domingo, 17 de maio de 2015

Autobiografia na Música - Sala de Aulas - Capítulo 40 - Por Luiz Domingues

 

Realmente, a adesão de meus alunos ao Pitbulls on Crack, banda que iniciava os seus primeiros passos, foi instantânea, desde o primeiro show. E isso só foi a crescer, paralelamente ao fato de que a banda teve grandes oportunidades, de uma forma muito rápida, ao ficar pouco tempo no circuito mais abissal do underground da música profissional.

Nessa altura, eu já tinha criado um mural de anúncios na sala de aulas. Na verdade eu já vinha a perpetrar tal procedimento desde 1989, mas improvisadamente, anteriormente. Agora com uma sala ampla, apenas com essa finalidade, eu pude disponibilizar um mural, literalmente, onde passei a colocar expostos os anúncios promovidos pelos meus alunos. Tratou-se de compra e venda de instrumentos; equipamentos e acessórios; procura por músicos para formação de bandas; e principalmente, cartazes ou filipetas de shows de suas respectivas bandas, a tratar-se das suas ocorrências mais comuns. E eu apreciava muito promover esse intercâmbio, pois tal ação os unia muito, e como efeito natural, promovia mais ânimo para as aulas, ao dardo-lhes mais estímulos para estudar e progredir. E claro, no caso dos shows, uns passaram a prestigiar o show dos outros, o que foi ótimo para todos. 

A mudar de assunto, um outro aluno exótico que eu tive nessa época de primeiro semestre de 1992, vou ficar a dever o seu nome (por esquecimento, eu sinto muito), contudo, é preciso registrar algo engraçado ao seu respeito. No caso desse garoto  causou-me espanto quando ele trouxe um cartaz de sua banda para colocar no mural, para anunciar o show que fariam em um Bar. O nome da banda mostrou-se como um conglomerado gigantesco de letras, em sua maioria, consoantes, que não faziam nenhum sentido, e era impronunciável. 

Ao indagar o rapaz sobre o que significava e como se pronunciava aquilo, a explicação foi prosaica, mas fez todo o sentido... tratava-se do ruído onomatopaico de uma escarrada ! Como estética e como marketing, era um lixo de nome, sob qualquer parâmetro comercial e imaginável, mas devo reconhecer que foi extremamente criativo, ao menos como uma peça satírica...

Continua... 

terça-feira, 12 de maio de 2015

Banalidade...Fatalidade... - Por Telma Jábali Barretto


Transitamos no dia a dia por uma infinidade de bobagens.


Muitas, às vezes, mereceriam olhar mais atento, cuidado que não resultasse num tipo de piloto automático menosprezando pequenos milagres que a vida nos presenteia.


E, em meio ao cotidiano, pontuado de algumas mesmices, normoses, às vezes somos igualmente assaltados por pequenas, médias...?!...grandes fatalidades!


Qual é nossa medida de assombro ?
Qual é nossa medida de normalidade...que tratamos como banalidade ou coisas da vida e que interpretamos como dramas ?


Num exercício recente de valorizar o aqui/agora, momento presente, temos também aprendido e apreendido  rever como lidamos com o cotidiano, olhando-o com mais carinho, respeito pelos pequenos gestos, corriqueiros hábitos que acabam, como num verdadeiro dominó em queda, produzindo diferente forma de enfrentar nossos problemas, minimizando ou maximizando seu impacto. 
Esse estado de presença, estar de nova forma diante da própria estória, com todas as implicações mais conscientes de cada escolha e, consequentemente, mais responsáveis pelos seus desdobramentos, vem produzindo mudança significativa na experiência humana.



Não seria muito do estresse que identificamos esse despertar para uma condição mais adulta ?

Não seria, da hoje denominada depressão, a necessidade de entender e, preferencialmente, assumir o porquê e o quê aqui viemos ?


Vivemos de tal forma em sociedade, atualmente numa avalanche de informação, comunicação, exposição que não nos sobra espaço para permanecer inertes, ilesos, indiferentes aos convites, e muitos são a nos alcançar, alavancar aonde quer que estejamos.

Algo de desconhecido ou mágico, sempre, sempre acontecendo, e, como toda novidade, mágica, assombra, intriga, convida, alerta, pondo em movimento muitas questões, energias trazendo um incomum fluxo para superfície, produzindo, no simples estar, outro significativo e re dimensionado viver.


E aí, novamente, perguntamos: que é banalidade ou fatalidade ?


De que forma andamos re agindo, inter ferindo, so matizando,

 co existindo, co operando...


E que seja mais um despertar, trazido no engatinhar necessário do individualizar, em sua singeleza, espanto e beleza únicos permeabilizando e solidarizando nosso conviver!!!


Na mas tê !


Telma Jábali Barretto é colunista fixa do Blog Luiz Domingues 2.

Engenheira civil, é também uma experiente astróloga; consultora para harmonização de ambientes e instrutora de Suddha Raja Yoga.

Nesta crônica inédita, nos alerta sobre a perda de tempo que empreendemos ao focar em banalidades, e a luta contra a famigerada "normose".
       

sexta-feira, 8 de maio de 2015

O menino americano, o circo e o galinho de Quintino - Por Marcelino Rodriguez

Minha fase naquele tempo que o circo chegou em Santíssimo não era boa, mas quando somos meninos, somos todos reis e a sorte muda de repente, como se um mago cósmico
ordenasse nossas vidas segundo seus sonhos. 

Por que a fase não era boa? Bem, eu estava apaixonado pela Laura, que era loura, linda e ousada. Já havia me beijado na boca, depois de me dar um bilhete provocativo. E agora me chegavam rumores que ela estava com o palhaço do circo. Você pode imaginar, leitor amável, como se sente um jovem de doze anos que perde a namorada para um palhaço ?
O caso, todavia, é que o circo persegue o destino de meninas e meninos, desde o tempo que os dinossauros andavam pela terra e não seria diferente comigo. A ideia de ir ao circo, apesar do palhaço, era grande. Nem sempre na vida, como hoje, amigos, eu andei em boa companhia. Eu tinha uma turminha meio do mal nessa época. A gente não fazia muito mal, apenas o necessário para lembrar nossa natureza decaída. Assim que um desses amigos da puberdade transviada topou ir comigo ao circo e claro, ambos por debaixo da lona, que isso era uma pilantragem básica. De uma certa forma, era o que o palhaço merecia da minha parte, que não lhe pagasse o ingresso.
         
Já no escuro, todos os gatos são pardos, e como meu outro amigo havia se perdido de mim, tratei de arrumar um bom lugar e fui para o alto, como se tivesse prevendo meu destino da noite. Achei um bom lugar e sentei, como um suposto pagante. Quis o destino que eu estivesse solitário nesse momento. Vou arriscar uma metáfora meio clichê, ao relembrar como eu me sentia naquela noite: "todos os circos são fabulosos." Claridade só se via lá embaixo, na terra de areia, onde o apresentador brincava com a plateia. 
 
"Quem torce pelo Flamengo?" - Dizia ele.
Aquela gritaria vinha como resposta.
"Quem torce pelo Vasco da Gama"
Nova, porém menor gritaria.
"Quem é tricolor do coração?"
Poucas vozes e alguns braços levantados.
"E o Botafogo, quem é Botafogo ai, gente?"
Poucos braços levantados.
"Quem torce pelo América? Quem é América?" 
Eu gritei e levantei os braços, ao mesmo tempo, sozinho. Ao menos, parecia que estava sozinho. Americano é como diamante, não se acha toda hora.

O locutor, que era generoso, ainda perguntou se havia torcedores do Bangu e Campo Grande, que eram clubes próximos do circo.

"Agora, eu vou oferecer um prêmio, essa bola aqui" -- disse, pegando da assistente uma dente de leite, que era comum e muito usada em nossas peladas.

"Quero saber qual é o nome verdadeiro do Zico". 
Lá de cima, eu que era um pequeno intelectual do futebol e sabia, lamentei ter ficado longe do palco.
Para mim, a pergunta era muito fácil. Eu lia os jornais, principalmente a parte esportiva, todos os dias.

Meu coração batia forte porque para minha surpresa, ninguém sabia. O apresentador perguntou uma,
duas, três vezes. Embora tímido e sem acreditar que ninguém soubesse responder, desci
as escadas e o circo todo parecia estar de olhos pregados em mim. 


Pisei o chão de terra
e as luzes me iluminaram.

-- Muito bem , garoto, como você chama?
-- Marcelino.

-- Seu time?
-- América.
-- Ah, muito bem, um americano. E você sabe o nome completo do Zico?
-- Sei, sim. Arthur Antunes Coimbra.
-- Parabéns, garoto, acertou. Ele sabe mesmo. Toma aqui sua bola, vai com Deus.
Peguei minha bola e naquele momento havia esquecido Laura, O Palhaço e a maneira pouco honrosa que tinha entrado no circo. Era apenas um menino de doze anos que tinha ganho uma bola. 

Novamente, era apenas um menino rei. 


Marcelino Rodriguez é colunista ocasional do Blog Luiz Domingues 2. Escritor de vasta e consagrada obra, aqui nos traz uma crônica de cunho futebolístico, uma de suas paixões, falando-nos sobre uma passagem de sua infância, onde foi abordado como raro torcedor do América FC do Rio de Janeiro, e o quanto a família Antunes Coimbra, tem uma história nesse clube, via Edu e Antunes, jogadores que marcaram época no alvi-rubro carioca, a despeito do irmão deles ter feito fama no clube rival, o Flamengo, um tal de Zico.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 254 - Por Luiz Domingues

Passado esse show em Aguaí-SP, estávamos novamente sem empresário, mas ao analisar friamente, e com todo o respeito à boa vontade da moça, estávamos na verdade, sem ninguém a apoiar-nos, mesmo com a sua presença no cargo. 

O próximo compromisso seria o último de 1985, e tratar-se-ia de um contato iniciado pelo Beto Cruz, que agregava mais essa qualidade à banda, ou seja, ele tinha iniciativa e contatos. Seria um show a ser realizado em uma casa noturna e a novidade, foi que o dono do estabelecimento teve a iniciativa em contratar-nos com o intuito de fazer uma experiência. 

Tratava-se de uma casa bem montada e localizada, mas acostumada a abrir as suas portas para apresentações de bandas cover.  Claro que tal intenção era salutar e nós apreciamos fazer parte desse balão de ensaio, e a torcer para atrair um público legal, e assim o dono tornar uma rotina a apresentação de bandas autorais.  

Tal estabelecimento chamava-se, "Café Brasil" e a localização era excelente, na Rua Santo Antonio, quase esquina com a Rua 13 de maio, o grande local de agito noturno no bairro do Bexiga, em São Paulo. Contudo, nessa experiência, não estaríamos sozinhos e portanto, o Beto teve a ideia em transformar o nosso show em uma espécie de festa de fim de ano, com certeza, ao ter alertado diversos colegas nossos para a oportunidade nova que a casa oferecia e ao mesmo tempo, ao tratar por vitaminar o interesse do público, com a presença de alguns convidados para lá de especiais. 

Nesses termos, fizemos o nosso show quase normal, pois cedemos um pouco do nosso espaço para mini-shows de grupos tais como o Centúrias, Harppia, e Golpe de Estado, o que foi muito positivo.

O Golpe de Estado, aliás, fêz um de seus primeiros shows como banda recém montada. Tinha poucas músicas compostas ainda e justiça seja feita, o Beto Cruz foi um elemento importante para que a banda fosse formada, pois indicara o guitarrista, Hélcio Aguirra, para Paulo Zinner e Nelson Brito, que há pouco tempo haviam retornado de Londres, onde moraram por alguns meses. E a dupla levou o cantor & compositor, Catalau para pilotar os vocais, pois eles o conheciam desde o início dos anos oitenta, quando formaram o "Fickle Pickle", ou melhor, deram continuidade ao trabalho, pois essa banda existia desde os anos setenta. 

Enfim, dera super certo a junção de um guitarrista egresso do Heavy-Metal (Harppia), com forte influência de Black Sabbath; UFO & Judas Priest, com uma cozinha ultra antenada em Rolling Stones; Deep Purple & The Who e um vocalista super influenciado em Alice Cooper e Mick Jagger.

A noitada foi excelente no Café Brasil e o dono animou-se. Daí em diante, esse rapaz agendou shows de bandas autorais, ao menos uma vez por semana, para tornar a sua casa, em um outro espaço promissor para o Rock autoral na cidade de São Paulo. E A Chave do Sol voltaria para tal casa no ano de 1986, por mais duas vezes, conforme eu comentarei no momento oportuno. Essa primeira oportunidade no Café Brasil ocorreu no dia 22 de dezembro de 1985, e oitenta pessoas assistiram o nosso show e os mini shows das bandas amigas, citadas acima.

Terminava o ano de 1985 e novamente estávamos cheios de esperança para o ano de 1986, e sobretudo, com a certeza de que as mudanças que estávamos a promover, colocar-nos-iam em condições para pleitear enfim, dias melhores para a banda.
Permito-me neste instante, fazer um balanço com poder de análise, e embasada pelo distanciamento histórico : Chegamos ao final de 1985, com mais uma mudança radical de planejamento gerencial e estético. 

Exatamente um ano antes, estávamos a fechar o ano de 1984, na mesma situação, sob um misto de euforia pelas perspectivas, com preocupação pelas mudanças que precisávamos empreender. Tínhamos uma carência vocal que achávamos crucial resolver para poder aspirar um lugar no patamar "mainstream", daí demos muita sorte em achar o Fran Alves, em um momento em que ele colocara-se em disponibilidade, e pouco tempo depois de termos perdido o vocalista gaúcho, Chico Dias.  

Os boatos que cercavam a proximidade do Festival Rock in Rio, davam conta de que uma nova onda de Rock chegaria, e nela, ao contrário da onda em voga e oriunda do Pós-Punk, nós teríamos uma chance. 

Não seria nada confortável para nós, mas foi menos invasivo e doloroso do que o Pós-Punk, esse sim, intragável para nós, por motivos óbvios. Contudo, o Festival Rock In Rio passou, e nenhum indício muito claro surgiu, ao dar a entender que as gravadoras "majors", abririam espaço para criar um elenco versado pelo Rock pesado, em seus quadros. Pelo contrário, na realidade, as gravadoras continuaram a sua toada em prol do Pop, com a estética do Pós-Punk a dar as cartas. 

Com isso, os nossos esforços em mudar o nosso trabalho, ao imprimir um peso extra, fracassaram e trouxe-nos alguns prejuízos. Não agradamos os nossos fãs nossos fãs mais antigos, que que apreciavam a usar a vestimenta do Jazz-Rock setentista. E esse mal-estar explodiu com maior truculência nas mãos do novo vocalista, Fran Alves.

Este por sua vez, foi um tremendo vocalista, e pagou o alto preço por essa incompreensão generalizada. Como saldo, ficou a necessidade de uma nova e radical mudança, e no bojo, perdemos Fran Alves, o que não foi parte do plano de novas mudanças que queríamos empreender. 

E novamente trocamos de vocalista e roupagem estética, ao repetirmos o padrão da mesma época do ano, em 1984. Claro, assim como estávamos esperançosos ao final de 1984, com as providências que estávamos a adotar, chegávamos ao final de 1985, na mesma situação, o que provou-se sintomático. 

Ao verificar hoje em dia (2015), está claro que faltou-nos um direcionamento orientado por alguém que realmente conhecesse o mercado. Empreender tantas trocas de membros e orientação artística da banda, só prejudicou-nos em todos os sentidos. Como consolo, fico com a consciência tranquila de que fizemos o que achamos melhor na época. Faltou-nos apoio de algum consultor realmente com visão, e não posso penitenciar-me isoladamente por tal falta. Para analisar friamente, talvez jamais tivéssemos que correr tanto atrás de um vocalista. 

Pense bem, leitor, que cantor do movimento "BR-Rock" oitentista, era realmente um grande cantor ?
Nós sonhávamos com um "frontman" dotado de um nível internacional, baseado em nossas percepções sessenta / setentistas, mas duas perguntas ocorrem-me hoje em dia : 1) Para quê ? e; 
2) Onde achá-los ?

O "para que" é emblemático por si só, pois sendo práticos, o vocal do Rubens teria sido suficiente para suprir quaisquer necessidades "Pop" de mercado. O próprio, Zé Luiz Dinola tinha potencial vocal, e nós três fazíamos back (ainda que em meu caso, eu reconheço que só fui melhorar depois da minha atuação com o grupo, Sidharta, em 1997, e aprimorar ao vivo com a Patrulha do Espaço, a partir de 1999). Isso é uma análise fria e calculista. 

Que fique bem claro que não estou a lamentar inoportunamente. E jamais pense o leitor que eu lamente a presença de Fran Alves na formação anterior da banda, pois ele foi importante demais para a história do nosso grupo e certamente deixou a sua respectiva marca, de forma indelével. Até a tentativa com Chico Dias, foi válida e no início da narrativa, eu deixei claro que lamentei que Verônica Luhr não tivesse prosseguido como vocalista de banda, pois o seu potencial era o de uma estrela, e desde que houvesse condições, com produção e apoio, ela teria suplantado em milhas, vocalistas femininas muito inferiores a ela, e que tornaram-se estrelas do BR-Rock oitentista. 

Por conseguinte, a entrada de Beto Cruz, também jamais poderá ser questionada, tanto pela tentativa em si em prol da mudança de estratégia da banda, quanto pelas qualidades artísticas dele, pessoalmente, e o quanto agregou como vocalista; "frontman"; compositor, e sobretudo pela força de trabalho que ele trouxe para a banda. 

Para encerrar, chama-me a atenção que em um espaço com apenas um ano de distância, estivéssemos a repetir o mesmo padrão em torno de expectativas e de providências práticas. Assim encerrou-se 1985...

Todas as fotos ao vivo, mostrados neste capítulo, são do show de Aguaí-SP. Clicks de Rodolpho Tedeschi ("Barba")

Continua... 

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 253 - Por Luiz Domingues


Esse show no Festival "1º ERA", na cidade de Aguaí, ocorreu no dia 19 de dezembro de 1985 e cabe aqui, a transcrição da matéria que saiu publicada no "Jornal de Aguaí" :

"Um Muro de Decibéis

'A ideia de um encontro de Rock como esse é excelente porque abre espaços, principalmente para o interior, que sempre foi muito criativo'. A opinião é de Rubinho, guitarrista do grupo Chave do Sol, que tocará no encerramento da primeira eliminatória do ERA, no dia 19 de dezembro. Formada em outubro de 1982, a banda apresenta uma interessante fusão, juntando alguma música de Jazz-Rock com um pesado som de Heavy-Metal. O público, por sinal, costuma referir-se com frequência ao "Jazz-Metal Rock da Chave do Sol" e exemplos claros dessa linha podem ser encontrados nas seis faixas do disco que gravaram pela produtora Baratos Afins.

Nesse disco estão presentes o tempo todo, os ritmos inusitados e as viradas do criativo baterista Zé Luiz, as frases e desenhos criados pelo baixista, Luiz Domingues, que não se limita à marcação de compassos e duela constantemente com os solos melodiosos de Rubinho na guitarra, que aliás, já tem condições de brigar por um espaço entre os melhores guitarristas do Rock brasileiro. Os vocais que no disco eram de Fran, agora estão por conta de Roberto, um músico muito experiente, com passagens em várias bandas, e que está com a Chave, há cerca de três meses.

Extremamente profissional, o grupo já fez mais de 100 shows pelo interior do Estado de São Paulo e Rio de Janeiro e completou mais de 20 aparições na TV. Para a apresentação o 1º ERA, Rubinho promete o lançamento de duas músicas inéditas, compostas nos últimos 15 dias. Rubinho aproveita a oportunidade para 'louvar os organizadores do encontro pela iniciativa e desejar que ele se repita sempre com muito sucesso'. E emenda seu recado : 'Com relação à Chave do Sol, os que comparecerem vão ter uma grande surpresa, tanto os que conhecem, como os que não conhecem nosso trabalho. Não vamos deixar pedra sobre pedra".


Bem, a jornalista, Célia Coltro, usou frases de efeito colhidas durante sua entrevista telefônica, e mesclou-as à informações contidas no release da banda, isso ficou nítido. Positivo ter dado essa ênfase, sem contar a foto promocional publicada, já da mais recente sessão de fotos, a contar com o Beto Cruz, na formação.

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quarta-feira, 6 de maio de 2015

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 252 - Por Luiz Domingues



Mesmo chateados com essa ocorrência totalmente imprevisível e desagradável, tocamos com o foco habitual em dar o nosso melhor ao vivo. A minha lembrança aponta para um show energético, com um número interessante de fãs da banda, que vieram inclusive das cidades vizinhas, e que costumavam acompanhar-nos desde as nossas aparições no programa "A Fábrica do Som", entre 1983 e 1984. 

Claro, nem todo mundo que estava ali presente conhecia-nos, pois ao contrário da expectativa criada por nós termos sido colocados como banda "headliner", e com o mesmo status do "Ira", ficara óbvio que não tínhamos a mesma fama que dessa banda, que gozava das benesses de habitar no mainstream, via gravadora major. 
Portanto, claro que a despeito de termos fãs do nosso trabalho, ali, não foi todo mundo que conhecia-nos, e não vou mentir, claro que não houve uma "comoção" pela nossa presença no festival.

Um outro ponto, nessa apresentação, nós tocamos duas músicas novas que já faziam parte da nova safra que estávamos a produzir, e evidentemente coadunadas com os nossos esforços em levarmos a banda para a intenção Pop, dentro do possível, e a extrair com veemência o ranço Heavy-Metal que permeou o EP. Porém, as mudanças eram ainda mais profundas e posso afirmar, estávamos imbuídos em também coibir as firulas típicas da estética do Jazz-Rock, e as letras mais sofisticadas. Enfim, nesse festival, tocamos "O Que Será de Todas as Crianças" (?) e "Saudade". 
No caso da música, "Saudade", aí sim, a aposta no Pop radiofônico, foi emblemática, pois a música detinha uma estrutura muito simples e o arranjo fora elaborado para ser acintosamente Pop, com uma linha de baixo e bateria até inusitada para a história da banda até então, isto é, a conter a extrema simplicidade. Em meu caso, chegava a ser engraçado tocar a música em uma única nota, sem um desenho sequer, por mais simples que fosse. Aquilo para mim e para o Zé Luiz fora quase um "haraquiri". 
Todavia, estávamos convictos nessas mudanças, a visar um bem maior e com resignação, incluímos a música no set list. Para ser sincero, eu não a achava ruim, e até hoje em dia, não a considero dessa forma, mas em comparação ao trabalho que fazíamos anteriormente, foi um baque contar com uma peça tão simplória no set list. 



De volta ao show, a lembrança boa também foi a do Beto ao confraternizar-se com os membros de sua ex-banda, o "Zenith", nos bastidores do festival. Encerrado o nosso show, ainda ninguém sabia do paradeiro de nossa empresária, desaparecida desde o momento em que chegamos no local do festival.
Então, alguém veio revelar-nos que ela fora vista a evadir-se do local, na companhia de alguém da produção local. A história não para por aí, e eu adoraria contá-la com detalhes, por ser engraçada de certa forma, mas não vou comprometer ninguém e dessa forma, digamos que ela teve suas razões para não acompanhar o processo todo do show e pelo que soubemos, fora bem aproveitada a sua estada em Aguaí / SP. De volta à São Paulo, resolvemos por bem terminar a experiência dela como nossa empresária e tantos anos depois, nem cabe lamentos sobre a sua meteórica e pífia atuação na função. Tomara que tenha sido feliz dali em diante, nos empreendimentos em que envolveu-se, doravante.

Todas as fotos desse show são clicks do Rodolfo Tedeschi, o popular, "Barba".

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terça-feira, 5 de maio de 2015

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 251 - Por Luiz Domingues


O festival em questão, chamava-se "ERA", e tratava-se de sua primeira edição. No soundcheck, foi tudo muito tranquilo e amistoso, conosco e com o suporte que o técnico Canrobert Marques teve para trabalhar e sempre tende a ser tensa a relação dos técnicos de equipamentos com o técnico da banda, fora a velada (às vezes, explícita), "disputa" para ver quem "entende mais", gerada por ciúmes descabidos, mas típicas desse meio. Um fato curioso deu-se quando notamos que a nossa empresária sumira de nossa vista. Ao sermos procurados pelos organizadores do festival para tratar de alguma questão burocrática de última hora, é que demos falta da presença dela, que teoricamente deveria cuidar de tais atribuições. Bem, esse sumiço teria desdobramentos.
Eliane Daic, namorada do Zé Luiz à época, a descansar dentro do famoso Dodge Charger RT, de propriedade de nosso baterista e que transportou-nos à Aguaí / SP. Click : Rodolpho Tedeschi

Encerrado o soundcheck, fomos conduzidos à Kombi da produção e uma pessoa dessa equipe, levou-nos para jantar em um bom restaurante da cidade. Procuramos pela nossa empresária, mas ela simplesmente sumira. Resolvemos ir jantar sem a sua presença, nessa circunstância enigmática de sua falta.

Beto Cruz a aguardar o momento para o soundcheck, na tarde quente interiorana. Click de Rodolpho Tedeschi

Estávamos muito satisfeitos com o tratamento e atenção dos organizadores, e pareceu que seria um show tranquilo e bem sucedido. E o foi (a não ser por dois eventos que não foram causados por culpa deles, mas quase estragam a noite). O primeiro, ocorreu no restaurante, pois quando chegamos ao estabelecimento, nem lembrávamos que a nossa aparência Rocker ainda poderia causar reações em meio à pessoas desacostumadas a conviver com pessoas, digamos, "fora do padrão". Após tantos anos, foi inacreditável que essas coisas pudessem acontecer ainda, mas em uma cidade interiorana, na metade dos anos 1980, ainda aconteceu. 

Eu, Luiz Domingues, e Edgard Pucinelli Filho, a aguardar o soundcheck e atrás de nós, o velho Dodge do Dinola. Click de Rodolpho Tedeschi

Enfim, quando entramos no restaurante, as conversas pararam em todas as mesas do estabelecimento e a atenção caiu sobre nós, como se fôssemos alienígenas que haviam acabado de aterrissar em uma pequena cidade do meio-oeste norteamericano, conforme um típico enredo de filme orientado pelo gênero Sci-Fi da década de cinquenta. Claro que foi constrangedor, mas em questão de segundos já estávamos sentados na mesa e preocupados em analisar o cardápio e formular os nossos pedidos.

O nosso técnico de som, Canrobert Marques, com microfone à mão, a iniciar os primeiros testes de áudio na afinação do PA; atrás dele, Rubens Gióia e eu, Luiz Domingues, estou no nível do solo. Click : Rodolpho Tedeschi

Esse não foi o problema, contudo. O que ocorreu, foi que tal evento incomodou um membro da nossa comitiva e após a ingestão de bebida alcoólica, tal membro mudou completamente o seu comportamento e passou a cometer uma performance tresloucada para chamar a atenção geral, e assim, a demonstrar o seu desagrado pela recepção quase hostil que havíamos recebido em nossa chegada ao local. Ao tornar-se inconveniente, ele passou a exagerar muito, ao ponto de alguns clientes reclamar com o gerente do restaurante.

Como registro histórico dessa passagem em Aguaí, eis a banda e equipe, a posar no campo, no pequeno estádio de futebol local, em formação de time, Beto Cruz; Rubens Gióia e José Luiz Dinola em pé. Agachados : Edgard; eu, Luiz Domingues, e Canrobert Marques. Click : Rodolpho Tedeschi

Aí, inverteram-se os papéis, pois a situação em tom de provocação pela qual havíamos passado, passou a ser justificável, pois os "freaks" (e possivelmente "drogados", sabemos como é o imaginário popular), estavam a incomodar, agora e de fato. Bem, na prática, tratou-se apenas de uma pessoa alterada em nossa mesa e internamente, falamos-lhe para que ele parasse com aquele comportamento que estava a envergonhar-nos, todavia, ficamos no fogo cruzado, pois quanto mais o advertíamos, mais ele irritava-se, justamente por estar fora de consciência, devido à bebida ingerida. Bem, alguns produtores do show intervieram, ao tentar convencer o dono do restaurante de que tratara-se de uma manifestação isolada e não representava o comportamento da banda, tampouco o festival, mas o clima já estava azedado e só restou-nos encerrar o jantar e sair dali o quanto antes. Não revelarei quem foi o protagonista dessa ação inconveniente, mas isento a banda. Nenhum de nós quatro, músicos, foi tal pessoa a cometer tal excesso.

De volta do restaurante, ao local do show, um fato totalmente inesperado deixou-nos atordoados, e por pouco não tornou-se um tumulto generalizado, a estragar não apenas o nosso show, mas o próprio festival. De uma forma inusitada, ouvimos o nosso fotógrafo, Rodolpho Tedeschi, o popular, "Barba", indignado, a gritar pela presença da polícia. Quando fomos entender o que havia acontecido, no meio daquela confusão em meio à multidão e com uma banda a tocar a todo vapor no palco, com o som do P.A., muito alto, finalmente o "Barba" revelou-nos que estava a caminhar tranquilamente, quando um grupo de rapazes perguntou-lhe agressivamente, por quê ele não cortava a sua barba. Atônito com tal abordagem gratuita e despropositada, Rodolpho retrucou ao perguntar-lhes se a sua barba incomodava-os e aí, sob truculência, esses vândalos arrancaram um chumaço de sua barba, e uma troca de socos, sucedeu-se. 


Foi tão inusitado e tão rápido, que só percebemos quando ele berrava e os rapazes já haviam sumido em meio à multidão. Bem, revelou-se como uma provocação gratuita, com o intuito claro de provocação e a nossa reação de imediato foi ajudá-lo, talvez a localizar os vagabundos que o atacou, mas naquela balbúrdia, foi impossível. Fora a indignação pessoal e o desconforto físico em ter um pedaço de barba arrancada dessa forma agressiva, ficou por isso mesmo, pois ele não quis ser socorrido e de fato, não foi o caso de procurar pronto-socorro. Tampouco ele quis prestar queixa na polícia, pois sabia que os policiais dariam de ombros etc. Fato extremamente desagradável, pois de certa forma estragou a nossa noite, por que ficamos abalados com esse baixo astral gratuito com um membro de nossa comitiva.

Uma foto descontraída ao entardecer, após a realização do soundcheck. Na parte mais alta da árvore, Beto Cruz; abaixo, Rubens Gióia. Abaixo, José Luiz Dinola e Canrobert Marques e agachados, Edgard Pucinelli Filho e Luiz Domingues. Click : Rodolpho Tedeschi.


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