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terça-feira, 16 de julho de 2019

Autobiografia na Música - Patrulha do Espaço - Capítulo 330 - Por Luiz Domingues

Conforme o combinado previamente, reagrupamo-nos para realizarmos enfim o último show da Patrulha do Espaço, em 2019.

Mantivemos apenas contato protocolar ao final de fevereiro de 2019, para combinar a logística que adotaríamos para esse esforço final e dessa maneira, ficou acertado que encontrar-nos-íamos na cidade de Curitiba no dia 28 de fevereiro de 2019. Rolando Castello Junior e Marta Benévolo já estavam hospedados na capital paranaense, há alguns dias. Eu, Luiz Domingues e Rodrigo Hid voamos para Curitiba, na manhã desse dia citado, uma quinta-feira e chegamos com tranquilidade ao hotel em que hospedar-nos-íamos, no bairro do Batel, por volta de onze horas da manhã. 

Esteve marcado um ensaio para nós, no estúdio Old Black, localizado no mesmo bairro e como nos meses de dezembro e janeiro e ao longo de fevereiro inteiro, nenhuma sugestão de música diferente fora feita para prepararmos, fomos ao ensaio com a certeza de que o repertório base desse show, constituir-se-ia do básico que tínhamos feito nos show anteriores dessa turnê final.

Eu, Luiz Domingues, em meio ao ensaio da Patrulha do Espaço no estúdio Old Black de Curitiba, em 28 de fevereiro de 2019. Click, acervo e cortesia de Marta Benévolo

Chegamos tranquilamente ao estúdio Old Black e fomos bem recepcionados pelo seu gestor, o simpático músico, Renato Ximú. Ensaiamos o repertório base, deixamos algum material disponível para um possível pedido de "bis" para a plateia e recebemos a visita de amigos. 

O proprietário do estúdio, que também é curador de grandes espaços para shows na cidade, alguns músicos e entre eles, o jovem, Beppe Fumagalli que de uma forma entusiasmada falou-nos sobre a sua banda, chamada, "Newholly", influenciada pelo Rock Bubblegum sessentista em 100%, segundo ele. Trocamos contato e ele prontificou-se a enviar-me o seu material para que eu ouvisse com calma em São Paulo, assim que voltasse.

Mais flagrantes da Patrulha do Espaço a ensaiar no estúdio Old Black, de Curitiba-PR, em 28 de fevereiro de 2019. Clicks (1 e 2), acervo e cortesia: Marta Benévolo. Click 3: Renato Ximú

Já anoitecia, quando o ensaio encerrara-se e apesar da conversa agradável ali estabelecida, com pessoas importantes da cena paranaense, estávamos cansados, portanto, voltar para o hotel tornou-se uma necessidade premente. 

E assim o fizemos, quando pudemos então recuperar as forças e estarmos prontos para uma pequena viagem, mediante percurso rodoviário, para a cidade de São Bento do Sul, em Santa Catarina, onde ficaríamos hospedados, a visar o show no Festival Psicodália, a realizar-se na cidade vizinha de Rio Negrinho-SC.

Dessa forma, na manhã do dia 1º de março de 2019, a van contratada para levar-nos, estacionou na porta do nosso hotel em Curitiba. Alguns minutos depois, eis que o casal amigo, ultra solícito e simpático, formado por Cristiano e Lorena Costa, chegou. Eles viajariam conosco e certamente que Cristiano seria um misto de roadie e road manager nessa empreitada. 

Além do mais, haveria por suprir a banda com farto material fotográfico e com imagens, o que seria muito enriquecedor para nós, sem contar com a simpatia do casal, sempre encantadora.

Flagrante da banda a viajar de Curitiba, para São Bento do Sul e Rio Negrinho, ambas em Santa Catarina. 1º de março de 2019. Alojados no primeiro banco: Cristiano e Lorena Costa, no segundo banco: Rolando Castello Junior e Marta Benévolo e no terceiro banco: eu, Luiz Domingues e Rodrigo Hid. Click (selfie), acervo e cortesia de Cristiano Rocha Affonso Costa 

Foi uma viagem muito tranquila, chegamos bem em São Bento do Sul-SC e assim que fizemos o check-in no hotel, tivemos tempo de sobra para explorarmos o entorno, com direito a uma visita feita em uma padaria próxima e compras em um supermercado. 

A nossa partida para o local do show, distante cerca de quinze Km dali, estava marcada para às 23 horas. O nosso soundcheck estava marcado para a meia noite e o show, para as duas e meia da manhã, logo após o término do show da Elza Soares, que realizar-se-ia em um outro palco. Enfim, foi o tempo suficiente para o descanso, nos arrumarmos e ainda esperar por um bom tempo para partirmos, enfim.

Assim, saímos na hora combinada e mediante uma viagem rápida, chegamos ao local do festival, uma imensa área semi rural, quando impressionei-me pelo seu tamanho e boa organização, aparentemente. 

Salvo um pequeno vacilo da produtora encarregada de cuidar de nossa comitiva, que deveria ter embarcado conosco em nossa van, assim que chegamos à portaria e a nos conduzir com maior segurança ao bastidor do nosso palco, mas que por não fazê-lo, deixou-nos momentaneamente à deriva, eis que mediante o apoio de outros funcionários do festival, chegamos com relativa rapidez. 

Instalados no camarim, fomos muito bem recebidos pelos produtores designados para atender-nos e logo, o acesso ao palco foi liberado para fazermos a preparação e um soundcheck muito tranquilo, com a cortina cênica fechada e com toda a atenção do grande público voltada para o palco adicional, onde o show da veterana estrela da MPB, Elza Soares, já estava para iniciar-se. 

Assim que Elza começou o seu show, fomos autorizados a iniciar a nossa preparação. Bem assistidos pelos técnicos do PA/monitor/iluminação, ali disponíveis para atender-nos, foi tudo a contento.

O amigo, Jardel, que fora roadie em nosso show na cidade de Ponta Grossa-PR, cerca de um ano antes, esteve presente e junto ao Cristiano, auxiliou-nos na montagem. 

Uma fato desagradável ocorreu, mas não fora culpa deles, técnicos, exatamente. Ocorreu que havia um único praticável disponível para usarmos na bateria e como o Rolando usa costumeiramente, dois bumbos, seriam precisos dois, para o seu Kit ficar bem instalado. 

O motivo de haver só um praticável para nós usarmos, foi bizarro. O que aconteceu, foi que a produção da Elza Soares havia solicitado uma enorme quantidade de praticáveis e assim, estavam a usar no outro palco, uma quantidade absurda, em torno de vinte e sete praticáveis e por isso, houvera sido reservado apenas um para o nosso show, o que descumpriu o nosso rider técnico enviado previamente, pois é lógico que os produtores locais estiveram avisados sobre o kit de bateria ser grande. 

Enfim, a produção da Elza Soares deve ter pressionado e assim, não tivemos outra solução a não ser montar a bateria no nível do piso. De certa forma, também seria charmoso, pois atuaríamos como bandas de Rock sessentistas que não costumavam suspender a bateria no palco, então, tudo bem.

Flagrantes da apresentação do show, que ficou dividida entre o personagem, Cris Rock, que fora o nosso convidado,e uma Drag Queen, hostess do festival. Patrulha do Espaço no Festival psicodália, em Rio Negrinho-SC, no dia 1º de março de 2019. Click, acervo e cortesia: Herman Silvani (foto 1) e Liza Bueno (foto 2)

Apesar da hospitalidade, eu observei os detalhes e a tão propagada aura "hippie" desse festival, não estava assim bem delineada, em minha percepção. 

Talvez por eu não ter andado pelo campo como um todo e ter ficado somente naquele bastidor e no palco onde tocamos, e por ser no período noturno, eu não senti uma atmosfera contracultural, vintage ou retrô, ali naquele ambiente e pelo contrário, a impressão que eu observei foi outra, como se nas entrelinhas, fosse mais um festival alternativo, quiçá sob orientação "indie", em que alguns sinais contraculturais fossem misturados com ícones modernos e em certos aspectos, a estabelecer equívocos de avaliação da parte de seus seguidores. 

Por exemplo, fomos interpelados por um "Drag Queen", que pediu-nos a permissão para ser o mestre (ou maestrina, como queira), de cerimônias a apresentar-nos. Aceitamos, sem preconceito, mas ao mesmo tempo, o que teria a ver com um show de Rock, exatamente?

Então, eis que o personagem, Cris Rock, que faria a nossa apresentação por nossa vontade, teve que dividir as atenções iniciais com este/esta senhor/senhorita. Tudo bem, a apresentação do Cris Rock foi o que esperávamos a motivar o público, mas a Drag Queen, apesar de não desapontar, mesmo por que devia estar acostumada com performances, realmente pareceu-me deslocada do contexto, primeiro por não fazer a menor ideia de quem fôssemos nós e segundo, por confundir o clima de uma plateia de show de Rock com uma festa gay, com a qual ela devia estar habituada a animar. 

Por exemplo, ao insistir em chamar as pessoas da plateia como: "senhoras", não considerou a hipótese que tal expectativa em enxergar o mundo apenas pelo prisma feminino, foi exclusivamente sua e que, sem nenhum preconceito de nossa parte, mas apenas a constatar, isso destoou do espírito Rocker que ali deveria ser observado, sem subterfúgios. 

Ainda bem que o Cris Rock aliviou essa estranheza e o público entendeu melhor a sua manifestação, muito mais condizente para conosco. 

As cortinas fecharam-se novamente após esse prelúdio discursivo e cerca de poucos segundos depois, ao som de nossos primeiros acordes, com a canção, "Meus 26 Anos", abriram-se e mediante a explosão de luz, um show de Rock iniciou-se, enfim...

Continua...

domingo, 30 de dezembro de 2018

Autobiografia na Música - Patrulha do Espaço - Capítulo 327 - Por Luiz Domingues

Foi então que eu cheguei às dependências do Sesc Belenzinho, por volta de 15 horas e mais uma vez eu pude constatar que a instituição não esforçara-se para facilitar a vida dos artistas, visto que só foi possível garantir uma vaga para o meu automóvel, mediante o uso da pura sorte em achar uma oportunidade a esmo e não por possuir uma reserva garantida. 

Em um sábado quente na cidade de São Paulo, a unidade estava completamente lotada e há de registrar-se que a procura pelas suas enormes piscinas, com cachoeiras artificiais, era normalmente muito grande, geralmente a lotar completamente os estacionamentos daquela unidade. 

Bem, desta feita eu só precisaria levar comigo um baixo, pois todo o backline seria alugado e de primeira linha, conforme constou no pedido para a elaboração do rider técnico/imput list. 

Em suma, menos mal, pois se eu tivesse que ter transportado o meu equipamento pessoal e mais instrumentos, eu teria ficado bastante contrariado com a falta de sensibilidade da parte da instituição em questões tão básicas a envolver a logística, porém, tudo bem, mesmo ao ter que andar bastante e subir duas escadas com um Hard-Case de baixo em mãos, dos males o menor, o meu carro ficou ao menos seguro, ali dentro. 

Ao chegar à porta da "comedoria", avistei Rolando & Marta, acompanhados do ótimo baixista, Daniel Delello e da minha amiga, a produtora musical, Christine Funke, que o Rolando contratara para ser road manager por essa noite. 

Estavam todos ligeiramente contrariados pelo semblante que exibiam, e a contar com instrumentos e bagagem em mãos, pois haviam sido informados pelos funcionários da instituição, que não poderiam adentrar o ambiente, por conta do motivo daquele salão gigantesco ser um restaurante/lanchonete e na prática, a prioridade seria a demanda do almoço que estava a ser servido naquele instante.

E assim, o acesso aos camarins que eram feitos através da cozinha, só poderiam ser liberados a posteriori, quando o movimento do almoço diminuísse. Pura balela, ou seja, mais uma regra engessada e ultra superestimada pelos seus idealizadores, certamente e que devem considerar-se geniais por inventar tais regulamentos despropositados. 

Senão vejamos: se haviam dezenas de pessoas a caminharem para comprar e consumir comida, que diferença faria para a ordem local, que nós caminhássemos em direção ao camarim? Foi quando o Rolando teve uma ideia para burlar a regra esdrúxula e sem cabimento que nos fora imposta, da maneira mais prosaica possível, pois eis que cada um de nós apanhou uma "comanda" de consumo como qualquer pleiteante ao almoço ali servido e assim entramos e fomos ao camarim, sem nenhum problema. Elementar meu caro, Watson... 


Revista do Sesc a divulgar com uma tímida nota o show e a cometer erros com os nomes dos convidados. Patrulha do Espaço no Sesc Belenzinho de São Paulo-SP. 3 de novembro de 2018. 

Bem, logo os demais companheiros da banda chegaram, mais alguns convidados e a equipe técnica que faria a operação do PA e a outra, da gravação do Concerto. Rapidamente o palco foi montado e eu fiquei aliviado por saber que a equipe terceirizada seria da empresa, "Loudness", uma das mais tradicionais de São Paulo, seguramente no mercado (que eu lembre-me, não tenho essa informação precisa), desde os anos setenta. 

Fiz inúmeros shows do Língua de Trapo e d'A Chave do Sol nos anos oitenta, com o suporte de PA e monitor dessa empresa, que sempre foi muito boa. E melhor ainda, o técnico de PA seria um profissional de confiança dos irmãos Schevano, que costumava trabalhar com regularidade no estúdio deles, o Orra Meu. 

Mais um pouco de tempo passou e eu vi entrar no enorme salão da dita, "comedoria", a figura do meu amigo, Marinho Rocker, um dos incentivadores para que eu iniciasse a redação da minha autobiografia na música, no hoje já longínquo ano de 2011. A sua esposa, Kimberly, estava junto. 

Conversamos detidamente enquanto os técnicos montavam o palco e vários companheiros puderam autografar diversos álbuns que ele trouxe consigo e não apenas da Patrulha do Espaço, mas de várias bandas, sabedor que muitos convidados especiais participariam desse show. 

Mais que um prazer por poder recebê-lo, veio a reboque o emocionante sentido da reverência da parte dele e de sua esposa, ao viajarem a madrugada inteira desde a cidade de Lavras, no sul de Minas Gerais, apenas para assistirem o show e prestigiar-nos. O que dizer diante de uma manifestação desse porte?

Matéria no Jornal: Empresas & Negócios" a repercutir o show de despedida da banda na cidade de São Paulo. Patrulha do Espaço no Sesc Belenzinho de São Paulo-SP. 3 de novembro de 2018. 

Eis que os ajustes para estabilizar o estéreo do PA começaram e foi até bem rápido para se chegar nesse estágio, geralmente demorado. Bem, a banda base posicionou-se e os primeiros ajustes individuais foram feitos com muita eficácia. Equipamento bom, técnico bom e tecnologia digital cada vez mais rápida e precisa, foi um dos melhores soundchecks em que eu participei e acredite, leitor, se tem um fator nessa profissão que eu abomino é passagem de som morosa, mediante horas e horas para acertar-se um som que na hora do show propriamente dito, nunca corresponde ao esforço empreendido no período vespertino e pior, gera-se um tipo de desgaste emocional, completamente inconveniente.
Início do trabalho do soundcheck: Luiz Domingues a observar e Rolando Castello Junior a passar o som de cada peça da bateria. Patrulha do Espaço no Sesc Belenzinho de São Paulo-SP. 3 de novembro de 2018. Click, acervo e cortesia de Rodrigo Hid

Então chegou a vez para passar duas ou três músicas e de fato, no palco, o som equalizou-se muito rapidamente, ainda bem, Mas com a ressalva que estava bem alto e tanto foi assim, que enquanto ouvíamos a equalização dos bumbos da bateria de Rolando Castello Junior, o técnico de gravação, André Miskalo, estava ao meu lado e brincou ao dizer-me: -"6.8 na escala Richter", pois realmente a trepidação do palco assemelhou-se a um terremoto.

A banda a realizar o soundcheck, no período vespertino. Patrulha do Espaço no Sesc Belenzinho de São Paulo-SP. 3 de novembro de 2018. Click, acervo e cortesia de Marinho Rocker

Passadas algumas músicas com a banda base inteira, eu pedi ao Daniel Delello para equalizar o seu baixo, pois ele iniciaria o show, a tocar três temas, inclusive temas mais atuais da formação que ele fez parte nos últimos estertores da banda. Eu levei um baixo Fender Precision e ele estava com um Fender Jazz Bass. 

E apesar da sutil diferença entre os dois modelos distintos, eis que quase não mudamos a equalização do amplificador, um em relação ao outro e eu apreciei o timbre dos dois, com peso e alta definição. 

O meu, a soar um pouco mais metálico (e claro, leve-se em conta o fato de eu ser um "palheteiro" convicto), e o dele, mais aveludado. Magnífico e ainda haveria o Gabriel Costa (com um Fender Precision) e Ricardo Schevano (a usar Rickenbacker), portanto, por isso eu só levei um instrumento, pois entre quatro amigos fraternos, todos contariam com os quatro instrumentos em uma eventual pane para qualquer um e só instrumentos vintage, com alto padrão.

Fotos do palco montado: a bateria como detalhe e a lateral do equipamento de monitor, unidade móvel de gravação e preparação de afinação para guitarras e baixos, com a figura do roadie responsável pelos instrumentos, Fábio (Diogo Barreto e Samuel Wagner também trabalharam). Patrulha do Espaço no Sesc Belenzinho de São Paulo-SP. 3 de novembro de 2018. Clicks, acervo e cortesia de Wan Moraez

No camarim, a confraternização foi total. Membros da banda, ex-membros, convidados com forte ligação histórica pelos mais variados motivos com a nossa banda, a equipe técnica e muitos amigos que passaram por lá, para um abraço. 

Palhinha, um guitarrista seminal do Rock paulista, desde os anos sessenta, contou-nos diversas histórias maravilhosas, até sobre a Jovem Guarda, onde atuou pelos idos de 1967 & 1968. O famoso jornalista, Régis Tadeu, Lúcio Zaparolli, ex-vocalista do Santa Gang e há muitos anos, dono e técnico de PA, José Roberto Agatão, amigo da banda desde a formação Chronophágica, Marinho Rocker & Kimberly, enfim, foi muito agradável. 

Eis que a produtora, Christine Funke, sinalizou-nos e chegara a hora. As três primeiras músicas seriam com Daniel Delello no baixo e Marcello Schevano na guitarra. Eu e Rodrigo Hid entraríamos a partir da quarta música e tocaríamos uma boa sequência da nossa formação, com Marcello Schevano, posteriormente. Foi o momento para chegar próximo ao palco pelo bastidor e assistir o início do espetáculo. 

Continua...

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Autobiografia na Música - Patrulha do Espaço - Capítulo 325 - Por Luiz Domingues

Ainda em Curitiba, quando estivemos ali pouco dias antes, a visar prolongar a nossa viagem para apresentarmo-nos posteriormente em Caçador-SC, havíamos conversado sobre o repertório que faríamos no último show da história da banda, na cidade de São Paulo, em 3 de novembro. 

Desde o começo dessa turnê, sabíamos e sem nenhum demérito aos outros espetáculos feitos em outras cidades, incluso dois na própria capital paulista, em maio último (na verdade, três, visto que o show que fizemos para gravar a nossa participação no programa radiofônico, "Live on The Rocks", da Webradio Stay Rock Brazil, houvera sido perante um significativo público, no melhor estilo dos programas de rádio de outrora, mediante um auditório lotado), esse derradeiro, em novembro, precisava conter algumas modificações essenciais a promover uma carga emocional condizente com a despedida da banda em sua cidade natal. 

Especulamos sobre haver mais músicas da nossa formação Chronophágica, não para impormos a nossa estética em detrimento a outras fases por quais essa banda passou, mas por sermos a banda base da turnê, portanto nada mais natural para nós três, eu (Luiz), Marcello e Rodrigo, que assim se procedesse. 

O Rolando Castello Junior não haveria por reclamar disso, protagonista igualmente como nós e a Marta, na qualidade de membro mais nova e a representar as últimas formações da banda, também mostrara-se admiradora confessa de nossa formação e por conseguinte, da obra. E claro, a conter um apanhado bom dos discos clássicos da formação Power-Trio com Rolando/Serginho e Dudu. 

E por fim, planejamos tocar algum material dos primórdios, com Arnaldo Baptista na formação, é claro. Seria imprescindível tocar o material inicial, através do seu "Elo Perdido", o mítico primeiro LP. 

Bem, em maio, no show que realizamos na dita "Virada Cultural" de São Paulo, fizemos uma versão emocionante da canção: "Sunshine". Essa peça composta pelo Arnaldo Baptista, faz parte do primeiro álbum, o "Elo Perdido", de 1977 e tem duplo significado, visto que a regravamos com um arranjo ligeiramente diferente, no CD Chronophagia, que foi o primeiro trabalho da nossa formação, lançado em 2000. 

E claro que tal canção credenciou-se naturalmente a fazer parte do último show em São Paulo, mas também cogitamos fortemente incluir: "Sexy Sua", igualmente do primeiro álbum com Arnaldo Baptista e muito executada pela nossa formação, em nossos shows entre 1999 e 2004. 

Além disso tudo, combinamos de executar alguns temas progressivos da nossa formação e nesse caso, a música "Sendo o Tudo e o Nada", tornou-se quase uma certeza, mas também cogitamos a inclusão de: "Terra de Minerais" (CD ".ComPacto", de 2003) e 'Véu do Amanhã", do CD "Missão na Área 13" (de 2004).  

Todavia em tal conversa travada em um quarto de hotel de Curitiba, em 11 de outubro de 2018, eis que o Junior comentou conosco que já havia convidado alguns músicos para participarem do show final em São Paulo e que por conta de tais participações, o repertório teria que privilegiar a presença desses convidados. 

Por exemplo, no caso dos guitarristas, Rubens Gióia e Xando Zupo, a carga emocional pela presença de ambos dar-se-ia pelo fato deles terem feito parte da formação do álbum, "Primus Inter Pares", lançado em 1992. 

Bem, como eu já expressei amplamente em minha autobiografia, em capítulos anteriores sobre a Patrulha do Espaço, eu tenho inúmeras restrições a esse trabalho da banda e creio ser enfadonho repetir tudo aqui. Dessa maneira, ao leitor que não acompanhou desde o início desta narrativa, fica o convite para buscar tal argumentação de minha parte, em tais capítulos anteriores, alojados no arquivo do Blog (ou no índice do livro impresso e/ou E-Book). 

Portanto, a rigor, tal convite obrigar-nos-ia a incluirmos músicas mais pesadas, versadas pela estética do Hard-Rock oitentista e no limiar do Heavy-Metal. Pelo lado pessoal e emocional, eu não tive nenhuma restrição, no entanto, pois achei que por esse lado humano, contar com Zupo e Gióia a participarem, seria bonito para a banda e para eles próprios, como ex-membros da nossa tripulação, por esse aspecto e além de muito justa a homenagem sob mão dupla, eu comemorei também pelo fato de eu ter uma história particular e longa com ambos, como companheiros que foram em dois trabalhos muito significativos da minha carreira, no caso, respectivamente: "Pedra" e "A Chave do Sol". 

Perfeito, tive ambos como colegas em trabalhos tão marcantes, acumulei muitas histórias e sobretudo, gravei três discos com o Rubens e três com o Xando, dos quais, muito orgulho-me como peças artísticas que representam um legado cultural eterno e parte do tesouro acumulado da minha carreira. 

Então, de antemão, o Junior pediu-nos para providenciarmos a preparação de três músicas para dar vazão a estes dois convidados. Uma delas seria: "Gata", um Hard-Rock gravado pelo Rubens Gióia. A outra seria: "Serial Killer, gravada por Rubens Gióia e Xando Zupo, uma música que nunca teve execução ao vivo, pelo que o próprio Junior recordava-se e a terceira música, uma ideia enfim que achei boa, aliás ótima. 

Já a respeito da canção: "Livre Como Você", esta foi uma composição do Xando Zupo, com a participação da Patrulha do Espaço para o seu disco solo, "Z-Sides", lançado em 2003. Toda a história dessa produção da gravação de tal faixa, está amplamente relatada no capítulo dos "Trabalhos Avulsos", correspondente a tal história e basta o leitor procurar no arquivo do Blog. 

E por nunca ter tido uma execução ao vivo com a Patrulha do Espaço, em meio a formação que a gravou (o Xando salientou, no entanto, que a tocou certa vez com uma banda cover, em uma apresentação ocorrida em uma casa noturna e com a participação de Marcello Schevano nessa performance), eis que a ideia do Rolando foi ótima. 

E o fato é que tal canção é muito boa, bem mais amena em termos de sonoridade e mais próxima da nossa realidade Chronophágica e não só por tal demanda de ordem estética, mas eu comemorei a sua inclusão, também pelo exotismo em tocarmos e possivelmente gravá-la para um disco ao vivo, uma canção que fez parte da nossa banda e da nossa formação, mas praticamente manteve-se obscurecida para o grande público, portanto, seria um achado. 

E assim, absorvemos a ideia de que o repertório não seria o que projetáramos inicialmente e que haveria uma certa aura mais pesada para esse concerto final e justamente no berço natal da nossa banda...

Continua...

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Autobiografia na Música - Patrulha do Espaço - Capítulo 323 - Por Luiz Domingues

Eis que chegamos em Curitiba com tranquilidade, apesar do mau tempo na cidade, naquele instante. Por ser véspera de feriado, não tivemos outra alternativa a não ser irmos para a capital paranaense nesse dia e viajarmos para Caçador-SC, mediante o uso de uma van, no dia seguinte. 

No entanto, a van contratada teve um problema mecânico e dessa maneira, uma outra teve que ser contratada a culminar que a viagem foi remarcada para o dia do festival, no sábado. Como resultado prático, tivemos os dias de quinta e sexta a se configurarem como ociosos na capital paranaense. 

E como se não bastassem os problemas estruturais para seguirmos a viagem, eis que fomos comunicados que o hotel só poderia hospedar-nos na quinta-feira, portanto, passamos a noite em um hotel no bairro do Batel, na primeira noite em Curitiba, mas tivemos que mudarmo-nos para um outro, mais próximo do centro da cidade, na sexta.

Nesse segundo hotel em que nos instalamos, em pleno feriado, eu pude estabelecer um bom passeio a pé pelo bairro, a se mostrar completamente deserto por tal ocorrência e devo acrescentar que foi bem agradável o meu caminhar solitário, literalmente, pela ausência quase completa de pessoas pelas ruas. 

A comitiva do sambista mainstream, Péricles, esteve hospedada no mesmo hotel. Cumprimentei o artista em pessoa no saguão, mas apesar da simpatia mútua nos cumprimentos, não pude estabelecer um diálogo, visto estarmos, nós, de saída e ele e sua banda preparavam-se para irem cumprir o ritual do soundcheck vespertino, onde apresentar-se-iam naquela noite em Curitiba. 

Doravante, eis que passamos o dia e a noite a conversarmos nas dependências do hotel, quando entre tantos assuntos interessantes eu pude ouvir com atenção as reminiscências de Marta Benévolo sobre ser também uma artista plástica super criativa e de fato, ao ver o processo de criação do álbum, "Veloz", um trabalho mais recente da banda e do qual além de ser componente, responsabilizou-se pela criação e lay-out da capa e encarte do disco, e assim, fiquei bastante impressionado e com o incremento de contar com a sua explanação ilustrada, visto que mostrou-me o passo a passo dessa criação, mediante uma cobertura fotográfica do processo, através de seu lap top. 

Além do mais, ela contou-nos várias histórias a respeito de sua atuação como curadora de espetáculos musicais e exposições de arte em Brasília, verdadeiramente fascinantes pelos projetos que liderou e pelos artistas com os quais lidou, alguns dentro do patamar mainstream, inclusive. Nessa hora, o fato de não termos tido atividades em Curitiba, por dois dias, fez valer a pena a longa espera para viajarmos a Caçador-SC.

Capa de dois álbuns mais recentes da discografia da Patrulha do Espaço, em que Marta Benévolo participa como cantora e foi responsável pelo lay-out, o CD "Veloz" é de sua criação, mediante o uso de material reciclável

E no dia seguinte, ao final da manhã, nós fizemos o check-out e entramos na van que chegou pontualmente à porta do hotel. Gostei de imediato do seu motorista, um rapaz educado e com muito bom humor, todavia na dose certa, sem exageros inconvenientes, chamado: Mauro. 

Acompanhar-nos-iam três amigos, nessa viagem. O casal ultra simpático, solícito e alto astral, formado por Cristiano e Lorena Rocha Affonso Costa, que havia acompanhado-nos em Ponta Grossa-PR, em abril próximo passado. 

Cristiano também é músico, além de ser um militar com alta patente e especialista em segurança e mediação de conflitos. Ele treinou profissionais para grandes eventos, tais com a Copa do Mundo e Olimpíadas do Rio de Janeiro, além de encontros governamentais, cúpulas e afins. 

De fato, logo após o nosso encontro realizado em abril de 2018, na cidade de Ponta Grossa-PR, ele enviou-me um livro técnico de sua autoria, sobre o assunto em questão. Portanto, é também um escritor com talento e além de escrever livros técnicos, pretende lançar livros com biografias de bandas de Rock setentistas que conhece de cor e salteado, a mostrar que é mesmo multifacetado como autor. 

Não obstante tudo isso, Cristiano revela-se um produtor musical, pois assim como ocorrera em Ponta Grossa-PR, muito auxiliar-nos-ia em Caçador-SC e como se não bastasse tudo isso, graças aos seus esforços, uma cobertura fotográfica desse show e algumas filmagens, foram supridas por ele e pela sua não menos simpática e solícita esposa, Lorena. 

E uma terceira pessoa viajou conosco, chamada, Manuela "Manu" Santana, experiente produtora musical com larga experiência ao ter  gerido festivais com grande porte, tendo sido membro da adminstração do festival "Psicodália", por muitos anos. Pois Manuela também auxiliou-nos muito nessa viagem, além de sua simpatia que ajudou a tornar tal convívio, muito agradável.

No interior da van, a partir de Curitiba em direção à Caçador-SC. No primeiro banco, o casal, Lorena e Cristiano Rocha Affonso Costa, no segundo, Rolando Castello Junior e Marta Benévolo. No terceiro, Rodrigo Hid e eu (Luiz Domingues) e no quarto banco, deitada momentaneamente e não presente no enquadramento, Manuela "Manu" Santana. Comitiva da Patrulha do Espaço a locomover-se para Caçador-SC, em 13 de outubro de 2018. Clicks (selfies), acervo e cortesia de Cristiano Rocha Affonso Costa

Apesar da chuva intensa, frio e mediante uma estrada não muito segura, chegamos bem na cidade de Caçador-SC, no meio da tarde e nesta altura, já sabíamos de antemão que devido ao mau tempo, o festival havia transferido o seu local para um ambiente fechado, urbano e saído assim, do espaço rural onde estava anteriormente programado para acontecer. 

Seria para conter camping e barracas ao ar livre, mas com essa brusca mudança, certamente que as mais de cinco mil pessoas aguardadas, na realidade, reduzir-se-iam drasticamente em um ambiente fechado e ainda mais sob frio e chuva. Paciência...

Continua...  

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Autobiografia na Música - Patrulha do Espaço - Capítulo 318 - Por Luiz Domingues

Eis que chegou o dia do show no Sesc Pompeia e logo que eu chequei os meus recados nas redes sociais, vi que várias pessoas avisaram-me e repercutia de uma maneira geral que o anúncio do show estava em vários portais de notícias, mas um deles em particular, mostrara-se mais vistoso, digamos assim e sem nenhum demérito aos demais. 

Porém, acostumados desde sempre a habitarmos o mundo underground do show business, nas raras ocasiões em que um órgão mainstream tratava-nos com reverência, chegava a causar espécie.

Ocorreu que uma matéria sobre o show fora publicada no portal de notícias G1, que pertencia à Rede Globo e para ilustrar a matéria, um vídeo da Patrulha do Espaço fora postado. 

E tratou-se de nossa aparição em 2003, com a formação Chronophágica em ação e naquela ocasião a participarmos das comemorações em prol dos então vinte e cinco anos de existência da gravadora Baratos Afins. 

Portanto, além de alvissareiro, marcou um elo entre a Patrulha do Espaço, a Baratos Afins e a própria efeméride em si, visto que neste novo instante, 2018, tocaríamos no mesmo palco e formação, com o acréscimo de Marta Benévolo, mas com a ausência de Marcello Schevano, conforme eu já descrevi anteriormente.

Foto informal do interior da van que conduziu a banda, do estúdio Orra Meu para o Sesc Pompeia, em 11 de maio de 2018. Rolando Castello Junior no primeiro plano, Marinho Thomaz na condução da van, com Samuel Wagner ao seu lado. Click: Luiz Domingues

Encontramo-nos no estúdio Orra Meu, por volta das treze horas e tivemos uma ótima surpresa ali, ao saber da companhia que teríamos e sobre a qual não estava planejada, anteriormente. 

Ocorreu que por força de Marcello Schevano não poder tocar conosco nessa noite (por conta do show que faria com o Golpe de Estado na mesma data, em outro espaço na cidade, no Teatro Eva Wilma, localizado no bairro da Vila Carrão, zona leste de São Paulo), além da sua perda em nossas fileiras, o fato foi que também a nossa estrutura logística quebrou-se, nesse ínterim. 

A equipe técnica que servir-nos-ia, teve que ser dividida para atender o Golpe de Estado, portanto, se a ideia inicial foi contar com o roadie, Daniel Barreto, como roadie e motorista da Van que conduzir-nos-ia ao Sesc Pompeia, com essa divisão, ele foi designado para trabalhar com o Golpe de Estado. Tudo bem, teríamos dois roadies conosco, da velha equipe da nossa fase Chronophágica, nas pessoas amigas de Samuel Wagner e Daniel "Kid". 

Todavia, não haveria um motorista habilitado para conduzir a van, em princípio, mas tudo mudou quando um amigo de longa data, músico de altíssimo nível e famoso ao extremo, tomou a dianteira e ao surpreender-nos, ofereceu-se de pronto para conduzir-nos! Não acreditamos, mas o nosso motorista nessa missão, foi Marinho Thomaz, baterista seminal do histórico grupo de Rock, "Casa das Máquinas", uma das mais importantes bandas da história do Rock brasileiro, mas também com passagem pelo Tutti-Frutti, Humahuaca e uma infinidade de trabalhos avulsos a serviço de artistas a atuar em bandas de apoio, como side-man de Guilherme Arantes e muitos outros. 

Então, além de ajudar-nos tremendamente com o seu gentil oferecimento, nós ganhamos uma companhia incrível, tanto no percurso em sua ida e volta, quanto nos momentos prazerosos que tivemos no camarim do pré-show, quando ele contou-nos histórias inacreditáveis sobre a sua carreira, incluso bem do começo, nos anos sessenta e ainda recuou ainda mais, a citar a sua infância, ao final dos anos cinquenta, a acompanhar o seu irmão, Netinho Thomaz, nos bastidores dos shows do The Clevers, e posteriormente d'Os Incríveis, bandas pelas quais o seu irmão tocou e foi um grande astro. Bem, por essa não esperávamos e foi um prazer inenarrável contar com a sua companhia e sobretudo pelas histórias que garantiu-nos horas com gargalhadas intermináveis, mediante as histórias incríveis e hilárias, que ele contou-nos. 

Chegamos ao Sesc Pompeia e assim que adentramos as suas dependências, pela lateral do seu histórico teatro, claro que muitas lembranças passaram pela minha mente: A Chave do Sol, Língua de Trapo, o programa da TV Cultura, "A Fábrica do Som" e a própria, Patrulha do Espaço em minha fase chronophágica, que também ali apresentara-se em 2001, durante a filmagem do programa, "Musikaos", também da TV Cultura. 

Ali eu construíra muitas histórias que já foram relatadas em minha autobiografia, certamente. Todavia, não tocaríamos ali naquela noite, mas no palco de um outro espaço tão icônico quanto, na história do Sesc Pompeia e igualmente a trazer lembranças, principalmente para a Patrulha do Espaço de nossa formação, com outras apresentações que ali fizemos entre 2001 e 2003. 

Eis que eu aproximo-me do palco e ao cumprimentar os técnicos da equipe técnica do backline e PA que ali trabalhavam, sou surpreendido, quando o técnico do PA cumprimenta-me a perguntar-me: -"você não está a lembrar-se de mim, não é mesmo?" Cáspite, aquele tipo de situação que eu detesto enfrentar, isto é, não reconhecer alguém com quem eu tivera um contato no passado, a gerar aquele constrangimento... 

Poiss então ele quebrou o suspense e esclareceu-me ser o Zé Luiz, técnico de som responsável pela produção do EP d'A Chave do Sol em 1985, no estúdio Vice-Versa. Poxa, não o revia desde tal época, praticamente, apesar de saber que ele trabalhara durante esses anos todos, com diversos artistas amigos meus, tais como as bandas: Golpe de Estado, Taffo e Dr. Sin. Ótimo, se já era um bom profissional em 1985, imagine em 2018, com a experiência acumulada!

Logo a seguir, chegou ao ambiente, Luiz Carlos Calanca. Ele estava exausto pela maratona da produção na noite anterior sob a sua própria curadoria, mas feliz, por estar a concretizar a comemoração dos quarenta anos de atividades da sua loja e gravadora. 

De fato, em um país como o Brasil, isso foi muito além do extraordinário, mesmo por que, no ramo da cultura e ao raciocinarmos como loja de de discos e gravadora a lançar artistas do nicho underground, realmente persistir foi um ato heroico, do qual ele merece os meus cumprimentos mais efusivos. 

Instalamo-nos no camarim e conversamos bastante, notadamente sobre o panorama da produção musical nos então dias atuais, com a presença do Rolando e de Marta Benévolo e claro que também foi um momento prazeroso para esse momento pré-show. Fomos para o palco acompanhar o processo da preparação do backline e do PA/monitor e claro, para iniciarmos a nossa preparação prévia para o soundcheck. 

Foi quando eu avistei adentrar ao ambiente, o guitarrista, Micka, líder do Santuário, banda da seara do Heavy-Metal, que fizera a sua fama nesse nicho, nos anos oitenta e que abriria o show, na condição de representante das coletâneas: "SP Metal Volumes I e II", álbuns lançados pela Baratos Afins e que fizeram sucesso entre o público desse universo específico, naquela década. 

A intenção do Luiz Calanca, certamente fora montar o seu festival com representantes de alguns de seus lançamentos e ante a realidade que muitas bandas estavam dissolvidas há anos, houve uma dificuldade operacional na montagem desse elenco a repercutir os quarenta anos de existência da Baratos Afins.

Em conversa que eu tive com o próprio Micka, sempre muito simpático, por sinal, ele esclareceu-me que o próprio, Santuário, na prática não existia mais ativamente, há anos. Houvera um show em 2015, apenas, para que a banda gravasse a sua participação no filme que ele mesmo, Micka, produzira, para contar a história do Heavy Metal no Brasil. 

E agora, a sua banda cumpriria esse show de 2018, novamente com a intenção em filmar e fotografar bem a performance. Nada contra a banda e muito menos em relação ao Micka, que era (é) um sujeito 100% do bem, em todos os sentidos, mas a junção do Santuário conosco foi equivocada ao meu ver. 

O Calanca deveria ter preparado uma noite Heavy-Metal em específico e escalado uma outra banda do mesmo nicho para atuar com eles e sem elucubrar em demasia, eu digo que artistas como o Salário Mínimo, Centúrias e Harppia, eram bandas que estavam na ativa em 2018 e todas com uma história dentro da Baratos Afins, todavia, o Luiz deve ter tido os seus critérios para escolher e optou dessa forma, embora eu não tenha avaliado tal junção, como muito feliz, pela disparidade entre os estilos. 

Tirante o fato de que a presença d'A Chave do Sol, seria impossível e o Golpe de Estado apresentava um conflito de agenda naquela mesma noite, acredito que mesmo assim, haveriam opções mais compatíveis com o nosso nicho de atuação, talvez até a citar "As Radioativas", uma banda bem mais moderna, mas certamente mais próxima de nossa proposta sonora. 

Bem, condições estéticas tão somente, visto que não haveria e não houve, nenhum problema em conviver e compartilhar o palco com o Santuário, no que aliás, foi um prazer poder conversar com o Micka e os demais componentes dessa banda, nos bastidores, em vários momentos durante aquela tarde e noite. 

Rodrigo Hid e Zé Brasil, no camarim, antes do show. Patrulha do Espaço no Sesc Pompeia, em 11 de maio de 2018. Acervo e cortesia de Zé Brasil. Click: Silvia Helena 

No camarim, além do pessoal do Santuário, Luiz Carlos Calanca e das histórias incríveis de Marinho Thomaz, recebemos também muitos amigos queridos, antes e depois. Zé Brasil e Silvia Helena, a dupla/casal do Apokalipsys, o músico e crítico musical, Régis Tadeu, Marcelo Dorota Martins, que foi webdesigner da Patrulha do Espaço em 2001, Michel Camporeze Téer e a sua esposa, Vera Mendes (ambos citados muitas vezes na minha autobiografia pelo apoio à própria Patrulha do Espaço, mas sobretudo ao Pedra), a produtora musical, Gigi Jardim e o seu namorado, o guitarrista Marcello Pato, enfim, foi animado.

No camarim do Sesc Pompeia, antes do show. Foto 1) da esquerda para a direita: Eu (Luiz Domingues), Zé Brasil e Daniel "Kid". Foto 2) Em pé, atrás: Eu (Luiz Domingues) e Samuel Wagner. Abaixo: Rodrigo Hid (agachado), Rolando Castello Junior, Daniel "Kid" Ribeiro e Marta Benévolo. Foto 1: Acervo e cortesia: Zé Brasil. Click: Silvia Helena. Foto 2: Acervo e cortesia: Daniel "Kid" . Click: Marcelo Dorota Martins

Bem, mediante um clima ótimo no camarim, com bastante café e muitas histórias sobre o Rock em São Paulo no ano de 1968, por exemplo, em que muitos ali guardavam muitas lembranças para externar, estava tudo ótimo, entretanto, fomos avisados que o Santuário estava na penúltima música de seu show, portanto, hora para irmos à coxia e empreendermos os últimos ajustes para entrarmos em cena...

Continua...