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sábado, 2 de agosto de 2014

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 156 - Por Luiz Domingues


O passeio sugerido foi o de subirmos ao Pão de Açúcar... apesar de ser um passeio trivial para turistas, foi bastante divertido para todos, menos Chico Dias, que pareceu ter entrado em um processo ainda mais intenso em termos de profunda contrariedade. 

Nada o demovia de seu mau humor crônico, e de fato, a oportunidade de estar no Rio; ter tocado em um evento onde estivemos relacionados aos maiores nomes do Rock da ocasião, e em uma casa de shows badalada como era o Circo Voador, pareceu não ter sensibilizado-o. Portanto, passear no dia seguinte pelo Rio, é que não o seduziria, mas infelizmente não tivemos essa percepção naquele momento. 

Para quem conhece bem o Rio, ou pelo menos já fez esse passeio, sabe que faz parte da estratégia de consumo, para arrancar dinheiro de turistas, uma artimanha quase secreta, que é praxe ali no bondinho do Pão de Açúcar. Assim que desce-se do bondinho, já lá naquela altura enorme, as pessoas geralmente estão à mercê do torpor mental, misto de medo pela subida e êxtase pela paisagem inacreditável. Então, nem percebem, mas são amplamente fotografadas. Alguns minutos depois, vendedores abordam-lhes, com pratos de porcelana em mãos, onde o destaque é a sua foto pregada neles, como adorno... 

Normalmente as pessoas são clicadas com aquela expressão facial de estupefação de turistas incautos, e encantam-se com tal "lembrancinha" do passeio, ao pagar uma pequena fortuna pela quinquilharia. O Chico Dias estava com uma expressão de tédio, indisfarçável na foto, e que simbolizava bem o seu estado de espírito na ocasião. Claro que não compramos as nossas respectivas fotos cotadas nos pratos, a peso de ouro, e com a malandragem local a achar que éramos argentinos pelo tamanho de nossos respectivos cabelos, mas hoje em dia, claro que eu gostaria de tê-las para publicar aqui nos capítulos da minha autobiografia...

Bem, com a tarde a findar-se, resolvemos voltar para São Paulo, enfim. Já no trajeto dos ônibus urbanos que usamos nessa tarde inteira, o Chico Dias aproveitou para "dormir" (literalmente), durante o percurso, a demonstrar o seu completo desinteresse pelo passeio. Hoje para a minha compreensão, fica claro que ele estava totalmente arrependido por ter entrado na banda; mudado-se para São Paulo, e nenhum progresso da banda, que era claro para todos, parecia seduzi-lo. Depois do traumático evento vivido por ele e a sua namorada, uma semana antes desse show no Rio de Janeiro, parece que o seu pouco comprometimento com a banda, tratou por zerar a cota... 

Ainda não percebíamos que tratava-se de um processo irreversível, portanto tínhamos esperanças de que ele realinhasse-se, e que aquele momento seria passageiro. Assim foi o nosso final de semana no Rio, em outubro de 1984.

Mas nossa agenda estava em expansão, e já no dia 23, uma terça-feira, tínhamos um compromisso firmado de última hora, e que foi muito interessante, a ser realizado em São Paulo. Ao contrário daquela semana terrível em que descrevi o show da danceteria Tífon, e a saga de Chico Dias e a sua namorada, este novo final de semana no Rio, começou bem, com contatos na sexta-feira, com direito a muitas histórias pitorescas que vivemos dentro do turbilhão do BR-Rock oitentista; passou pelo nosso bom show, apesar da chuva, e encerrou-se em um esforço coletivo para promover uma terapia ocupacional para o Chico Dias, infelizmente, infrutífera. O show ocorreu no dia 20 de outubro de 1984, um sábado chuvoso no Rio de Janeiro. Cerca de quatrocentos pessoas estiveram presentes (parece bom, mas para o tamanho do Circo Voador, foi realmente pouca gente...).


Continua... 

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 155 - Por Luiz Domingues


Passado o soundcheck, tivemos um bom período de espera pela frente. Demos uma volta pela Lapa, caminhamos um pouco pela Cinelândia, e voltamos ao Circo Voador. A primeira atração do dia, foi o "Vento Sul", que sinceramente não lembro-me exatamente de sua apresentação, pois nessa hora, estávamos no camarim. O "Gato de Louça", eu assisti uns trechos pela coxia, e pareceu-me uma boa banda, com músicos de bom nível e arrisco dizer que tinham alguma influência de Jazz-Rock setentista, e convenhamos, é preciso ter nível técnico para arriscar-se nessa complicada área musical. Os próximos seríamos nós... 

A Maria Juçá deu-nos o aviso e fomos ao palco, com bastante confiança, apesar do mau humor crônico do vocalista, Chico Dias. Infelizmente, demos muito azar, pois já antes da primeira atração subir ao palco, uma chuva torrencial caíra. E continuou, a prejudicar a presença de um público melhor. Enquanto tocávamos, a chuva apertou ainda mais. Durante o nosso show, deu para ouvir o barulho de relâmpagos, para demonstrar que a situação estava feia, na rua. 

Convenhamos, as atrações não foram chamativas o suficiente para atrair um grande público ao Circo Voador, apesar de ser um sábado.
O único nome mais significativo, seria o de Luciano Alves, mas mesmo assim, foi algo bem distante da ideia de que ele fora tecladista dos Mutantes em sua fase final etc. E naquele ambiente oitentista hostil, era até melhor omitir isso, falar em Rock Progressivo setentista etc. Os demais, incluso, A Chave do Sol, eram desconhecidos do público carioca e à margem do BR-Rock oitentista e midiático, em voga. 

Sendo assim, o público era muito diminuto, ao considerar-se o registrado na noite anterior, que superlotou o Circo Voador, graças a três nomes fortes do BR-Rock 80's, conforme já citei anteriormente. Em relação à nossa apresentação, apesar de ser um público pequeno, foi bastante caloroso e arrisco dizer que havia pessoas ali motivadas pelo fato da música "Luz", estar a tocar na programação da rádio Fluminense FM, há meses. 
A nossa performance foi muito boa. Não deixamo-nos abalar pelo pouco público, tampouco pela chuva diluviana que caía, com direito à raios & trovões ensurdecedores. Tocamos com muita energia. O vocalista, Chico Dias, fez até um solo vocal, a imitar bastante o Freddie Mercury, o que deixou-nos um pouco apreensivos, pois com pouca gente no ambiente, tendia a ser constrangedor, devido à insistência dele em cobrar interatividade das pessoas. 

Mas demos sorte, pois os poucos presentes, responderam o convite à participação e tudo encaixou-se a contento. Pelo contrário, talvez tenha passado uma imagem de segurança por parte dele e da banda, e de certa forma, "pegou bem". Desse show, tiramos muitas fotos, e a minha foto individual na contracapa do EP que lançaríamos no ano posterior, 1985, foi extraída daí. Eu estava todo de preto, com calça e camisa de cetim brilhante, em um visual ultra setentista. Pareço o Ritchie Blackmore em seus dias gloriosos no Deep Purple ou no Rainbow, nas fotos. Apesar do pouco público presente, creio que cumprimos a nossa missão, e saímos satisfeitos do palco. 

Assistimos um trecho do show de Luciano Alves, que parecia mesmo uma tentativa de fazer-se algo Pop, mas com elementos setentistas discretos na sua música. Enfim, nem era explicitamente oitentista, mas também não assumia-se como algo setentista, portanto, foi um híbrido indefinido, infelizmente.
No camarim do Circo Voador : Rubens; eu (Luiz Domingues), e Chico Dias. Clicks (todos desse show, inclusive) de Claudio "Capetóide" de Carvalho

Esse show ocorreu no dia 20 de outubro de 1984, um sábado, com cerca de quatrocentas pessoas na plateia. Hoje eu soltaria rojões em tocar para um público com quatrocentas pessoas, mas naquele momento, achávamos pouco, diante das quase duas mil que espremeram-se no Circo Voador, na noite anterior, que descrevi capítulos atrás. Fomos jantar nas imediações, e dormir em um hotel ali próximo, na Lapa. 

No dia seguinte, quando acordamos, decidimos esticar um pouco a nossa passagem pelo Rio, para tentar levantar o astral do Chico Dias. Guardamos os instrumentos e a bagagem no guarda volumes da rodoviária e fomos dar uma volta pela zona sul. Demos uma volta por Ipanema, e na rua Prudente de Moraes, encontramos por acaso o ex-apresentador do programa : "A Fábrica do Som", Tadeu Jungle. Ele ficou surpreso por ver-nos a circular por ali, mas também mostrou-se contente por constatar que estávamos a subir na carreira, pois tocáramos em um lugar badalado do Rio de Janeiro, onde certamente o fato de termos apresentado-nos tantas vezes naquele seu programa (que repercutia nacionalmente), havia  ofertado-nos boas possibilidades. 

Isso foi verdade, claro que sabíamos disso, e estávamos a tentar agarrar todas as oportunidades que estavam a surgir a nossa frente. Depois desse encontro inusitado, fomos a caminhar até Copacabana e alguém sugeriu que prolongássemos o passeio até a Urca, para um realizarmos uma ação típica para turistas...

Continua... 

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 154 - Por Luiz Domingues

Encontramos com a outra metade da banda, no horário combinado, e fomos diretamente o bairro da Lapa, para aguardar o momento de realizarmos o soundcheck. Estávamos muito contentes com o fato de estarmos escalados para o sábado, um dia nobre, e no turbilhão de um Festival de grande porte, a tocar ao lado de nomes consagrados do BR-Rock 80's, ainda que em nosso dia de atuação em específico, não houvesse ninguém muito famoso.  

Pode parecer bobo, ingênuo até, mas achávamos que esse festival poderia ser um marco para a carreira da banda, pois deu-nos a impressão de que fora um fruto da ascensão nítida que estávamos ter, por vários fatores já elencados anteriormente nesta narrativa. De fato, o foi mesmo, se considerarmos que talvez não fôssemos escalados, caso não estivéssemos nesse "momentum" significativo. No sábado, no entanto, as atrações que circundou-nos, não foram de grande relevância para aquele panorama. Lamentamos, pois queríamos ter sido escalados em um dia que estivéssemos acompanhados de Lobão & Os Ronaldos; Barão Vermelho, Paralamas do Sucesso e outros nomes da crista da onda etc. 

Todavia, foi clara a intenção do Festival em agrupar bandas emergentes, portanto ainda não consagradas, e indo além, o fato de ter-se pensado no sábado, supostamente um dia nobre, como o dia para esse tipo de bandas com menor apelo de público, só pode ter sido por um motivo : o fato das bandas consagradas estar com agendas lotadas... portanto, nessa hora, lembrei-me do baterista Daniel, do Metrô, que dissera-me na noite anterior, que no sábado, a sua banda iria tocar em Salvador, para voltar ao Rio, no domingo, para visar gravar o programa do Chacrinha... então, estaríamos acompanhados de : "Gato de Louça"; "Vento Sul", e Luciano Alves. 

O único conhecido em minha avaliação, foi o tecladista, Luciano Alves, que eu tinha vivo na lembrança, pelo fato de ter sido o último tecladista dos Mutantes. Mas a questão, foi : o que estaria a produzir agora ? E no meio do turbilhão oitentista, eu só podia esperar pelo pior, ou seja, um som decepcionante; modernoso e pleno de carga Pós-Punk. 

Fomos bem tratados no soundcheck, e quando saímos do palco, a banda de Luciano Alves chegou para passar o som. Assistimos um pouco a passagem de seu som, antes de partirmos para o hotel, em que hospedar-nos-íamos ali perto, na Lapa mesmo. Pelo pouco que vi, até surpreendi-me, pois não era nada radicalmente modernoso como eu esperava. Pelo contrário, apesar de parecer algo Pop, com intenções comerciais / radiofônicas, apresentava elementos do Rock'n Roll tradicional, em linhas gerais. Enfim, dos males o menor, não tocaríamos com "replicantes" saídos dos filmes  : Blade Runner ou Mad Max, algo tão comum naqueles dias sombrios...

O lado ruim, internamente a mencionar, foi que o Chico Dias chegara ao Rio, com um mau humor insuportável. Infelizmente ainda não recuperara-se dos aborrecimentos da semana anterior, e ao invés de estar feliz por estar a conhecer o Rio, e prestes a cantar no Circo Voador, um espaço badalado na cidade, em meio aos maiores artistas do BR Rock 80's (ao falar em termos do Festival inteiro e não especificamente sobre os artistas escalados para o dia), ele estava com o semblante fechado, a pronunciar poucas palavras, e a não demonstrar nenhum entusiasmo por tudo o que citei acima. Bem, não tínhamos tempo para contratar um psicólogo, e sendo assim, só restara-nos ter um tato mínimo para não piorar o clima, e com isso, tal mau humor, não atrapalhar a performance da banda. Só faltava-nos mais essa, em um momento desses...


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terça-feira, 22 de julho de 2014

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 153 - Por Luiz Domingues


O palco foi inteiramente renovado e o P.A. do Circo Voador, recebeu reforços significativos com caixas. Vimos um impressionante equipamento particular do Rádio Táxi sendo instalado muito rapidamente, por um exército de roadies, e ficou claro que o som deles seria muito melhor do que o das bandas anteriores, e em relação ao Metrô, ficara a ressalva que tinham bastante equipamento, ainda que estivessem coadunados com as sonoridades oitentistas medíocres por opção, pois tinham condições de fazer algo muito melhor pelo fato de serem ótimos músicos

O Rádio Táxi foi outro caso de uma banda formada por excelentes instrumentistas, com a intenção deliberada de fazer uma música Pop e 100% coadunada com aquela estética em voga. Egressos dos anos setenta, não tiveram dúvida em cortar o cabelo bem curto; encomendar roupas ao sabor dos modismos em voga e o pior de tudo, evocar aquelas sonoridades abomináveis. Para tocar aquele som, foram fundo, e tal como o Metrô, usavam instrumentos modernosos como o famigerado baixo Steinberger, aquela coisa "Dark", metida a futurista... como resultado, a sonoridade era horrível e só lamentávamos o fato de músicos de enorme capacidade estar a fazer aquele som somente pelo dinheiro, mas com a maturidade adquirida, hoje eu pergunto-me : não teríamos feito a mesma opção se tivéssemos tido a mesma chance ? Mas essa constatação fora além do lamento, pois mexia diretamente conosco.
Tal realidade provocava-nos a chance para elucubrarmos sobre a nossa própria expectativa de carreira. Sendo muito francos conosco mesmos, quantos por cento, não queríamos estar naquela situação confortável do Rádio Táxi; Metrô e outras bandas que estavam a gozar das benesses de uma carreira bem estruturada no mainstream ? Todavia, na época, não pensávamos dessa forma. Claro que ambicionávamos o mainstream, porém, foi óbvio que o mercado oitentista estava a borbulhar para o Rock, mas nesses moldes das estéticas oitentistas que abominávamos. 

E nessa altura dos acontecimentos, não bastava só ir ao barbeiro e cortar o cabelo para adotar um corte esquisito, e usar muito reverber e chorus nos instrumentos. Já estávamos na luta, e mesmo que a habitarmos um patamar muito inferior ao que esses artistas privilegiados estavam por usufruir, pelo fato de termos música a tocar em rádio; muitas aparições na TV, e portfólio em franco crescimento, não havia meios para retroagir, e assim remodelarmos a nossa carreira. Seria digno de filmes de Cheech & Chong, se uma banda com a nossa sonoridade e identidade ideológica, aparecesse da noite para o dia, com os componentes a usar visual Pós-Punk, e a tocar músicas novas, coadunadas com aquela estética. Deixaríamos de tocar "18 Horas" repentinamente, e seríamos o "Echo and the Bunnymen"do Itaim-Bibi, assim, sob um piscar de olhos ? Ha ha ha !

Claro, mera especulação, pois não havia meio de nós pensarmos em numa estratégia desesperada dessas e convenhamos, nunca cogitamos uma bobagem desse porte, pois em realidade, tínhamos muitas esperanças em atingir o mainstream, mas por outros meios. Estávamos muito confiantes na possibilidade do mercado expandir-se, ao abrir um outro nicho, fora dessa egrégora do Pós-Punk, ou seja, para seguir a tendência do mercado americano e europeu, onde havia os dois polos a funcionar concomitantemente (refiro-me ao Hard-Rock e Heavy-Metal, oitentista). Seria para esse lado que deveríamos pender, mais próximo de nossa realidade, apesar de também ser um terreno inóspito para Rockers que comungavam pela velha cartilha 1960 / 1970. 
Bem, de volta ao assunto, o som do Rádio Táxi estava todo concebido para ser modernoso e estar coadunado com a estética da época, mas como a intenção foi ser Pop e leia-se o conceito pop, como algo bem perto do popularesco, ou seja, foi como se o The Fevers, ou os Pholhas tivessem tomado um banho de "modernidade", e estivessem a fazer o seu som, travestidos como uma banda Pós-Punk, só para seguir um modismo de ocasião. Além do o fato de ter excelentes músicos e portanto tocar com uma segurança incrível, o Rádio Táxi  soltava aqui e ali, pequenos lampejos de Prog Rock, Jazz-Rock, muito sutis, e dava para entender. Parecia que faziam isso como fumantes de escritório, que dão aquelas escapadas para os fumódromos, ao visar buscar um alívio rápido com rápidas tragadas...

Não deixava de ser um mérito, claro e os rapazes já tinham muitos Hits naquela época, com o público a responder de forma rápida a cada canção de apelo radiofônico e noveleiro que executavam, daí as "escapadas" para um som sofisticado no meio do set list. Foi um show longo, e embora o público demonstrasse estar a apreciar, nem de longe havia aquela euforia, que verificamos quando chegamos ao Circo Voador, e o Camisa de Vênus apresentava-se. Fomos para o apartamento da irmã do Zé Luiz, quando conversamos sobre todas as observações que fizéramos, e no dia seguinte, por volta das 14:00 horas, fomos à rodoviária do Rio, onde o Rubens e o Chico Dias chegariam, acompanhados do amigo Claudio "Capetóide" de Carvalho, que viria junto para atuar improvisadamente como roadie. 

Continua...

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 152 - Por Luiz Domingues


Felizmente, esse final de semana de terror, encerrou-se com a garota do Chico Dias a voltar para a casa, e chegar sã e salva à Porto Alegre. Apesar do abatimento que essa história toda causou-nos, não tínhamos tempo para cair na depressão, pois mesmo com a humilhação daquele show malogrado na Danceteria Tífon, e a agravante de nossas economias estarem a voar em um cheque, em direção a um bolso alheio (e nem acrescento nesta conta, o baixo astral perpetrado pela onda de azar cinematográfica de Chico Dias e sua namorada), precisávamos levantar o ânimo, pois no sábado subsequente, estávamos escalados para tocar no Festival BR-Rock, no Circo Voador, do Rio de Janeiro. 
A produtora do Língua de Trapo, na época de minha segunda passagem pela banda, Cida Ayres, e que muito auxiliou A Chave do Sol nesse ano de 1984

Lograra êxito a nossa investida em setembro, e graças a um empurrão providencial da parte da produtora, Cida Ayres, a produtora do Circo Voador, Maria Juçá, gostou do nosso material, e escalou-nos para a noite do terceiro sábado do festival. 

Claro, ficamos eufóricos com essa possibilidade em estarmos inseridos em um festival de grande porte, para tocarmos em meio a muitas bandas que estavam na crista da onda do mainstream, e no Circo Voador, lugar muito badalado, no Rio de Janeiro. Foi a hora para espantar o baixo astral, e ensaiar com bastante atenção, e foi o que fizemos nessa semana que antecedeu o nosso show no Festival. 

Como o Zé Luiz tinha a sua irmã mais velha a morar no Rio, ele propôs que eu fosse com ele um dia antes, para fazermos mais contatos e diante dessa possibilidade de termos um lugar para ficar, claro que eu aceitei. Eu e Zé Luiz fomos para o Rio, na madrugada de quinta para sexta, e chegamos bem cedo. Da rodoviária, fomos direto para o bairro de Ipanema, na zona sul, onde descansamos um pouco no apartamento da irmã dele, e logo depois do café da manhã, saímos para aproveitar ao máximo o dia. Iniciamos com uma visita à redação da Revista Roll; fomos à Rádio Fluminense, e visitamos algumas lojas de discos. No meio da tarde, visitamos o Circo Voador para dar uma olhada no equipamento e movimentação do dia, quando a Maria Juçá convidou-nos para que assistíssemos os shows programados para aquela sexta-feira. Claro que tencionávamos voltar ali a noite, mas tínhamos ainda muitas horas pela frente, e resolvemos voltar à nossa hospedagem no apartamento da irmã do Zé Luiz, para descansarmos; tomar banho e jantar. 

Contudo, tínhamos um plano antes de ir ao Circo Voador. Resolvemos ir ao Parque Laje, onde na mesma noite, ocorreria um show dos Paralamas do Sucesso. Não queríamos ver o show, mesmo por que não daria tempo, mas a nossa intenção foi sentir a vibração do lugar, que eu particularmente conhecia apenas pelo cinema, com cenas de filmes como, "Macunaíma" e "Terra em Transe", que ali foram produzidas. De fato, o local era belíssimo, e usado para show de Rock, com a possibilidade do uso de iluminação, ficava fantástico. Tocar ali não seria nada mau, mas pelo que sentimos, não era um espaço que estava a ser utilizado com essa finalidade, com constância. Portanto, não adiantava nada procurar saber quem estava a produzir aquele show dos Paralamas, naquele instante, pois seria algo inusitado e sazonal, sob uma primeira impressão. 

Fomos para o Circo Voador e quando lá chegamos, tivemos uma certa dificuldade para entrar, por conta de seguranças truculentos e despreparados. Bem, nenhuma novidade por tratar-se de Brasil e convenhamos, 2013 em curso (quando escrevo este trecho), e isso não melhorou muito em shows da atualidade. Quando finalmente entramos, a casa estava absurdamente lotada. Não dava para mexermo-nos, literalmente, e o miolo da pista parecia uma guerra campal, pela ação do famigerado "Pogo", aquela prática famigerada e tipicamente oitentista, com o público a não prestar atenção no artista no palco, mas usar o som do show para debater-se uns aos outros, ao denotar a iconoclastia punk de 1977, onde o artista era encarado como um mero joguete a serviço de rituais truculentos de ordem primitiva, e não como protagonista artístico de um espetáculo cultural.

O Camisa de Vênus tocava, e mesmo eu que eu soubesse que o Marcelo Nova é um sujeito com boa intenção, e é Rocker, claro que o Rock'nRoll "raulseixista" que ele professa em seu íntimo, passava ao largo em 1984, pois ele e seus amigos aproveitavam-se da moda do Pós-Punk, para surfar nessa onda. Aquela conversa dissimulada de que faziam "Rock'nRoll", era mera retórica distorcida, pois na prática, o som que faziam era o Punk tosco, e o público adorava aquela manifestação atroz sobre quem matou Joana D'Arc, ou coisa que o valha. Bem, constatar a realidade oitentista no meio da erupção, pareceu-me inevitável naquela situação... 


Ficamos a assistir tudo, posicionados bem no fundo, pois tentar aproximar-se seria um exercício de masoquismo, que definitivamente não estávamos interessados em submetermo-nos. Quando o show do Camisa de Vênus encerrou-se, o público dispersou em direção ao bar, e muita gente saiu do Circo para recompor-se e respirar, com aquele calor todo gerado. Aproveitamos a brecha e fomos para a coxia, onde o Metrô preparava-se para entrar em cena, enquanto roadies apressados faziam a troca de set up das bandas. Muito simpático, o baterista do Metrô, Daniel, lembrou-se de minha pessoa, e veio conversar conosco. Falara com ele quando toquei com o Língua de Trapo no Festival de Águas Claras, em março daquele mesmo ano, e a sua banda ainda chamavam-se "Gota Suspensa"(essa história está contada em detalhes no capítulo do Língua de Trapo). 

Ele mesmo rememorou isso, e dizia que a vida tinha mudado da água para o vinho, e estavam a "morar" dentro de aviões e quartos de hotéis, há meses. No sábado, iriam fazer um show em Salvador, mas no domingo, voltariam ao Rio, para gravar o programa do Chacrinha. Um caso raro de pessoa humilde que foi para o mainstream (falarei sobre outro, logo mais), fiquei feliz por vê-lo a atravessar um momento de ascensão incrível. 
Sabia que aquele som a la New Wave oitentista e robótico que tocavam, o desagradava, pois a predileção dele era o Rock Progressivo setentista, mas como era bonito, por outro lado, ver um conhecido a alcançar no mainstream ! Bem, ele despediu-se, e convidou-nos a ver o show, mesmo ao saber que não era a nossa predileção, e foi para o palco, onde já o chamavam com insistência e certa tensão. 

O show deles começou e realmente foi muito decepcionante ver músicos bons a serviço daquele som Pop e raquítico. Aqueles timbres de plástico doíam nos ouvidos. Baixo Steinberger; bateria sintetizada; aqueles teclados com timbres ridículos, e a guitarra plugada em um insípido amplificador Roland Jazz Chorus... ninguém merecia, nem mesmo ao considerar-se que estávamos em 1984...

A performance deles era perfeita para aquela estética. Muito bem vestidos, mas naturalmente sob aqueles parâmetros em torno do apreço pelos dândis oitentistas, a ostentar cortes de cabelo esquisitos e forjar um futurismo tipicamente oitentista, e só possível mediante o uso de muito gel. Pareciam os músicos do Kraftwerk, com coreografias robóticas, dignas daquela época, e tudo a parecer um copião do filme : "Blade Runner". 


Absolutamente deprimente, uma pena. Encerrado o Metrô, foi a hora do headliner da noite, os paulistanos do Rádio Táxi...

Continua...