Aconteceu no tempo da minha "Sala de Aulas", por volta de 1989
Desde quando eu comecei a ministrar aulas, no mês
de julho de 1987, como uma atividade paralela aos meus esforços em prol da carreira
musical, houve um panorama padrão em minha clientela, ou seja, a imensa maioria
que procurava-me como “professor”, nutria admiração pela minha trajetória na
música, notadamente, com "A Chave do Sol", banda pela qual atuei na
década de oitenta e que arregimentara muitos fãs.
Por isso, houve quase sempre o componente da admiração pessoal em cada
um que me abordava e em alguns casos, certos alunos nem tinham tanta vontade
para aprender a tocar baixo elétrico, mas queriam mesmo a aproximação e chance
para conversar, forjar amizade, talvez até conhecer outras pessoas do meio, por
meu intermédio. Mas claro, essas foram exceções, pois a maioria nutrira os seus
sonhos pessoais e queria estudar com o objetivo de construir carreira, avançar
com uma banda (e muitos já as mantinham, naturalmente).
Em meio a tal panorama, dali do início de minha atividade como professor,
até 1989, acostumei-me com o fato de que a maioria esmagadora, e posso dizer,
total, foi formada por pessoas que me admiravam e consequentemente,
respeitavam-me muito, fora o tratamento cortês da parte de todos.
Dentro dessa prerrogativa, eu fui surpreendido em determinado dia, mais ou
menos entre março e abril de 1989, não me recordo ao certo, quando recebi um
novo aluno em minha sala de aulas. No contato telefônico prévio, não notei nada
de anormal na abordagem do rapaz. Combinamos dia e horário e nesse contato prévio, o
sujeito manifestou-se com educação.
Entretanto, no dia da primeira aula eu já notei algo estranho assim que atendi a porta
de meu apartamento, local onde eu mantinha a minha sala de aulas, naquela
ocasião. Com atitude altiva e inexplicável ao considerar-se que fora o primeiro
contato pessoal que mantivemos, foi com essa soberba quase indisfarçável que esse
rapaz adentrou a minha residência. Bem, relevei, logicamente, afinal de contas
poderia ter sido apenas uma interpretação equivocada da minha parte.
Uma vez instalados na sala de aulas, eu estabeleci o meu padrão no
primeiro contato, que foi no sentido de conversar com o novo aluno e saber qual
seria a experiência dele ao instrumento naquele momento e assim pedir para que
ele tocasse livremente para eu fazer uma avaliação de seu estágio e só a
dispensar esse procedimento aos que declaravam na entrevista preliminar, que
estavam na estaca zero do aprendizado.
Com esse rapaz, a sua postura que eu achara altiva por ocasião de sua
chegada, piorou, na medida em que notei que assim que lhe passei o instrumento,
a minha suspeita confirmou-se por completo, pois ele fez um verdadeiro mise-en-scène
para empunhar o baixo, não sem antes arrumar a sua longa cabeleira e
posteriormente a exercer uma gesticulação grandiloquente, como se estivesse no
palco de um grande festival internacional, com cem mil pessoas a gritarem pelo
seu nome, em sinal de idolatria.
A seguir, o rapaz passou a executar solos bastante exagerados, ao
demonstrar ser adepto daquela corrente virtuosística do Hard-Rock, quase no
limiar do Heavy-Metal, bem em voga naquele momento do final de década de
oitenta.
O sujeito fez determinadas escalas com uma rapidez estonteante, usou o
recurso da técnica do “Two Hands”, também bastante típico para quem era
entusiasta dessa estética e ficava a mirar-me com ar de soberba, como se
esperasse que eu me mostrasse incomodado diante de sua técnica avançada e
certamente a esperar que eu aceitasse a provocação para entrar em uma espécie
de disputa, a caracterizar-se como um verdadeiro duelo, ali no ambiente da
minha humilde sala de aulas.
Ao terminar a sua exibição, antes mesmo que eu pudesse falar alguma
coisa, ele devolveu-me o instrumento e enfaticamente disse-me:
-“agora é a sua vez de
mostrar-lhe a sua técnica”...
Bingo! Desvelou-se ali a verdadeira intenção do rapaz, pois ele não me procurara
com a intenção de estudar comigo, mas o seu objetivo fora desafiar-me.
Não contente, ele foi ainda mais deselegante ao dizer com claro sinal de
deboche, que “gostaria de ver o grande baixista d'A Chave do Sol apresentar
algo novo que ele já não soubesse”.
O sujeito tocava muito bem, detinha uma grande técnica, não nego, mas eu
não estava nem um pouco preocupado em estudar alucinadamente para ser
reconhecido como um grande instrumentista, quiçá o melhor, justamente por que a
minha escola na música não era a mesma que ele apreciava.
Como fã das estéticas dos anos 1960 & 1970, eu entrei na música com
outros propósitos, ao estar comprometido pelos aspectos inerentes em termos
culturais e comportamentais e não pela técnica, fanatismo pelo instrumento e
obsessão pessoal em usar tais prerrogativas com mentalidade competitiva, como
se fosse um esporte com adversários a serem sobrepujados.
Portanto, apenas limitei-me a dizer-lhe que visto que eu o avaliara com
grande técnica e embasamento teórico similar a tal patamar, o meu método,
técnica pessoal e nível teórico se mostrava nitidamente inferior e assim,
acostumado a lidar com alunos com pouco ou nenhum conhecimento musical, eu não
teria nada a acrescentar para ele.
Recomendei-lhe a seguir, que ele procurasse um professor com maior nível
do que o meu, se quisesse crescer ainda mais ao instrumento.
Ele ficou visivelmente desapontado, pois o que desejara mesmo, fora
duelar e “vencer-me”, talvez por ter alimentado algum tipo de raiva recôndita e
sedimentada por considerar-se “injustiçado” por se sentir muito melhor do que
eu em qualquer parâmetro musical, e talvez potencializado pelo fato de eu ter
ficado naquele instante, mais famoso do que ele. Enfim, foi da parte dele uma
atitude lastimável, se analisada por qualquer ponto de vista.
Como eu jamais interessei-me pelo mundo do Heavy-Metal, nunca soube se
esse rapaz ascendeu em sua carreira a tocar em uma banda, gravar, quiçá ter
partido para o exterior e doravante a se consagrar em sua carreira etc. Torço para que sim,
não tenho nenhum motivo para desejar-lhe mal, apesar da desfeita subliminar que
me aprontou.
E a minha vida como professor prosseguiu naquele instante de 1989, pois eu
alonguei por mais dez anos tal atividade ao atingir um auge com essa atividade,
de onde tenho muitas lembranças boas e orgulho dos meninos que ajudei com um modesto
impulso inicial de minha parte e fato esse ocorrido bem depois, já no avançar
dos anos noventa, conforme deixei claro no relato do meu livro autobiográfico.
E sobre esse prosseguimento da minha atividade como professor, após o
episódio com esse aluno desafiador e pleno de soberba, ocorrido em 1989, eu nunca
mais tive uma ocorrência semelhante, ainda bem.