas & Cia., ou seja uma formação espetacular dessa famosa banda. Dividiríamos a missão com outra banda que já tinha uma história pregressa no campo da música autoral a remontar aos anos setenta, mas que nessa fase, se dedicava às releituras de clássicos do Rock internacional dos anos 1960 e 1970, chamada como: "Fickle Pickle", cujo vocalista era um ex-co-autor de músicas do Casa das Máquinas, apelidado como "Catalau" e que eu conhecia desde 1980, época na qual ele quase entrou como componente de uma banda cover pela qual eu atuava, chamada: "Terra no Asfalto". 
 
Os outros componentes eu não conhecia até então, mas vim a saber que o guitarrista, Raul Müller, era ex-membro do lendário "Lírio de Vidro" de Kim Kehl, banda que surgira no final da década de setenta. E a super "cozinha" da banda era constituída por Nelson Brito e Paulo Zinner, ambos com o Fickle Pickle desde 1977, ainda com André Christovam na guitarra e posteriormente, Chris Skepis.
Em suma, eu conheci o Nelson ali nos labirínticos corredores do Victoria Pub e fiquei muito sensibilizado pela sua generosidade, pois mesmo sem me conhecer, ele ofereceu-me o seu amplificador para que eu o usasse nos quatorze shows que A Chave do Sol ali realizou.
 
Jamais me esqueci desse gesto solidário da parte dele e dali em diante, ficamos amigos e solidários um com o outro por anos a fio.
E como eu gostava de vê-lo a atuar, assistindo da coxia do Victoria Pub e vibrando com a execução perfeita que ele interpretava das linhas de baixo de John Entwistle, Paul McCartney e Bill Wyman entre outros ídolos nossos do Rock da década de 1960, com aquela volúpia Rocker avassaladora, bem no espírito dessa cena que amávamos. 
 
Veio a posteriori o Golpe de Estado e a sua consagração pessoal como artista contundente e famoso no meio Rocker brasileiro. A minha carreira foi diferente em comparação à que ele construiu com uma banda apenas, porém, e não por coincidência mas por afinidade, todas as bandas pelas quais eu atuei doravante, interagiram fortemente com o Golpe de Estado, portanto, foram inúmeras as histórias construídas conjuntamente pelos bastidores de shows, ambientes de rádio, TV e redações de jornais que visitamos para falar sobre shows, discos sendo lançados e outras ações promocionais, além da colaboração direta, um com o outro nas produções de estúdio, quando gravamos discos com as nossas respectivas bandas e sem contar com as "canjas" nos shows, um na banda do outro. 
 
Até que um dia ele partiu para viver em uma outra dimensão. O que isso mudou na nossa amizade? Nada, pois continuamos a ser amigos e um dia eu irei viver nessa outra dimensão, também, e lá, continuaremos a cultivar a nossa amizade a celebrarmos juntos o som do The Who, Beatles e Rolling Stones e conversarmos animadamente sobre as peripécias do Dr. Smith, Robot & Will Robinson, entre tantas coisas que gostamos e somente quem viveu os anos sessenta sabe do que estou a falar".
 
Bem, o dia do show chegou e lá fui eu imbuído de produzir mais essa boa energia junto aos colegas para que o Nelson a recebesse, fosse lá onde estivesse.
 
Continua...

terça-feira, 27 de agosto de 2024

Autobiografia na música - Trabalhos avulsos (Golpe de Estado & Convidados) - Capítulo 124 - Tributo à Nelson Brito - Por Luiz Domingues

Na área social do estúdio Orra Meu, os cinco baixistas amigos de Nelson Brito, convocados para homenageá-lo ao vivo: Ricardo Schevano, Daniel "Kid", eu (Luiz Domingues), Pepe Bueno e Fabio Cezzar. Dia do ensaio com o Golpe de Estado. 21 de agosto de 2024. Acervo e cortesia: Daniel Kid. Click: Fabiano Sá

No dia 21 de agosto, conforme havia sido marcado pelo Marcello Schevano previamente, eu me reuni nas dependências do estúdio Orra Meu de São Paulo para um ensaio com os membros remanescentes do Golpe de Estado. Eu sabia que seria um dia triste, pois fatalmente todos os envolvidos haveriam de falar e bastante do nosso amigo em comum que partira tão recentemente. Seria inevitável que as rodas de conversa fossem marcadas por tal pauta.

Eu mesmo passara os dias anteriores a rememorar passagens com o Nelson e também com o Hélcio, ou seja, as reminiscências foram múltiplas e a tangenciar fatalmente para um sentimento de saudade que seria difícil de controlar.

Foi o que aconteceu de fato, embora muitos momentos a evocar lembranças de ocorrências engraçadas tivessem produzido boas risadas e isso amenizou a melancolia generalizada, no sentido de que ficara a impressão que mesmo diante do pior cenário possível, ou seja, o desaparecimento de um amigo querido, as risadas produzidas mediante lembranças boas, certamente amenizaram o quadro e mais do que isso, não há melhor maneira de relembrar de alguém que partiu que não seja pela recordação de fatos bons por ele realizados e devidamente guardados na memória de todos.

Da esquerda para a direita: Eu (Luiz Domingues), Roby Pontes, Daniel Kid, Pepe Bueno e Fabio Cezzar. Ao fundo, a cantora, Lucíola Felipe, com um homem desconhecido mais ao fundo. Dia do ensaio com o Golpe de Estado. 21 de agosto de 2024. Acervo e cortesia: Daniel Kid. Click: Fabiano Sá

Bem, fomos ensaiar. Daniel Kid passou as três primeiras músicas com a banda, eu toquei a seguir. Fabio Cezzar foi o terceiro e Pepe Bueno foi o quarto. Não assisti a participação de Ricardo Schevano, pois sob estado gripal, eu não estava 100% bem disposto e a aproveitar a carona de Daniel Kid que estava de saída para ir ensaiar com um outro pessoal ainda naquela noite, parti com ele que me deixou na estação Praça da Árvore do metrô e assim facilitou a minha volta para a casa.

Ainda no ensaio, eu conhecia e de muito tempo a categoria de todos ali presentes. Da então atual formação do Golpe de Estado, não havia o que dizer sobre Marcello Schevano, meu velho companheiro de duas bandas (Sidharta e Patrulha do Espaço), pois o conhecia desde 1994 e sabia muito bem da sua genialidade. No entanto, havia sim o que dizer, pois a despeito de havermos tocado muitas vezes com a Patrulha do Espaço em shows "reunião" nos últimos anos e inclusive com uma ocasião dessas a se fazer muito recente (em junho de 2024), eis que a sua performance como substituto do grande Hélcio Aguirra, se mostrava espetacular, pois o Marcello Schevano de 2024, além da genialidade nata com a qual eu o conheci trinta anos antes, estava acrescida de uma gigantesca carga de especialização musical e também no quesito da engenharia de áudio, além de muito experiência adquirida, portanto, a se revelar como uma forma exemplar de músico de alto padrão.

Sobre Roby Pontes, a mesma coisa. Eu sabia há muito tempo que ele era super técnico, tocava desde criança, tinha uma técnica incrível e um gestual muito personalizado e claro, impressionei-me ainda mais ao vê-lo ainda mais técnico e experiente, com um grau de sofisticação na sua performance ao instrumento, a chamar demais a atenção. 

E quanto ao vocalista João Luiz, o mesmo raciocínio, ou seja, eu sempre soube que ele era dono de uma das melhores gargantas do Rock Brasileiro e mantinha consigo um padrão de presença de palco muito exuberante, e nesse ensaio, pude constatar que mais velho ele usara a prerrogativa vinícola, ou seja, tal como o bom vinho, ficara ainda melhor como vocalista e front-man de enorme desenvoltura.

Enfim, fiquei feliz por tocar com meus amigos da banda e também dividir espaço com os colegas baixistas, todos amigos meus e entre si a configurar ali uma confraria Rocker muito natural e claro, todos amigos do grande Nelson Brito. Isso amenizou a nossa dor pela perda dele, mas pelo menos na minha mente um questionamento se materializou: e no dia do show? Será que eu conseguiria tocar, homenagear o amigo Nelson e não me emocionar? Será que os demais baixistas co-irmãos também se controlariam no palco ao se deparar com os fãs do Golpe de Estado sob intensa emoção? E os membros da banda, também conseguiriam superar a emoção?

Eu, Luiz Domingues, Roby Pontes, o cantor Fabiano Sá, Daniel Kid, Pepe Bueno e Fabio Cezzar. Ao fundo, Lucíola Felipe e um homem desconhecido mais ao fundo. Dia do ensaio com o Golpe de Estado. 21 de agosto de 2024. Acervo e cortesia: Daniel Kid. Click: Ricardo Schevano

Ao vermos a foto que o Daniel Kid preparou para registrar a  participação dos cinco baixistas convidados, eu logo falei em tom de brincadeira que éramos os "filhos de Nelson" e assim batizou-se a nossa reunião para celebrar a amizade que cultivamos todos nós com ele.

"Os filhos do Nelson Brito": Ricardo Schevano, Daniel "Kid", eu (Luiz Domingues), Pepe Bueno e Fabio Cezzar. Dia do ensaio com o Golpe de Estado. 21 de agosto de 2024. Acervo e cortesia: Daniel Kid. Click: Fabiano Sá

Continua...

sexta-feira, 23 de agosto de 2024

Autobiografia na música - Trabalhos avulsos (Golpe de Estado & Convidados) - Capítulo 123 - Tributo à Nelson Brito - Por Luiz Domingues

De uma forma penosa para todos os fãs do Golpe de Estado, colegas e amigos em geral dos membros e ex-membros, eis que recebemos atônitos a nota de falecimento do grande baixista, Nelson Brito, membro fundador desse histórico grupo de Rock, em 12 de julho de 2024. 

Ocorreu exatamente dez anos após o súbito falecimento do guitarrista Hélcio Aguirra e desta feita, o efeito surpresa que nos acometeu na perda do amigo Hélcio, teve outra perspectiva em relação ao Nelson, pois foi um perecimento anunciado, dada a constatação de que ele fora acometido de grave doença gastro-intestinal e que teve a agravante da somatização infeliz de uma doença contagiosa que teve. Nesse ínterim, a potencializar a sua completa perda de imunidade, foi minada a sua possibilidade de recuperação, pois o seu quadro geral piorou muito, portanto, os médicos fizeram de tudo, mas não deu para salvar o meu amigo e grande artista.

Eu fiz uma visita no hospital em que ele esteve internado em julho, assim que soube que saíra da UTI e fora para o quarto para se recuperar, mas assim que cheguei ao recinto, ele teve uma nova crise e foi reconduzido à UTI e assim, receio que ele não percebeu a minha presença, e a minha fala, mesmo com a sua esposa, Heloísa a enfatizar isso para ele notar que eu estava ali ao seu lado a lhe falar palavras de incentivo. Infelizmente eu presenciei a sua remoção de volta à UTI e de lá, nunca mais o vi com vida.

Impactado fortemente, fiquei com o questionamento sobre perdas de entes queridos, familiares ou amigos: o que é pior? Perder um amigo subitamente como foi o caso de Hélcio Aguirra, Rubens Gióia e Ciro Pessoa ou a saber que o amigo está debilitado, e de forma lenta, alimentar a nossa esperança de que melhore, mas na verdade, a situação é irreversível e dessa forma, o sofrimento de quem parte é vagaroso e o de quem fica, angustiante? 

Na qualidade colega de arte e amigo pessoal do Nelson, eu fui um dos tantos que sentiu o impacto da sua perda, sem poder fazer nada para mudar a situação, tampouco amenizar a tristeza pela qual fomos todos acometidos com a notícia. 

Particularmente, eu fui amigo do Nelson por quarenta e um anos. Nos conhecemos em fevereiro de 1983 nos bastidores da casa de espetáculos, "Victoria Pub" de São Paulo, quando a minha banda na ocasião, A Chave do Sol, se revezava com a dele, "Fickle Pickle", na missão de toda noite abrirmos os shows do "Tutti-Frutti", lendária banda comandada pelo guitarrista Luiz Carlini, por uma temporada longa que se estendeu até abril daquele mesmo ano. Nelson mal havia me conhecido nos bastidores do primeiro dia que lá fomos tocar e me ofereceu o seu amplificador pessoal para que eu me apresentasse e assim foi durante toda a temporada ali decorrida. Tal passagem está narrada com detalhes no livro "A Chave do Sol" da minha autobiografia, a corresponder ao volume V da obra. 

Simpático e solícito, tornou-se meu amigo de imediato. Desse ponto em diante, foram muitas jornadas a nos ajudarmos mutuamente. Ele já a bordo do Golpe de Estado e eu a passar por muitas bandas depois que A Chave do Sol encerrou atividades, mas curiosamente, sempre, em praticamente todas pelas quais atuei, a interagir com o Golpe de Estado através de shows compartilhados das mais variadas procedências e assim, sempre foi um prazer estarmos juntos nos camarins, coxias, no processo de soundcheck, mas ações de divulgação e claro, pelos palcos, ambiente de ensaios e estúdios de gravação, além de ambiente de rádio e TV. 

Nesses anos todos, também fui convocado a interagir como convidado em eventuais shows que o Golpe de Estado realizou e sempre fui acolhido pelo Nelson e demais colegas, da melhor maneira possível. Se eu já havia sentido muito a perda do guitarrista Hélcio Aguirra que nos deixou também de uma forma sofrida em 2014, o sentimento se repetiu em 2024, quando soube da partida do Nelson Brito. 

E assim como participei de um show em homenagem ao Hélcio Aguirra, alguns dias depois de seu falecimento, recebi um telefonema do meu amigo Marcello Schevano (desde 2014, substituto do Hélcio Aguirra para a condução da guitarra na continuidade de carreira do Golpe de Estado), para que eu participasse de algo semelhante, para prestarmos um tributo ao Nelson.

Seria diferente, no entanto, na medida que aquele "tributo" no qual participei em 2014, foi feito por um conglomerado de amigos e vários "combos" se apresentaram a tocar músicas de bandas pelas quais o Hélcio atuara e curiosamente, o Golpe de Estado a se tratar do seu trabalho mais significativo, ficara praticamente de fora. 

Desta vez, seria um show regular do Golpe do Estado, data essa que estava marcada previamente e que inclusive fora um pedido expresso da parte do próprio Nelson, ainda consciente no leito hospitalar de que nenhuma data agendada fosse cancelada.

Nesse termos, outras datas foram cumpridas mediante o apoio do baixista Daniel Kid, meu ex-roadie da Patrulha do Espaço em nossa  formação chronophágica, mas desta vez, a banda quis fixar uma homenagem a convidar cinco baixistas que foram amigos do Nelson e assim, eu aceitei o convite para tocar nesse compromisso que foi marcado para o dia 24 de agosto de 2024, com pouco mais de quarenta dias da sua morte, quando eu teria a honra de dividir o palco com o Golpe de Estado em regime de revezamento com quatro queridos amigos meus, baixistas e todos, amigos igualmente do Nelson, de forma fraternal. 

Dessa forma, além do Daniel "Kid" Ribeiro já citado, eu estive junto também a Marcelo "Pepe" Bueno, Ricardo "Soneca" Schevano (meus queridos amigos desde os anos 1990, tendo sido, ambos, meus alunos e cuja história está inteiramente narrada no livro VI da minha autobiografia, denominado como: "Sala de Aulas"). Além do ótimo, Fabio Cezzar, baixista de bandas seminais como o King Bird e Casa das Máquinas versão anos 2000 e meu amigo desde pelo menos 2007.

Todos nos unimos à formação então atual da banda e tocarmos as belas e complexas linhas de baixo criadas pelo nosso querido amigo que nos deixou. Foram designadas para mim, três canções para eu tocar no show: "Caso Sério", "Cobra Criada" e "Não é Hora", três dos muitos clássicos da banda.

Um ensaio foi marcado para ocorrer no estúdio Orra Meu, na quarta-feira, dia 21 de agosto de 2024.

Continua...