Neste meu segundo Blog, convido amigos para escrever; publico material alternativo de minha autoria, e não publicado em meu Blog 1, além de estar a publicar sob um formato em micro capítulos, o texto de minha autobiografia na música, inclusive com atualizações que não constam no livro oficial. E também anuncio as minhas atividades musicais mais recentes.
sábado, 22 de novembro de 2014
Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 198 - Por Luiz Domingues
E ainda em junho, teríamos mais um compromisso, e desta feita, delineara-se como o mais bem divulgado, em relação aos dois anteriores que fizéramos. Não que o "Metal Tribo", organizado pelo Antonio Celso Barbieri, ou o lançamento de dois discos no Clube das Bandeiras, por parte do Luiz Calanca, não houvessem obtido um esforço positivo por parte desses respectivos produtores. Porém o que ocorreu foi que nesse terceiro show que citarei agora, o apoio de uma estação de rádio, diretamente interessada no evento, esteve maciço, e dessa forma, a perspectiva de um público grande, foi enorme. Tratava-se de um show organizado por um programa da rádio 97 FM, que àquela altura, era a principal estação de rádio, inteiramente dedicada ao Rock, ao considerar-se que estações como 89 FM, e Brasil 2000 FM, ainda estavam a iniciar as suas atividades de uma forma incipiente. Desde 1984, a 97 FM de Santo André, cidade da região do ABC, dominava o segmento Rock, com boa penetração em São Paulo, apesar de padecer de um maior alcance, devido à dificuldades técnicas. Portanto, a 97 FM atingia todas as cidades da região do ABC e grande parte da cidade de São Paulo, mas em alguns bairros da capital, o sinal era deficiente. Sendo assim, mesmo com esse limite nessa época, a estação dominava o mercado da grande São Paulo, tendo um nível de atuação semelhante à da Rádio Fluminense FM, no Rio, e a Ipanema FM, de Porto Alegre.
De fato, a 97 FM de Santo André oferecia muita abertura à bandas independentes da cena oitentista, sem preconceitos ou a fechar em tribos. Do pessoal do Pós-Punk, as tribos do Heavy-Metal, todo mundo estava a obter espaço e paralelamente, Rock vintage das décadas de cinquenta; sessenta e setenta, também tinham espaço, uma raridade no ambiente hostil da década de oitenta, mediante o seu paradigma de repúdio ao passado. Portanto, estávamos a ter um espaço ótimo na emissora, com o nosso compacto inicial a ser tocado, ainda que não com a mesma constância que tocava normalmente na Fluminense FM, do Rio, mas mesmo assim, era executado com uma boa constância. E havia os programas, onde cada apresentador / locutor, mantinha uma certa autonomia para tocar e entrevistar artistas. Um deles, era do jornalista, Leopoldo Rey, um experiente crítico de Rock, com passagem em jornais de grande circulação, e que há anos, era colunista da Revista Som Três, com a sua coluna : "Dr. Rock", além de que recentemente havia ingressado também na Revista Bizz. E outro, que detinha muita audiência, era comandado por um comunicador chamado : Beto Peninha, e chamava-se : "Sessão Rockambole".
E foi o Beto Peninha que tomou a iniciativa em promover um grande show na região do ABC, com a presença de algumas bandas da cena pesada de São Paulo. Nessa perspectiva, Beto Peninha convidou A Chave do Sol, entre outras, e desde o início de junho, usou o seu programa para massificar a divulgação do espetáculo, além de contar com o apoio da sua emissora, que disponibilizou muitas chamadas e testemunhais de outros locutores da casa, para reforçar essa divulgação. Indo além, trabalhou também com recursos tradicionais de divulgação da época, tais como filipetas; cartazetes e Lambe-Lambe, mediante o apoio de patrocinadores. Enfim, o Peninha, apesar de ser um produtor iniciante, esmerou-se para fazer tudo a contento, e de uma forma surpreendente até (ao considerar-se a sua inexperiência como produtor de shows), ele conseguiu um ótimo resultado.
Em princípio, a ideia foi ralizar o show na cidade de Santo André SP, sede da estação 97 FM. E também por Santo André ter a fama local de ser a cidade mais Rocker entre as cidades do ABC, com uma tradição em torno de muitos anos em relação aos shows de Rock. Porém, na impossibilidade de agendar-se uma data no famoso Clube Aramaçan (onde a 97 FM faria no futuro, inúmeros shows históricos e até shows internacionais ocorreriam, casos do Deep Purple e Nazareth, inclusive), outras opções foram ventiladas, entretanto, o tempo passava, e o Peninha optou por fechar a data em um clube disponível, na cidade de São Caetano de Sul / SP, o Buso Palace.
O Buso Palace ficava bem perto da fábrica da General Motors, e do centro da cidade de São Caetano do Sul, próximo à avenida Goiás, portanto, em um ponto muito estratégico, que apresenta-se quase na divisa com Santo André, e também muito próximo da divisa com São Paulo, portanto, mostrou-se bastante interessante. Em uma dessas ações do Peninha, lembro-me em ter comparecido aos estúdios da 97 FM e ter concedido uma entrevista ao programa Sessão Rockambole, no dia 16 de junho de 1985, onde ele executou músicas d'A Chave do Sol ("Luz" e "18 Horas", pois ainda tínhamos começado a gravar o novo disco, nessa data), além de deixar que eu falasse bastante sobre a banda; os nossos planos e claro, reforçar bem o anúncio do show previsto para o Buso Palace. Esse show contém várias histórias interessantes, que contarei a seguir...
Continua...
Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 197 - Por Luiz Domingues
No dia seguinte a esse compromisso no Teatro Lira Paulistana, tínhamos um show de choque para cumprir em um evento organizado pelo Luiz Calanca, da gravadora Baratos Afins. O mote desse show, seria o lançamento de dois discos da Baratos Afins : o primeiro disco do Harppia ("A Ferro e Fogo"), e a coletânea "SP Metal ", com a presença de quatro bandas orientadas pelo Heavy-Metal. A Chave do Sol foi convidada a participar, mesmo não tendo nada a ver com os discos citados, mas como éramos do mesmo selo, e estávamos a gravar o nosso disco, não poderíamos recusar o convite, de forma alguma.
O nosso temor inicial, foi que esse show pudesse desviar a atenção do público, ao inibir a sua presença no dia anterior, no Teatro Lira Paulistana. Por tratar-se de um show dotado de um maior porte, a ser realizado em um clube e com a presença de várias bandas, além de ostentar o mote de dois discos a ser lançados, temíamos por um certo prejuízo nesse aspecto. E de fato, ainda havia o empenho do Luiz Calanca em divulgar o evento, o que conflitava um pouco com o nosso esforço pelo show da noite anterior, ao levar-se em conta que no Teatro Lira Paulistana, ganharíamos com a participação da bilheteria, mas no show promovido pela Baratos Afins, seria uma participação sem cachet, apenas amparada pelo esforço colaborativo com o selo e em torno da sua divulgação análoga.
Bem, situações assim são comuns na vida de qualquer artista, e não foi diferente conosco. Claro que aceitamos tocar e com boa vontade, mas independente desses temores, certamente que o Luiz Calanca sempre foi muito generoso para conosco, e mereceu o nosso apoio. Além do fato de sermos amigos dos membros das bandas que estavam envolvidas com tais lançamentos, e a óbvia oportunidade de mais uma aparição, a movimentar mais exposição na mídia em nosso favor. E lá fomos nós participar...
Aconteceu no dia 23 de junho de 1985, e o local foi o salão de festas do Clube das Bandeiras, um clube particular e localizado em em um exótico recanto do bairro de Pinheiros, na zona oeste de São Paulo. O exotismo em questão, ocorreu pelo fato do clube estar localizado em um ponto muito alto, onde o acesso principal para quem vinha pela Rua Cardeal Arcoverde, só seria possível a pé, e mediante a escalada de uma escadaria muito íngreme mediante muitos degraus. O micro festival foi sido dividido em dois dias. No sábado, 22, o Harppia foi o Headliner, ao lançar o seu primeiro disco, e as bandas, "Santuário" e "Abutre", lançaram o álbum coletânea, "SP Metal", do qual participaram. Nesse dia, estávamos no Teatro Lira Paulistana, conforme já revelei no capítulo anterior.
Luiz Domingues em ação com A Chave do Sol. Foto do show no Clube das Bandeiras - Acervo Baratos Afins
E no domingo, dia 23, nós fomos o headliner, apesar de sermos convidados, para complementar a noite com as bandas "Performance's" e "Korzus", também do a representar o álbum, "SP Metal". Claro, a ambientação foi toda de um show de Heavy-Metal, e o público esperado foi composto por aficionados desse estilo, os ditos "headbangers". O equipamento disponibilizado foi adequado ao tamanho do local, mas mediante um padrão de qualidade razoável, apenas, sem muitos recursos. Tocamos um set list curto, com o caráter de um show de choque, com seis músicas somente, e claro, a priorizar as mais pesadas, condizentes com aquela circunstâncias do evento. Cerca de trezentas pessoas estavam presentes no salão, pela minha lembrança, mas sem uma confirmação oficial de borderô oficial, apenas a basear-me na minha impressão visual de momento. Sobre o show, foi bastante energético, mas não impressionou o público, que era bem radical e ansiava pelo Metal extremo do Korzus, principalmente. Lógico, não fomos hostilizados, mas foi possível sentir que o nosso som, que julgávamos estar muito pesado, além da conta do que gostávamos pessoalmente, era uma "pena flutuante" para os padrões daqueles garotos radicais...
Esse tipo de confronto com tal realidade, potencializava e muito o nosso questionamento interno sobre a escolha que fizéramos em direcionar o trabalho para esse nicho mais pesado. Será que estávamos no caminho correto ? É claro que não...
Fora tudo isso, aconteceu um fato improvável naquela noite, que é engraçado pelo aspecto da comédia a gerar uma lembrança engraçada, mas na verdade , foi dramático, e quase descarrilou para uma tragédia. Bem, ao final do show, em meio ao estrondo final e apoteótico que fizemos, o Zé Luiz empolgou-se e ao levantar-se na bateria, tomou uma atitude de baterista de banda mainstream, ao tocar em uma Arena gigantesca...
A gesticular com todo aquele mise-en-scené típico de um Rock Star, fez uma onda cênica e enfim, atirou as suas baquetas para o público. Ainda no palco, pude ver alguns garotos a digladiar-se pelas baquetas, em meio a multidão, mas jamais poderia supor que algo muito diferente havia acabado de acontecer. No camarim, estávamos naquele momento pós-show, a atender pedidos de autógrafos; fotos; e os inevitáveis pedidos de palhetas; discos grátis e para algumas meninas mais abusadas, peças de nosso vestuário usado em cena. O clima era bom no camarim, quando de-repente aparece um garoto, acompanhado dos seus amigos, a abordar o Zé Luiz. Em princípio, claro que o Zé pensou tratar-se de mais um pedido de autógrafo, mas o garoto falou-lhe sobre as baquetas jogadas ao final do show. Lógico que o Zé Luiz pensou e falou para o rapaz : -"ah, então foi você que pegou a baqueta ? Quer um autógrafo" ?
O garoto respondeu que sim, mas na verdade, o seu objetivo foi duplo, pois o arremesso da baqueta trouxera-lhe um prejuízo pessoal...
O ocorrido foi que segundo ele, a baqueta atingira o seu olho em cheio, e por conta desse impacto, a lente quebrara e ele precisava ser ressarcido para encomendar uma nova lente ! O Zé Luiz mudou o seu semblante na hora e assustado com a constatação de que causara um prejuízo e um grande risco de ferimento ao rapaz, perdeu-se o glamour do pós-show, completamente. Então, mediante a troca de contatos, Zé Luiz combinou com o rapaz para na segunda-feira posterior que encontrassem-se e daí seria tomada a providência sobre tal ressarcimento. Por essa situação, o Zé Luiz não esperava, tampouco ninguém da banda...
Antes de
falar do próximo show, devo relatar mais uma aparição em programa de TV
que fizemos, e no Realce, da TV Gazeta, onde já havíamos aparecido
antes. Optamos
pela não aparição do Fran Alves, mais uma vez, pois ainda não havia
registro oficial de sua voz gravado e não faria sentido que fizesse
parte de uma dublagem de uma música instrumental, como a que
apresentaríamos, ou seja, "18 Horas". Mister Sam sempre improvisava em suas brincadeiras malucas e dessa vez o Zé Luiz antecipou-se e criou uma loucura cênica de última hora. Ao dispensar
o uso de uma caixa e um prato, sempre usados nas rídículas mímicas das
dublagens de TV, ele colocou um cesto de lixo que achara no estúdio e o
colocou ali para simular uma bateria. Claro que o
Mister Sam adorou a ideia e estimulou a conversa sobre uma bateria invisível, onde
todos embarcarmos juntos com comentários estapafúrdios sobre isso. Na
dublagem, Zé Luiz conhecia o seu solo registrado no compacto de 1984, tão
bem, que o seu gestual foi quase perfeito, ao dar a impressão que tocava
de verdade...
Veja o video abaixo, dessa aparição acima citada :
https://www.youtube.com/watch?v=OiDhGHdBR6M&spfreload=10
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Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 196 - Por Luiz Domingues
Em junho de 1985, estivemos empenhados na gravação do novo disco, mas cumprimos três compromissos importantes de shows pela frente. E os três envolviam uma perspectiva de público e mídia, bastante interessantes, portanto, não podíamos deixar em realizá-los, mesmo que o foco principal da banda naquele mês, houvesse sido as sessões de gravação do novo álbum, no estúdio Vice-Versa.
O primeiro deles, foi mais uma oportunidade para usar o palco do Teatro Lira Paulistana. Son uma produção de Antonio Celso Barbieri, tocamos no dia 22 de junho de 1985, em um show denominado : "Metal Tribo". Desta feita , dividimos o palco com duas bandas : "Excalibur" e "Nostradamus". Ambas eram pesadas, na perspectiva do Heavy-Metal oitentista, é claro, mas o Excalibur trazia alguns atributos diferentes, ao destacar-se da média das outras bandas dessa cena, pois primeiro : não fora formada por garotos muito jovens e inexperientes, caso da maioria das bandas que cercava-nos. E segundo lugar, os músicos eram mais maduros, não só na idade cronológica, mas certamente pela postura artística; nível técnico e a conter uma dose extra de ecletismo, que proporcionava-lhe um diferencial, sem dúvida. Mas havia um terceiro elemento, e que de certa forma mais os aproximava de bandas sessentistas, do que o Metal oitentista em voga. No quesito letras, o vocalista, Beto, esmerava-se para evocar poetas malditos franceses do século XIX, e certamente que tal influência vinha direto de Jim Morrison e o The Doors.
De fato, nas letras, as citações a poetas como Rimbaud; Lautreamont e Baudelaire entre outros, destoavam das letras paupérrimas perpetradas pelas bandas de Heavy-Metal nacionais, em sua maioria. E a performance do vocalista chamava a atenção por seus trejeitos mais inspirados em Jim Morrison, do que nos vocalistas de Heavy-Metal da época, ou seja, em minha visão, o Excalibur era muito mais palatável do que a imensa maioria, ainda que o seu som contivesse peso, e a grosso modo, fosse uma banda pesada daquele contexto Heavy-Metal de 1985. Quanto ao "Nostradamus", era uma banda dotada com bons instrumentistas, no entanto, comprometida com a estética do Metal, ao parecer-se com o Viper, de certa forma. Já no caso do "Korzus", tratava-se de um trabalho baseado no Metal extremo, portanto, não tenho muito o que acrescentar. Apesar de ter sido um show de meio de semana, e compartilhado, foi positivo e trouxe um bom público com cento e cinquenta pessoas no teatro, ou seja, quase a lotar a sua dependência. O Barbieri também gostou dessa produção, porém, a perspectiva que mantinha como um trunfo, foi muito melhor, pois ele havia fechado com o Sesc Pompeia, a realização de um festival com um mês de duração, a contar com muitas bandas da cena pesada de São Paulo. Falo sobre isso na cronologia futura.
Ainda em junho, teríamos dois shows, antes de participar desse festival do Sesc. O próximo, por exemplo, aconteceria no dia seguinte a esse show do Teatro Lira Paulistana, que descrevi, e rendeu história...
Continua...
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sexta-feira, 21 de novembro de 2014
Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 195 - Por Luiz Domingues
A testar um amplificador no Vice-Versa, com o apoio do técnico, Zé Luiz; Fran Alves (de costas); e com Rubens a observar.
Enfim marcamos a primeira sessão, e o planejamento foi composto em gravarmos todas as bases, ao vivo, certamente sob um esforço econômico, e assim a minimizar o uso das horas. Dessa forma, preparamo-nos nos ensaios e assim procedeu-se, com a banda super azeitada para encarar tal tarefa inicial. No caso d'A Chave do Sol, e das músicas desse novo disco, a complexidade dos arranjos mostrou-se enorme. A despeito do peso que o trabalho ganhou com essa tentativa de aproximação que buscamos com o nicho do Hard / Heavy, o apuro pelas linhas complexas de baixo e bateria, aliadas à grande profusão de convenções intrincadas, foi substancial, e dessa forma, gravar ao vivo, ao fazer valer três instrumentos simultaneamente, revelou-se como uma temeridade, pelo aspecto psicológico. Todavia, foi o que melhor poderíamos ter feito, e assim procedeu-se.
O Fran Alves (sob um esforço admirável de sua parte, registre-se aqui), semanas antes de nós entrarmos em estúdio, tomou a dianteira em arrumar-me um amplificador com maior qualidade para a gravação. Claro que eu aceitei, e a banda inteira apreciou tal atitude. Então, com o apoio do Rubens e da sua decisiva carona, visto que nessa época, eu nem sabia dirigir, tampouco cogitava obter um carro próprio, fomos buscar esse amplificador emprestado. Tratou-se de um combo da marca "SWR", um aparelho que havia sido lançado no mercado ao final dos anos setenta, e que fazia sucesso entre músicos oitentistas. Contudo, para ser muito sincero, eu usei o aparelho em ensaios e não apreciei o seu som. O Fran Alves ficou um pouco desapontado, pois no seu conceito, tratava-se de um amplificador inquestionável, no entanto, eu não considerei haver nenhuma possibilidade que trouxesse um timbre razoável que fosse para o meu baixo Fender Jazz Bass. O meu sonho de consumo nessa época, era ter um "Acoustic", um amplificador norteamericano dos anos setenta, que aí sim, tinha possibilidades de timbragem, espetaculares, absolutamente idênticas às de baixistas que eu admirava, como John Paul Jones; Gary Thain, e outros tantos que destacaram-se na década de setenta. Bem, descartei o amplificador SWR, ainda no estúdio, e este aparelho pertencia a um amigo do Fran Alves, que chamava-se Pablito. Portanto, preferi usar o amplificador que havia disponível no Vice-Versa, um velho "Duovox", modelo 150 B, dos anos setenta. Por incrível que pareça, apesar de todo o preconceito que havia em torno de um aparelho nacional (o Duovox era uma linha de luxo da Gianinni), esse aparelho era muito bem feito, com parâmetros eletrônicos similares aos dos melhores amplificadores internacionais.
Bem contente com o Duovox envolto nos biombos, lá estou, pronto para começar a gravar...
Eu mesmo, estava acostumado a usar um Duovox, e arrisco dizer que foi o amplificador que mais usei nos anos oitenta, ao prolongar esse costume até o início dos anos noventa, quando fiz muitos shows do Pitbulls on Crack, com esse aparelho. E o que usei no estúdio, estava impecável, com a a caixa original, e segundo o Nico contou-me, fora usado em muitos discos importantes da MPB. Além do amplificador, contamos com a linha direta na mesa, para a soma, posterior, na etapa da mixagem. Infelizmente, no aspecto negativo em gravar-se ao vivo, tal metodologia obrigou-me a gravar na mesma sala de bateria. Mesmo separado com pesados biombos de madeira, acolchoados, foi óbvio que os vazamentos revelaram-se inevitáveis.
E
para corroborar a ideia de gravarmos na mesma sala, houve a necessidade
do contato visual entre eu e Zé Luiz, tamanha a quantidade de
convenções muito precisas que necessitávamos executar. No caso da
bateria, o Zé Luiz optou por montar o seu instrumento no espaço amplo da sala,
para buscar a reverberação natural. Havia de fato, naquele canto onde
montou a bateria, um pé direito bem alto, na verdade, um mezanino, onde
foi possível assistir a gravação por cima, e de lá, muitas fotos foram
clicadas, aliás as fotos que aqui estou a publicar, são de autoria do Carlos Muniz Ventura, é bom registrar.
E o Rubens não teve outra escolha, a não ser ocultar o seu amplificador no espaço reservado, onde deveria ter sido montada a bateria. Foi a melhor solução para isolar a emissão livre do amplificador, e evitar assim, mais vazamentos na sala principal, onde o baixo e a bateria ficara livres.
Porém, como também era imprescindível o contato visual com o Rubens, ele tocou conosco na grande sala, e sendo assim, com todos a olhar-se, ficou muito mais confortável e seguro para os três. Somente o Fran Alves fez a sua guia vocal dentro da técnica, sem maiores prejuízos para essa tomada inicial.
Lembro-me que as músicas como "Ufos" e "Segredos", deram um pouco mais de trabalho, com algumas tomadas repetidas, mas a representar nada demais que preocupasse-nos. Gravamos todas as bases nessa primeira sessão, que terminou na madrugada. Estávamos contentes com o resultado da captura inicial, e agora viriam as sessões de overdubs de guitarra; solos; contra-solos e complementos...
Continua...
Enfim marcamos a primeira sessão, e o planejamento foi composto em gravarmos todas as bases, ao vivo, certamente sob um esforço econômico, e assim a minimizar o uso das horas. Dessa forma, preparamo-nos nos ensaios e assim procedeu-se, com a banda super azeitada para encarar tal tarefa inicial. No caso d'A Chave do Sol, e das músicas desse novo disco, a complexidade dos arranjos mostrou-se enorme. A despeito do peso que o trabalho ganhou com essa tentativa de aproximação que buscamos com o nicho do Hard / Heavy, o apuro pelas linhas complexas de baixo e bateria, aliadas à grande profusão de convenções intrincadas, foi substancial, e dessa forma, gravar ao vivo, ao fazer valer três instrumentos simultaneamente, revelou-se como uma temeridade, pelo aspecto psicológico. Todavia, foi o que melhor poderíamos ter feito, e assim procedeu-se.
O Fran Alves (sob um esforço admirável de sua parte, registre-se aqui), semanas antes de nós entrarmos em estúdio, tomou a dianteira em arrumar-me um amplificador com maior qualidade para a gravação. Claro que eu aceitei, e a banda inteira apreciou tal atitude. Então, com o apoio do Rubens e da sua decisiva carona, visto que nessa época, eu nem sabia dirigir, tampouco cogitava obter um carro próprio, fomos buscar esse amplificador emprestado. Tratou-se de um combo da marca "SWR", um aparelho que havia sido lançado no mercado ao final dos anos setenta, e que fazia sucesso entre músicos oitentistas. Contudo, para ser muito sincero, eu usei o aparelho em ensaios e não apreciei o seu som. O Fran Alves ficou um pouco desapontado, pois no seu conceito, tratava-se de um amplificador inquestionável, no entanto, eu não considerei haver nenhuma possibilidade que trouxesse um timbre razoável que fosse para o meu baixo Fender Jazz Bass. O meu sonho de consumo nessa época, era ter um "Acoustic", um amplificador norteamericano dos anos setenta, que aí sim, tinha possibilidades de timbragem, espetaculares, absolutamente idênticas às de baixistas que eu admirava, como John Paul Jones; Gary Thain, e outros tantos que destacaram-se na década de setenta. Bem, descartei o amplificador SWR, ainda no estúdio, e este aparelho pertencia a um amigo do Fran Alves, que chamava-se Pablito. Portanto, preferi usar o amplificador que havia disponível no Vice-Versa, um velho "Duovox", modelo 150 B, dos anos setenta. Por incrível que pareça, apesar de todo o preconceito que havia em torno de um aparelho nacional (o Duovox era uma linha de luxo da Gianinni), esse aparelho era muito bem feito, com parâmetros eletrônicos similares aos dos melhores amplificadores internacionais.
Bem contente com o Duovox envolto nos biombos, lá estou, pronto para começar a gravar...
Eu mesmo, estava acostumado a usar um Duovox, e arrisco dizer que foi o amplificador que mais usei nos anos oitenta, ao prolongar esse costume até o início dos anos noventa, quando fiz muitos shows do Pitbulls on Crack, com esse aparelho. E o que usei no estúdio, estava impecável, com a a caixa original, e segundo o Nico contou-me, fora usado em muitos discos importantes da MPB. Além do amplificador, contamos com a linha direta na mesa, para a soma, posterior, na etapa da mixagem. Infelizmente, no aspecto negativo em gravar-se ao vivo, tal metodologia obrigou-me a gravar na mesma sala de bateria. Mesmo separado com pesados biombos de madeira, acolchoados, foi óbvio que os vazamentos revelaram-se inevitáveis.
E o Rubens não teve outra escolha, a não ser ocultar o seu amplificador no espaço reservado, onde deveria ter sido montada a bateria. Foi a melhor solução para isolar a emissão livre do amplificador, e evitar assim, mais vazamentos na sala principal, onde o baixo e a bateria ficara livres.
Porém, como também era imprescindível o contato visual com o Rubens, ele tocou conosco na grande sala, e sendo assim, com todos a olhar-se, ficou muito mais confortável e seguro para os três. Somente o Fran Alves fez a sua guia vocal dentro da técnica, sem maiores prejuízos para essa tomada inicial.
Lembro-me que as músicas como "Ufos" e "Segredos", deram um pouco mais de trabalho, com algumas tomadas repetidas, mas a representar nada demais que preocupasse-nos. Gravamos todas as bases nessa primeira sessão, que terminou na madrugada. Estávamos contentes com o resultado da captura inicial, e agora viriam as sessões de overdubs de guitarra; solos; contra-solos e complementos...
Continua...
Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 194 - Por Luiz Domingues
Chegou a hora, enfim, para entrarmos em estúdio ! Estávamos
por adentrar o estúdio Vice-Versa, mas antes de iniciarmos o trabalho, efetivamente, o produtor fonográfico, Luiz
Calanca, convidou-nos para fazermos uma visita prévia ao local, para conhecermos
a sua estrutura, como se fosse um reconhecimento de campo. Muito bem, foi uma boa
ideia, sem dúvida, ter contato com a sala de gravação; conhecer o
técnico que lidaria conosco, o equipamento etc. Então, fomos ao Vice-Versa em um dia de semana, no período da noite, onde deveria acontecer a primeira
sessão de mixagem do primeiro disco do Platina, que estava a ser
preparado ali, também.
Como o Vice-Versa mantinha duas salas de gravação, na mesma noite, o Ultraje a Rigor estava a usar a sala "B", mais modesta, para cumprir a pré-produção de seu novo álbum. Por ser uma gravação de pré-produção, dispensava maiores requintes, ao ser gravada ao vivo, como uma demo-tape, e sendo assim, a gravadora WEA estava a bancar essa demo prévia (rough demo), sem maiores problemas. Encontramos dois membros de tal banda, Leospa e o Maurício na escadaria que dava acesso à sala B. Eram muito gentis, e imediatamente convidaram-nos para visitar a sua gravação, e ouvir o que estavam a produzir. Encontramos o produtor, Peninha Schmidt a capitanear o trabalho, mas foi claro que ele nem notou sobre quem nós éramos, sobretudo que já o abordáramos algumas vezes no passado. Pouco tempo antes, supostamente um material d'A Chave do Sol, havia chegado às suas mãos, e sido rejeitado sumariamente. Essa pelo menos houvera sido a versão que recebêramos da dupla de empresários, Ricardo e Bia, do escritório "Raio X", talvez na única ação que alegaram ter feito em nosso favor, mas pairava dúvidas, ainda que a conhecer a mentalidade do Peninha, e a vibração oitentista em voga, certamente que fez todo o sentido (desde que o material realmente tivesse sido enviado, e tínhamos dúvidas sobre essa ação ter ocorrido, de fato).
Bem, o que ouvimos no estúdio B do Vice-Versa, foi um Rock, meio que misturado com Ska, com timbragens mega oitentistas, e uma letra bastante satírica, mas a beirar a linha jocosa, a contar a história de uma galinha, e as suas peripécias sexuais etc. Claro que achamos horrível a abordagem chula, mas foi o som que o povo quis, como diria o saudoso comunicador, Bolinha, e de fato, pouco tempo depois, a tal canção depois de gravada oficialmente, esteve devidamente estourada nas emissoras de rádio, TV e na boca do povo.... uma tal de galinha Marylou...
Enfim, apreciamos a hospitalidade dos membros do Ultraje a Rigor, que sempre foram muito amistosos para conosco. Então, fomos conhecer o estúdio onde gravaríamos, e apreciamos muito a sala de gravação; a técnica e o equipamento. O técnico que assistir-nos-ia, fora o Nico, muito gentil; solícito e animado para mergulhar em nosso som. Posteriormente, outro técnico assumiria na metade do trabalho, mas sobre tal mudança, falo depois, no decorrer da cronologia. Infelizmente, nessa mesma noite, o clima pesou quando o pessoal do Platina chegou. Éramos muito amigos, e não haveria problema em permanecer alguns minutos durante o horário deles, para ouvirmos o trabalho de mixagem de seu álbum, que começaria naquele instante.
Contudo, claro que tínhamos bom senso, e iríamos embora bem rapidamente, para deixá-los trabalhar em sossego. Mas algo muito desagradável ocorreu. Enquanto
conversámos agradavelmente, um funcionário do estúdio apareceu muito
constrangido, para dizer que não estava a encontrar a fita de rolo master,
com todo o material bruto deles, gravado. Uma certa apreensão iniciou-se, mas ainda ninguém poderia supor que algo muito pior estava por acontecer...
Foi quando os funcionários enfim criaram coragem, e comunicaram que um acidente houvera ocorrido, e assim, sob um lapso indesculpável, um técnico apanhara a fita onde estava toda a captura bruta do álbum deles, e acidentalmente a teria usado para gravar outro cliente, por cima ! Um erro desses dentro de um estúdio profissional, e do renome que eles tinham, fora inacreditável. Os amigos do Platina e o Calanca, enlouqueceram com tal notícia lastimável.
E foi com toda a razão, diga-se de passagem, pois foram jogados no ralo, entre quarenta e cinquenta horas de trabalho duro, a conter todo o esmero, a emoção despendida da parte dos artistas etc. Claro que o estúdio responsabilizou-se sem reservas pelo prejuízo da banda e de seu produtor fonográfico, o Luiz Calanca e propôs-se a gravar-se tudo novamente, inclusive com mais horas bônus para caprichar-se ainda mais, no entanto, o desgaste emocional em que foram submetidos com essa notícia, foi enorme e irremediável, ao meu ver. Foi evidente que eles conformaram-se com tal revés, alguns dias depois, a retomar o trabalho do zero, e de fato, mesmo com esse prejuízo, o disco deles ficou excelente, na sequência. Entretanto, além de solidarizarmo-nos com os nossos amigos, e também com o Calanca, que como produtor fonográfico, também fora lesado, ficamos apreensivos em relação à esse tipo de ocorrência, a só restou-nos rezar para que não acontecesse um desastre conosco, e convenhamos, nem havíamos começado o nosso trabalho...
Continua...
Como o Vice-Versa mantinha duas salas de gravação, na mesma noite, o Ultraje a Rigor estava a usar a sala "B", mais modesta, para cumprir a pré-produção de seu novo álbum. Por ser uma gravação de pré-produção, dispensava maiores requintes, ao ser gravada ao vivo, como uma demo-tape, e sendo assim, a gravadora WEA estava a bancar essa demo prévia (rough demo), sem maiores problemas. Encontramos dois membros de tal banda, Leospa e o Maurício na escadaria que dava acesso à sala B. Eram muito gentis, e imediatamente convidaram-nos para visitar a sua gravação, e ouvir o que estavam a produzir. Encontramos o produtor, Peninha Schmidt a capitanear o trabalho, mas foi claro que ele nem notou sobre quem nós éramos, sobretudo que já o abordáramos algumas vezes no passado. Pouco tempo antes, supostamente um material d'A Chave do Sol, havia chegado às suas mãos, e sido rejeitado sumariamente. Essa pelo menos houvera sido a versão que recebêramos da dupla de empresários, Ricardo e Bia, do escritório "Raio X", talvez na única ação que alegaram ter feito em nosso favor, mas pairava dúvidas, ainda que a conhecer a mentalidade do Peninha, e a vibração oitentista em voga, certamente que fez todo o sentido (desde que o material realmente tivesse sido enviado, e tínhamos dúvidas sobre essa ação ter ocorrido, de fato).
Bem, o que ouvimos no estúdio B do Vice-Versa, foi um Rock, meio que misturado com Ska, com timbragens mega oitentistas, e uma letra bastante satírica, mas a beirar a linha jocosa, a contar a história de uma galinha, e as suas peripécias sexuais etc. Claro que achamos horrível a abordagem chula, mas foi o som que o povo quis, como diria o saudoso comunicador, Bolinha, e de fato, pouco tempo depois, a tal canção depois de gravada oficialmente, esteve devidamente estourada nas emissoras de rádio, TV e na boca do povo.... uma tal de galinha Marylou...
Enfim, apreciamos a hospitalidade dos membros do Ultraje a Rigor, que sempre foram muito amistosos para conosco. Então, fomos conhecer o estúdio onde gravaríamos, e apreciamos muito a sala de gravação; a técnica e o equipamento. O técnico que assistir-nos-ia, fora o Nico, muito gentil; solícito e animado para mergulhar em nosso som. Posteriormente, outro técnico assumiria na metade do trabalho, mas sobre tal mudança, falo depois, no decorrer da cronologia. Infelizmente, nessa mesma noite, o clima pesou quando o pessoal do Platina chegou. Éramos muito amigos, e não haveria problema em permanecer alguns minutos durante o horário deles, para ouvirmos o trabalho de mixagem de seu álbum, que começaria naquele instante.
Foi quando os funcionários enfim criaram coragem, e comunicaram que um acidente houvera ocorrido, e assim, sob um lapso indesculpável, um técnico apanhara a fita onde estava toda a captura bruta do álbum deles, e acidentalmente a teria usado para gravar outro cliente, por cima ! Um erro desses dentro de um estúdio profissional, e do renome que eles tinham, fora inacreditável. Os amigos do Platina e o Calanca, enlouqueceram com tal notícia lastimável.
E foi com toda a razão, diga-se de passagem, pois foram jogados no ralo, entre quarenta e cinquenta horas de trabalho duro, a conter todo o esmero, a emoção despendida da parte dos artistas etc. Claro que o estúdio responsabilizou-se sem reservas pelo prejuízo da banda e de seu produtor fonográfico, o Luiz Calanca e propôs-se a gravar-se tudo novamente, inclusive com mais horas bônus para caprichar-se ainda mais, no entanto, o desgaste emocional em que foram submetidos com essa notícia, foi enorme e irremediável, ao meu ver. Foi evidente que eles conformaram-se com tal revés, alguns dias depois, a retomar o trabalho do zero, e de fato, mesmo com esse prejuízo, o disco deles ficou excelente, na sequência. Entretanto, além de solidarizarmo-nos com os nossos amigos, e também com o Calanca, que como produtor fonográfico, também fora lesado, ficamos apreensivos em relação à esse tipo de ocorrência, a só restou-nos rezar para que não acontecesse um desastre conosco, e convenhamos, nem havíamos começado o nosso trabalho...
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Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 193 - Por Luiz Domingues
Antes que reparem e comentem, sim, esta filipeta tem erros gramaticais e ortográficos graves, mas para o meu consolo, não tivemos culpa nisso, pois não foi obra do nosso fã clube...
Achávamos que ficaríamos somente com esse show no interior, que descrevi anteriormente, para o mês de maio de 1985. No entanto, um convite de última hora, surgiu, ao apresentar-nos uma nova perspectiva. Havia um bar, localizado próximo à estação Jabaquara do Metrô, que mantinha tradição de trabalhar com música ao vivo. Era de fato, um bar com ambientação Rocker, mas a despeito de abrir as portas para bandas de Rock, o seu espectro era o do universo das bandas cover, e pouco ou nada aberto à shows de bandas autorais. Entretanto, uma mudança de mentalidade, sinalizou que passariam a abrigar shows com bandas autorais sob uma maior regularidade, e dessa forma, convidaram-nos para tocar, e claro, aceitamos de bom grado a oferta. Tratava-se do Rainbow Bar, casa que fez a sua fama nos anos oitenta em São Paulo, entre os aficionados do Rock pesado, e Rockers da velha guarda, também, com predileções setentistas.
Apesar de abrigar mais bandas cover na sua programação, o Rainbow Bar acumulava histórias. Boas e más, diga-se de passagem, pois pelo aspecto ruim, ficou marcado por ser protagonista de brigas homéricas da parte de gangues oitentistas típicas. Muitas emboscadas aconteceram ali nos seus arredores, perpetradas por hordas de Punks e / ou Skinheads, a agredir headbangers, ou Rockers setentistas. Bastava ter cabelo longo para correr risco de vida, e naquele quarteirão que dava acesso à estação Jabaquara do Metrô, muita gente apanhou, inclusive com gravidade, e houve até registro de morte, infelizmente. Pelo lado bom, foi um ponto de encontro que até hoje faz marejar os olhos de seus antigos habitues, quando mencionados em conversas nostálgicas entre os seus antigos frequentadores. De fato, uma vez de passagem pela casa, justamente para conhecê-la, pude assistir a performance do então muito jovem guitarrista, Xando Zupo, pela primeira vez, e também conheci a sua mãe, que o acompanhava na ocasião. Ele devia ter quatorze ou quinze anos de idade, e impressionava a tocar covers de artistas como : Deep Purple; Led Zeppelin, Van Halen etc.
Ainda eco dos esforços de Mário Ronco, essa matéria a falar da "Cooperativa Paulista de Rock", saiu no jornal City News, em maio de 1985. O texto do jornalista, seguiu a linha da abordagem desdenhosa observada em reportagem semelhante publicada pela Folha de São Paulo, um mês antes. O primeiro subtítulo da matéria já dá a mostra disso : "Somos Normais"...
No caso d'A Chave do Sol, foram dois shows, realizados nos dias 24 e 25 de maio de 1985. No primeiro dia, 24, um público a contar com cento e oitenta pessoas esteve presente. E no dia seguinte, 25, duzentas e cinquenta pessoas estiveram presentes nas dependências do estabelecimento, que era bem pequeno. Foram shows muito energéticos, mesmo por que, em um bar de pequeno porte, com a proximidade absurda do publico, e ausência de uma iluminação condizente, os shows ganhavam aura intimista, mesmo que a sonoridade fosse sob Rock pesado. Apesar dessas características intimidantes, no entanto, desfilamos todo o repertório do disco novo, com aquelas pauleiras todas, as firulas em torno de solos individuais etc. O público apreciou muito, e nós também, a abrir a possibilidade para a realização de novos shows naquela casa, no futuro. De fato, alguns meses depois, fomos novamente agendados, ali. Aliás, nessa segunda oportunidade, as circunstâncias seriam diferentes, de uma forma com a qual jamais poderíamos ter imaginado em maio...
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quinta-feira, 20 de novembro de 2014
Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 192 - Por Luiz Domingues
As baterias estavam concentradas nos esforços de pré-produção do novo álbum nesses dias, todavia, um novo compromisso de show avistou-se, ainda em maio, dias antes de entrarmos em estúdio, enfim. Estávamos contratados pelo Centro Acadêmico de uma faculdade de Direito, localizada na cidade de Bragança Paulista, no interior de São Paulo. Então, apresentamo-nos em um salão contratado pelos alunos dessa faculdade, às margens do famoso, e imenso lago que circunda aquela pujante cidade interiorana. Tratou-se da Faculdade São Francisco, de Direito, famosa naquela região do estado, quase na divisa com Minas Gerais.
Nessa noite, fez bastante frio, e aquela região do estado de São Paulo, é tradicionalmente mais fria do que outras regiões, e dessa forma, potencializado pelo lago, e imensa área livre, estava a fazer um frio bem intenso. Uma banda local fez o show de abertura. Lembro-me apenas que chamava-se "Apokalipse" (nada a ver com o Apokalypsis dos anos 1970, liderado pelo Zé Brasil), mas o seu som apagou-se de minha memória, para fazer qualquer tipo de consideração estética a seu respeito. Aconteceu no dia 11 de maio de 1985, um sábado, e cerca de cento e trinta pessoas estiveram presentes no show. Talvez pelo frio dessa noite, o público ficou aquém do que os organizadores esperavam. De fato, ficamos também decepcionados.
Essa filipeta patrocinada pela Baratos Afins, foi enviada pela nossa mala postal do Fá Clube e distribuída nos shows, entre maio e julho
Algumas pessoas disseram-nos, contudo, que a falha houvera sido na divulgação deficiente, pois tínhamos muitos fãs na cidade, e se caprichassem, atrairiam mais público advindos de cidades vizinhas, tais como Pirapora; Socorro; Atibaia; e Extrema, esta última já no lado de Minas Gerais, mas muitíssimo perto de Bragança (quinze ou vinte Km, acredito). Tecnicamente, foi um bom show, mas se houvesse tido mais público, teria sido ainda mais empolgante, sem dúvida.
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