Mostrando postagens com marcador Nahame Naminha Casseb. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Nahame Naminha Casseb. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Autobiografia na Música - Língua de Trapo - Capítulo 140 - Por Luiz Domingues

Lizoel Costa
Lizoel Costa mostrava-se o mais engajado na música, quando o conhecemos no segundo semestre de 1979. Enquanto os demais eram estudantes de jornalismo a envolver-se com a música, ele já colocava-se como um músico profissional que estudava jornalismo. Através dele, tive oportunidades para ganhar dinheiro como músico, quando este impulsionou-me por diversos trabalhos avulsos que realizei, através de suas indicações. Tais histórias bizarras que vivemos juntos nesses trabalhos, estão relatadas nos capítulos dos "Trabalhos Avulsos".

O Lizoel era uma figura muito agradável no convívio, e certamente entre todos os membros, o que mais ligara-se em questões estratégicas de construção de carreira. Enquanto os demais divagavam a sonhar com o sucesso, mas sem planificação objetiva alguma, ele enxergava na frente, sempre a pensar na estratégia, em aproveitar as oportunidades, contatos etc.


Nessa época em que o conheci, décadas antes da Internet tornar-se aberta e popular, ele costumava carregava em sua bolsa, um caderno com centenas de nomes e números de telefones de músicos. Tratava-se de um cadastro que organizara, e de onde vivia a indicar instrumentistas e cantores para diversos trabalhos. Sempre procuravam-lhe a perguntar : -"Lizoel, preciso de um guitarrista para tocar tal estilo de música"...; -"preciso de um saxofonista para tocar Jazz"; "preciso de uma cantora de MPB"...

Ele parecia uma agência de empregos ambulante... e assim, ajudou muita gente a colocar-se no mercado e garantir o pão nosso de cada dia. Quando voltei à banda em 1983, a sua veia natural para a logística e construção de carreira, estava ainda mais aguçada. Tivemos muitas conversas nesse sentido, e certamente que aprendi muito com ele. Depois que o Língua de Trapo deu uma parada, por volta de 1988, ele engatilhou um trabalho com o ex-Secos & Molhados, Gerson Conrad, na verdade, ambos formaram uma banda : "Banda Nacional", mas que não teve longa carreira, infelizmente. Na volta do Língua de Trapo, no início dos anos noventa, ele já não fazia parte da nova formação, e estava de volta à sua cidade natal, Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, onde por muitos anos foi um radialista com sucesso. Inclusive, falei com ele em 2006, ao visar divulgar o CD de estreia do Pedra, recém lançado na ocasião. Com minha entrada na vida virtual em 2010, reativamos o contato através da extinta Rede Social Orkut, de onde soube que havia mudado-se para Brasília e trabalhava na ocasião, como assessor de imprensa do Conselho Federal de Odontologia.

Infelizmente, tivemos uma péssima notícia sobre o Lizoel Costa, em 2014. É com muito pesar, que anuncio que ele faleceu no dia 7 de maio desse ano, em sua cidade natal, Campo Grande / MS, aos 58 anos de idade, vítima de uma aneurisma cerebral. Fico com as lembranças boas do tempo em que trabalhamos juntos no Língua de Trapo, além de alguns trabalhos paralelos em que ele mesmo encaixou-me, dentro daquela prerrogativa citada anteriormente, a exaltar a sua capacidade para abrir portas para diversos músicos poder trabalhar e ganhar dinheiro. 

Em 9 de maio de 2014, o programa, "Rádio Matraca", realizou um programa especial em sua homenagem, que está disponível em arquivo permanente na Internet, através do Link abaixo, no site da emissora USP FM / 93.7 de São Paulo. 

http://www.radio.usp.br/programa.php?id=20

Abaixo, o Link da Folha de São Paulo, a anunciar o seu falecimento :

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2014/05/1451596-morre-aos-58-anos-o-musico-lizoel-costa-da-banda-lingua-de-trapo.shtml

Abaixo, o Link da Revista Rolling Stone a noticiar também o falecimento do Lizoel Costa :

http://rollingstone.uol.com.br/noticia/morre-lizoel-costa-da-banda-lingua-de-trapo/

Vá em paz, velho amigo e muito obrigado por tudo, "Bitcho" !

Pituco Freitas

Antonio "Pituco" Freitas, era um rapaz com potencial vocal espetacular, quando o conheci em 1979. Mas no início, mostrava-se sério, compenetrado. Assim foi a apresentar-se nos primeiros tempos difíceis da banda, até que um fato inusitado do destino mudou a sua perspectiva artística. Graças ao nervosismo em enfrentar cinco mil pessoas em meio a um festival universitário de MPB, realizado na cidade de Bauru / SP, em 1980, transformou-se completamente, e dali em diante, explodiu como um frontman com enorme desenvoltura cênica, praticamente a tornar-se um ator performático em cena.

Como pessoa, um colega excepcional; amigo; prestativo e solidário. Por meio indireto, foi o responsável por eu ter conhecido o baterista, José Luiz Dinola (por conta de seu irmão, o guitarrista, Pitico Freitas), com o qual fundei e atuei com A Chave do Sol.
Pituco  Freitas vive no Japão há muitos anos, onde sedimentou uma carreira como cantor / violonista e compositor, quando voltou às suas raízes como um intérprete "sério", para deixar o humor de lado, mas a encantar os nipônicos com a sua Bossa Nova muito bem tocada e cantada. 

Laert Sarrumor

Laert "Sarrumor", claro, sempre foi o centro irradiador, o grande dínamo da energia criativa da banda, e assim, o tem sido até hoje, e sempre será. Agradeço-o por ter levado-me ao "Grupo de Poesia e Arte Faculdade Cásper Líbero", quando inseriu-me em um novo núcleo, de onde eu supostamente não fazia parte , inicialmente. De certa forma, graças a tal gesto de amizade de sua parte, garantiu que a semente do Boca do Céu germinasse, para dar início a uma nova cria, que só um ano mais tarde, tornar-se-ia assim, o Língua de Trapo. 

Como já disse, fomos encontrando-nos posteriormente nesses anos todos, após a minha saída do Língua de Trapo, em 1984, em muitas circunstâncias. Por divulgar outros trabalhos meus, com outras bandas em que fui componente, no seu programa de Rádio (Rádio Matraca / USP FM); encontros fortuitos em lugares inusitados (encontros de rua, como até em uma papelaria, certa vez); bastidores de shows; e pelo fato dele ter afeiçoado-se ao Pedra e ter assistido muitos shows dessa banda, da qual eu fui componente, de 2004 a 2011 e 2012 a 2015. Estive em festas de aniversário dele, e mantemos um ótimo contato permanente, pelas Redes Sociais da Internet.

Quando encerrei o texto bruto da minha autobiografia referente ao Boca do Céu, aqui no meu Blog 2, mandei-lhe imediatamente o Link para que ele lesse tudo. Vivo a instigar-lhe para que escreva a sua autobiografia também. Ele, que já escreveu livros com muito sucesso (foi best-seller absoluto por várias semanas, inclusive), e tem o traquejo, faria / fará, um trabalho magnífico. Todavia, em conversa reservada, disse-me que ainda reluta em dar início. De minha parte, tem o meu apoio total, e nas partes onde nossas respectivas trajetórias cruzam-se, eu adorarei ter o ponto de vista dele sobre o Boca do Céu e o Língua de Trapo, bandas onde atuamos juntos. E revelo um dado que considero pertinente, e sei que isso não o aborreceria : na época do Boca do Céu, ele mantinha o hábito em escrever um diário. Portanto, munido dessas anotações, ele tem tudo para escrever tal história com muito maior riqueza de detalhes do que eu fiz, pois as minhas anotações de apoio resumiram-se a datas de shows; locais e respectivo público presente, além de formação da banda e uma ou outra ocorrência especial.

Bem, é isso...  falei sobre todos os músicos que foram componentes nas duas passagens em que eu estive na banda; os membros honorários que muito contribuíram para o sucesso dela, e de todos os que estiveram mais diretamente ligados à sua produção. Agradeço a cada um, pela oportunidade em ter feito parte dessa história. Último capítulo dessa importante etapa de minha trajetória musical. A encerrar, peço desculpas pelas saídas que tive de efetuar, e pelas mágoas e transtornos decorrentes desses dois atos desagradáveis que cometi contra a instituição, Língua de Trapo. Sinto orgulho por ter feito parte dessa história. 

A banda está em atividade até os dias atuais (no ano de 2016, quando encerrei o texto bruto da autobiografia, o Língua de Trapo estava prestes a participar da premiação do Grammy Latino, nomeado em várias categorias pelo seu último e ótimo álbum, lançado nesse ano, denominado : "O Último CD da Terra"). Espero que assim prossiga por muitos anos, para arrancar as gargalhadas sinceras do público, e também para fazê-lo pensar, pois o humor do Língua de Trapo não é o popularesco, mas sim o de poder reflexivo. Quando o Língua de Trapo provoca risadas nas pessoas, elas riem de si mesmas, refletidas no espelho, ao ver que a sociedade e o poder político e econômico, são meramente reflexos da nossa própria mentalidade. Riem, mas pensam a seguir. 

Meu muito obrigado a todos que estiveram comigo nessas duas etapas de minha carreira. Meu muito obrigado ao Laert "Sarrumor" Julio Pedro Jesus Falci, um artista genial que conheci em um dia em 1976, e que graças ao seu talento e perseverança, deu-me a mão, e puxou-me a sair de um sonho impossível para a realidade da música e da arte. Vida longa ao Língua de Trapo !

Daqui em diante, a minha autobiografia na música segue com os capítulos dos "Trabalhos Avulsos", que realizei, fora das bandas oficiais onde atuei.

Autobiografia na Música - Língua de Trapo - Capítulo 139 - Por Luiz Domingues

Serginho Gama
Sergio Gama e Silva, o popular, Serginho Gama, entrou na banda praticamente quando eu saí pela primeira vez, em 1981. Ele é hoje, o segundo membro mais antigo da banda, só a perder para o Laert Sarrumor, nessa longevidade. A sua situação é semelhante à parceria do Ian Anderson, com o Martin Barre, no Jethro Tull, ou seja, um verdadeiro fiel escudeiro do Laert. Serginho é um grande músico; arranjador e maestro da banda, desde então. E aprendeu a ser um elemento cômico, quando apurou a sua performance ao longo do tempo, e tornou-se assim, um músico importantíssimo para a banda, mas também importante como um ator de apoio às sketchs. Calmo, sensato e brincalhão nos bastidores, sempre foi um colega agradável comigo, ao ajudar-me com dúvidas de harmonia, logo que voltei para o grupo, em 1983. Também vemo-nos sazonalmente, mas estamos conectados nas Redes Sociais da Internet. 

Além do Língua de Trapo, na atualidade, o Serginho mantém trabalhos paralelos, incluso um duo espetacular de violões com o baixista atual do Língua, Cacá Lima, onde fazem releituras sensacionais para clássicos do Rock 1960 / 1970, de forma instrumental, muito criativa e técnica.

Nahame "Naminha" Casseb


O Nahame Casseb, popular, "Naminha", é um tremendo baterista, técnico e muito preciso. Sempre que detectava um erro de andamento, ficava muito bravo no palco, pois não conformava-se com os demais músicos da banda, por não ter essa percepção tão precisa quanto a dele. Mas além desse perfeccionismo compreensível, era / é, um tremendo amigo, super brincalhão, com alto astral.

Descendente de árabes, mas com olhos azuis, era muitas vezes chamado como : "Lawrence da Arábia", uma brincadeira óbvia, e sob cunho cinematográfico, aliás, um mote comum para quase todos os componentes do Língua de Trapo, incluso eu, pois éramos uma banda formada por cinéfilos, sem dúvida. Algumas vezes, eu, Luiz Domingues; ele, Naminha e Serginho Gama, brincávamos de tocar trechos de obras clássicas do Rock Progressivo setentista, nos momentos de soudcheck, paixão mútua entre nós três. Muitas vezes tocamos trechos de músicas do Yes, para equalizar a banda no soundcheck. Desinibido, contribuía também com a parte cênica, dentro do possível, pois para os bateristas sempre fica muito difícil fazer coisas além de sua função vital ao instrumento.


Naminha morou muitos anos no Japão, onde acompanhou grandes artistas da MPB, em shows realizados naquele país. Encontramo-nos em 1996, por ocasião do Show Tributo à Janis Joplin, organizado pelo Laert, e foi a última vez em que tocamos juntos. Falamo-nos pouco atualmente, mas estamos conectados no Facebook. Naminha é uma fera como side man para artistas da pesada da MPB, e já acompanhado vários astros, incluso o grande, Cauby Peixoto, com o qual tocou até os últimos dias desse grande cantor.

João Lucas

João Lucas é um grande músico; compositor; arranjador, e tem também uma veia para o humor, muito boa. Enquanto os demais eram mais escrachados, o João trazia à banda, o elemento do humor sarcástico, sob a verve britânica. Quando eu voltei à banda, em 1983, temi que pudesse ter um relacionamento difícil com ele, pelo fato de eu estar a substituir o seu próprio irmão, o baixista, Luiz Lucas. Ledo engano e grata surpresa, tornamo-nos muito amigos e ele foi um dos que mais sentiu a minha saída, em 1984. Um homem muito culto, educado e dotado de uma memória incrível, fora a paixão pelo Rock; anos 1960 e cinema, foi óbvio que ficaríamos muito amigos. Morador do bairro da Vila Olímpia, há muitos anos, morava na mesma rua da escola onde estudei, de 1968 a 1976. Não conhecemo-nos nessa época, mas tínhamos as mesmas raízes, lembranças, e só quem conhece bem aquele bairro da zona sul de São Paulo, sabe o que é o barulho de um Boeing a passar a menos de duzentos metros de nossas cabeças...

Outra paixão mútua nossa, era (é) a cidade de São Paulo. Para contrariar a média normal das pessoas, que adoram odiar São Paulo, eu e João Lucas somos apaixonados pela Pauliceia. Essa paixão da parte dele, expressava-se às vezes de uma forma muito engraçada. Nunca esqueço-me de uma ocasião, quando fomos a uma cidade do interior, e assim que chegamos nessa referida localidade, ainda sob a escuridão da madrugada, e com as ruas completamente desertas, algo bizarro aconteceu. A dormir na poltrona da "janelinha" do ônibus, João Lucas acordou de súbito, quando alguém exclamou que estávamos a chegar, e sonolento, olhou pela janela. Só havia um gato a locomover-se preguiçosamente pela rua deserta e então, ele disse : -"o que acontece em uma cidade dessas ? Veja a grande novidade... um gato acabou de passar"...
Essa piada acompanhou-nos durante o dia inteiro...


O João Lucas deve tomar banho de formol. Fiquei anos sem vê-lo, e quando encontramo-nos em 2005, no camarim do Sesc Pompeia, ele parecia ser o mesmo colega que tocara comigo em 1984 ! Falei-lhe isso, claro, com estupefação, mas em tom de elogio, certamente.
Recentemente (cerca de 2012), conectamo-nos no Facebook e conversamos bastante. Geralmente sobre política, mas a música e o Rock em específico, também são objetos de nossas animadas conversas. Um grande sujeito !

Tenho visto o João Lucas a anunciar composições suas, sensacionais na Internet, fortemente influenciadas por compositores como Burt Bacharah; Henry Mancini e Ennio Morricone, entre outros. São temas instrumentais perfeitos para tornar-se trilhas de filmes, uma de suas paixões e aliás, minha também.



Continua...

domingo, 17 de novembro de 2013

Autobiografia na Música - Língua de Trapo - Capítulo 134 - Por Luiz Domingues


Reta final desta parte da minha historia na música. Como de costume, deixo a ressalva de que em qualquer momento, o capítulo pode reabrir, caso haja adendos para acréscimos; correções; material resgatado com áudio / vídeo inédito, fotos e / ou peças de portfólio etc. E também como de praxe, encerro ao mencionar os personagens dessa história, e sobretudo, sobre a minha gratidão para com essas pessoas, e pela oportunidade em ter sido membro dessa banda. 

Bem, o embrião primordial do Língua de Trapo, foi o Boca do Céu, minha primeira banda, e do Laert "Sarrumor". O início da história do Língua de Trapo, foi o final da história do Boca do Céu, portanto, está devidamente narrado nos dois capítulos respectivos. Sob o ponto de vista do Língua de Trapo, foi fundamental a entrada do Laert, na faculdade de jornalismo Cásper Líbero, em 1979, quando ali conheceu colegas que foram essenciais para a formação da banda. 

Se por um lado, o nosso prosaico, "Boca do Céu", fora uma raiz primordial, não podemos deixar por considerar que o talento do Laert só pôde explodir para valer, quando encontrou-se com outros artistas emergentes e igualmente talentosos, tais como Guca Domênico; Carlos Mello (Castelo) e Pituco Freitas, em um primeiro instante. A veia humorística dos três, que citei no início (excetuo o Pituco Freitas em uma primeira análise, pois logo no começo, a sua veia humorística não era explícita, visto que ele direcionava a sua carreira para tornar-se um cantor "sério" e só depois aflorou o cantor performático que ele viria a tornar-se). 

O começo, como um despretensioso grupo musical e poético, que visara realizar um sarau para a recepção de calouros, foi o primeiro êxito musical de minha carreira (descontadas as apresentações do Boca do Céu no Festival do meu colégio, em 1977, que foram boas, para o nível que tínhamos). Eu e Laert vínhamos de uma labuta forte com a nossa primeira banda, o Boca do Céu, mas tivéramos poucas ações concretas e positivas para comemorar. Por isso, quando ouvimos aquela saraivada de aplausos após o término do sarau, cumprimentamo-nos com bastante euforia, pois ele e eu, sabíamos que este evento havia sido o nosso primeiro sucesso, enfim, após quase três anos de esforços empreendidos em conjunto. 

E dali em diante, a veia humorística moldou aquele grupo, que passou a ser chamado como : "Laert Sarrumor e os Cúmplices".
Guca e Carlos Mello eram (são), extremamente criativos, e alimentavam a banda com músicas, e ideias sensacionais para piadas. Tudo amalgamado pela política, é claro. Vivia-se ainda os ecos da ditadura, e pelos corredores da faculdade, os debates eram acalorados. Fui levado e "encaixado" na banda pelo Laert, mesmo por ser ainda um estudante secundarista, e sobretudo por ser um Rocker inveterado, o que em alguns aspectos, poderia ser considerado um empecilho em um primeiro instante, mas finquei raízes, e fiquei.
O começo, com shows ultra improvisados em salas de aulas, sob condições inóspitas de áudio, provocam-me orgulho de nossa tenacidade. A entrada de Lizoel Costa, depois, Serginho Gama e Fernando Marconi, encorparam a banda de uma forma incrível. O pianista, Celso Mojola, também contribuiu bastante, com a sua sofisticação erudita e jazzística. Outra presença incrível, deu-se com Ayrton Mugnaini Jr., um gênio, sem dúvida. 
Depois, a fase dos festivais de MPB pelo interior, e no circuito universitário, onde o crescimento fora muito animador, ao culminar com que a banda obtivesse um crescimento vertiginoso. Minha primeira saída, em janeiro de 1981, por motivação financeira, foi triste, mas eu não tive outra alternativa, infelizmente.  Tivesse uma estrutura mínima que garantisse-me por alguns meses, teria sido a conta certa para eu permanecer e acompanhar o Língua de Trapo no salto quântico, que já em 1982, a banda obteve, e assim mudado da água para o vinho, ao profissionalizar-se, em todos os sentidos. 

Mas, não reclamar sobre eventos passados. Não foi assim que aconteceu, e tudo ocorreu conforme precisava ter acontecido, simples assim. Minha volta em 1983, foi dramática, no sentido de que retornei sem a chance para redimir-me de minha saída de 1981. Ou seja, voltei com a data da nova saída já programada como um fato, só a faltar defini-la. 
Foi maravilhoso ter tido a segunda chance, e assim voltar a ter convívio com velhos amigos, e tomar um banho de profissionalismo, pois quando voltei, de certa forma, eu ainda era o rapaz despreparado de 1981, em muitos aspectos, mas eles tinham dado um salto enorme à minha frente. Portanto, fora o prazer, tive uma escola, que serviu-me e muito, para a continuidade da minha carreira. Nessa segunda fase, acumulei muitas histórias, que mencionei com prazer nesta narrativa, mas claro, omiti várias, por considerar que seriam inadequadas por expor pessoas publicamente, e a minha autobiografia é leve, em via de regra. Não tenho nenhuma intenção em produzir uma autobiografia clichê de "Rock Star", para mencionar excessos, mesmo por que (e quem conhece -me pessoalmente, sabe bem que não é o meu estilo), eu não sou assim. A segunda saída da banda, em julho de 1984, foi bastante sofrida em meu caso, mas acredito que essa cicatriz não exista mais, ainda bem. 

Em suma, tenho um tremendo orgulho por ter sido um membro fundador; ter participado de duas formações da banda, e possuir um registro fonográfico; peças de portfólio; fotos e alguns vídeos disponibilizados no You Tube. Cabe dizer que esse material que possuo, é ínfimo, pois deveria ter muito mais peças em meu poder.  Espero resgatar esse material, e assim que conseguir obtê-lo, ainda que sob doses homeopáticas, disponibilizo por aqui, de pronto. Falarei sobre as pessoas, nos próximos e derradeiros capítulos.

Vida longa ao Língua de Trapo !

Orgulho por fazer parte dessa saga ! 



Continua...

Autobiografia na Música - Língua de Trapo - Capítulo 133 - Por Luiz Domingues

A minha primeira interação com a banda, na condição de um ex-membro, ocorreu-me ainda em 1984. Mais ou menos em outubro ou novembro, não recordo-me ao certo, fui assistir um show do Língua de Trapo, no teatro Sesc Pompeia. Foi estranho assistir o espetáculo com tão pouco tempo decorrente de minha saída. Senti-me como se eu fosse ainda da um integrante da banda, pois sabia de cor todas as músicas; as marcações; as trocas de figurinos; piadas; vinhetas de áudio e vídeo... 

Ou seja, se o Mário Campos tivesse uma indisposição qualquer, eu pegaria o baixo, e faria o show inteiro, sem problemas, pois não enferrujara, apesar de três ou quatro meses, passados. 

Na primeira foto, Laert Sarrumor; Ayrton Mugnaini Jr. e Alcione Sana, em foto promocional do programa Rádio Matraca, mas já dos anos 2000
 
Quando o EP d'A Chave do Sol foi lançado em 1985, concedemos uma entrevista no programa de rádio que o Laert liderava, "Rádio Matraca", na USP FM. Ainda em 1985, tive um contato ainda mais próximo, e foi sensacional, pois pude amenizar, e muito, o meu sentimento em tom de remorso por ter deixado a banda, quando senti-me útil, sob uma circunstância especial para eles. 

O Língua de Trapo estava classificado para participar do Festival de MPB que a Rede Globo lançara naquele ano, ao tentar resgatar o glamour dos festivais dos anos sessenta. Foi sem dúvida, muito grandioso para aquele momento, e apesar de ter sido muito aquém dos festivais sessentistas, sob o ponto de vista artístico, fez bastante barulho em 1985. O Língua de Trapo esteve prestes a lançar um novo LP, com inéditas, naquele ano e participar de tal festival, pareceu ser o impulso que faltava-lhes para enfim ingressar no mainstream da música. Então, recebo o telefonema do Laert, a solicitar-me um favor.
Como seria um evento com um grau de alta responsabilidade, e o baixista, Mário Campos não possuía um baixo importado com qualidade naquela ocasião, o pedido foi para que eu emprestasse o meu baixo para a primeira eliminatória que eles cumpririam no Ginásio do Ibirapuera, em São Paulo, e eventualmente, se classificados, precisariam novamente do meu instrumento, na final, a ser realizada no Maracanãzinho, no Rio de Janeiro. Claro que aceitei na hora, por vários motivos. Primeiro pelo apreço à minha ex-banda, da qual tenho orgulho em ter sido um membro fundador; 
pela qualidade do trabalho; pela amizade com todos os membros daquela formação; por simpatia pelo Mário Campos, um rapaz muito gentil, mas também por outro motivo, mais "egoísta", de minha parte : a oportunidade para amenizar o meu remorso, por ter deixado a banda...


E assim, na 1ª eliminatória em que participaram, fui levar o meu baixo para o Mário usá-lo, no Ginásio do Ibirapuera, onde assisti o soundcheck da banda, e observei os bastidores de uma produção global, e sob peso pesado. A grandiosidade de tal produção, impressionara-me pela estrutura. O equipamento usado, mostrava-se gigantesco, ao parecer destinado para um show de Rock internacional, e a parte de aparelhagem de TV, tratou-se do que havia de mais moderno para a época, é claro. Ao circular pelos corredores, os participantes não eram "artistas desconhecidos", como seria para esperar-se de um festival criado para revelar novos talentos, mas pelo contrário, havia muitos artistas consagrados, sob clara intervenção das gravadoras, foi óbvio. Fiquei muito orgulhoso por ver a minha ex-banda nesse evento, em um "momentum" que pareceu ser (e o fora), ainda mais promissor do que aquele em que eu experimentara como membro, entre 1983 e 1984. Dessa forma, senti-me mais que orgulhoso, mas feliz por vê-los nessa ascensão, e de certo, aliviado por meu remorso ter ficado, muito diminuído, para não dizer, erradicado. 

Foi um furor a apresentação do Língua de Trapo, que assisti pela TV, apesar deles ter disponibilizado-me um convite, logicamente.
Com a canção : "Os Metaleiros Também Amam", satirizaram o Heavy-Metal, e toda aquela baboseira em torno do termo "metaleiro", uma invenção imbecil da parte dos marqueteiros do Festival Rock in Rio, então recém realizado, e massificado à exaustão pela Rede Globo.

Eu nunca gostei de Heavy-Metal, mas possuía muitos amigos nesse meio, e tinha a informação concreta sobre muita gente que passou a odiar mortalmente o Língua de Trapo, por conta dessa sátira, ao tomá-la como uma afronta pessoal ou aos seus anseios. E durante o festival, não foram só os "metaleiros" que ficaram indignados. O público comum da Rede Globo, escandalizou-se com a indumentária quase indecente com a qual o Pituco Freitas apresentou-se. 

O crítico Zuza Homem de Mello, um moralista e ranzinza contumaz, chegou a exaltar-se durante a transmissão ao vivo, ao tecer duras críticas ao Língua de Trapo, e ao Pituco Freitas, em específico. Bem, eu vibrei com a performance; a sátira e tudo mais. E até um certo orgulho por ver o meu baixo em ação, eu senti. Eles classificaram-se, e novamente emprestei-lhes o meu baixo, que viajou ao Rio de Janeiro, desta feita, sem a minha presença...

Depois dessa ocasião, só tive encontros sazonais e individuais com os membros da banda, até que em 1996, o Laert procurasse-me para fazer parte de uma banda, que faria um Tributo à Janis Joplin. Essa história já foi contada no capítulo : "Trabalhos Avulsos".

Mais encontros casuais ocorreram nos anos seguintes, e em 2005, fui convidado para o show de lançamento de uma caixa comemorativa pelos vinte e cinco anos de existência da banda, com o próprio Laert a ironizar tal efeméride por estar "errada", visto que em 2005, comemorava-se na verdade, vinte e seis anos. Nesse dia, ao chegar ao camarim, eu estava eufórico, por que acabara de entrevistar o mítico radialista, Jacques Sobretudo Gersgorin, do programa radiofônico : "Kaleidoscópio", sob uma produção proporcionada-me pelo jornalista, Bento Araújo, que a publicou na edição n°11, da revista Poeira Zine (Thin Lizzy, na capa). 

E, sabedor que o Laert também amava o Kaleidoscópio, uma paixão setentista comum para nós dois (Serginho Gama também era muito fã), cheguei com essa novidade, e os telefones do Jacques em mãos, para que o Laert o convidasse a participar do seu programa radiofônico, "Rádio Matraca", oportunidade que de fato ele engatilhou para o início de 2006, e eu tive o prazer de participar, também. Fora essa questão, o show do Língua de Trapo foi hilariante, como sempre, e vários ex-membros estiveram presentes, quando ao final, todos foram chamados ao palco para participar de um coral de "Concheta", que foi filmado, mas que nunca encontrei no You Tube, e talvez esteja engavetado para um lançamento em DVD, no futuro. 
                    Pedra ao abrir o Uriah Heep, em 2006

Foi nesse dia que o baixista, Luiz Lucas, falou-me sobre um empresário que estaria a trazer dinossauros do Rock setentista e que poderia encaixar o Pedra, a minha banda na ocasião, nesse festival. De fato, um ano depois, o Pedra abriu o show do Uriah Heep.  
No dia em que o Jaques "Kaleidoscópio foi ao programa Rádio Matraca, em 2006 : Da esquerda para a direita, Alcione Sana (minha ex-aluna de baixo... mundo pequeno...); o diretor da USP FM (Marcelo Bittencourt); Jacques e Laert Sarrumor. Ao fundo, Zé Brasil. Eu não estou no enquadramento dessa foto, mas estava ao fundo, perto do Zé Brasil, e do jornalista, Bento Araújo. Click; acervo e cortesia : Grace Lagôa

Nessa segunda foto, enfim na foto, com tantos amigos juntos ao grande Jaques "Kaleidoscópio", uma das maiores influências setentistas que tenho na contracultura em geral. Em pé, da esquerda para a direita : eu, Luiz Domingues; Zé Brasil (Apokalypsis); Bento Araújo (editor da Revista Poeira Zine; e Marcio Gali Ortiz (sonoplasta da USP FM). Sentados : Alcione Sana; Marcelo Bittencourt (diretor da USP FM); Jaques Sobretudo Gersgorin (Kaleidoscópio), e Laert Sarrumor. Click; acervo e cortesia : Grace Lagôa
 

Depois desse evento, teve essa entrevista do Jacques no programa : Rádio Matraca, e outra em que participei com o Bento Araújo, para falar sobre os shows do Alice Cooper, em 1974, no Brasil. E finalmente, em 2011, o Pedra culminaria em realizar o seu último e melancólico show (a banda voltaria à ativa, um ano depois), sob um projeto encabeçado pelo próprio Laert, no Bar Melograno, em São Paulo. De fato, ele era (é), um fã do trabalho do Pedra, e ficou chateado por saber do fim da banda, ao lamentar isso pessoalmente para nós, mas também publicamente, pelas redes sociais da Internet, principalmente através do Facebook. 

Mas, quando o Pedra voltou às atividades, em 2012, ele vibrou, e  programou-nos para mais um show no mesmo espaço, produção que cumprimos com muito prazer. Basicamente foram esses os meus momentos pós-Língua de Trapo, depois de deixar a banda no ano de 1984...
Pedra & Laert Sarrumor, no Bar Melograno, em São Paulo, em dezembro de 2012. Click; acervo e cortesia : Grace Lagôa


Continua... 

sábado, 16 de novembro de 2013

Autobiografia na Música - Língua de Trapo - Capítulo 132 - Por Luiz Domingues


Domingo, 8 de julho de 1984... eu estava convicto sobre o que decidira, ter sido o melhor para a minha carreira, sem dúvida. Todavia, por tudo o que já exprimi amplamente nessa narrativa, nas últimas semanas de junho, e início de julho de 1984, eu estava com o coração apertado por essa despedida. E claro que o último show foi muito difícil sob todos os aspectos. 

Todavia, decisão tomada e irreversível, precisava enfrentar a melancolia da despedida, fora os olhares pouco confortáveis dos companheiros, e o que mais doía-me, fora o do Laert, sem dúvida, pelos anos de amizade, mas sobretudo por termos caminhado juntos desde a nossa primeira banda na carreira de ambos, o Boca do Céu, no longínquo ano de 1976. Enfim, tarefa nada fácil... 
Para piorar o meu estado de ânimo, na noite de sábado, após ter feito o meu penúltimo show, quando fui levar a minha namorada em sua casa, fui surpreendido com sua decisão súbita de rompimento de relação, da parte dela. Cáspite, como assim ? Pois é, Dona Débora não tinha dado nenhum sinal de descontentamento com o namoro até então, mas justo naquela noite melancólica que eu vivia por conta da minha despedida da banda, eis que ela veio com essa... ao alegar a famosa incompatibilidade de gênios etc e tal. Não tratava-se de um relacionamento longo e nem foi o caso para desestabilizar-me pelo rompimento em si, mas, justo naquela noite ? Resultado : fui para a minha casa, e essa súbita notícia potencializou a minha melancolia pelo último show que faria com o Língua de Trapo, no dia seguinte. 

Veio o domingo e lá fui eu para o CCSP, com a minha mochila de a conter o figurino do show, que eu usaria pela derradeira oportunidade. Eu estava bastante sensível naquele dia, e sabia que precisava ter autocontrole para não emocionar-me no palco, pois previ o nó na garganta, e o frio na barriga, inevitáveis. 

Ao superar as bilheterias de sexta e sábado, nesse domingo, batemos de novo o recorde. Nunca esqueci-me do número, que o ator, Paulo Elias, citou com euforia no camarim : mil trezentos e vinte e quatro pagantes ! Impressionante ! O triplo da capacidade oficial daquele teatro, ou seja, houve gente espremida por todos os cantos. Nunca, em todos os shows que ali fiz (e considere, caro leitor, que ali toquei com todas as bandas de carreira por onde atuei, ao considerar as que gravaram discos oficiais), toquei para um público tão grande. Quando o show começou, para cada música que encerrava-se, veio na minha mente o disparo melancólico de que fora a última vez em que eu tocaria aquela canção etc. 

Em "Amor à Vista", que era uma de minhas músicas prediletas, tive que controlar-me, pois os olhos marejaram. E quando o show encerrou-se, muito dessa minha melancolia, foi camuflada pela euforia do público, e um inevitável assédio muito forte, no camarim.

A despedida foi discreta, ali, pois ainda encontrar-me-ia com a banda, no escritório do empresário, Jerome Vonk, para o meu último acerto de contas. E de fato, no dia seguinte, isso aconteceu.
Recebi um cachet robusto pela última semana, vitaminada por bilheterias tão cheias, e despedi-me de todos, ao dar por encerrada a minha participação no Língua de Trapo. Já na semana subsequente, eles teriam um show em Mococa, no interior de São Paulo, mas para amenizar, no mesmo final de semana, eu estaria com A Chave do Sol, em uma badalada danceteria da moda em São Paulo, recém inaugurada pelo Barão Vermelho, de Cazuza, mas essa história é contada nos capítulos dessa banda (aliás, essa história é muito interessante, principalmente pelo seu desfecho financeiro, inusitado). O Jerome lamentou mais uma vez a minha saída, ao falar-me que estava a fechar uma série de shows avulsos pelo interior, e que o valor do cachet estava a subir etc . 
O João Lucas lamentou a minha decisão, mais uma vez, pois realmente tornáramos muito bons amigos, durante esses dez meses sob convivência. Tínhamos raízes musicais e cinematográficas, muito fortes.

O Lizoel Costa também lamentou, pois achou que dei um mau passo na carreira, visto que o Língua de Trapo estava a ser cortejado por gravadoras multinacionais, e A Chave do Sol era só uma aposta. E muito observador do mercado, ele enfatizara que representava uma aposta com risco, porque não éramos uma banda do espectro do BR-Rock 80's, que estava em voga. Ele teve razão por esse aspecto. 

Outro que manifestou-se, foi o Pituco Freitas, que também lastimou, ao verificar que eu, apesar de ser um Rocker inveterado, precisava pensar mais friamente no futuro, e não havia comparação entre o Língua de Trapo e A Chave do Sol, naquele momento, pelo aspecto da projeção artística adquirida, apesar do crescimento enorme que A Chave do Sol estava por apresentar.
 
 

Serginho Gama, Naminha e Paulo Elias também chatearam-se, mas apoiaram-me, ao perceber que o meu intento sempre foi o Rock, e de fato, estava empolgado com os rumos d'A Chave do Sol. 

O Laert estava bem chateado comigo e eu entendia perfeitamente que estivesse assim. Não vou repetir o que já falei exaustivamente ao longo desta narrativa e dessa forma, considero bem explicado e esmiuçado. Portanto, em 8 de julho de 1984, fiz o meu último show com o Língua de Trapo, e no dia 9, feriado estadual paulista, participei da última reunião das segundas, com a banda e o empresário, Jerome Vonk. Todavia, haveria fatos relacionados após a minha saída, que mantiveram-me ligado à banda, ainda que indiretamente, e que valem a pena ser revelados. 

Continua...