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quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Autobiografia na Música - Boca do Céu - Capítulo 41 - Por Luiz Domingues


Eis abaixo a lista do repertório criado pela banda, entre 1976 e 1977, fase inicial do Boca do Céu e também a englobar a segunda fase de sua trajetória, entre 1978 e 1979, com a troca de nome de Boca do Céu para Bouréebach entre 1978 e 1979.

Boca do Céu / Bourréebach

Repertório Criado 1976 - 1979

1) Centro de Loucos (Osvaldo - Laert)
2) O K e o H  (Laert)
3) Me Chamo Vampiro (Luiz - Osvaldo - Laert)
4) O Mundo de Hoje (Luiz - Osvaldo - Laert)
5) Diva (Laert)
6) Tudo Band (Laert)
7) Assim Como (Laert)
8) Serena (Osvaldo - Laert)
9) E o que Resta é a Canção (Osvaldo - Maciel)
10) Consenso Geral ( Laert)
11) Astrais Altíssimos (Laert)
12) Revirada ( Wilton - Laert)
13) Ah ! Já Saco (Laert)
14) Tango x Tanga (Laert)
15) 1967 (Laert - Wilton - Luiz)
16) 1969 (Laert)
17) Desprogramação (Laert)
18) Momento (Laert - Fran)
19) Oh Yeah (Laert)
20) Mente (Laert - Luiz - Wilton)
21) Ah, se Você Soubesse (Laert)
22) Blues Encanto (Laert)
23) O Mesmo Sol (Laert)
24) Fugi de Casa (Osvaldo - Laert - Luiz)
25) Arco (Wilton)
26) Sabiá Cantou (Wilton)
27) Na Minha Boca (Laert)
28) Renascença (Wilton)
29) Ciclo Normal (Laert)
30) Tô (Laert)
31) Er'a Jato (Laert)
32) Choro Substar (Laert)
33) Prelude para une violão (Wilton)
34) Choro para Jacob (Wilton)
35) Eu Vou Encontrar (Laert)

Fica a ressalva que nem todas as músicas compostas chegaram a ficar inteiramente arranjadas. Algumas permaneceram apenas no esboço inicial. Outra observação sobre o repertório criado pelo Boca do Céu e posteriormente pelo Bourréebach, é que além do material gravado em fitas demo caseiras, ter sido inteiramente perdido (infelizmente !), apenas duas das canções compostas foram usadas posteriormente em outro trabalho feito pelos ex membros. Trata-se de "Na Minha Boca" e "Instante de Ser", ambas compostas pelo Laert e que entraram para o repertório do Língua de Trapo. Inclusive, sobre tais canções, eu e Laert as executamos ao vivo muitas vezes durante a turnê "Sem Indiretas", de 1983-1984, dessa banda de sátira e humor.



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quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Autobiografia na Música - Boca do Céu - Capítulo 40 - Por Luiz Domingues

Desclassificados, mas animados com a oportunidade em participarmos de um festival de maior porte, aguardávamos então com muita expectativa a exibição das eliminatórias do FICO, na TV Bandeirantes. Isso aconteceu duas semanas depois. De fato, foi a primeira vez em que aparecemos na TV. Primeira e última, é bem verdade, pois o Boca do Céu nunca teve grandes oportunidades, e posso afirmar sem pudor algum e / ou demérito aos colegas dessa jornada, que foi melhor assim, porque a banda era realmente muito iniciante.
Após essas participações no Fico, ainda ficaríamos um bom tempo a procurar novas oportunidades em festivais, e shows de pequeno porte em apresentações colegiais. Mas o ano estava por acabar, e a perspectiva seria mesmo para o ano de 1978. Claro que estávamos a evoluir musicalmente, mas como não éramos punks, a nossa mentalidade era centrada em tocar um milhão de vezes mais do que tocávamos em nossa realidade, ali naquele instante. Talvez se tivéssemos empolgado-nos com a "revolução pusilânime", seríamos mais felizes, a usarmos a nossa ruindade musical como trunfo... mas calma ! Estou só a brincar... cartesianamente, ainda acho que luxo é luxo e lixo é lixo. Não compactuo com aquela inversão de valores, superestimada...
Vimos então a nossa exibição pela TV, e mesmo inebriados pelo glamour em vermo-nos na tela, tivemos o senso crítico para analisar nossos erros. Em "Diva", estávamos visivelmente nervosos com a reação selvagem da plateia, e em "O Mundo de Hoje", o som da mixagem da TV estava muito ruim. Além do mais, a música não era mesmo adequada para um festival.
Mesmo animados, enfrentamos problemas nos dois últimos meses de 1977. O Wilton Rentero passava por uma fase difícil por sofrer pressões familiares e teve que arrumar um emprego convencional, onde inevitavelmente, precisou aparar o cabelo etc e tal. Osvaldo Vicino estava por começar a afastar-se sutilmente, ao denotar interessar-se em motivações extra / Rock, que só perceberíamos claramente no ano de 1978, e o Fran Sérpico, que era mesmo o menos interessado desde o começo, também preferia desmarcar ensaios, entretido em seus estudos ou em prol de compromissos sociais. Em suma, paradoxalmente à animação Pós-FICO, tínhamos uma perspectiva estranha a pairar no ar...

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quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Autobiografia na Música - Boca do Céu - Capítulo 39 - Por Luiz Domingues


Não víamos os jurados. Eles ficavam em uma bancada, bem longe da balburdia, e analisavam os concorrentes pelos monitores da TV Bandeirantes, que estava a gravar a eliminatória do Festival. Acredito que até dessem-se ao luxo de assistir o replay, disponibilizado pelos técnicos da TV. Não lembro-me de nunca mais ter tido receio em subir ao palco depois disso. E a rigor, fora somente meu quinto show na vida... 

Bem, a sensação que tive, foi um misto de preocupação pela responsabilidade pela apresentação, com alegria em estar sob uma situação de grande porte, ao menos na minha percepção daquela época. Havia uma boa dose de receio pela hostilidade inevitável daquela horda formada por vândalos imberbes, também. Mas sinceramente, a sensação em estar sobre um palco grande, alimentado por um sistema profissional de P.A. e luz; equipamentos de bom nível e cinco mil pessoas a olhar-te, fora as câmeras de TV, foi de uma grande realização pessoal. O Laert usou um piano elétrico, Fender Rhodes 88; o Fran tocou em uma bateria, Ludwig perolada, igual à do Ian Paice; e eu; Osvaldo, e Wilton, usamos amplificadores, Duo Vox. Foi muita coisa para uma banda formada por garotos inexperientes e com pouco técnica, com exceção do Wilton que estava alguns passos adiante de nós na musicalidade, e do Laert que era tão inexperiente quanto qualquer um de nós, mas tinha a genialidade nata a seu favor. 
E chegou a segunda eliminatória. Iríamos defender nessa segunda participação, a música "O Mundo de Hoje". Tratava-se de um blues, e curiosamente fora uma ideia dos primórdios da banda, anterior à entrada do Laert, portanto de uma época em que só o Osvaldo Vicino sabia tocar alguma coisa. É bem verdade que o Laert deu uma melhorada na letra, e também na melodia original, para ficar então com crédito como autor, também. Estávamos bem confiantes e de certa forma vacinados contra a selvageria juvenil dos vândalos do FICO. Na segunda eliminatória, defenderíamos uma música um pouco mais adequada à execução perante um grande e bem ruidoso público, naturalmente. Mas não foi o ideal, igualmente, pois tratava-se de um blues tradicional com estrutura harmônica convencional, e sem nenhum grande atrativo, mais impactante. "Revirada", nossa música mais forte, nem classificara-se.Talvez tenha sido desaprovada pelos jurados na filtragem geral, pelo teor da sua letra. Sendo o Fico um festival com maior envergadura, e transmitido pela TV, não convinha deixar alguém expressar-se mais contundentemente, em um momento político muito difícil. Nunca é demais lembrar que naquela época a repressão da ditadura atacara violentamente os estudantes, em uma invasão ao campus da PUC de São Paulo. Tocamos e não fomos mal. Sem ter que tocar piano, Laert movimentou-se mais como vocalista e frontman, mas a música não ajudava, no sentido de ser um blues. Não classificamo-nos, novamente, mas ficou a sensação do dever cumprido, e a animação por sentir que a banda crescia. Agora, tínhamos a expectativa em ver a filmagem passar na TV. Seria a primeira vez que estaria a aparecer na TV, a tocar, e claro que foi um marco. Naquela noite, o show de um artista consagrado para entreter naquela segunda eliminatória, foi duplo. O trio vocal brega, "Harmony Cats" (formado por Gretchen; Sula Miranda e uma outra irmã das duas cantoras citadas), e a seguir : "As Frenéticas", que estavam a explodir na mídia mainstream, naquele momento.
A banda das Frenéticas, continha alguns componentes d’O Peso, uma banda setentista do Rock brasileiro, muito boa, o que conferiu ao show, elementos rockers na execução, para atenuar a "Disco Music", delas. 



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domingo, 6 de janeiro de 2013

Autobiografia na Música - Boca do Céu - Capítulo 38 - Por Luiz Domingues

Eis abaixo a letra de "Diva", canção que defendemos na 1ª eliminatória do Festival "Fico", em outubro de 1977 :
Letra e Harmonia cifrada da canção "Diva", do Laert Sarrumor.

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sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Autobiografia na Música - Boca do Céu - Capítulo 37 - Por Luiz Domingues


Não tocamos mal, mas estávamos nervosos, é claro. Pois além do nervosismo normal pela grandiosidade do Festival, em comparação à nossa insípida condição como banda iniciante, havia toda essa hostilidade. 
Sabíamos que a hostilidade era para com todos os concorrentes, sendo uma praxe, mas foi o tal negócio : como reagiria qualquer retardado daqueles que xingavam e arremessavam objetos, se tivesse que subir ao palco e tocar ? É fácil ficar lá embaixo a xingar...
Páginas internas do programa impresso do Festival Fico, em sua sexta edição de 1977 e com fotos reais da plateia que enfrentamos na primeira eliminatória
 
E outro fator, se tivéssemos tocado qualquer outra música mais movimentada do nosso repertório, teria sido mais fácil. Mas "Diva", era uma música introspectiva, difícil para ser tocada sob uma circunstância daquelas. Ao final, fomos desclassificados, resignamo-nos com a questão da hostilidade, e apesar de tudo, estávamos contentes, pois tocáramos em um palco com P.A. e luz de alto padrão, perante um público imenso para os nossos recursos como banda iniciante, e a TV Bandeirantes filmou tudo, ao exibir tal material, uma semana depois. E como curiosidade, lembro-me em passarmos pelos "Originais do Samba" um pouco antes deles subir ao palco para o seu show e o Mussum (ele mesmo, o "Trapalhão", que era componente da banda, também), brincar conosco, ao dizer alguma coisa como : -"hei rockeiros, paz e amor" ou algum clichê do gênero. Não ficamos tristes, com a nossa desclassificação, como já disse, pois ainda participaríamos da segunda eliminatória, para defender uma outra música, chamada : "O Mundo de Hoje".


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domingo, 30 de dezembro de 2012

Autobiografia na Música - Boca do Céu - Capítulo 36 - Por Luiz Domingues

Defenderíamos a música "Diva", nessa primeira eliminatória. Era uma canção meio taciturna do Laert, e a sair um pouco de suas características normais dentro do humor, tinha uma letra introspectiva. Ele a havia composto ao piano, certamente inspirado no Milton Nascimento, e a letra era no estilo da MPB mais introspectiva, cerebral. Eis os primeiros versos de "Diva" :


"Diva, eu divaguei


Pela imensidão do tão pouco,


Pelo incomensurável... nada"...



O Laert Sarrumor a cantou a tocar um piano, “Fender Rhodes 88”, lindíssimo, e seu sonho pessoal de consumo. Mas havia dois aspectos a ser considerados :

1) Ele era iniciante ao piano, não tinha grande desenvoltura, e...

2) Apesar de sonhar em ter um piano elétrico, Fender Rhodes, ele nunca havia tocado em um instrumento desses. Quem é tecladista, sabe que a tensão das teclas de um piano elétrico é muito mais sutil que a de um piano acústico, tradicional. Então, ele estranhou demais na passagem de som, e sabia que estaria em apuros na hora de tocar para valer, e ainda com a incumbência em cantar e interpretar o melhor possível.

Quantos aos demais, o arranjo para cada um, foi simples. O Osvaldo Vicino estava seguro a realizar a base harmônica, Wilton Rentero faria contrasolos e desenhos para ornamentar a canção e eu e Fran Sérpico, faríamos uma condução de baixo e bateria bem simples, sem voos, mesmo por quê, não sabíamos voar naquela época. Entretanto, a hostilidade foi imensa por parte do público. Podia subir os Beatles ali, e seriam maltratados, igualmente, pois essa fora a determinação daquela horda de vândalos, como torcida uniformizada de futebol. Entramos no palco, e sob vaias e insultos, voaram diversos objetos inusitados. 




Uma moeda com valor de CR$ 0,50 (para quem lembra-se dessas moedas de centavos de cruzeiros, dos anos setenta, há de recordar-se que eram enormes e pesadas), bateu na lente direita dos óculos do Laert e rachou-a. A depender de onde batesse, poderia gerar um hematoma com certa gravidade, pois tinha a massa de uma pedra, e com a deslocação aérea, ficara ainda mais pesada, no impacto. O Laert assustou-se, é claro, mas fingiu naturalidade. Ao tirar os óculos para examinar o estrago, vi adolescentes a rir da situação, logo nas primeiras filas. Que babacas...



Ele estranhou muito o piano. De fato, ele martelava as teclas com a força típica de quem toca piano tradicional, mas no piano elétrico, a tensão das teclas é muito mais leve. Piano elétrico precisa ser tocado com menos força, e isso faz muita diferença na execução. Soma-se isso ao fato de que não era um grande pianista, e claro, estava nervoso, como todos nós, pela grandeza do evento em contraste com a sua / nossa, inexperiência naquele momento. Claro que a violência atrapalhou. Se fosse um público respeitoso, teria amenizado bastante a nossa performance. Mas se é que existiu um lado bom (e eu acho que sim), foi nesse tipo de situação que crescemos, como sob um batismo de fogo. Sim, a complementar o raciocínio anterior, claro que isso contribuiu para o crescimento da banda, enquanto unidade. Certamente isso colaborou para amenizar a tensão em relação à segunda apresentação, uma semana depois.


De volta ao fato em si, o Wilton Rentero passou a ironizar os adolescentes hostis do público, ao deixá-los, possessos. Uma chuva de aviõezinhos de papel cobriu-o, que a rir, continuou a tocar...

Manuscrito com a caligrafia do Laert, a conter a letra, e uma exótica marcação de acordes numerados (que não é uma cifra, naturalmente), da canção "Diva" 

Continua...

sábado, 29 de dezembro de 2012

Autobiografia na Música - Boca do Céu - Capítulo 35 - Por Luiz Domingues

E se o leitor prestar bem atenção nos relatos de coisas paralelas à minha banda, verificará que o ano de 1977, foi recheado por eventos muito significativos, com shows, e efervescência cultural a estourar em outros ramos artísticos, apesar dos ventos do baixo astral que já sopravam na Inglaterra.


Capa do programa do Festival VI Fico, onde o Boca do Céu concorreu em duas eliminatórias, nos dias 7 e 14 de outubro de 1977 

No caso do FICO, tratava-se de um festival particular de um colégio chamado, Objetivo, mas tinha grande estrutura. As eliminatórias foram realizadas no salão de festas do Palmeiras, com cinco mil adolescentes ensandecidos na plateia; palco com P.A. e luz profissional; e artistas mainstream para fazer os shows, a cada eliminatória etc. Vou esmiuçar a seguir a nossa experiência em tal festival...

Para a nossa alegria total, classificamos duas músicas no Festival FICO. Tocaríamos "Diva" e "O Mundo de Hoje". Havíamos enviado outras músicas, incluso "Revirada", nossa maior aposta, e certamente a mais forte do nosso repertório, mas sabe-se lá por quê, as classificadas foram as que citei acima. O FICO, era um Festival colegial, mas muito badalado, por ter infraestrutura forte; com patrocínios; equipamento de nível profissional; eliminatórias realizadas no salão de festas do Palmeiras; com a grande final no ginásio do Ibirapuera; a presença da orquestra do maestro, Záccaro para acompanhar quem assim o desejasse; e artistas mainstream a fazer os shows de entretenimento, a cada noite.




Fomos tocar com aquele calafrio típico para principiantes, na primeira eliminatória, dia 7 de outubro de 1977. Lembro-me em chegarmos por volta das quinze horas, no Ginásio do Palmeiras, para o soundcheck, e ficarmos deslumbrados com o tamanho do palco; o equipamento, e o tamanho do salão, onde muitos shows de Rock e MPB aconteceram anteriormente, fora os tradicionais bailes de carnaval do clube. Passado o som com toda a rapidez peculiar com a qual os técnicos lidam com artistas desconhecidos, fomos esperar nossa vez de tocar. Foram horas a perambular pelas áreas permitidas dentro do Parque Antárctica, e quando abriram os portões para o público, deu aquela ansiedade, ao vermos aquela massa a entrar e rapidamente abarrotar o salão. Seguramente, havia cinco mil pessoas presentes. Era um público formado por alunos, com cem por cento de adolescentes dispostos a bagunçar a todo custo. Sabíamos que ao tocar bem ou mal, seríamos hostilizados só por conta do bullying natural que representava aquela experiência infanto-juvenil. Antes, assistimos o soundcheck dos artistas que apresentar-se-iam após os concorrentes. 



Naquela primeira noite, seriam "Os Originais do Samba" e com sua formação clássica, com Mussum, o trapalhão, na formação dos sambistas. Então, quando o festival começou, ficamos naquela expectativa para chegar a nossa vez. E os concorrentes anteriores já haviam sido bem hostilizados...

Continua.....