quarta-feira, 25 de março de 2015

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 241 - Por Luiz Domingues


Na Revista Rock Stars nº 16, saiu a seguinte resenha :

"Firme no propósito pela conquista de um lugar ao sol, prossegue em sua batalha o grupo paulista A Chave do Sol, que está lançando agora seu primeiro LP, através do selo independente Baratos Afins. A banda existe desde setembro de 1982, e iniciou suas atividades como um trio, contando com Rubens Gióia (guitarra); Zé Luis (bateria) e Luiz Domingues (baixo). Recentemente, um quarto elemento se juntou a eles : foi o vocalista Fran, que já comparece no LP.

É interessante perceber que tais grupos se esmeram no sentido de proporcionar à juventude brasileira algo melhor que os campeões de danceteria (Barão Vermelho, Titãs & Caterva),  que  se acomodaram em seu modelo pequeno-burguês, e se esqueceram que o Brasil está mais para favela do que para glitter. No LP da Chave, destaque para "Um Minuto Além" ("O mundo teria de ser um lugar onde todos pudessem viver / Com a certeza de um amanhã melhor / Com a certeza de um lugar ao sol / Eu só queria entender  por que tantas diferenças sociais ? / Tantas discriminações ? Somos todos iguais"...

Presente também no LP, a faixa instrumental "Crisis (Maya)", que conta com a participação do tecladista Daril Parisi (do Platina). Estamos torcendo para que a banda atinja seus objetivos, marcando assim, uma importante etapa da música jovem brasileira".


A resenha não está assinada, mas pelo seu estilo e vocabulário usado, está patente tratar-se da autoria do editor, Valdir Montanari, que realmente expressava-se com bastante apreço à norma culta da língua portuguesa, pois além de ser jornalista musical, era também professor de física em um colégio tradicional da zona sul de São Paulo, e nos seus textos, a formalidade; o bom uso do idioma; e a ausência de gírias, eram marcas registradas pela sua forma didática em comunicar-se. Infelizmente, ele citou tratar-se de um LP, o tempo todo, mas na verdade, fora um EP, como é sabido. Mais uma confusão gerada pela falta de ênfase na capa do disco, para deixar clara a rotação alternativa e adequada para ouvi-lo.


Bem, muito interessante ele ter pego o gancho da sociologia política, baseado na letra de "Um Minuto Além". A alfinetada no BR-Rock parece não ter sido no alvo correto, no entanto, pois a despeito da fragilidade musical das duas bandas que ele citou, no quesito letras, tais artistas não foram nem de longe os piores dentro dessa seara, e pelo contrário, muito provavelmente tiveram nesse quesito, o seu ponto forte. Aliás, justiça seja feita, no caso do Barão Vermelho, o seu cantor, Cazuza, escrevia boas letras, com conteúdo e poesia, e se havia restrições, sem dúvida eram relacionadas à duvidosa performance dele como cantor, e a fragilidade da banda, na parte instrumental (deixo a ressalva, que a banda melhorou muito, anos depois).

Porém, ele estava a enaltecer-nos, e naturalmente que nós apreciamos essa colocação, ainda que em termos comparativos inadequados, ao meu ver. Acho que ele gostou mesmo foi do teor sociopolítico da letra, e acabou por citar: "Crisis (Maya)", por ser instrumental e com elementos nítidos em torno da corrente do Jazz-Rock, ou seja, algo muito mais próximo da sonoridade setentista que ele mesmo, Valdir, apreciava. A resenha saiu com uma foto da banda, proveniente daquela sessão toda equivocada e cuja história da sua produção, eu já contei, e é lastimável que a fotógrafa tenha enquadrado-nos sob um fundo negro improvisado e todo torto. Bem, posso dar a desculpa de que tratou-se de um cenário "expressionista alemão", inspirado nos filmes do diretor, Fritz Lang, para dourar a pílula, mas na realidade, fora um pano preto; muito mal fixado na parede branca, e que ficou abominavelmente torto, por acidente e tão somente...


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terça-feira, 24 de março de 2015

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 240 - Por Luiz Domingues


Uma exposição surpreendente foi proporcionada-nos quando recebemos o inusitado convite para uma entrevista em uma revista de alcance popular. Estávamos habituados a sermos publicados em revistas especializadas de música e sobre o Rock em específico, mas uma publicação fora desse mundo foi uma novidade, e muito bem vinda por sinal, pois tratou-se de uma oportunidade para expandirmos o nosso horizonte. Foi a revista : "Amiga TV Tudo", especializada em assuntos sobre os bastidores da produção feita pela TV; a conter fofocas sobre artistas desse mundo; as suas novelas e programas de auditório etc. Claro que não tratava-se do nosso habitat natural, mas o simples fato de termos sido abordados espontaneamente pela produção da revista, foi comemorado, pois denotou um crescimento visível da nossa marca. Se recebemos tal convite, realmente fora um indicativo de que estávamos a começar um processo no sentido de desgarrarmo-nos do mundo fechado do patamar "underground" e por dedução, a chamar a atenção da mídia "mainstream", ainda que nesse caso, o público alvo desse tipo de publicação, seria totalmente insólito para uma banda com a sonoridade e propósitos d'A Chave do Sol. Enfim, aceitamos conceder a entrevista, que foi realizada na residência do Rubens, em meio a uma tarde de um dia útil, e a matéria foi publicada no nº 816 dessa publicação, com direito a uma foto promocional e oriunda daquela sessão "equivocada" (que tanto eu já citei), mas este click ao menos, esteve mais razoável.

Eis a transcrição da matéria :


"A Chave do Sol só nos Baratos (primeiro LP anima grupo)

Há três anos surgia em São Paulo  um grupo que se definia eclético, misturando Rock, Jazz e Heavy-Metal. Formado por Rubens (22 anos, Guitarra), Luiz Domingues (25 anos, Baixo), Zé Luis (24 anos, Bateria) e Fran (vocalista), A Chave do Sol resolveu mostrar que é possível fazer uma música no estilo metaleiro com muita criatividade e qualidade. Dispostos a conquistar seu espaço, o grupo lança seu primeiro LP pela Gravadora Baratos Afins. A banda existe desde 82 e ano passado gravou um  compacto simples cuja faixa principal é a canção "18 Horas", que foi bastante executada pelas rádios paulistas, na maioria alternativas. Depois de algumas modificações, os rapazes do A Chave do Sol afirmam que o grupo agora está perfeito. Inspirados no Jazz e Rock dos anos 60, eles partem com uma proposta diferente : criar um som voltado e preocupado com a parte técnica e combinação de metais, ou seja, criatividade. Segundo Rubens, a intenção da banda é acabar com aquela ideia de que Heavy Metal é apenas uma música barulhenta".

Solange Guarino
 


Bem, a moça foi extremamente simpática para conosco, entretanto, ela cometeu alguns deslizes na edição a posteriori da conversa que tivemos, e de nada adiantou a gravação dessa entrevista mediante o uso de um gravador e tampouco as suas anotações de apoio, pelo visto. Bem, já começou com o subtítulo da matéria. Dou o desconto que a história do EP gerou muita confusão na mídia, conforme já venho a relatar nesta autobiografia, mas afirmar logo de início que estávamos a lançar um "LP", já foi demais, ao denotar a sua desatenção aos fatos. Uma outra observação que eu faço, não é uma queixa, mas uma constatação : incrível como nesse ramo de jornalismo, especializado em TV, existia (e ainda existe), a tola preocupação em definir a idade das pessoas. Qual a relevância em haver determinado a idade de cada um de nós ? E ao admitir que isso seria uma praxe nesse tipo de mídia de TV, esqueceram-se de definir a idade do Fran, como vê-se na publicação. Um outro ponto interessante, em dado instante, ela embaralhou a conversa, pois afirmou que usávamos "metais" em nossas músicas, certamente ao confundir-se com toda aquela baboseira sobre a tribo dos "metaleiros", fomentada por incautos durante a realização do Festival Rock in Rio e assim misturar conceitos dispares. E para constar : nem éramos uma banda orientada pelo Heavy-Metal e não usamos instrumentos de sopro em nossa formação, os ditos "metais". Enfim, a boa intenção dela foi ótima, e a despeito dessas falhas, ficamos contentes por sair em uma revista popular e obter assim, a oportunidade em atingir um público diferente.
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Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 239 - Por Luiz Domingues


Conforme eu já havia ventilado anteriormente, a Revista Metal, em seu nº 14, publicou a resenha oficial do EP. Assinada pelo jornalista, Antonio Carlos Monteiro, que aí sim, foi fundo na análise do trabalho.

Eis a transcrição :


"Depois de muita expectativa entre os roqueiros de Sampa, foi lançado, finalmente, o primeiro EP do grupo A Chave do Sol, através do selo Baratos Afins. Mas apesar da demora, quem teve´paciência não se viu frustrado com o disco. O grupo, formado por Zé Luis (Bateria), Luiz Domingues (Baixo), Fran (Vocais) e Rubens Gióia (Guitarra), mescla o Heavy Metal com o Hard Rock e com o Jazz Rock, e dentro desse estilo, obteve um excelente resultado em sua segunda experiência em estúdio - a primeira havia sido um compacto independente, lançado em 1984.

O EP é aberto com "Anjo Rebelde", um Hard-Rock que lembra, em algumas passagens, o início do Heavy-Metal (vide Purple e Zeppelin), e que se torna primoroso pela bela guitarra do Rubens e pelo vocal bem colocado de Fran. "Um Minuto Além", a faixa seguinte, trata-se de uma belíssima balada, bem construída e bem executada, e  que possui também uma letra interessante. Nota-se nessa música, toda a influência de Blues que envolve o trabalho fe guitarra de Rubens. "Segredos" e "Ufos", dois poemas de Julio Revoredo musicados pela banda ( "nós temos muitos amigos poetas que nos dão trabalhos para colocarmos músicas, explica Luiz Domingues), não apresentam grandes novidades. Já "Crisis (Maya)", número instrumental, é o ponto altro do disco. Nessa faixa é possível perceber nitidamente a tendência "jazz-Metal" da banda : o baixo de Luiz Domingues fazendo uma bela linha e o teclado de Daril Parisi (membro do Platina) dando o clima que a música exige. Nota dez. E "Ímpeto", composição assinada por todos os membros da banda, é um hard'n roll" vibrante que encerra o EP com chave de ouro.

Valeu esperar por esse disco. As eventuais falhas que possam existir acabam sendo passadas para segundo plano pela performance extremamente profissional de cada instrumentista e pelo bom gosto das composições. E a isso ainda some a qualidade das letras, que se destacam dentro da mesmice que invade o Rock nacional".

Antonio Carlos Monteiro

O excepcional jornalista, Tony Monteiro, em foto bem mais recente

Uma excelente resenha, assinada pelo ótimo jornalista Antonio Carlos Monteiro, que era um dos poucos naquela década, que não estavam inebriados pela estética do pós-punk, e escreviam sem o ranço niilista e odioso, baseado na infame cartilha de Malcolm McLaren. A sua isenção era total, e de fato, apesar de ser um fã confesso da banda, ele tinha toda a liberdade para tecer críticas negativas em aspectos que detectava, e assim o fez, conforme está no texto acima.


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segunda-feira, 23 de março de 2015

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 238 - Por Luiz Domingues


Paralelamente às primeiras ações da banda com o seu novo vocalista, Beto Cruz, matérias e resenhas não paravam de sere publicadas em vários órgãos da mídia impressa, motivadas pelo lançamento recente do nosso EP. Vou transcrever algumas delas, neste momento.

Na coluna do crítico, Leopoldo Rey, na revista Som Três, e coluna esta chamada como : "Dr. Rock", foi apenas uma nota, mas apreciamos muito sermos citados ali, pois o Leopoldo era um dos mais respeitados jornalistas especializados de sua época e mantinha uma postura íntegra, sem ater-se ao modismo em voga, e sua indefectível má vontade com tudo o que não rezasse pela cartilha do Punk-Rock de 1977, caso da maioria esmagadora de seus pares na ocasião, infelizmente.


Dr. Rock - Leopoldo Rey - Revista Som Três 

"A Chave do Sol, segundo disco de 45 rpm (EP) desse grupo, que mistura Rock pesado com progressivo. A formação é : Zé Luiz (bateria), Rubens Gióia (Guitarra), Luiz "Tigueis" (Baixo) e Fran (vocal).

Apenas uma nota, como eu já havia salientado, no entanto, a visibilidade da coluna do Leopoldo era enorme, e assim, comemoramos a sua publicação, certamente. Saiu na edição nº 82, de outubro de 1985, e contendo a capa do nosso EP. como ilustração de apoio.

Na revista "Metal", nº 13, uma nota anunciou o disco, com direito a foto promocional do quarteto. Na edição posterior, nº 14, aí sim, foi publicada a resenha assinada pelo jornalista, Antonio Carlos Monteiro, um outro grande nome do jornalismo especializado e estabelecido no meio por uma conduta ilibada, bem diferente dos proclamadores de "hypes" indecentes e adeptos do niilismo barato oitentista.

Eis a nota :

Chave em Disco

"Quem acaba de lançar-se em disco é o grupo paulista Chave do Sol, que soltou um EP de 45 RPM pela Baratos Afins. O grupo foi formado em 1982 e conta com Rubens Gióia na guitarra, Fran nos vocais, Luiz Domingues no baixo e Zé Luiz na bateria. É mais uma banda de qualidade que a Baratos  joga no crescente mercado nacional".


Uma nota sucinta, mas bem objetiva. E no mês posterior, aí sim, a Revista Metal lançaria uma ótima resenha. 



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domingo, 22 de março de 2015

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 237 - Por Luiz Domingues


Não deu outra, o sujeito sucumbiu após a realização do soundcheck, e nós optamos por deixá-lo a dormir, pois ele não reuniria condições em recuperar-se da embriagues, a tempo de operar o som da banda na hora do show. Resultado : fizemos o show sem a presença dele na pilotagem dos botões. O técnico local não era nenhuma sumidade no quesito da capacidade em operar o áudio, mas trabalhou razoavelmente. 

Nessas circunstâncias, demo-nos por felizes em contar com um profissional a coibir a incidência de microfonias básicas, pois todo o nosso esforço em levar um técnico nosso, que conhecia as músicas e poderia dar-nos ao luxo de uma pilotagem a trabalhar com o volume estratégico nos momentos cruciais dos solos & afins, fora para o ralo. Como poderíamos suspeitar que o rapaz não conter-se-ia ao cair na armadilha da fartura interiorana, e com direito ao típico expediente : -"experimente esta aguardente da região" ? 

Enfim, nem ficamos chateados com o rapaz, mas é claro que ficamos desapontados e na volta à São Paulo, ele mostrou-se bem constrangido a pedir-nos mil desculpas pelo ocorrido etc. O show foi bom, ao considerar-se que aquele dito festival não atraíra um público interessado em bandas focadas na música autoral. A maioria ali presente, esperava bandas cover, e o clima era o de um "churrascão de fazenda", com todo mundo a desejar mais a festa explícita, ao som de covers internacionais. Todavia, eu não posso queixar-me, pois se o público portou-se de uma maneira fria, toda a hospitalidade dos produtores foi ótima (até no mau sentido da pinga farta oferecida sem critério); o cachêt acordado foi pago em dinheiro vivo, e regiamente, meia hora antes de subirmos ao palco, isto é, algo raro em meio às transações regulares praticadas no meio "underground". 

Apesar do dia bom em termos climatológicos, com sol; calor; e consequente noite de céu aberto e estrelado, o público esperado pelos organizadores foi aquém. Cerca de quinhentas pessoas estiveram presentes. Se fosse um teatro a contar com porte médio, ou uma casa noturna, eu diria tratar-se de um número excelente, mas para um festival realizado em uma chácara ao ar livre, decepcionou. Estávamos no dia 15 de novembro de 1985, uma sexta-feira de eleições, com feriado nacional decretado. Só para constar, houve eleição municipal nesse dia, e todos, tivemos que votar bem cedo para poder viajar ao interior. Botucatu fica a duzentos e quarenta e cinco Km de São Paulo, ou seja, a tratar-se de uma distância razoável. 

 

As pesquisas davam como certa a vitória de Fernando Henrique Cardoso à prefeitura de São Paulo, e sob um ato tresloucado, o candidato virtualmente eleito, FHC, deixou-se fotografar no gabinete de prefeito, sentado imponentemente como se já estivesse eleito, um dia antes da eleição.

Tal foto saiu na capa do jornal, Folha de São Paulo, no dia da eleição, e quando o resultado oficial apontou o outro candidato, Jânio Quadros, como o vencedor oficial, a sua primeira atitude, muito deselegante por sinal, foi querer ser fotografado com um desinfetante spray à mão, a higienizar a poltrona de prefeito, ocupada indevidamente por FHC, um dia antes. Um dos outros atos deselegantes que esse senhor perpetraria, já como prefeito a seguir, foi o de perseguir, até fechar implacavelmente, o teatro Lira Paulistana. Preciso dizer mais o que achei dessa vitória dele ?

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Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 236 - Por Luiz Domingues

 
Resenha sobre o Show realizado no Sesc Campestre, em São Paulo, publicada na Revista "Metal", algum tempo depois

E não houve muito tempo para relaxarmos (ainda bem ), pois, o próximo compromisso foi marcado logo em seguida. Fomos convidados a realizar um show em meio a um evento no interior de São Paulo, e este seria produzido no ambiente de uma chácara, próximo à cidade de Botucatu, no centro do estado. O cachê acordado foi muito bom, mas ao contrário do show que fizéramos em Santos / SP, onde houve um contrato formal, assinado e com reconhecimento de firmas, mediante a fé cartorária, desta feita o acordo fora verbal, entretanto, a confiança que tivemos foi total, mesmo não sendo os organizadores do festival, conhecidos nossos, propriamente dito. Fomos cedo para a cidade de Botucatu, no dia do show, através do uso de carros particulares, e a viagem transcorreu de forma tranquila e prazerosa. 
Foto meramente ilustrativa, não é esse o Dodge Dart que o Zé Luiz possuía naquela época, mas foi nessa linha de pintura, cor de vinho e com capota de vinil, embora o dele fosse o modelo, "Charger RT"  e esse aí acima, seja um "Dart"


Em nossa comitiva, além dos quatro integrantes, a aspirante a produtora, Cristiane Macedo, também acompanhou-nos; além de Edgard "Pulgão" Puccinelli; Eliane Daic (namorada do Zé Luiz desde 1983, e que sempre ajudava-nos com tudo o que envolvia a nossa produção, inclusive ao acionar as explosões pirotécnicas), e o técnico de som, Nico, que conhecêramos no estúdio "Vice-Versa", por ocasião da gravação do EP, recentemente. A nossa primeira ideia foi levar o amigo, Canrobert, mas este estava compromissado com outro artista na mesma data (provavelmente o grupo Punk, Os Inocentes, não recordo-me com certeza), e assim, levamos o Nico conosco, que era igualmente competente e uma pessoa agradável no convívio. Quando chegamos à cidade interiorana, fomos à residência de um dos contratantes, e de lá, fomos guiados à tal chácara, que localizava-se na zona rural daquela cidade. 

O evento, por sinal, chamava-se: "Rock in Chácara", a estabelecer uma alusão ao festival "Rock in Rio". Aliás, em 1985, isso tornou-se uma tendência generalizada, com muitos festivais a surgir por todo o Brasil, a copiar tal título, e assim tentar aproveitar-se do vácuo gerado pelo festival realizado no Rio.

A referida chácara era muito simpática, embora  a estrutura do festival fosse simples, com um palco a ostentar uma sustentação de madeira, e com uma altura relativamente baixa. Os sistema de "P.A." e de luz, disponibilizados, foram dignos, apesar de não haver nenhum luxo, mas apenas o suficiente para suprir a área física onde o palco fora montado. Os organizadores esperavam entre mil e duas mil pessoas presentes no auge do festival, e nós seríamos a atração principal da noite, com duas bandas locais a cumprir os shows de abertura. A hospitalidade dos organizadores foi muito grande, e um almoço muito farto, tipicamente interiorano, nos foi servido, e com direito a uma variada enorme de sobremesas maravilhosas, feitas com frutas colhidas no próprio pomar da referida chácara. Mas, a hospitalidade não ficaria só por isso. Com todo o tipo de drinks ali servidos, e em sua maioria à base de aguardente interiorana e de "boa fonte" (segundo os entendidos), com a minha exceção óbvia, pois eu sou abstêmio assumido, todo os demais beberam a vontade... 


Alguns contiveram-se, mas outros, não resistiram à ação da pinguinha maledetta! Quando chegou a hora do soundcheck ser cumprido, o pior de todos no estado etílico, infelizmente, foi o Nico, o técnico que leváramos para operar o nosso show. Já na passagem de som, ele estava a apresentar sinais de tal transtorno etílico, e se não houvesse a compreensão do técnico local, e dono do P.A. que prontamente ficou ao lado, a auxiliá-lo, infelizmente o trabalho da equalização e preparação do "set up" da nossa banda,  arruinar-se-ia... 

Continua... 

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 235 - Por Luiz Domingues



Após um sábado difícil, a lidar com adversidades para lá de presumíveis (mas que não tivemos a capacidade em discernir à época, ao ponto de evitá-las, simplesmente, diga-se de passagem), o domingo parecia ser mais promissor e digno para, A Chave do Sol, e de fato, o foi mesmo. O compromisso seria cumprido na unidade do Sesc, conhecida como, "Sesc Campestre", uma bela instalação em meio ao ambiente silvestre, mediante muita natureza; lagos; e equipamentos de lazer aos montes, incluso muitas piscinas. 

O show seria realizado em meio a uma concha acústica sui generis, pois esta ficava instalada dentro de um lago com razoável extensão de comprimento e largura, com o público a acomodar-se na margem do outro lado, sob um declive que insinuava-se como uma pequena encosta. 

Visualmente a falar, era muito bonito, e claro que foi ótimo ter tocado ali, por esse e outros motivos. Alguns anos depois, esse mesmo palco seria o "set" oficial para o programa da TV Cultura, "Bem Brasil", onde muitos artistas da MPB e do Rock brasileiro tocaram, incluso o grupo, "Big Balls", do Xando Zupo, futuro companheiro meu no "Pedra", no avançar dos anos 2000. Acho, não tenho a convicção, que o Golpe de Estado também tocou nesse referido programa da TV. 

Sobre o nosso show, este fora marcado graças à intervenção do produtor musical, Luiz Calanca, e nós dividiríamos o palco com o Centúrias e o Platina, bandas igualmente pertencentes ao elenco da Baratos Afins. 

Chegamos às dependências do Sesc Campestre, no horário combinado e o soundcheck foi muito rápido, pois por tratar-se de um palco ao ar livre, não seria possível realizá-lo com a devida calma habitual e necessária que seria de bom alvitre. Mas esse não seria um grande problema, pois o equipamento era de bom nível e os técnicos, competentes. Portanto, estávamos confiantes de que mesmo sem um soundcheck mais apurado, tudo daria certo. 

O Centúrias tocou primeiro, e da coxia, o som da banda parecia agradável na monitoração, para tocar-se com segurança. Mas quando o show deles encerrou-se, vimos que os seus componentes saíram do palco a nutrir muitas queixas sobre a monitoração, e isso acendeu a luz amarela para nós, imediatamente.

Levamos conosco, o Edgard Puccinelli Filho, popular "Pulgão", como roadie e ele insistiu para recitar um de seus poemas antes do nosso show.


Consideramos que não teria nada de mau ele entreter o público um pouco antes de entrarmos em cena, mesmo por que, ele era extremamente divertido, e as suas performances tresloucadas, arrancavam risadas e euforia, geralmente. No entanto, a relembrar tal situação hoje em dia, será que nós agimos corretamente ? Bem, lá foi ele declamar : "A Morte", um de seus poemas.

Apesar da declamação ser muito exótica em via de regra nessa época, o tema era mórbido e convenhamos, não seria um show Dark ou Gótico a ser realizado na casa noturna, "Madame Satã", mas um show a ser feito no período da tarde; sob um ambiente bucólico; ao ar livre; com muito sol e calor; portanto, com as pessoas a aproveitar a luz do dia, quase sob um clima de "pic-nic". Enfim, muita gente riu, houve aplausos, mas quando lemos a resenha sobre esse show, que foi publicada na revista "Metal", algum tempo depois, ficamos surpresos por ver que o crítico, Antonio Carlos Monteiro, não aprovou a performance, e deixou registrado, assim, o seu desagravo (mais adiante, publico literalmente o que ele falou). 

O show foi curto, pois fora compartilhado com outras bandas, porém foi muito bom. O Beto já conseguiu soltar-se um pouco mais e nesse aspecto, o desastre observado na cidade de Santos, na noite anterior, acabou por ser sendo benéfico para nós, sob tal ponto em específico. Lembro-me que a energia foi muito grande.

Um dado curioso ocorreu nesse dia e que desencadeou uma mudança de vida para o Beto Cruz, dali em diante, ao acompanhá-lo pelo resto de sua estada à frente da banda. Acho que posso revelar isto, pois não é nada comprometedor, e ele não teria motivo para chatear-se comigo. Enfim, graças a esse show, alguns comentários sobre a aparência física dele, Beto, chegaram até nós. Por ser vocalista e estar mais exposto, sem um instrumento às mãos, qualquer pequena saliência que apresentasse no seu abdômen, poderia ser detectada, principalmente pelas mulheres, sempre mais observadoras.  

E assim, uma certa gordura detectada, chamou a atenção desse tipo de audiência, e tais comentários proferidos, incomodaram-no. Não deu outra, na segunda-feira posterior, ele matriculou-se em uma academia de ginástica perto de sua casa, e a chamada "malhação", tornou-se uma rotina na sua vida. 

Entretanto, ele teve razão em cuidar-se, pois os vocalistas são os músicos que mais chamam a atenção do público em geral, e por ser assim, foi certeiro em observar isso com atenção. 

E não foi nada demais a tal gordura extra que ele apresentara nesse seu início a atuar conosco, e confesso, no lugar dele, eu não teria tomado providência alguma. 

Assim foi o show no Sesc Campestre, realizado no dia 10 de novembro de 1985, um domingo que foi bem quente em São Paulo. Segundo os produtores do Sesc, havia cerca de mil pessoas a assistir-nos nesse espetáculo.
Todas as fotos desse show, e que ilustram este capítulo, são de autoria de Rodolfo Tedeschi ("Barba"). Fica a ressalva que foram "scanneadas" diretamente de um contato fotográfico, e não de cópias reveladas em papel, portanto, possuem qualidade visual muito aquém do desejável, mas mesmo assim, justificam-se pelo valor histórico, naturalmente.


Continua...