segunda-feira, 23 de abril de 2012

Autobiografia na Música - Boca do Céu - Capítulo 2 - Por Luiz Domingues

O nome Boca do Céu não foi o primeiro que escolhemos.
Antes disso, sob um curto espaço de tempo, havíamos batizado a banda sob diferentes denominações, entre as quais: "Rest In Peace", "Ohms", "Gato de Botas", "Iscariots" e finalmente estabilizou-se como "Céu da Boca", em julho de 1976, ou seja, a readaptação posterior para o nome definitivo se encaminhara nesse instante. Portanto, a mudança para "Boca do Céu", só ocorreria meses depois.

Todos esses nomes passaram pela nossa então imaginação juvenil, permeada por signos do Rock setentista. "Rest in Peace" trazia a morbidez de um Black Sabbath. "Ohms", poderia remeter a algo científico, como gostava de citar o Van Der Graaf Generator em suas músicas. "Gato de Botas" recorria à literatura infantil dos Irmãos Grimm, ou Hans Christian Anderson, e claramente tratava-se de uma citação ao Genesis. E finalmente o "Iscariots", foi uma referência ao personagem bíblico, Judas Iscariots e certamente foi uma menção à Ópera-Rock, "Jesus Christ Superstar", da qual gostávamos imensamente. Só depois de algum tempo, houve uma inversão, e o nome estabilizou-se como "Boca do Céu", portanto. 

Em agosto de 1976, o Bernardão "Janjão" não quis mais brincar como Rocker, e saiu. Chamamos outro colega de escola, Edson Coronato, apelidado Edson "Coverdale", para assumir o vocal. A condição musical dele era a mesma do Bernardão, ou seja, cantor, sem noção musical, mas com exceção do Osvaldo, que era o melhor em técnica entre nós, todos éramos incipientes, portanto, nosso critério para escolher um novo vocalista, foi algo sem noção também. 

Sem dúvida, o Edson era um amigo de excelente índole, Rocker inveterado como nós, e o melhor centroavante da escola.
Edson Coronato foi meu colega de classe na 7ª série, em 1974. Fã de futebol e Rock, como eu, logo tornou-se amigo. Na nossa escola, foi o melhor centroavante e ainda bem, jogava no meu time. 

No futebol ele formava uma dupla infernal com o ponteiro, Wlademir Chiari (outro bom amigo que tinha e este, desde a infância pois estudamos juntos desde 1968), e com seus gols, ganhamos muitos jogos. O nosso time chamava-se: "Universal". O nome completo que criamos para o nosso time mostrou-se pomposo: "Associação Futebolística Universal de São Paulo". A razão prosaica da escolha de tal nome, foi porque já existiam muitos times com nome de "Internacional" e "Nacional", mas "Universal", não era conhecido, e suplantava os dois anteriores sob uma visão, digamos, expansionista. Logo surgiria o "Cosmos" de Nova York e acabaria conosco, mas nem sonhávamos com essa humilhação, em 1974. 

Em termos de Rock, o Edson gostava de muitas bandas. Entretanto, lembro-me que detinha especial apreço por Deep Purple e Nazareth. Costumava imitar Ian Gillan, David Coverdale e Dan MacCafferty, por cima dos discos que ouvíamos juntos, e na companhia de outros rockers da escola, como o Jacques, que aliás era o nosso goleiro e fechava o gol com suas defesas elásticas. 

Abro um pequeno parêntese para explicar a razão pela qual já era amigo do Edson, ao retroagir ao segundo semestre de 1975. Em 1975, estávamos a enlouquecer com o Rock e exemplares da revista "Rock, a História e a Glória" e também da "POP", corriam de mão em mão, na mesma profusão com que emprestávamos LP's e Fitas K7 a conter o som de diversas bandas internacionais e nacionais, uns aos outros. 

Mas houve um fato desagradável na escola, e nessa idade, no meio da adolescência, uma ocorrência desse porte costuma fazer muita diferença. Eu repetira a sétima série e meus amigos seguiram em frente. Enquanto eu era o repetente da "sétima C", em 1975, eles seguiram em frente e isso não diminuiu a nossa amizade, nem demoveu-nos de nossas atividades Rockers e futebolísticas, mas forçosamente, os nossos respectivos horários ficaram mais prejudicados para atrapalhar a nossa convivência. 

Mesmo assim, no segundo semestre de 1975, resolvemos fundar uma banda. Só havia um detalhe absolutamente risível nessa determinação juvenil : ninguém sabia tocar absolutamente nada!

Então, "escolhemos" um instrumento para cada um, a usar uma mera designação a esmo como critério e formamos a banda, na quixotesca esperança de que começaríamos a aprender, e em poucos meses, estaríamos a ensaiar realmente. A formação da banda seria: Wlademir (teclados), Edson (baixo), Jacques (guitarra), Bernardo (vocal), e eu na bateria, pois confesso que eu sempre quis ser baterista e o baixo foi um acidente na minha vida. 

Essa formação dissipou-se de vez assim que o ano de 1975, findou-se, e todos passaram de ano, mas a criar então um novo empecilho. A questão foi que meus amigos saíram da escola, ao formarem-se no ensino fundamental e a espalhar-se assim por outros colégios, onde iniciariam o segundo grau, enquanto eu fiquei, para cursar a oitava série, enfim. 

Por volta de março de 1976, eis que obstinado e enlouquecido pelo Rock, eu insisti em prosseguir com essa banda fictícia, mas apenas dois amigos sinalizaram que tentariam se unir em tal determinação,  entre eles, o Edson Coronato. Contudo, esse delírio não durou nem um mês, apesar da banda ter recebido um novo nome até interessante: “Medusa”.
De volta à cronologia, agosto de 1976, a essa altura, eu já havia desenvolvido o mínimo, a conseguir tocar em uma nota só com razoável segurança rítmica. O baterista, Fran Sérpico, havia disponibilizado uma bateria da marca "Gope", e começava a estudar, no entanto, apesar desse pequeno progresso que tivemos ainda não ensaiávamos formalmente, devido à falta de local e equipamento.

Ficamos com essa formação até agosto de 1976, a se designar dessa forma: Osvaldo Vicino na guitarra, eu (Luiz Domingues) no baixo, Fran Sérpico na bateria  e Edson Coronato no vocal. 

Foi quando o Edson resolveu sair do grupo. Então, sem perspectivas para arrumar um novo vocalista (um colega nosso da escola, Gabriel, chegou a ser cogitado, mas desistimos de insistir diante de sua relutância), e assim tivemos uma ideia inusitada a revelar a completa falta de noção de nossa parte, pois estávamos a nos expor sem levarmos em conta a total precariedade musical e inerente inexperiência: colocamos um anúncio no "Jornal de Música", da revista "Rock, a História e a Glória".

Tal revista foi a mais mais sensacional a abordar o Rock, que existia na época (tudo bem, existia a Revista "Pop", da editora Abril, mais bem acabada e produzida graficamente, porém, o texto sobre o Rock era raso e ela era mais direcionada para assuntos tais como moda e comportamento, portanto, no quesito texto, a revista "Rock, a História e a Glória" era muito superior pela sua excelência garantida pela presença de grandes jornalistas musicais. Diante dessa magnitude, após vibrarmos por constatarmos a nossa carta publicada no "Jornal de Música", encarte da referida revista, começamos a receber cartas enviadas por ao posto de vocalista da nossa banda.

A minha sina em ver meu nome escrito errado, vem de longe! |Como se não bastassem os inúmeros aborrecimentos que tive com o apelido que usei durante anos, eis minha carteirinha escolar da 8ª série, em 1976, quando o Boca do Céu iniciou atividades. Quem é mesmo Luiz Antonio "Domingos?"

Continua...

Este trecho faz parte do capítulo número 1, páginas 39 a 43 do livro: "Boca do Céu" (a autobiografia de Luiz Domingues - Volume I)

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