A cena não me sai da memória, como se eu estivesse participando de um filme épico, percorrendo lugares ermos, buscando um sinal que lembrasse-me a civilização.
Era como se eu estivesse nos países mais pobres da África ou da Ásia. Mais estava no Brasil, numa viagem de ônibus que vai do Caju ao Recreio dos bandeirantes, via Avenida Brasil.
O trajeto abunda em outdoors, indústrias, comércios variados,
favelas, muita pobreza no ar, o que já deprime.
Mais um fato que chamou-me a atenção sobremaneira foi que até
chegar-se ao Barra Shopping, em mais de hora de viagem, olhando pela janela do ônibus, tentando entender aquelas paisagens amorfas, não se avista uma livraria sequer.
Fiquei pensando na violência, nas relações genéricas de um país
continental que não cultua livros como gênero de primeira necessidade.
Como se relaciona a população sem leitura?
Como pensar um povo sem cultura?
Que futuro pode haver?
Descobri a pólvora nesse dia: falta cultura de livros no Brasil.
Ou seja, o livro precisa ser descoberto.
A população simplesmente não sabe que através do conhecimento poderia sanar parte de seus problemas. Não se relaciona livro com poder e dinheiro, curioso... Assim que a informação passou a ser meramente decorativa, com "bacharéis" sem literatura,
daí a péssima qualidade do funcionalismo e das trocas sociais em
geral, incluindo um comércio cego e imediatista, religiões pitorescas,
e a vida vazia do faz de conta do vídeo, com indivíduos abaixo da crítica, doentes.
Monteiro Lobato , "descobridor do petróleo no país", provavelmente com senso livresco, dizia que um país se faz com Homens e livros.
Eu diria que os homens se fazem com livros ou valores, pois são essas qualidades que alçam a humanidade acima do reino animal.
Mais livros e se teria mais disciplina, menos violência, se gastaria
menos em drogas e jogos, diminuiria a gravidez prolixa de pobres e
adolescentes.
Livro ensinaria a lei da consequência e a descoberta do outro.
O livro é uma ponte entre o humano e o divino. Ou será que se pode pensar a humanidade sem livros? Eu diria até que certos homens
são dispensáveis; livros, não.
Aqui está a pólvora do mal brasileiro: pensa-se ser possível chegar a algum lugar sem informação.
Onde fica esse lugar mesmo?
Aliás, o que é lugar?
Quem quiser descobrir um país ( ou inventá-lo ) tem que começar pelos livros.
A falta de cultura é o que engendra todos os males no país da minha mãe.
Marcelino Rodriguez é colunista sazonal do Blog Luiz Domingues 2. Escritor, cronista e difusor cultural, já tem diversos livros publicados , entre eles, "Bom Dia, Espanha" e "O Tigre de Deus em seu Jardim". Nesta crônica, escrita em 2005, expressa seu desalento em relação à dramática situação da educação e cultura no Brasil, onde o hábito da leitura inexiste, simplesmente.
Neste meu segundo Blog, convido amigos para escrever; publico material alternativo de minha autoria, e não publicado em meu Blog 1, além de estar a publicar sob um formato em micro capítulos, o texto de minha autobiografia na música, inclusive com atualizações que não constam no livro oficial. E também anuncio as minhas atividades musicais mais recentes.
sexta-feira, 22 de junho de 2012
terça-feira, 19 de junho de 2012
Autobiografia na Música - Boca do Céu - Capítulo 10 - Por Luiz Domingues
Animados com a perspectiva em participar de um festival com um nível muito alto para os nossos padrões daquele momento, resolvemos encorpar o som da banda, ao acrescentarmos um novo membro, e tornarmo-nos então, um quinteto com a entrada do guitarrista, Wilton Rentero. Ele surgiu oriundo de uma indicação que o Laert recebeu, a dar conta de um garoto que era estudante de violão clássico, e apesar de ter pouca familiaridade com guitarra, ser rocker.
Apesar do Osvaldo não ter apreciado muito a ideia, pois era o membro fundador e estava acostumado a ser o “lead guitar”, foi convencido pelo Laert e por eu mesmo, que seria benéfico para a banda ter outro guitarrista e assim, o som da banda ser mais qualificado. E assim, marcamos uma audição com o Wilton Rentero, e sua técnica era tão superior à dos demais, que nem precisamos consultar-nos, verbalmente. Aprovadíssimo estava, sem reservas. Foi por volta de março de 1977, que isso ocorreu e assim conhecemos o Wilton Carlos Rentero. Apareceu com sua guitarra "Ookpik", modelo SG, branca e disposto a mostrar-nos seus dotes musicais em um teste. Sua presença tornar-se-ia a grande oportunidade para catapultar a banda rumo a outros degraus, mais altos.
Como quinteto e tendo um guitarrista que
fazia solos desse nível, consideramos que a boa base feita pelo Osvaldo,
cresceria, também.
Além disso, tínhamos o Laert Sarrumor, que
apesar da sua inexperiência nessa época, era um diamante bruto, em processo de lapidação, e a
passos largos. E fora o fato de que eu crescia muito no
baixo. Em março de 1977, eu já tinha quase um ano de esforços para vencer a
barreira inicial do aprendizado, e posso dizer que melhorara
muito. O que menos crescia no entanto, foi o Fran Sérpico, mas
mesmo mais lentamente, também apresentava seus progressos.
O Wilton Rentero morava em Engenheiro
Goulart, um bairro da zona leste de São Paulo, próximo à Penha. Parecia uma
cidade do interior, com pracinhas e estação de trem etc. Era (é), bem
longe, mas sua força de vontade nunca tirou-lhe o ímpeto para ensaiar e
participar das atividades da banda. Logo que entrou, já deu-nos a perspectiva
em inscrevermo-nos em festivais. Espertamente o Laert sabia que faltava esse
detalhe para a banda pleitear participar de festivais estudantis, e de fato,
ficamos muito enriquecidos com sua guitarra. Ele era estudante de violão clássico, mas
tinha também uma forte formação Rocker, a apreciar tudo o que gostávamos,
praticamente. Mas sua predileção era mais pelo Blues e Rock'n Roll, do que
Hard-Rock e Progressivo. O negócio dele era “Janis Joplin”; “Rolling Stones”, e
outros artistas próximos dessa sonoridade. Não que não gostasse de Prog Rock,
aliás gostava bastante do “Yes”, mas na hora de tocar, seu estilo era mais
Stones, via Mick Taylor. Porém, o som mais pesado também fazia-se presente, e
nesse caso, o “Led Zeppelin” era sua banda de cabeceira. Apesar de ter menos
familiaridade com a guitarra do que em relação ao violão, logo adaptou-se e seus solos cheios de veia bluesy,
transformaram a banda, ao dar-nos um salto quântico de qualidade. E obviamente,
todos motivaram-se a estudar mais, ao subir o nível do Boca do Céu.
O festival “Fimp” não deu certo, mas tínhamos duas perspectivas interessantíssimas: o Festival do meu colégio, "Femoc" (Festival Estudantil de Música Oswaldo Catalano"), e o Fico (Festival Interno do Colégio Objetivo), este sim, de grande porte, com eliminatórias no ginásio do Palmeiras e transmissão pela TV Bandeirantes. Começamos então a ensaiar e prepararmo-nos para gravarmos as músicas com melhor qualidade, a fim de podermos ter condições de classificação.
A amizade com o Wilton Rentero foi
instantânea, e logo, eu; Laert, e ele, passamos a frequentar juntos o mesmo
circuito freak da cidade. Shows; cinema; teatro, e exposições, e lá estávamos
nós na porta, com visual de hippies, e aquela euforia por estarmos envolvidos
naquela atmosfera setentista maravilhosa. E nem desconfiávamos que estávamos no
"final da feira", com aquela “vibe” indo para o ralo... mas aí é outra
história. Um exemplo vívido disso que acabei de dizer
no trecho anterior, ocorreu por exemplo, no dia seguinte ao nosso primeiro show,
quando fomos ao Teatro Municipal de São Paulo, para assistir o show "Mutantes /
O Terço tocam Beatles". Essa história já foi contada em capítulo anterior, inclusive.
Atmosfera mágica de anos setenta; aquele perfume de patchouli; todo mundo vestido como hippie chic; cabeludos; e com aquela esperança utópica por estarmos a transformar o mundo cinzento, com a força do amor...
Toda essa atmosfera “Woodstockeana” que chegara atrasada ao Brasil, alimentava os sonhos do Boca do Céu, e certamente foi fator de incentivo para a nossa trajetória. Sem esse clima, não teríamos tido tanta força de vontade, não tenho dúvida disso.
E no ano de 1977, o Brasil deu seus primeiros passos tímidos em direção aos shows internacionais. Após shows sazonais de Santana; Herman Hermit's; Jackson Five; Steve Wonder; Ray Charles; Ravi Shankar e Alice Cooper... mas creio que após o Rick Wakeman em 1975, foi que a perspectiva começou a tornar-se mais concreta e nesse ano de 1977, tivemos duas surpresas agradabilíssimas desse porte internacional, e que tiveram suma importância no fator motivacional do Boca do Céu. Comentarei no decorrer da cronologia dos fatos.
Continua...
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segunda-feira, 18 de junho de 2012
Autógrafo - Por Luiz Domingues
Um pedaço de papel
Um rabisco apressado
Uma fuga, uma ilusão
Um sonho realizado
Poema escrito em 1982 e certamente a refletir uma opinião pessoal sobre essa relação subserviente e sem sentido sobre a questão do autógrafo.
Um rabisco apressado
Uma fuga, uma ilusão
Um sonho realizado
Poema escrito em 1982 e certamente a refletir uma opinião pessoal sobre essa relação subserviente e sem sentido sobre a questão do autógrafo.
sexta-feira, 15 de junho de 2012
Pelos Parafusos, Ouço Vozes - Por Julio Revoredo
Esgueira-se através das hiperceleres reentrancias.
Obducto ser, pelos cegos voos, dupla solombra e reboos.
acende, na floresta hiperborial de alfazume.
Singra pelos contôrnos abscônditos do que descende.
Afla pelos ritos, do que distende,
Profusos parafusos, amanhecer tangerina.
Perdestes a perna e a mente,
Azul, azul, lisoforme, espelho diluído em rosa,
Rosa 7,7
Rosa,7.
E tudo tão indistinguível,
Apalpaste o umbral,
Então flui, rui, ancora,
Esgueira-se através das hiperceleres reentrancias.
quinta-feira, 14 de junho de 2012
Problemática da Solidão Bucólica - Por Luiz Domingues
Em uma manhã florida
Bela estética
Estática da margarida
Sinto-me isolado
Embora rodeado
Por tantas formas de vida.
Poema escrito em 1982 e certamente a refletir o desconforto de uma alma libertária e sessentista, em meio ao pesadelo oitentista.
Bela estética
Estática da margarida
Sinto-me isolado
Embora rodeado
Por tantas formas de vida.
Poema escrito em 1982 e certamente a refletir o desconforto de uma alma libertária e sessentista, em meio ao pesadelo oitentista.
quarta-feira, 13 de junho de 2012
Homo Anonymos - Por Luiz Domingues
É apenas mais uma vida
É só uma história esquecida
Qualquer dia perdido
Em uma folhinha envelhecida
Um instante qualquer
Um homem, uma mulher na multidão
Que não sabem o que querem...
Poema criado em 1982 e guardado em um caderno velho, tal como a folhinha de calendário citada.
É só uma história esquecida
Qualquer dia perdido
Em uma folhinha envelhecida
Um instante qualquer
Um homem, uma mulher na multidão
Que não sabem o que querem...
Poema criado em 1982 e guardado em um caderno velho, tal como a folhinha de calendário citada.
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Sidharta.
segunda-feira, 11 de junho de 2012
Um Corpo Remoto na Floresta - Por Julio Revoredo
Deitaste o corpo remoto
Na imota floresta
Entre sombras
Eco distante, no que destoa
Sentado, caminhas, sob fina garoa
Sim, fina garoa
Como um trago de garapa
Sob o violáceo olhar de uma mulher, obtusa e pontiaguda.
Cintilante luz no estreito de bósforo
Alarga-se e estreita-se, como um fósforo, beócio, num jogo de espelhos, entre o ódio, o ócio, o ópio.
Galhos e folhas caem, como traduzir esta estação ?
O mar e sua arrebentação?!
No campo das coisas, respinga o intraduzível, o silêncio abre-se, como os olhos que saem do balso.
O não pensar, desvidra-se
A boneca enraíza-se
No topo do castelo sideral,
vejo asas sem donos, percorro quartos vazios, imensos
Enquanto minha alma e pequena, para deambular no átrio.
Procuro o espelho, como a água no oásis.
Lilás são teus nos, num salto, afasto-me, árvores permanecem sob os olhos de fogo.
Amanhã e outro presente, posso não nascer, como ser e ser sem ter, para compreender, minha ausência lúcida, entre sombras e fendas, coisas inabitadas, tempos esquecidos, onde deitaste o teu corpo remoto.
Julio Revoredo é colunista fixo do Blog Luiz Domingues 2. Poeta e letrista de diversas músicas em que compusemos em parceria, em três bandas pelas quais eu atuei: A Chave do Sol, Sidharta e Patrulha do Espaço. A sua produção poética é vasta e de incalculável valor artístico.
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