segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 160 - Por Luiz Domingues


Chegamos em tempo para realizarmos um soundcheck tranquilo no Teatro Lira Paulistana, e é bem verdade que a equalização ali era simples, por conta das dimensões diminutas do espaço. O segredo era tocar baixo no palco, ao tentar buscar uma padronização de volume com as vozes no P.A., este por sua vez, bem pequeno, pelo fator da compatibilidade. Outra vantagem boa que tivemos foi o fato de termos ficado amigos do técnico de som da casa, o Canrobert. Não errei o nome a esquecer-me de apertar a barra de espaço do teclado... de fato, ele tinha esse nome exótico, de batismo.  
Neste frame do documentário sobre a história do Teatro Lira Paulistana, eis acima a figura do amigo, Canrobert, em um momento do vídeo, onde conta "causos" pitorescos da época em que foi técnico daquele Teatro.

Extremamente gentil e boa pessoa, o Can era muito competente, e tinha uma característica interessante que poderia ser um fator de estranhamento para nós, mas pelo contrário, tornamo-nos muito amigos, e essa tal divergência só nos fez entender uma série de fatores sobre tal movimento antagônico. 

Refiro-me ao fato dele ser Punk com convicção ideológica desse movimento e como ele mesmo gostava em enfatizar, "estava comprometido com o movimento Punk, até o pescoço". Todavia, extremamente gentil, destoava de certas características dos que professavam essa "filosofia", principalmente os mais xiitas, que seguiam o "manual de Malcolm McLaren" à risca, com determinação militar. E nesses termos, apesar de ser um membro ativo do movimento, e como técnico de som, acompanhar de perto a carreira de bandas como dessa seara, tais como : Cólera; Inocentes, e Ratos de Porão, entre outros, ele não havia comprado aquela determinação niilista, em repudiar o passado, a todo custo. Pelo contrário, entre nós, falava abertamente que apreciava bandas Prog Rock setentistas, talvez o maior objeto de ódio dos xiitas de 1977...

E dizia-nos que precisava manter em sigilo tais opiniões, por que era de fato um antagonismo que do lado de lá, ninguém toleraria. Por outro lado, falava-nos também sobre particularidades que faziam com que tivéssemos uma outra visão , mais branda do vulcão Punk. Uma das mais engraçadas, foi quando falou-nos que garotas Punk, eram como abacaxis... com casca grossa por fora, mas doces por dentro...

Ficamos muito amigos e já em 1985, ele acompanhar-nos-ia, como nosso técnico, em shows fora do Lira Paulistana, inclusive. Enfim, esse era / é o grande, Canrobert, que anos depois, tornar-se-ia o técnico de P.A. dos Titãs, inclusive até os dias atuais (2014). 

E nesse dia 24 de outubro de 1984, fizemos uma passagem de som tranquila, e o show, ocorreu na mesma forma. O Chico Dias estava um pouco mais animado, mas não muito, digamos assim. Não percebíamos na hora, por achar que passaria, mas ele já devia estar determinado a deixar a banda, pelos sinais sutis que emitia.
Não dá para deixar de observar que em todas as notas publicadas, em jornais diferentes, a anunciar tal show no Teatro Lira Paulistana, o nome de Chico Dias não constou do serviço. Simplesmente ignoraram o release novo que a própria assessoria de imprensa do Lira Paulistana enviou-lhes. Por outro lado, foi um presságio do que estava para acontecer-nos em questão de dias...

Nesse dia, ele cantou duas músicas de sua autoria, sozinho, ao acompanhar-se ao violão. Achamos salutar essa oportunidade em podermos incorporar um elemento Folk ao som d'A Chave do Sol. Uma das canções chamava-se : "O Lobisomem", a outra, sinceramente, não lembro-me. Mesmo com essa iniciativa dele, em propor uma criação pessoal sua para ser inserida no show, o seu mau humor crônico pareceu estar inabalável. Tivemos um bom público, ao considerar-se ser uma quarta-feira : cinquenta pessoas. Foi no dia 24 de outubro de 1984...

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domingo, 3 de agosto de 2014

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 159 - Por Luiz Domingues


Por volta das 15:00 horas, já estávamos agrupados como um quarteto novamente, e presentes nos estúdios da TV Gazeta de São Paulo. O objetivo foi uma nova participação no programa : "Realce Baby", do apresentador nada ortodoxo, "Mister Sam". Foi a nossa segunda aparição em tal programa, e nessa altura, o Mister Sam já  tratava-nos como amigo, além de várias figuras da produção, a deixar implícito que ali teríamos as portas abertas e de fato, apresentamo-nos inúmeras vezes em tal programa, e se não ostentava a mesma audiência d'A Fábrica do Som, era muito bem assistido em São Paulo, e trouxe-nos muito público adicional, sem dúvida. Geralmente os programas eram gravados para a exibição uma semana depois, mas como nesse caso a exibição seria feita na mesma noite (18:00 horas), fomos encaixados pelo programador chefe, um rapaz chamado como : "primo", por todos, sob uma prova de camaradagem e boa vontade muito grande, pois o nosso principal objetivo naquela ocasião, fora promover o show do Teatro Lira Paulistana. 

A apresentação foi hilária, como sempre ocorreu naquele anárquico programa. O Sam parecia transformar-se quando o diretor gritava "gravando" e as luzes vermelhas das câmeras, acendiam-se, pois eis que ele saiu novamente a improvisar as suas brincadeiras malucas e em um dado instante, aproveitou um gancho que observara implicitamente no semblante do vocalista, Chico Dias. Dessa forma, Sam falou algo como : "estar asentir-se ameaçado por ele". O Chico entrou na brincadeira e foi para cima, ao simular ameaçá-lo fisicamente, e imediatamente, os demais entraram na encenação, também. 

Quando viu isso, o Sam improvisou novamente, e saiu a dançar e cantar a "dança do passarinho", aquela ridícula manifestação popularesca do apresentador, Gugu Liberato, e que fazia sucesso no mundo brega da televisão daquela ocasião. Foi ridiculamente engraçado. 

Fizemos então a dublagem da música : "Luz", novamente, como opção única para adequar a presença de Chico Dias, na oportunidade. Esse vídeo, sim, já está postado no You Tube, sob um esforço de restauração da parte do Site / Blog Orra Meu, capitaneado pelo, Emmanuel Barreto. 



http://www.youtube.com/watch?v=DGYg0lxI5jc

Eis acima, o link da aparição citada, acima.


Depois dessa gravação na TV Gazeta, fomos imediatamente para o Teatro Lira Paulistana, a fim de fazer o soundcheck. Tínhamos um novo show pela frente, e o furor dessa agenda múltipla dos últimos dias, não parecia animar o carrancudo vocalista, Chico Dias, que devia passar o tempo todo a sonhar com o "vento minuano" (quem conhece a cidade de Rio Grande, no Rio Grande do Sul, sabe do que falo)...


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Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 158 - Por Luiz Domingues

Na manhã de quarta-feira, precisávamos estar nos estúdios da TV Record, de São Paulo, pontualmente às 8:00 h. da manhã. Participaríamos do programa : "A Mulher dá o Recado", típico programa feminino matinal, mas que abria espaço para aparições de bandas independentes, além dos tubarões das "majors". Nunca canso-me em dizer que se detesto a década de oitenta por diversos aspectos, devo reconhecer que nessa época, havia ao menos locais para tocar, e abertura na mídia mainstream, ainda não totalmente corroída pela máfia do jabá. Achávamos que era válido apresentarmo-nos em programas femininos e não exatamente especializados em música, e muito menos no Rock, por que era uma oportunidade de expansão, a atingir um tipo de público diferente. De fato, continuo a pensar assim. Acho muito válido aparecer em programas de TV, não necessariamente especializados em música. 

A apresentadora, foi a Márcia Maria, uma atriz que fora bem famosa nas décadas de sessenta e setenta, e que agora estava a atuar em uma nova função. A música que dublamos, foi : "Luz". Fora uma escolha única, pois só tínhamos o compacto na ocasião, e o lado B do disco continha o tema : "18 horas", uma música instrumental e longa, portanto inadequada para o formato de dublagem na TV. A entrevista foi trivial como poder-se-ia esperar de um programa dessa natureza e dessa forma, só o básico foi relatado na mini entrevista promovida por ela. 

Claro, o curioso ficou por conta de Chico Dias ter que dublar a voz do Rubens, presente no disco. Não tínhamos outra alternativa, submetendo-o a tal constrangimento, pois não havia cabimento em apresentarmo-nos sem a presença dele, Chico, pois estávamos a forjar uma nova imagem como quarteto. E dentro dessa perspectiva, já tínhamos feito fotos promocionais novas (clicadas pelo amigo, Carlos Muniz Ventura, que depois tornar-se-ia fotógrafo profissional), inclusive. 

Aliás, cabe o parênteses, é dessa sessão de fotos que saiu uma foto publicada na revista "Mix", posteriormente, sobre o universo de instrumentos e equipamentos musicais, onde o Rubens foi entrevistado, e a sua imagem foi recortada dos demais, pois havia destacado-se ao dar um pulo muito alto, a parecer o Pete Townshend na imagem. De volta ao programa, infelizmente eu tenho a cópia preservada em VHS, mas ela está muito comprometida pela ação do tempo. Digitalizei assim mesmo, mas não tem condições de ser postada no You Tube, pois é irritantemente ruim, com problemas de rotação, inclusive. Tentarei, por outro lado, aproveitar de alguma forma as poucas tomadas razoáveis de tal vídeo, e quem sabe, utilizar em algum promo, só com alguns "frames", no futuro. Aparecemos no programa : "A Mulher dá o Recado", da TV Record de São Paulo, na manhã do dia 24 de outubro de 1984. 

Ao sairmos dali, o próximo compromisso seria só para a dupla Rubens Gióia e Chico Dias, por que tivemos um acordo interno na banda, onde entrevistas de rádio, seriam feitas só por uma dupla a representar-nos. Isso por que geralmente, seria inútil a participação de todos, para o desenvolvimento da conversa. E como da última vez que participáramos do programa "Balancê", da Rádio Excelsior, a dupla participante fora a formada por eu, Luiz Domingues e José Luiz Dinola, no revezamento acordado, foi a vez de Rubens e Chico Dias. Portanto, ao meio-dia dessa quarta-feira, lá estavam eles a representar a nossa banda, e a divulgar o show de logo mais a noite no teatro Lira Paulistana...
Essa nota no Jornal da Semana, foi publicada no domingo, dia 21, mas o nosso show no Lira Paulistana só aconteceu na quarta, dia 24 de outubro de 1984

Continua...
 

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 157 - Por Luiz Domingues

Chegamos em São Paulo ao início da madrugada de segunda-feira, e cancelamos o dia ocioso que havíamos programado para descansar da viagem, pois surgira um compromisso de última hora.
Graças ao pessoal da banda , "Tonelada e seus Kilinhos", fomos contatados e aceitamos fazer um show relâmpago no Teatro Objetivo, na Avenida Paulista. Nessa ocasião, tocariam além de nós, o próprio "Tonelada", é claro, e algumas bandas novas. O show tinha caráter beneficente, e ninguém ganharia cachet, mas segundo os amigos peso-pesado da banda, "Tonelada e seus Kilinhos", seria vital a nossa participação, pois "olheiros de gravadoras" estariam presentes, e entre eles, o Peninha Schimdt. 

Bem, claro que aceitamos, e na segunda-feira fizemos um novo ensaio, para chegarmos bem preparados. Para falar especificamente sobre esse detalhe, a despeito de achar a postura bem profissional e madura, aparentemente, acredito que havia uma dose de exagero enorme nesse tipo de procedimento de nossa parte. Éramos ultra ensaiados naquela época, e havíamos tocado ao vivo em um show sob grande responsabilidade e importância para nós, no sábado !  

Portanto, fazer um novo ensaio, a visar a apresentação na terça-feira posterior, não parecia ser uma necessidade premente, e de fato não fora, mesmo. Todavia, éramos muito obstinados naquela época, e fizemos esse ensaio extra, assim mesmo, ao considerar o procedimento mais normal do mundo naquela ocasião, mas claro que não fora necessário esse esforço adicional. O show no Teatro Objetivo, foi de choque, e muito energético. Havia cerca de trezentas pessoas na plateia. Lembro-me bem do líder do "Tonelada", a mostrar-se eufórico na coxia, pois a energia estava a mil por hora, e ele enxergava essa vibração, como ideal para impressionar os ditos "observadores" ou "caça talentos", presumidamente ali presentes. Além de nós e dessa banda citada, não recordo-me de nenhuma outra banda que fosse significativa o suficiente ou que tenha adquirido tal status a posteriori. Não anotei o nome das demais no meu guia de shows d'A Chave do Sol, como um dado análogo. A minha única lembrança nesse dia, em relação à essas bandas, foi que em sua maioria esmagadora, tratou-se de algumas bandas muito ruins, formadas por jovens muito fracos tecnicamente a falar, e pior, quase todas a rezar a cartilha do Pós-Punk, mas pelo viés da insignificância New Wave. 

Foram algumas bandas com nomes baseados em siglas, uma outra tendência típica daquela época, e com todo mundo a usar aqueles cortes de cabelo estranhos e a usar figurino com cores cítricas. Entretanto, mais pareciam bandas infantis egressas da "Turma do Balão Mágico". Nesses termos, se os supostos "olheiros de gravadoras" estivessem realmente presentes, é claro que interessar-se-iam muito mais por essas bandas oriundas do jardim da infância do que nós... realisticamente a falar, é claro que seria isso. Isso ocorreu no dia 23 de outubro de 1984, uma terça-feira. Cerca de trezentas pessoas, em sua maioria, adolescentes, assistiram o evento. Tocamos quatro ou cinco músicas apenas, por tratar-se de um show de choque. No dia seguinte, teríamos outro dia puxado !  

Estava agendada duas aparições em programas de TV, uma logo cedo, outra na parte da tarde. Também estávamos agendados em um programa de rádio, ao vivo, na hora do almoço, e na parte da tarde, tínhamos o soundcheck no Teatro Lira Paulistana, onde faríamos show, naquela noite. Se o Chico Dias não animasse-se com uma agenda dessas, foi por que realmente não estava a dimensionar a oportunidade que dificilmente teria, com sua ex-banda, no interior do Rio Grande do Sul. Sinto muito por observar isso, pois não quero menosprezar ninguém, mas estou a ser realista ao extremo...



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sábado, 2 de agosto de 2014

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 156 - Por Luiz Domingues


O passeio sugerido foi o de subirmos ao Pão de Açúcar... apesar de ser um passeio trivial para turistas, foi bastante divertido para todos, menos Chico Dias, que pareceu ter entrado em um processo ainda mais intenso em termos de profunda contrariedade. 

Nada o demovia de seu mau humor crônico, e de fato, a oportunidade de estar no Rio; ter tocado em um evento onde estivemos relacionados aos maiores nomes do Rock da ocasião, e em uma casa de shows badalada como era o Circo Voador, pareceu não ter sensibilizado-o. Portanto, passear no dia seguinte pelo Rio, é que não o seduziria, mas infelizmente não tivemos essa percepção naquele momento. 

Para quem conhece bem o Rio, ou pelo menos já fez esse passeio, sabe que faz parte da estratégia de consumo, para arrancar dinheiro de turistas, uma artimanha quase secreta, que é praxe ali no bondinho do Pão de Açúcar. Assim que desce-se do bondinho, já lá naquela altura enorme, as pessoas geralmente estão à mercê do torpor mental, misto de medo pela subida e êxtase pela paisagem inacreditável. Então, nem percebem, mas são amplamente fotografadas. Alguns minutos depois, vendedores abordam-lhes, com pratos de porcelana em mãos, onde o destaque é a sua foto pregada neles, como adorno... 

Normalmente as pessoas são clicadas com aquela expressão facial de estupefação de turistas incautos, e encantam-se com tal "lembrancinha" do passeio, ao pagar uma pequena fortuna pela quinquilharia. O Chico Dias estava com uma expressão de tédio, indisfarçável na foto, e que simbolizava bem o seu estado de espírito na ocasião. Claro que não compramos as nossas respectivas fotos cotadas nos pratos, a peso de ouro, e com a malandragem local a achar que éramos argentinos pelo tamanho de nossos respectivos cabelos, mas hoje em dia, claro que eu gostaria de tê-las para publicar aqui nos capítulos da minha autobiografia...

Bem, com a tarde a findar-se, resolvemos voltar para São Paulo, enfim. Já no trajeto dos ônibus urbanos que usamos nessa tarde inteira, o Chico Dias aproveitou para "dormir" (literalmente), durante o percurso, a demonstrar o seu completo desinteresse pelo passeio. Hoje para a minha compreensão, fica claro que ele estava totalmente arrependido por ter entrado na banda; mudado-se para São Paulo, e nenhum progresso da banda, que era claro para todos, parecia seduzi-lo. Depois do traumático evento vivido por ele e a sua namorada, uma semana antes desse show no Rio de Janeiro, parece que o seu pouco comprometimento com a banda, tratou por zerar a cota... 

Ainda não percebíamos que tratava-se de um processo irreversível, portanto tínhamos esperanças de que ele realinhasse-se, e que aquele momento seria passageiro. Assim foi o nosso final de semana no Rio, em outubro de 1984.

Mas nossa agenda estava em expansão, e já no dia 23, uma terça-feira, tínhamos um compromisso firmado de última hora, e que foi muito interessante, a ser realizado em São Paulo. Ao contrário daquela semana terrível em que descrevi o show da danceteria Tífon, e a saga de Chico Dias e a sua namorada, este novo final de semana no Rio, começou bem, com contatos na sexta-feira, com direito a muitas histórias pitorescas que vivemos dentro do turbilhão do BR-Rock oitentista; passou pelo nosso bom show, apesar da chuva, e encerrou-se em um esforço coletivo para promover uma terapia ocupacional para o Chico Dias, infelizmente, infrutífera. O show ocorreu no dia 20 de outubro de 1984, um sábado chuvoso no Rio de Janeiro. Cerca de quatrocentos pessoas estiveram presentes (parece bom, mas para o tamanho do Circo Voador, foi realmente pouca gente...).


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Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 155 - Por Luiz Domingues


Passado o soundcheck, tivemos um bom período de espera pela frente. Demos uma volta pela Lapa, caminhamos um pouco pela Cinelândia, e voltamos ao Circo Voador. A primeira atração do dia, foi o "Vento Sul", que sinceramente não lembro-me exatamente de sua apresentação, pois nessa hora, estávamos no camarim. O "Gato de Louça", eu assisti uns trechos pela coxia, e pareceu-me uma boa banda, com músicos de bom nível e arrisco dizer que tinham alguma influência de Jazz-Rock setentista, e convenhamos, é preciso ter nível técnico para arriscar-se nessa complicada área musical. Os próximos seríamos nós... 

A Maria Juçá deu-nos o aviso e fomos ao palco, com bastante confiança, apesar do mau humor crônico do vocalista, Chico Dias. Infelizmente, demos muito azar, pois já antes da primeira atração subir ao palco, uma chuva torrencial caíra. E continuou, a prejudicar a presença de um público melhor. Enquanto tocávamos, a chuva apertou ainda mais. Durante o nosso show, deu para ouvir o barulho de relâmpagos, para demonstrar que a situação estava feia, na rua. 

Convenhamos, as atrações não foram chamativas o suficiente para atrair um grande público ao Circo Voador, apesar de ser um sábado.
O único nome mais significativo, seria o de Luciano Alves, mas mesmo assim, foi algo bem distante da ideia de que ele fora tecladista dos Mutantes em sua fase final etc. E naquele ambiente oitentista hostil, era até melhor omitir isso, falar em Rock Progressivo setentista etc. Os demais, incluso, A Chave do Sol, eram desconhecidos do público carioca e à margem do BR-Rock oitentista e midiático, em voga. 

Sendo assim, o público era muito diminuto, ao considerar-se o registrado na noite anterior, que superlotou o Circo Voador, graças a três nomes fortes do BR-Rock 80's, conforme já citei anteriormente. Em relação à nossa apresentação, apesar de ser um público pequeno, foi bastante caloroso e arrisco dizer que havia pessoas ali motivadas pelo fato da música "Luz", estar a tocar na programação da rádio Fluminense FM, há meses. 
A nossa performance foi muito boa. Não deixamo-nos abalar pelo pouco público, tampouco pela chuva diluviana que caía, com direito à raios & trovões ensurdecedores. Tocamos com muita energia. O vocalista, Chico Dias, fez até um solo vocal, a imitar bastante o Freddie Mercury, o que deixou-nos um pouco apreensivos, pois com pouca gente no ambiente, tendia a ser constrangedor, devido à insistência dele em cobrar interatividade das pessoas. 

Mas demos sorte, pois os poucos presentes, responderam o convite à participação e tudo encaixou-se a contento. Pelo contrário, talvez tenha passado uma imagem de segurança por parte dele e da banda, e de certa forma, "pegou bem". Desse show, tiramos muitas fotos, e a minha foto individual na contracapa do EP que lançaríamos no ano posterior, 1985, foi extraída daí. Eu estava todo de preto, com calça e camisa de cetim brilhante, em um visual ultra setentista. Pareço o Ritchie Blackmore em seus dias gloriosos no Deep Purple ou no Rainbow, nas fotos. Apesar do pouco público presente, creio que cumprimos a nossa missão, e saímos satisfeitos do palco. 

Assistimos um trecho do show de Luciano Alves, que parecia mesmo uma tentativa de fazer-se algo Pop, mas com elementos setentistas discretos na sua música. Enfim, nem era explicitamente oitentista, mas também não assumia-se como algo setentista, portanto, foi um híbrido indefinido, infelizmente.
No camarim do Circo Voador : Rubens; eu (Luiz Domingues), e Chico Dias. Clicks (todos desse show, inclusive) de Claudio "Capetóide" de Carvalho

Esse show ocorreu no dia 20 de outubro de 1984, um sábado, com cerca de quatrocentas pessoas na plateia. Hoje eu soltaria rojões em tocar para um público com quatrocentas pessoas, mas naquele momento, achávamos pouco, diante das quase duas mil que espremeram-se no Circo Voador, na noite anterior, que descrevi capítulos atrás. Fomos jantar nas imediações, e dormir em um hotel ali próximo, na Lapa. 

No dia seguinte, quando acordamos, decidimos esticar um pouco a nossa passagem pelo Rio, para tentar levantar o astral do Chico Dias. Guardamos os instrumentos e a bagagem no guarda volumes da rodoviária e fomos dar uma volta pela zona sul. Demos uma volta por Ipanema, e na rua Prudente de Moraes, encontramos por acaso o ex-apresentador do programa : "A Fábrica do Som", Tadeu Jungle. Ele ficou surpreso por ver-nos a circular por ali, mas também mostrou-se contente por constatar que estávamos a subir na carreira, pois tocáramos em um lugar badalado do Rio de Janeiro, onde certamente o fato de termos apresentado-nos tantas vezes naquele seu programa (que repercutia nacionalmente), havia  ofertado-nos boas possibilidades. 

Isso foi verdade, claro que sabíamos disso, e estávamos a tentar agarrar todas as oportunidades que estavam a surgir a nossa frente. Depois desse encontro inusitado, fomos a caminhar até Copacabana e alguém sugeriu que prolongássemos o passeio até a Urca, para um realizarmos uma ação típica para turistas...

Continua... 

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 154 - Por Luiz Domingues

Encontramos com a outra metade da banda, no horário combinado, e fomos diretamente o bairro da Lapa, para aguardar o momento de realizarmos o soundcheck. Estávamos muito contentes com o fato de estarmos escalados para o sábado, um dia nobre, e no turbilhão de um Festival de grande porte, a tocar ao lado de nomes consagrados do BR-Rock 80's, ainda que em nosso dia de atuação em específico, não houvesse ninguém muito famoso.  

Pode parecer bobo, ingênuo até, mas achávamos que esse festival poderia ser um marco para a carreira da banda, pois deu-nos a impressão de que fora um fruto da ascensão nítida que estávamos ter, por vários fatores já elencados anteriormente nesta narrativa. De fato, o foi mesmo, se considerarmos que talvez não fôssemos escalados, caso não estivéssemos nesse "momentum" significativo. No sábado, no entanto, as atrações que circundou-nos, não foram de grande relevância para aquele panorama. Lamentamos, pois queríamos ter sido escalados em um dia que estivéssemos acompanhados de Lobão & Os Ronaldos; Barão Vermelho, Paralamas do Sucesso e outros nomes da crista da onda etc. 

Todavia, foi clara a intenção do Festival em agrupar bandas emergentes, portanto ainda não consagradas, e indo além, o fato de ter-se pensado no sábado, supostamente um dia nobre, como o dia para esse tipo de bandas com menor apelo de público, só pode ter sido por um motivo : o fato das bandas consagradas estar com agendas lotadas... portanto, nessa hora, lembrei-me do baterista Daniel, do Metrô, que dissera-me na noite anterior, que no sábado, a sua banda iria tocar em Salvador, para voltar ao Rio, no domingo, para visar gravar o programa do Chacrinha... então, estaríamos acompanhados de : "Gato de Louça"; "Vento Sul", e Luciano Alves. 

O único conhecido em minha avaliação, foi o tecladista, Luciano Alves, que eu tinha vivo na lembrança, pelo fato de ter sido o último tecladista dos Mutantes. Mas a questão, foi : o que estaria a produzir agora ? E no meio do turbilhão oitentista, eu só podia esperar pelo pior, ou seja, um som decepcionante; modernoso e pleno de carga Pós-Punk. 

Fomos bem tratados no soundcheck, e quando saímos do palco, a banda de Luciano Alves chegou para passar o som. Assistimos um pouco a passagem de seu som, antes de partirmos para o hotel, em que hospedar-nos-íamos ali perto, na Lapa mesmo. Pelo pouco que vi, até surpreendi-me, pois não era nada radicalmente modernoso como eu esperava. Pelo contrário, apesar de parecer algo Pop, com intenções comerciais / radiofônicas, apresentava elementos do Rock'n Roll tradicional, em linhas gerais. Enfim, dos males o menor, não tocaríamos com "replicantes" saídos dos filmes  : Blade Runner ou Mad Max, algo tão comum naqueles dias sombrios...

O lado ruim, internamente a mencionar, foi que o Chico Dias chegara ao Rio, com um mau humor insuportável. Infelizmente ainda não recuperara-se dos aborrecimentos da semana anterior, e ao invés de estar feliz por estar a conhecer o Rio, e prestes a cantar no Circo Voador, um espaço badalado na cidade, em meio aos maiores artistas do BR Rock 80's (ao falar em termos do Festival inteiro e não especificamente sobre os artistas escalados para o dia), ele estava com o semblante fechado, a pronunciar poucas palavras, e a não demonstrar nenhum entusiasmo por tudo o que citei acima. Bem, não tínhamos tempo para contratar um psicólogo, e sendo assim, só restara-nos ter um tato mínimo para não piorar o clima, e com isso, tal mau humor, não atrapalhar a performance da banda. Só faltava-nos mais essa, em um momento desses...


Continua...