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quarta-feira, 8 de outubro de 2025

Autobiografia na música - Língua de Trapo - Capítulo 145 - Por Luiz Domingues

"Circular 46" vem a seguir, a se tratar de mais uma música calcada na sonoridade da MPB antiga. Com formato de samba bem típico dos anos vinte e trinta do século passado, somente não soa exatamente fidedigna pelo aspecto "retrô" no seu áudio de uma maneira integral, pela presença do piano elétrico comandado pelo ótimo Celso Mojola e pelo meu baixo, que além de ser elétrico, era algo que gerava até discussões internas na banda a se considerar a inclusão do baixo acústico tradicional na formação fixa da banda.

"Circular 46" - Demo Tape de 1980

Eis o link para assistir no YouTube:

https://youtu.be/PwtCKbKlXlk

Mais uma composição de Guca Domenico e Carlos Melo, de fato a se caracterizar como a zona de conforto para ambos, que sempre foi inspirada pelo cancioneiro da mpb da velha guarda, essa peça privilegia tal estética. No quesito da sua letra, a sua formulação se mostra ortodoxa de forma proposital para gerar os contrastes devidos a fim de provocar o humor. Inclusive na pronúncia forçada de certas palavras a exagerar na dicção, exatamente como os cantores dessa fase da MPB vinte-trintista executavam nas suas gravações. 

A letra trata de uma sátira de costumes a brincar com os maneirismos antigos e ao mesmo tempo, alfinetar as mazelas sociais amplificadas pelo descaso das autoridades de então, nitidamente preocupadas em privilegiar as camadas mais altas da sociedade em detrimento da grande massa carente a viver com muitas dificuldades. 

Na parte musical em si, gosto bastante da mixagem estabelecida, que dentro da realidade de uma demo tape gravada com parcos recursos, surpreende pelo seu resultado final bastante aceitável, bem entendido, para o padrão de demo-tape gravada ao final dos anos setenta, em um estúdio não muito preparado adequadamente e sob poucos canais disponíveis.

O som do baixo seguiu a timbragem das outras músicas que gravei nessa mesma fita e mais uma vez surpreende em determinados trechos. E destaco o timbre do piano elétrico a se mostrar bem agradável.

Laert Sarrumor a interpretou, mas há uma divertida inserção do Carlos Melo ao final.

"Vampiro S.A." - Demo Tape de 1980

Eis o link para assistir no YouTube:

https://youtu.be/QvRcD2NdQVU

E para encerrar a análise, a faixa "Vampiro S.A." tem como estilo musical o Heavy-Metal e note o leitor que em 1980 esse estilo, a se constituir de um derivado da corrente do Hard-Rock, nem era celebrado de uma forma definitiva e assim, pensávamos na canção como um tema a seguir o estilo do "Rock Pesado" ou como se costumava falar a respeito de peças mais radicais dentro do espectro do Hard-Rock, seria então ao se usar um termo da época: "pauleira".

A letra da música é uma das mais hilárias criadas pelo Laert Sarrumor a usar a literatura gótica de terror para satirizar a figura dos sanguessugas que drenam o sangue das pessoas humildes, geralmente as figuras execráveis e hipócritas que se colocam como pessoas de bem, com valores religiosos e a cultuar a integridade da família como núcleo base da sociedade, mas que na prática, se portam como os vampiros a sugar o sangue do povo.

Essa música se tornou icônica para o Língua de Trapo doravante e de fato, a sua interpretação ao vivo evocava uma mistura de atmosfera de Heavy-Metal com literatura gótica de terror, com o Laert a interpretá-la trajado como o conde Drácula e a ter como apoio, a genial atuação do ator Paulo Elias Zaidan, outro saudoso amigo, a interpretar um anão corcunda (Igor), como o seu assistente lacaio.

Nessa gravação da demo, o uso excessivo do pedal fuzz ficou sujo em demasia e a atuação do trio base, baixo/bateria/guitarra é simplória e não convence como uma peça de Rock pesado propriamente dita. Tempos depois a banda gravou essa faixa de uma maneira melhor, é bem verdade.

Bem, essas foram as músicas extras que enfim resgatei em 2025 e agradeço muito ao Laert Sarrumor por esse oferecimento. Abaixo, deixo as outras faixas repetidas em relação às que já havia garantido em 2022.

"Romance em Peruíbe" - Demo Tape de 1980

Eis o link para assistir no YouTube:

https://youtu.be/GmXIrmIfLtg

"Tragédia gramatical" - Demo Tape de 1980

Eis o link para assistir no YouTube:

https://youtu.be/3L4Xln6GjTk

Resta acrescentar que a capa da fita K7 a conter a demo-tape de 1980 e reformulada em 1981, foi criação de Cassiano Roda, um grande colaborador da banda do início das suas atividades.

E mais um dado: a única música que eu não coloquei juntamente no meu canal 1 do YouTube, a respeito desse resgate de 2025, foi "A Vingança do Hipocondríaco", não repetida nessa versão da demo-tape, exatamente por ter sido suprimida na sua versão de 1981. Nesse caso, o leitor e fã do Língua de Trapo a encontra no meu canal 3 do YouTube, além do meu Blog 3. 

Boa surpresa a reforçar o meu museu virtual, esse adendo de 2025 muito me agradou. Fico na expectativa de ter mais boas surpresas  sobre o Língua de Trapo no futuro, quando das minhas duas passagens pela sua formação, entre os anos setenta e oitenta. 

sexta-feira, 3 de outubro de 2025

Autobiografia na música - Língua de Trapo - Capítulo 144 - Por Luiz Domingues

Feliz pelo resgate de mais material concernente à minha primeira passagem pelo Língua de Trapo e a reforçar dessa forma o meu portfólio pessoal de carreira, eu gostaria de analisar então as faixas que disponibilizei neste momento de setembro de 2025.

"Tragédia afrodisíaca" - Demo Tape de 1980

Eis o link para assistir no YouTube:

https://youtu.be/kWtoH9lZo2o

Para início de análise, falo a respeito da faixa "Vingança Afrodisíaca", composição de Guca Domenico e Carlos Melo. A se tratar de um típico samba-de-breque, estilo antigo dentro da vertente do samba e muito apreciado pelos membros da banda, a se constituir de uma forma muito conveniente para expressar letras com alta dose de ironia e até escárnio explícito, a brincar principalmente com a sátira aos costumes e moral vigente, enfim, tal canção usou e abusou de tal prerrogativa e com maestria, eu devo observar.

Na parte técnica do áudio, apesar dessa produção ter sido muito modesta e com direito à inevitável redução em meio a uma época na qual as gravações eram analógicas e neste caso, feitas com poucos canais disponíveis, é surpreendente como apesar das limitações inerentes ao recursos dos quais tivemos, a faixa soa bem. 

As cordas representadas pelo violão, cavaquinho e o baixo, estão bem mixadas e a percussão também se mostra muito bem. O baixo em questão me surpreendeu pelo timbre, pois a despeito de todo o preconceito que havia sobre os instrumentos de marcas nacionais naquela época, eis que o Giannini que eu tinha, a se tratar de uma réplica de baixo Rickembacker, se mostra muito bem, com um timbre médio-agudo bem característico de seu modelo e ao mesmo tempo, com um interessante peso resguardado pelas frequências graves.

Sob a interpretação excelente do Laert Sarrumor, essa música fez muito sucesso nas apresentações do Língua de Trapo desde 1980, e assim prosseguiu nos anos posteriores, sempre a constar da lista de músicas de seus shows, até os dias atuais, inclusive.

A respeito do teor de sua letra que é controverso para os dias atuais, muito provavelmente essa música teria problemas de aceitação generalizada pelo fato de estabelecer piadas sexistas e a ironizar os travestis, mas é o tal negócio: discussões a parte sobre as formas respeitáveis de se fazer humor, se são aceitáveis ou não mediante o entendimento geral de 2025, é fato que no contexto de 1980, era um tipo de humor popular e decorrente até nos programas dessa verve a se provar como popularescos na TV de então, e além do mais, é inegável que a sua construção é bem concatenada enquanto peça de humor.  

"Prazer" - Demo Tape de 1980

Eis o link para assistir no YouTube:

https://youtu.be/Q1QtA0tShgs

"Prazer" é outra canção que fez muito sucesso nos primeiros tempos do Língua de Trapo. Composição do Laert Sarrumor, é uma canção que flerta com a bossa nova, mas que insere, igualmente, elementos do samba-canção e da seresta em sua constituição. 

Sob uma letra muito inteligente criada pelo Laert (com sempre, dentro da sua genialidade nata), as ironias neste caso são finas, a usar até do cinismo como ferramenta para brincar com o tema do prazer e nesses termos, ao fazer insinuações divertidas não apenas sobre a libido humana pela via camuflada do duplo sentido, como lançar dardos sobre o comportamento inadequado de certos políticos e neste caso, a se pensar na época pela qual essa música foi composta e mais executada ao vivo, o alvo maior era um certo governador de estado que tinha a fama de ser um ladrão contumaz, mas que demorou décadas para de fato se comprovar as suas falcatruas.

A falar da parte musical e do áudio dessa gravação em específico, acho interessante que o violão executado pelo saudoso Lizoel Costa, tenha recebido o efeito de um pedal Phaser 90 e essa determinação deve ter sido feita pelo meu amigo Lizoel, baseado no fato dele ter tido em sua vida um lado Rocker que os demais membros da banda não tinham, com a minha óbvia exceção.  

Há a incidência de uma percussão discreta, porém muito eficaz através da atuação do grande Fernando Marconi. Em grande parte de sua ação, dá a impressão que ele estabeleceu um típico desenho rítmico de samba através de uma singela caixa de fósforos. Não me recordo, sinceramente, se o Fernando usou de fato uma simplória caixa de fósforos para gravar ou se utilizou um instrumento de percussão formal para reproduzir tal atmosfera tão informal a caracterizar uma ação improvisada de mesa de bar. 

Aliás, cabe acrescentar que essa questão de se edulcorar encontros boêmios de bar, sempre foi um mote usado pelo Língua de Trapo ao longo da sua carreira inteira, exatamente para recriar uma atmosfera de MPB antiga, um de seus motes prediletos, principalmente na ótica de Guca Domenico e Carlos Melo, os membros mais entusiasmados pelas raízes tradicionais da MPB.

Vale ainda ressaltar que a interpretação do Laert é cheia de maneirismos que são divertidíssimos, ao abusar de gritinhos e onomatopeias e que eu afirmo que funcionavam ao vivo de uma maneira muito eficaz. 

Continua...

domingo, 28 de setembro de 2025

Autobiografia na música - Língua de Trapo - Capítulo 143 - Por Luiz Domingues

O lado bom de ter chegado a um ponto longevo da carreira e da vida, é que por estar no ramo artístico e cultural, muita novidade surge o tempo todo a alimentar as redes sociais, sobretudo com menções, discussões, fóruns, homenagens e toda a gama de citações ou apresentação de materiais de todo o tipo a respeito de diversas bandas pelas quais eu atuei no passado e ainda atuava naquele então presente.

Portanto, mesmo sobre os trabalhos mais antigos, cuja perspectiva de aparecer algum material surpreendente é mais remota, na prática isso não pode ser considerado como uma regra rígida, porquanto a qualquer momento pode ser anunciada alguma novidade extraordinária.

Outro ponto importante, é que tenho como característica pessoal o otimismo e nesses termos, guardo comigo a esperança sempre vívida de que resgates arqueológicos a respeito de todas as bandas pelas quais atuei no passado possam surgir e nutro tal sentimento sem obstinação, pois dentro de uma visão realista, não tomo tal expectativa como algo imperativo, todavia, quando simplesmente aparece algo nesse sentido, me regozijo, simplesmente.

No caso específico da demo-tape gravada pelo Língua de Trapo ao final de 1980, eu já havia resgatado anos atrás, três faixas desse trabalho realizado, com a minha participação como membro oficial do grupo, durante a minha primeira passagem por ele, entre 1979 e 1981.

Cabe uma boa explicação sobre a fita K7 em si. O fato é que essa fita foi gravada e lançada em 1980, mas quando eu saí da banda em janeiro de 1981, o Língua de Trapo passou por uma profunda reformulação. E nesses termos, quando uma nova formação se colocou em plena atividade, os seus membros resolveram entrar em estúdio novamente para gravar mais músicas novas que estavam a ser preparadas.

E como consequência, foi tomada a resolução de reformular a fita demo original de 1980, ao suprimir algumas músicas e acrescentar outras, que haviam gravado recentemente. O resultado prático dessa mudança, foi que a fita nova que passaram a vender nos shows e que também se tornara o material de divulgação principal da banda na ocasião e que certamente muito contribuiu para a sua ascensão meteórica da metade de 1981 em diante, é fato,  por conseguinte, que diminuiu e muito a minha participação.

Isso está expresso na ficha técnica que foi anexada como um encarte da fita K7, ao assinalar a então nova formação e destacar o meu nome e o do tecladista, Celso Mojola como ex-membros e a destacar as faixas em questão das quais atuamos a gravar.

Em suma, ao ser brindado pelo meu amigo Laert Sarrumor em setembro de 2025, com o acesso ao material, pude enfim resgatar as seis faixas das quais participei nessa fita remodelada de 1981. No caso, apenas quatro, é preciso ressalvar, pois, conforme eu já havia esclarecido anteriormente, três faixas já haviam sido expostas no meu canal de YouTube número 1 e também nos meus Blogs 2 e 3 e no caso, dessas três, apenas uma não consta nessa versão remodelada de 1981.

E por fim, deixo registrado que apesar de ter lançado as tais três músicas anteriores, fiz questão de reproduzir as duas que são repetidas em relação às publicações que eu havia feito anteriormente no meu canal 3, por simplesmente ter desta feita, uma "capa" nova a conter as ilustrações que o Laert também me enviou nessa remessa de setembro de 2025. 

Continua... 

sábado, 19 de novembro de 2022

Autobiografia na Música - Língua de Trapo - Capítulo 141 - Por Luiz Domingues

Dentro da perspectiva que se abrira para a construção da minha autobiografia já há alguns anos, inclusive a dar conta de que a qualquer momento poderiam surgir fatos novos sobre antigos trabalhos, nenhuma banda com a qual atuei no passado haveria de se ausentar de tal predisposição.

Foi assim que shows reunião com a Patrulha do Espaço e o Pedra ocorreram, quase houve o d'A Chave do Sol, e neste caso somente interrompido pelo advento da grande pandemia decorrente do Coronavírus e em seguida pela morte repentina do Rubens Gióia.

E sim, muitas novidades surgiram em termos de discos póstumos, vídeos, resgate de material em geral, principalmente para Patrulha do Espaço, mas igualmente para o Pedra e com o destaque para o lançamento de meia dúzia de discos piratas a conter material raro d'A Chave do Sol, além de novidades com clips novos para o Pitbulls on Crack.

Nesses termos, fiquei atento e já a antever que tais bandas poderiam gerar mais novidades vindouras e melhor ainda, outras bandas do passado da minha carreira, igualmente poderiam vir à tona com novidades.

Foi quando em 2022, eu finalmente comecei a organizar os três canais que eu possuía e não usava simplesmente, no portal do YouTube, por não saber lidar com a tecnologia, principalmente, nos anos anteriores. Por conta de haver dominado vários aspectos dessa linguagem, eu percebi que poderia enfim dar um destino organizado para tais ferramentas e em princípio, destinei cada canal a ser um veículo de apoio ao seu respectivo blog correspondente.

E uma das primeiras resoluções que tomei, foi a de organizar a apresentação inicial de cada canal, com as suas respectivas configurações bem ordenadas e para tal, considerei que estabelecer uma unidade de "playlists" para cada canal, a conter todo o material em vídeo correspondente para cada banda pela qual atuei e atuava naquela realidade de 2022, se fez mister.

E no bojo dessa organização em sentido uniforme para os três canais, eu percebi que precisava ter o domínio completo sobre todos os discos que eu gravei em minha carreira, mediante atuação em todas as bandas pelas quais fui membro, para me tornar independente dos endereços alheios e não ser frustrado com o advento de pessoas, muitas das quais eu nem conhecia pessoalmente, que simplesmente poderiam tirar do ar o seu conteúdo, sem maiores explicações e eu ficar sem referência sobre as músicas que gravei.

Foi nesse sentido inicial que eu fiz questão de ter as duas músicas que gravei ao vivo com o Língua de Trapo, lançadas no compacto "Sem Indiretas" de 1984, sob o meu domínio, e claro, a fornecer todos os créditos devidos para quem de direito e devidamente avisado pelo YouTube de que uma possível futura monetização do meu canal renderia aos detentores dos direitos sobre as duas músicas, a devida parcela de seus direitos autorais assegurados.

"Amor à Vista" (Laert Sarrumor) - Compacto "Sem Indiretas" - 1984

Eis o link para assistir no YouTube:

https://www.youtube.com/watch?v=4xTm9YMY1ZU

"Deve Ser Bom" (João Lucas) - Compacto "Sem Indiretas" - 1984

Eis o link para assistir no YouTube:

https://www.youtube.com/watch?v=IvH7SX00pg4

No entanto, obter o domínio sobre a renderização para as músicas que gravei através dos discos lançados pelas minhas tantas bandas acumuladas na carreira, não caracterizava uma novidade gerada, propriamente dita. Portanto, a novidade que o Língua de Trapo movimentou para a minha autobiografia em pleno 2022, ou seja, trinta e oito anos depois da minha saída da banda (em minha segunda passagem por ela, bem explicado), foi outra, mais esfuziante.

Ocorre que eu sabia há tempos que o meu colega, Laert Sarrumor, tinha salvo três músicas da demo-tape que havíamos gravado em 1980, em uma plataforma que armazenava áudio, chamada "Soundcloud". Tudo bem, eu havia anexado ao capítulo correspondente dessa efeméride, os três "links" a representar tais músicas para que os leitores tivessem acesso, assim como no arquivo do meu Blog 3, a conter todo o material gerado pelo Língua de Trapo em minhas duas passagens pela banda.

No entanto, assim que comecei a organizar de fato os meus canais de YouTube, eu percebi que enriqueceria em demasia o acervo se tais músicas ganhassem igualmente uma publicação no YouTube, muito mais popular e acessível facilmente por conseguinte, e melhor ainda, a conter uma ficha técnica mais robusta para ilustrar melhor a história da banda e por extensão a minha, com o partícipe dessa realização histórica dos primórdios do Língua de Trapo.

Continua...

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Autobiografia na Música - Língua de Trapo - Capítulo 140 - Por Luiz Domingues

Lizoel Costa
Lizoel Costa mostrava-se o mais engajado na música, quando o conhecemos no segundo semestre de 1979. Enquanto os demais eram estudantes de jornalismo a envolver-se com a música, ele já colocava-se como um músico profissional que estudava jornalismo. Através dele, tive oportunidades para ganhar dinheiro como músico, quando este impulsionou-me por diversos trabalhos avulsos que realizei, através de suas indicações. Tais histórias bizarras que vivemos juntos nesses trabalhos, estão relatadas nos capítulos dos "Trabalhos Avulsos".

O Lizoel era uma figura muito agradável no convívio, e certamente entre todos os membros, o que mais ligara-se em questões estratégicas de construção de carreira. Enquanto os demais divagavam a sonhar com o sucesso, mas sem planificação objetiva alguma, ele enxergava na frente, sempre a pensar na estratégia, em aproveitar as oportunidades, contatos etc.


Nessa época em que o conheci, décadas antes da Internet tornar-se aberta e popular, ele costumava carregava em sua bolsa, um caderno com centenas de nomes e números de telefones de músicos. Tratava-se de um cadastro que organizara, e de onde vivia a indicar instrumentistas e cantores para diversos trabalhos. Sempre procuravam-lhe a perguntar : -"Lizoel, preciso de um guitarrista para tocar tal estilo de música"...; -"preciso de um saxofonista para tocar Jazz"; "preciso de uma cantora de MPB"...

Ele parecia uma agência de empregos ambulante... e assim, ajudou muita gente a colocar-se no mercado e garantir o pão nosso de cada dia. Quando voltei à banda em 1983, a sua veia natural para a logística e construção de carreira, estava ainda mais aguçada. Tivemos muitas conversas nesse sentido, e certamente que aprendi muito com ele. Depois que o Língua de Trapo deu uma parada, por volta de 1988, ele engatilhou um trabalho com o ex-Secos & Molhados, Gerson Conrad, na verdade, ambos formaram uma banda : "Banda Nacional", mas que não teve longa carreira, infelizmente. Na volta do Língua de Trapo, no início dos anos noventa, ele já não fazia parte da nova formação, e estava de volta à sua cidade natal, Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, onde por muitos anos foi um radialista com sucesso. Inclusive, falei com ele em 2006, ao visar divulgar o CD de estreia do Pedra, recém lançado na ocasião. Com minha entrada na vida virtual em 2010, reativamos o contato através da extinta Rede Social Orkut, de onde soube que havia mudado-se para Brasília e trabalhava na ocasião, como assessor de imprensa do Conselho Federal de Odontologia.

Infelizmente, tivemos uma péssima notícia sobre o Lizoel Costa, em 2014. É com muito pesar, que anuncio que ele faleceu no dia 7 de maio desse ano, em sua cidade natal, Campo Grande / MS, aos 58 anos de idade, vítima de uma aneurisma cerebral. Fico com as lembranças boas do tempo em que trabalhamos juntos no Língua de Trapo, além de alguns trabalhos paralelos em que ele mesmo encaixou-me, dentro daquela prerrogativa citada anteriormente, a exaltar a sua capacidade para abrir portas para diversos músicos poder trabalhar e ganhar dinheiro. 

Em 9 de maio de 2014, o programa, "Rádio Matraca", realizou um programa especial em sua homenagem, que está disponível em arquivo permanente na Internet, através do Link abaixo, no site da emissora USP FM / 93.7 de São Paulo. 

http://www.radio.usp.br/programa.php?id=20

Abaixo, o Link da Folha de São Paulo, a anunciar o seu falecimento :

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2014/05/1451596-morre-aos-58-anos-o-musico-lizoel-costa-da-banda-lingua-de-trapo.shtml

Abaixo, o Link da Revista Rolling Stone a noticiar também o falecimento do Lizoel Costa :

http://rollingstone.uol.com.br/noticia/morre-lizoel-costa-da-banda-lingua-de-trapo/

Vá em paz, velho amigo e muito obrigado por tudo, "Bitcho" !

Pituco Freitas

Antonio "Pituco" Freitas, era um rapaz com potencial vocal espetacular, quando o conheci em 1979. Mas no início, mostrava-se sério, compenetrado. Assim foi a apresentar-se nos primeiros tempos difíceis da banda, até que um fato inusitado do destino mudou a sua perspectiva artística. Graças ao nervosismo em enfrentar cinco mil pessoas em meio a um festival universitário de MPB, realizado na cidade de Bauru / SP, em 1980, transformou-se completamente, e dali em diante, explodiu como um frontman com enorme desenvoltura cênica, praticamente a tornar-se um ator performático em cena.

Como pessoa, um colega excepcional; amigo; prestativo e solidário. Por meio indireto, foi o responsável por eu ter conhecido o baterista, José Luiz Dinola (por conta de seu irmão, o guitarrista, Pitico Freitas), com o qual fundei e atuei com A Chave do Sol.
Pituco  Freitas vive no Japão há muitos anos, onde sedimentou uma carreira como cantor / violonista e compositor, quando voltou às suas raízes como um intérprete "sério", para deixar o humor de lado, mas a encantar os nipônicos com a sua Bossa Nova muito bem tocada e cantada. 

Laert Sarrumor

Laert "Sarrumor", claro, sempre foi o centro irradiador, o grande dínamo da energia criativa da banda, e assim, o tem sido até hoje, e sempre será. Agradeço-o por ter levado-me ao "Grupo de Poesia e Arte Faculdade Cásper Líbero", quando inseriu-me em um novo núcleo, de onde eu supostamente não fazia parte , inicialmente. De certa forma, graças a tal gesto de amizade de sua parte, garantiu que a semente do Boca do Céu germinasse, para dar início a uma nova cria, que só um ano mais tarde, tornar-se-ia assim, o Língua de Trapo. 

Como já disse, fomos encontrando-nos posteriormente nesses anos todos, após a minha saída do Língua de Trapo, em 1984, em muitas circunstâncias. Por divulgar outros trabalhos meus, com outras bandas em que fui componente, no seu programa de Rádio (Rádio Matraca / USP FM); encontros fortuitos em lugares inusitados (encontros de rua, como até em uma papelaria, certa vez); bastidores de shows; e pelo fato dele ter afeiçoado-se ao Pedra e ter assistido muitos shows dessa banda, da qual eu fui componente, de 2004 a 2011 e 2012 a 2015. Estive em festas de aniversário dele, e mantemos um ótimo contato permanente, pelas Redes Sociais da Internet.

Quando encerrei o texto bruto da minha autobiografia referente ao Boca do Céu, aqui no meu Blog 2, mandei-lhe imediatamente o Link para que ele lesse tudo. Vivo a instigar-lhe para que escreva a sua autobiografia também. Ele, que já escreveu livros com muito sucesso (foi best-seller absoluto por várias semanas, inclusive), e tem o traquejo, faria / fará, um trabalho magnífico. Todavia, em conversa reservada, disse-me que ainda reluta em dar início. De minha parte, tem o meu apoio total, e nas partes onde nossas respectivas trajetórias cruzam-se, eu adorarei ter o ponto de vista dele sobre o Boca do Céu e o Língua de Trapo, bandas onde atuamos juntos. E revelo um dado que considero pertinente, e sei que isso não o aborreceria : na época do Boca do Céu, ele mantinha o hábito em escrever um diário. Portanto, munido dessas anotações, ele tem tudo para escrever tal história com muito maior riqueza de detalhes do que eu fiz, pois as minhas anotações de apoio resumiram-se a datas de shows; locais e respectivo público presente, além de formação da banda e uma ou outra ocorrência especial.

Bem, é isso...  falei sobre todos os músicos que foram componentes nas duas passagens em que eu estive na banda; os membros honorários que muito contribuíram para o sucesso dela, e de todos os que estiveram mais diretamente ligados à sua produção. Agradeço a cada um, pela oportunidade em ter feito parte dessa história. Último capítulo dessa importante etapa de minha trajetória musical. A encerrar, peço desculpas pelas saídas que tive de efetuar, e pelas mágoas e transtornos decorrentes desses dois atos desagradáveis que cometi contra a instituição, Língua de Trapo. Sinto orgulho por ter feito parte dessa história. 

A banda está em atividade até os dias atuais (no ano de 2016, quando encerrei o texto bruto da autobiografia, o Língua de Trapo estava prestes a participar da premiação do Grammy Latino, nomeado em várias categorias pelo seu último e ótimo álbum, lançado nesse ano, denominado : "O Último CD da Terra"). Espero que assim prossiga por muitos anos, para arrancar as gargalhadas sinceras do público, e também para fazê-lo pensar, pois o humor do Língua de Trapo não é o popularesco, mas sim o de poder reflexivo. Quando o Língua de Trapo provoca risadas nas pessoas, elas riem de si mesmas, refletidas no espelho, ao ver que a sociedade e o poder político e econômico, são meramente reflexos da nossa própria mentalidade. Riem, mas pensam a seguir. 

Meu muito obrigado a todos que estiveram comigo nessas duas etapas de minha carreira. Meu muito obrigado ao Laert "Sarrumor" Julio Pedro Jesus Falci, um artista genial que conheci em um dia em 1976, e que graças ao seu talento e perseverança, deu-me a mão, e puxou-me a sair de um sonho impossível para a realidade da música e da arte. Vida longa ao Língua de Trapo !

Daqui em diante, a minha autobiografia na música segue com os capítulos dos "Trabalhos Avulsos", que realizei, fora das bandas oficiais onde atuei.

domingo, 17 de novembro de 2013

Autobiografia na Música - Língua de Trapo - Capítulo 133 - Por Luiz Domingues

A minha primeira interação com a banda, na condição de um ex-membro, ocorreu-me ainda em 1984. Mais ou menos em outubro ou novembro, não recordo-me ao certo, fui assistir um show do Língua de Trapo, no teatro Sesc Pompeia. Foi estranho assistir o espetáculo com tão pouco tempo decorrente de minha saída. Senti-me como se eu fosse ainda da um integrante da banda, pois sabia de cor todas as músicas; as marcações; as trocas de figurinos; piadas; vinhetas de áudio e vídeo... 

Ou seja, se o Mário Campos tivesse uma indisposição qualquer, eu pegaria o baixo, e faria o show inteiro, sem problemas, pois não enferrujara, apesar de três ou quatro meses, passados. 

Na primeira foto, Laert Sarrumor; Ayrton Mugnaini Jr. e Alcione Sana, em foto promocional do programa Rádio Matraca, mas já dos anos 2000
 
Quando o EP d'A Chave do Sol foi lançado em 1985, concedemos uma entrevista no programa de rádio que o Laert liderava, "Rádio Matraca", na USP FM. Ainda em 1985, tive um contato ainda mais próximo, e foi sensacional, pois pude amenizar, e muito, o meu sentimento em tom de remorso por ter deixado a banda, quando senti-me útil, sob uma circunstância especial para eles. 

O Língua de Trapo estava classificado para participar do Festival de MPB que a Rede Globo lançara naquele ano, ao tentar resgatar o glamour dos festivais dos anos sessenta. Foi sem dúvida, muito grandioso para aquele momento, e apesar de ter sido muito aquém dos festivais sessentistas, sob o ponto de vista artístico, fez bastante barulho em 1985. O Língua de Trapo esteve prestes a lançar um novo LP, com inéditas, naquele ano e participar de tal festival, pareceu ser o impulso que faltava-lhes para enfim ingressar no mainstream da música. Então, recebo o telefonema do Laert, a solicitar-me um favor.
Como seria um evento com um grau de alta responsabilidade, e o baixista, Mário Campos não possuía um baixo importado com qualidade naquela ocasião, o pedido foi para que eu emprestasse o meu baixo para a primeira eliminatória que eles cumpririam no Ginásio do Ibirapuera, em São Paulo, e eventualmente, se classificados, precisariam novamente do meu instrumento, na final, a ser realizada no Maracanãzinho, no Rio de Janeiro. Claro que aceitei na hora, por vários motivos. Primeiro pelo apreço à minha ex-banda, da qual tenho orgulho em ter sido um membro fundador; 
pela qualidade do trabalho; pela amizade com todos os membros daquela formação; por simpatia pelo Mário Campos, um rapaz muito gentil, mas também por outro motivo, mais "egoísta", de minha parte : a oportunidade para amenizar o meu remorso, por ter deixado a banda...


E assim, na 1ª eliminatória em que participaram, fui levar o meu baixo para o Mário usá-lo, no Ginásio do Ibirapuera, onde assisti o soundcheck da banda, e observei os bastidores de uma produção global, e sob peso pesado. A grandiosidade de tal produção, impressionara-me pela estrutura. O equipamento usado, mostrava-se gigantesco, ao parecer destinado para um show de Rock internacional, e a parte de aparelhagem de TV, tratou-se do que havia de mais moderno para a época, é claro. Ao circular pelos corredores, os participantes não eram "artistas desconhecidos", como seria para esperar-se de um festival criado para revelar novos talentos, mas pelo contrário, havia muitos artistas consagrados, sob clara intervenção das gravadoras, foi óbvio. Fiquei muito orgulhoso por ver a minha ex-banda nesse evento, em um "momentum" que pareceu ser (e o fora), ainda mais promissor do que aquele em que eu experimentara como membro, entre 1983 e 1984. Dessa forma, senti-me mais que orgulhoso, mas feliz por vê-los nessa ascensão, e de certo, aliviado por meu remorso ter ficado, muito diminuído, para não dizer, erradicado. 

Foi um furor a apresentação do Língua de Trapo, que assisti pela TV, apesar deles ter disponibilizado-me um convite, logicamente.
Com a canção : "Os Metaleiros Também Amam", satirizaram o Heavy-Metal, e toda aquela baboseira em torno do termo "metaleiro", uma invenção imbecil da parte dos marqueteiros do Festival Rock in Rio, então recém realizado, e massificado à exaustão pela Rede Globo.

Eu nunca gostei de Heavy-Metal, mas possuía muitos amigos nesse meio, e tinha a informação concreta sobre muita gente que passou a odiar mortalmente o Língua de Trapo, por conta dessa sátira, ao tomá-la como uma afronta pessoal ou aos seus anseios. E durante o festival, não foram só os "metaleiros" que ficaram indignados. O público comum da Rede Globo, escandalizou-se com a indumentária quase indecente com a qual o Pituco Freitas apresentou-se. 

O crítico Zuza Homem de Mello, um moralista e ranzinza contumaz, chegou a exaltar-se durante a transmissão ao vivo, ao tecer duras críticas ao Língua de Trapo, e ao Pituco Freitas, em específico. Bem, eu vibrei com a performance; a sátira e tudo mais. E até um certo orgulho por ver o meu baixo em ação, eu senti. Eles classificaram-se, e novamente emprestei-lhes o meu baixo, que viajou ao Rio de Janeiro, desta feita, sem a minha presença...

Depois dessa ocasião, só tive encontros sazonais e individuais com os membros da banda, até que em 1996, o Laert procurasse-me para fazer parte de uma banda, que faria um Tributo à Janis Joplin. Essa história já foi contada no capítulo : "Trabalhos Avulsos".

Mais encontros casuais ocorreram nos anos seguintes, e em 2005, fui convidado para o show de lançamento de uma caixa comemorativa pelos vinte e cinco anos de existência da banda, com o próprio Laert a ironizar tal efeméride por estar "errada", visto que em 2005, comemorava-se na verdade, vinte e seis anos. Nesse dia, ao chegar ao camarim, eu estava eufórico, por que acabara de entrevistar o mítico radialista, Jacques Sobretudo Gersgorin, do programa radiofônico : "Kaleidoscópio", sob uma produção proporcionada-me pelo jornalista, Bento Araújo, que a publicou na edição n°11, da revista Poeira Zine (Thin Lizzy, na capa). 

E, sabedor que o Laert também amava o Kaleidoscópio, uma paixão setentista comum para nós dois (Serginho Gama também era muito fã), cheguei com essa novidade, e os telefones do Jacques em mãos, para que o Laert o convidasse a participar do seu programa radiofônico, "Rádio Matraca", oportunidade que de fato ele engatilhou para o início de 2006, e eu tive o prazer de participar, também. Fora essa questão, o show do Língua de Trapo foi hilariante, como sempre, e vários ex-membros estiveram presentes, quando ao final, todos foram chamados ao palco para participar de um coral de "Concheta", que foi filmado, mas que nunca encontrei no You Tube, e talvez esteja engavetado para um lançamento em DVD, no futuro. 
                    Pedra ao abrir o Uriah Heep, em 2006

Foi nesse dia que o baixista, Luiz Lucas, falou-me sobre um empresário que estaria a trazer dinossauros do Rock setentista e que poderia encaixar o Pedra, a minha banda na ocasião, nesse festival. De fato, um ano depois, o Pedra abriu o show do Uriah Heep.  
No dia em que o Jaques "Kaleidoscópio foi ao programa Rádio Matraca, em 2006 : Da esquerda para a direita, Alcione Sana (minha ex-aluna de baixo... mundo pequeno...); o diretor da USP FM (Marcelo Bittencourt); Jacques e Laert Sarrumor. Ao fundo, Zé Brasil. Eu não estou no enquadramento dessa foto, mas estava ao fundo, perto do Zé Brasil, e do jornalista, Bento Araújo. Click; acervo e cortesia : Grace Lagôa

Nessa segunda foto, enfim na foto, com tantos amigos juntos ao grande Jaques "Kaleidoscópio", uma das maiores influências setentistas que tenho na contracultura em geral. Em pé, da esquerda para a direita : eu, Luiz Domingues; Zé Brasil (Apokalypsis); Bento Araújo (editor da Revista Poeira Zine; e Marcio Gali Ortiz (sonoplasta da USP FM). Sentados : Alcione Sana; Marcelo Bittencourt (diretor da USP FM); Jaques Sobretudo Gersgorin (Kaleidoscópio), e Laert Sarrumor. Click; acervo e cortesia : Grace Lagôa
 

Depois desse evento, teve essa entrevista do Jacques no programa : Rádio Matraca, e outra em que participei com o Bento Araújo, para falar sobre os shows do Alice Cooper, em 1974, no Brasil. E finalmente, em 2011, o Pedra culminaria em realizar o seu último e melancólico show (a banda voltaria à ativa, um ano depois), sob um projeto encabeçado pelo próprio Laert, no Bar Melograno, em São Paulo. De fato, ele era (é), um fã do trabalho do Pedra, e ficou chateado por saber do fim da banda, ao lamentar isso pessoalmente para nós, mas também publicamente, pelas redes sociais da Internet, principalmente através do Facebook. 

Mas, quando o Pedra voltou às atividades, em 2012, ele vibrou, e  programou-nos para mais um show no mesmo espaço, produção que cumprimos com muito prazer. Basicamente foram esses os meus momentos pós-Língua de Trapo, depois de deixar a banda no ano de 1984...
Pedra & Laert Sarrumor, no Bar Melograno, em São Paulo, em dezembro de 2012. Click; acervo e cortesia : Grace Lagôa


Continua... 

sábado, 16 de novembro de 2013

Autobiografia na Música - Língua de Trapo - Capítulo 132 - Por Luiz Domingues


Domingo, 8 de julho de 1984... eu estava convicto sobre o que decidira, ter sido o melhor para a minha carreira, sem dúvida. Todavia, por tudo o que já exprimi amplamente nessa narrativa, nas últimas semanas de junho, e início de julho de 1984, eu estava com o coração apertado por essa despedida. E claro que o último show foi muito difícil sob todos os aspectos. 

Todavia, decisão tomada e irreversível, precisava enfrentar a melancolia da despedida, fora os olhares pouco confortáveis dos companheiros, e o que mais doía-me, fora o do Laert, sem dúvida, pelos anos de amizade, mas sobretudo por termos caminhado juntos desde a nossa primeira banda na carreira de ambos, o Boca do Céu, no longínquo ano de 1976. Enfim, tarefa nada fácil... 
Para piorar o meu estado de ânimo, na noite de sábado, após ter feito o meu penúltimo show, quando fui levar a minha namorada em sua casa, fui surpreendido com sua decisão súbita de rompimento de relação, da parte dela. Cáspite, como assim ? Pois é, Dona Débora não tinha dado nenhum sinal de descontentamento com o namoro até então, mas justo naquela noite melancólica que eu vivia por conta da minha despedida da banda, eis que ela veio com essa... ao alegar a famosa incompatibilidade de gênios etc e tal. Não tratava-se de um relacionamento longo e nem foi o caso para desestabilizar-me pelo rompimento em si, mas, justo naquela noite ? Resultado : fui para a minha casa, e essa súbita notícia potencializou a minha melancolia pelo último show que faria com o Língua de Trapo, no dia seguinte. 

Veio o domingo e lá fui eu para o CCSP, com a minha mochila de a conter o figurino do show, que eu usaria pela derradeira oportunidade. Eu estava bastante sensível naquele dia, e sabia que precisava ter autocontrole para não emocionar-me no palco, pois previ o nó na garganta, e o frio na barriga, inevitáveis. 

Ao superar as bilheterias de sexta e sábado, nesse domingo, batemos de novo o recorde. Nunca esqueci-me do número, que o ator, Paulo Elias, citou com euforia no camarim : mil trezentos e vinte e quatro pagantes ! Impressionante ! O triplo da capacidade oficial daquele teatro, ou seja, houve gente espremida por todos os cantos. Nunca, em todos os shows que ali fiz (e considere, caro leitor, que ali toquei com todas as bandas de carreira por onde atuei, ao considerar as que gravaram discos oficiais), toquei para um público tão grande. Quando o show começou, para cada música que encerrava-se, veio na minha mente o disparo melancólico de que fora a última vez em que eu tocaria aquela canção etc. 

Em "Amor à Vista", que era uma de minhas músicas prediletas, tive que controlar-me, pois os olhos marejaram. E quando o show encerrou-se, muito dessa minha melancolia, foi camuflada pela euforia do público, e um inevitável assédio muito forte, no camarim.

A despedida foi discreta, ali, pois ainda encontrar-me-ia com a banda, no escritório do empresário, Jerome Vonk, para o meu último acerto de contas. E de fato, no dia seguinte, isso aconteceu.
Recebi um cachet robusto pela última semana, vitaminada por bilheterias tão cheias, e despedi-me de todos, ao dar por encerrada a minha participação no Língua de Trapo. Já na semana subsequente, eles teriam um show em Mococa, no interior de São Paulo, mas para amenizar, no mesmo final de semana, eu estaria com A Chave do Sol, em uma badalada danceteria da moda em São Paulo, recém inaugurada pelo Barão Vermelho, de Cazuza, mas essa história é contada nos capítulos dessa banda (aliás, essa história é muito interessante, principalmente pelo seu desfecho financeiro, inusitado). O Jerome lamentou mais uma vez a minha saída, ao falar-me que estava a fechar uma série de shows avulsos pelo interior, e que o valor do cachet estava a subir etc . 
O João Lucas lamentou a minha decisão, mais uma vez, pois realmente tornáramos muito bons amigos, durante esses dez meses sob convivência. Tínhamos raízes musicais e cinematográficas, muito fortes.

O Lizoel Costa também lamentou, pois achou que dei um mau passo na carreira, visto que o Língua de Trapo estava a ser cortejado por gravadoras multinacionais, e A Chave do Sol era só uma aposta. E muito observador do mercado, ele enfatizara que representava uma aposta com risco, porque não éramos uma banda do espectro do BR-Rock 80's, que estava em voga. Ele teve razão por esse aspecto. 

Outro que manifestou-se, foi o Pituco Freitas, que também lastimou, ao verificar que eu, apesar de ser um Rocker inveterado, precisava pensar mais friamente no futuro, e não havia comparação entre o Língua de Trapo e A Chave do Sol, naquele momento, pelo aspecto da projeção artística adquirida, apesar do crescimento enorme que A Chave do Sol estava por apresentar.
 
 

Serginho Gama, Naminha e Paulo Elias também chatearam-se, mas apoiaram-me, ao perceber que o meu intento sempre foi o Rock, e de fato, estava empolgado com os rumos d'A Chave do Sol. 

O Laert estava bem chateado comigo e eu entendia perfeitamente que estivesse assim. Não vou repetir o que já falei exaustivamente ao longo desta narrativa e dessa forma, considero bem explicado e esmiuçado. Portanto, em 8 de julho de 1984, fiz o meu último show com o Língua de Trapo, e no dia 9, feriado estadual paulista, participei da última reunião das segundas, com a banda e o empresário, Jerome Vonk. Todavia, haveria fatos relacionados após a minha saída, que mantiveram-me ligado à banda, ainda que indiretamente, e que valem a pena ser revelados. 

Continua...

Autobiografia na Música - Língua de Trapo - Capítulo 131 - Por Luiz Domingues

No segundo show, o coração apertou bastante. Em alguns momentos, a emoção do show misturou-se à minha, pessoal, e tive que controlar-me, para não desestabilizar-me. Foi o sábado, 7 de julho de 1984, e o público foi ainda maior. Fico a pensar nos padrões de segurança de hoje em dia, como seria possível colocar mil e cem pessoas, em um teatro cuja capacidade oficial seria para abrigar quatrocentas e poucas pessoas ? Pois foi o que aconteceu, por que mil e cem pessoas acotovelaram-se por todos os cantos. Foi óbvio, a escada lotou e tornou-se uma mini arquibancada, e pelo chão, pessoas sentaram, e não houve um mínimo espaço para ninguém mexer-se. Se alguém precisasse ir ao banheiro, teria que segurar a necessidade fisiológica com bastante veemência...

Dois fatos curiosos ocorreram nessa noite. O primeiro, foi que dois jogadores do Corinthians foram assistir o show.  Solito, goleiro, e o lateral esquerdo, Wladimir. 

 

Mesmo ao portar-se discretos ali, e com a intenção apenas em assistir o show, claro que despertou a atenção do público, e os inevitáveis gritos futebolísticos pró e contra Corinthians foram ouvidos, mas sem perder a estribeira, ao atrapalhar o nosso show. Lembro-me particularmente do Solito, goleiro, a rir muito, acompanhado pela sua esposa ou namorada, não sei dizer ao certo. E o segundo evento, foi que o Laert, em algum momento do show, fez uma piada sob improviso, sobre estarmos ali para ganhar dinheiro, sermos "mercenários", abertamente etc. Fora uma mera galhofa, um "caco" como diz-se no jargão do Teatro.

Mas alguém da parte superior do mezanino, levou a brincadeira a sério, ou quis amplificar a brincadeira, e jogou uma moeda...
Como fala-se no ditado, basta atirar a primeira pedra e daí... uma inacreditável chuva de moedas passou a ocorrer, a contaminar também a plateia da parte inferior. Em um improviso viral, todos os membros da banda começaram a apanhar as moedas e colocar no bolso, ao tornar o improviso, uma enorme pilhéria. 


Mas a quantidade foi tão grande de moedas, que no camarim, depois do final do show, todos contabilizaram um "lucro extra", que vitaminou o cachet, que certamente seria "gordo", com aquelas duas bilheterias super lotadas que tivéramos, na sexta e no sábado .E de fato, o dia seguinte teve a proeza em bater o recorde, com ainda mais pagantes no teatro. 

Aproximara-se a hora... meu último show no Língua de Trapo, seria no dia seguinte, domingo...

Continua...