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quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Ao Telefone - Por Marcelino Rodriguez

— Alô, querida? Como foi seu dia?
— Ah, o de sempre. Muito trabalho, minha chefe buzinando no meu ouvido, só porque não tem com quem falar. Aí eu pago o pato; ela precisa de um ouvido.
 

— Você viu o negócio do passaporte?
— Vi. Tá quase arranjando. Mas porque você não quer me dizer porque você não resolve isso pessoalmente? Que coisa...

— Querida, vai depender das minhas condições diplomáticas...
— Que condição é essa, você sabe que eu sou curiosa; fica jogando
coisas no ar, não fala; pô, isso é covardia...
 

— Mas, querida, como vou falar o que não posso falar?
— Então não fala droga; você fica me passando mensagens cifradas.
— Mas tem que ser cifrada, entende?
— Não, eu sei que você tá me escondendo alguma coisa?
— Meu anjo, você sabe que sou um cara político, não sabe?
— Sim, e daí?
— Sabe aquela coisa da presidência? É coisa séria... Se a companhia me liberar o documento, eu sou sério candidato. Vai Ter gente contra e a favor; pode até ser declarada uma guerra civil com a minha candidatura, não sabe ?

  Tá, mas dá pra dizer que companhia é essa?
— Não, aí é que tá; não dá pra dizer, pois o documento não foi liberado ainda.
— Pô, como é que você quer que eu entenda? Pensa que sou imbecil; eu sei que você está metido com alguma coisa de máfia; eu não gosto disso...
 

— Por que? Os mafiosos não merecem amor, não?
— Não o meu... (a voz dela estava repleta de ternura)
— Você não entende? Eu não posso contar agora, só isso!
 

— Olha, eu estou a doze horas fora de casa, você não acha que é um pouco demais para mim? Você fica aí cheio de mistério, me deixa preocupada. Acho que é melhor a gente falar amanhã.
 — Querida, você tem que entender que eu não sou qualquer um; nasci para fazer história, mudar o país, o mundo; tem gente que gosta e gente que não gosta; é política, é conspiração; acordos, diplomacia faz parte...
— Você não confia em mim? Olha, é melhor a gente falar amanhã...
— Escuta, amanhã você pode massagear minhas costas? Tou muito estressado...
— Amanha a gente fala. Beijos.
 

Desligaram.
 

Ela foi ligar para a amiga, para contar o que conversara com ele. Ele, esfregando as mãos, foi ver O Poderoso Chefão pela centésima vez.

Publicado em Café Brasil


Marcelino Rodriguez é colunista esporádico do Blog Luiz Domingues 2. Escritor de vasta e consagrada obra, aqui nos apresenta uma crônica leve, extraída de seu livro "Café Brasil".

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Até Anjo Apanha no País - Por Marcelino Rodriguez


No atual estágio da civilização brasileira, até anjo apanha.

Arcanjos também não escapam. Escrevi um poema de inspiração delicada, com versos falando de vitória e esperança para o Arcanjo Miguel.

Pus na imagem mais conhecida pela Tradição que é aquela onde ele aparece subjugando o dragão e pensei comigo que agora o reconhecimento viria e com ele o Nobel.

As meninas do Leblon agora iriam olhar para mim.
Entreguei a um jovem que assim como eu, gosta de cachorros. O via como um aliado certo.
 

Ele pegou o santinho e começou a ler com olhos enigmáticos.
-- Desculpe, mas não posso aceitar.
-- Por que?
-- Sou ateu.
-- E o que tem isso? Estou apenas te dando um presente, aceita.
(Dentro de mim, mais uma chaga na lepra da rejeição.)
 

Mas eu não desisto. Logo meu coração de "Papaléguas" já passava para uma amiga crente, missionária.
 

Ela leu o escrito, também circunspecta.
--- Bonito, amigo. Mas nós não podemos adorar imagem.
--- Como assim, não estou adorando imagem. Pus nessa figura porque é a que conhecemos tradicionalmente e ai comecei a defender os pintores sacros, discursei por quase três horas sobre a tolerância, quase fiquei indignado e aí a amiga talvez penalizada de mim acabou comprando uma pizza, que dividimos.
 

Numa terceira senhora, essa católica, tentei seduzi-la dizendo que
tinha um presente e mostrei o Anjo, orgulhoso.

Pensava comigo que seria salvo pelos fiéis do Vaticano.
 

Ela olhou para mim:
-- Isso é presente? Pensei que ia ganhar uma toalha de banho.
Desabei. Não havia salvação possível. 


Adeus, Nobel ! Adeus,Vaticano.
 

Adeus, meninas do Leblon!
 

No dia seguinte, deprimido e com ansias, peguei o que havia de
restante na caixa do poema do Anjo e atirei no Rio Paraiba do Sul.
Nesse país, até anjo apanha da falta de educação.
Até quando permitiremos ?



Marcelino Rodriguez é colunista sazonal do Blog Luiz Domingues 2. É um escritor consagrado e de extensa obra publicada. Nesta crônica, extraída de seu livro "Café Brasil", mais uma vez expressa a sua indignação pela total falta de estrutura educacional e cultural nesta terra tupiniquim.