Neste meu segundo Blog, convido amigos para escrever; publico material alternativo de minha autoria, e não publicado em meu Blog 1, além de estar a publicar sob um formato em micro capítulos, o texto de minha autobiografia na música, inclusive com atualizações que não constam no livro oficial. E também anuncio as minhas atividades musicais mais recentes.
quinta-feira, 8 de janeiro de 2015
Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 230 - Por Luiz Domingues
Uma das histórias citadas sobre os primeiros shows de Beto Cruz com a nossa banda, começou na verdade, alguns dias antes do primeiro show em questão. Surgiu uma proposta para tocarmos em num show coletivo, na cidade de Santos, litoral de São Paulo. Ele seria realizado no ginásio poliesportivo do Santos F.C., anexo ao estádio Urbano Caldeira, popularmente conhecido como, "Vila Belmiro". O contato foi de um produtor, com escritório localizado no centro velho de São Paulo, e que segundo apuramos preliminarmente entre colegas que também haviam sido contactados, este seria um típico empresário popularesco, daqueles que lidam com tal espectro musical e portanto, não continha nenhuma experiência com shows de Rock.
O sinal amarelo acendeu não apenas em nossa percepção, mas também na desconfiança da parte de vários colegas, membros de outras bandas que estavam envolvidas, igualmente. Contudo, não poderíamos descartar imediatamente, sem ao menos conhecer a proposta do rapaz, e assim, fomos conversar, naturalmente. O sujeito era bastante falante e demonstrava uma autoconfiança no que dizia, sem dúvida.
Era, contudo, uma pessoa dotada de poucos recursos educacionais e demonstrava ter baixo nível cultural, porém, dentro do seu ramo de atividades, pareceu-nos ter uma noção básica, ainda que com a devida ressalva de que o seu métier era o mundo da música brega, e nesse aspecto, as produções que estava acostumado a lidar, sem dúvida, respondiam aos parâmetros marcados pelo baixo nível no tocante ao uso de equipamentos. Para não dizer que grande parte das produções que fazia, com tais artistas, era na base do play back, ou seja, shows onde dispensava-se a necessidade para tocar-se e cantar-se ao vivo, prática normal entre tais artistas, mas que para Rockers como nós, causava arrepios tal ideia estapafúrdia.
O sujeito falou sobre como seria o suposto "festival"; o equipamento que teríamos ao nosso dispor; estrutura de camarim e a logística do transporte, com um ônibus fretado pela produção, a partir do centro de São Paulo, para conduzir todas as bandas envolvidas. Falou também sobre a divulgação que parecia eficaz, inclusive a conter com apoio de Rádio e da TV local, e o melhor de tudo : um cachet fixo e sob um valor digno, eu diria. Para um sujeito rude como ele apresentou-se para nós, esse aceno todo, chegou a surpreender-nos.
Foto extraída da primeira sessão de fotos com o novo vocalista, Beto Cruz, integrado à banda. Novembro de 1985
Ponderamos que seria uma oportunidade boa para o Beto fazer a sua estreia, e assim quebrar a expectativa, visto que no dia seguinte, teríamos um show a ser realizado no Sesc Campestre, em São Paulo, e tratávamos tal segundo compromisso com maior cuidado, primeiro por ser uma unidade de Sesc, onde sempre havia a preocupação para causar uma boa impressão nos bastidores, e assim visar-se entrar nesse circuito cobiçado, e segundo, por que houve a perspectiva de jornalistas estar presentes, para cobrir o show. E, mesmo que o show de Santos não fosse uma maravilha, o tal produtor oferecia a perspectiva de um contrato assinado, o que foi uma rara ocasião em que sentimo-nos seguros em relação ao cumprimento das promessas feitas de forma verbal. Neste caso, não tivemos nada a perder, sob uma leitura bem superficial. Dessa maneira, fechamos o contrato e assim fomos oficialmente escalados para o tal festival.
Uma exigência do contratante, no entanto, causou-nos um aborrecimento inevitável. Dada a circunstância do contrato, fomos obrigados a regularizar a nossa situação na Ordem dos Músicos e passar novamente (no meu caso), pela ridícula prova de aptidão, e além disso, o pior de tudo, obrigados a pagar as taxas altas e abusivas que tal instituição cobrava. Hoje, em dia (2015), a Ordem dos Músicos abrandou muito a sua rigidez opressiva, mas naquela época, adotava uma imposição bastante antidemocrática para com os seus afiliados. Nesses termos, era sempre odioso ter que submeter-se às suas regras e sobretudo desembolsar uma quantia indigesta para obter-se o "direito" em tocar, sem ser importunado por seus "fiscais", geralmente brucutus arrogantes e intransigentes, a agir como verdadeiros agentes da Gestapo. Eu mantinha a minha carteira desde 1982, mas em 1985, relaxei a guarda e não paguei a anuidade, portanto fui obrigado a pagar a multa e naquela época, o exame de aptidão era obrigatório, todo ano, a causar constrangimentos. Os meus colegas tiveram que preparar as suas respectivas carteiras pela primeira vez, pois há anos postergavam tal "obrigação". Paciência... se o contrato em questão exigia tal documento regularizado, achamos que valeu a pena, pois o cachet acordado foi bom.
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terça-feira, 6 de janeiro de 2015
Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 229 - Por Luiz Domingues
Beto Cruz rapidamente começou a trabalhar conosco, pois o tempo urgia. Tínhamos compromissos agendados, e ele precisava adaptar-se à banda, o quanto antes. Em princípio, ele teria que cantar todas as músicas do EP, mais "Luz", do compacto. Eventualmente contaríamos com "Átila", e "18 Horas" no repertório, mas não queríamos carregar muito nos temas instrumentais. O fato dele ser guitarrista, animou-nos, pois além de ser uma possibilidade inédita para a banda, facilitaria e muito o processo de criação de novas canções, pois ele também era compositor e criador de Riffs.
Em princípio, não cogitávamos que ele tocasse guitarra nos shows, mas tornou-se uma real possibilidade que não descartávamos para o futuro. Ele começou a ensaiar conosco ainda naquela semana e apreciamos muito o astral dele, sob vários aspectos. Além de mostrar-se apto como cantor; guitarrista, e compositor / letrista, o Beto mostrou-se decidido, com personalidade forte. Ele tinha muitas ideias sobre gerenciamento; marketing, e tal demonstração de versatilidade extra musical, agradou-nos bastante.
E ele sabia exatamente que seria uma oportunidade muito boa que estava a aproveitar, pessoalmente, ao saber dimensionar o tamanho que A Chave do Sol detinha naquele momento, e a possibilidade de crescimento que ostentava. Agimos o mais rápido que pudemos ao providenciarmos uma sessão de fotos imediatamente; um novo release e usamos a mala postal do fã clube para anunciar a notícia oficial de sua entrada na banda.
O Luiz Calanca lamentou a saída do Fran Alves, e certamente, como produtor fonográfico da banda, enxergou nessa troca, com o novo disco ainda quente, e recém saído da fornalha, um prejuízo e tanto para o seu investimento. Ele teve razão sob esse aspecto, certamente. Mas...o que poderíamos fazer para evitar tal situação ?
Sobre o Beto, as informações que tínhamos foram de que ele tinha tido uma recente participação em uma banda orientada pelo estilo Hard-Rock radicada no interior de São Paulo (Mogi-Guaçu), denominada : "Zenith". Tratava-se de uma boa banda, com bons instrumentistas em sua formação e a contar com composições de bom nível, vide a canção : "Change My Evil Ways", que era do repertório dessa banda, mas como tratava-se de uma composição do guitarrista dessa banda (Zé Carlos Vasconcellos), em parceria com o Beto, este último a trouxe para A Chave do Sol, e assim, nós a gravaríamos ao final de 1987, a constar do LP The Key.
E antes da passagem pelo Zenith, o Beto Cruz vinha de uma banda a atuar na noite com covers, onde o baixista fora o seu irmão, Claudio Cruz (baixista do Harppia, já a partir de 1986), e um dos bateristas que por ali passou, foi Charles Gavin, que posteriormente foi fundador do Ira, e que depois, integraria a formação dos Titãs.
A orientação musical do Beto, era toda calcada em sonoridades a ver com os anos 1970. Ele apreciavaa coisas boas dos anos sessenta, certamente, mas o que gostava mesmo era das sonoridades setentistas, notadamente em termos de Hard-Rock, como por exemplo o som de bandas como : Led Zeppelin; Bad Company & afins. Em termos vocais, ele gostava muito de Robert Plant e David Coverdale, e dessa forma, saiu a voz rouca de Fran Alves e ganhamos a voz mais "aveludada", talvez mais palatável aos ouvidos do público, que tanto estranhou e rejeitou a voz potente de Fran Alves. Bem, essas foram as primeiras impressões e informações sobre o Beto Cruz que obtivemos logo no início de sua entrada na banda. Teríamos dois shows para cumprir já no início de novembro de 1985, e ambos continham características de shows para um público de grande porte. Ambos geraram histórias... e algumas delas, engraçadas...
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Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 228 - Por Luiz Domingues
Com a rápida percepção da parte de Rubens Gióia, cortamos caminho a entrarmos em um tremendo atalho, pois a tendência natural teria sido iniciarmos um longo processo de busca e escolha de um novo vocalista para seguirmos em frente. Todavia, diferente de ocasiões anteriores, desta vez houve a agravante de que com o disco novo em voga, tirante a música : "Crisys (Maya)", que era instrumental, e oriunda do velho repertório, e "Anjo Rebelde", que o Rubens cantava com tranquilidade, todas as demais tornaram-se inviáveis para ser executadas, sem a presença de um vocalista de ofício.
Portanto, por ter pensado no Beto Cruz, e antecipado-se à inevitável morosidade perpetrada pela incidência de reuniões que fatalmente faríamos para buscar soluções a visar a nossa completa reestruturação, ele deu um golpe de mestre em favor da banda, eu reconheço. E contamos com a sorte pelo fato do Beto estar disponível naquele momento, e ter aceito de pronto o convite, mesmo por que, nessa altura, com dois discos; portfólio já bem avantajado; muitas aparições na TV; e execuções pelas rádios; fora muitos shows, a banda obtivera um status que tornara-a atraente, e falo isso sem nenhuma falsa modéstia, apenas ao ser bem realista em minha análise. O Fran Alves ainda visitou-nos na segunda-feira posterior ao final de semana onde despedira-se artisticamente da banda.
Foi uma visita cordial e aí sim, despedimo-nos oficialmente, mas sob um nível de amizade muito grande. Falamos abertamente sobre os erros e acertos que tivemos nos dez meses em que trabalhamos juntos. Ele desejou-nos boa sorte, e nós retribuímos os votos, ao desejar-lhe que ele logo desse prosseguimento à sua carreira, com novos projetos. Nessa conversa, ele disse-nos que procuraria algo mais com teor Pop, sem grandes arroubos instrumentais, como era o som d'A Chave do Sol. Ele teve razão em buscar a simplicidade Pop nos arranjos e de certa forma, esse seria também o caminho que em breve seguiríamos, com uma terceira grande reformulação da sonoridade da banda.
Independente de precisarmos ter feito isso naquela ocasião, é claro que a banda já contabilizava prejuízos na construção de sua carreira, pois um item básico para qualquer artista, é não mudar a formação (o line-up), ou pelo menos tentar não mudar muito. Banda que troca de membros constantemente, mostra-se desestruturada sob uma primeira leitura e pior, dificulta e muito o seu marketing, ao atrapalhar bastante a sua logística. E se mudar de membros é prejudicial, imagine então mudanças bruscas de sonoridade !
A banda existia desde 1982, apenas, mas para uma análise mais precisa, poder-se-ia contabilizar o ano de 1983, como ponto onde começou a ficar conhecida de fato, graças às primeiras exibições na TV. Então, em dois anos, estávamos a partir para uma terceira mudança sonora radical, e a pergunta é simples : isso foi saudável ?
É claro que não... bem, mais uma vez estávamos acuados e não tivemos escolhas, nesse quesito, em específico.
Além da novidade relâmpago em torno da saída do Fran Alves, e entrada do Beto Cruz, outra novidade que apresentou-se foi a aproximação de uma pessoa que desejou fazer uma experiência com a banda, como empresária. Tratou-se de uma antiga produtora do programa, "A Fábrica do Som", da TV Cultura de São Paulo e que acompanhava-nos desde 1983, portanto, chamada : Cristiane Macedo. Ela ainda era funcionária da TV Cultura, mas a acompanhar os nossos passos, dizia ter alguns contatos, e assim, propôs uma parceria conosco. Essa mulher não foi aquela que em 1984, vendera um show na Danceteria Radar Tantã, e cujo desfecho financeiro fora inusitado (já relatado muitos capítulos atrás).
Com a saída de cena do empresário, Mário Ronco; e o fracasso da "Cooperativa Paulista de Rock", além da nossa frustrada tentativa (por duas vezes !), em contar com Jerome Vonk (empresário do Língua de Trapo); tirante não podermos contar com Antonio Celso Barbieri como manager exclusivo, pois este mantivera a estratégia em colocar-se como um produtor independente e disposto a agenciar muitos artistas simultaneamente, uma proposta de alguém interessado em trabalhar em nosso favor, e com exclusividade, foi ótima. Depunha contra, o fato dela ser totalmente iniciante, mas o fator "força de vontade", aliado aos contatos que ela detinha graças à sua atuação como produtora de TV, poderia viabilizar um começo promissor. Contava também como um fato, a percepção de que a banda ascendia no mercado e o nosso material gerencial nessa altura, já mostrava-se respeitável nesse sentido. Então, com Cristiane Macedo a iniciar os seus esforços e a banda a reformular-se com o novo vocalista, Beto Cruz, pareceu-nos que a tempestade advinda pela perda do Fran Alves, não concretizara-se, e assim, tempos de esperança avistaram-se no horizonte da banda.
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domingo, 4 de janeiro de 2015
Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 227 - Por Luiz Domingues
Já a saber que a reformulação do nosso trabalho seria total, partimos então para os últimos shows com o Fran Alves, como membro da banda.
Os dois primeiros, foram realizados no Rainbow Bar, que à boca pequena era apelidado carinhosamente pelos Rockers locais como o "Marquee" paulistano, para estabelecer a referência (e reverência, como não...), ao famoso Pub londrino, que desde os anos 1960 promovia shows de Rock com bandas emergentes, e entre tantas, algumas que tornaram-se mundialmente famosas, posteriormente. Os shows foram energéticos, e o público não notou que estávamos abatidos internamente, com o prenúncio do que ocorrer-nos-ia a seguir.
O Fran Alves, logicamente deu o seu melhor ao vivo, mesmo triste com sua decisão em sair da banda, pois não deixou que tal melancolia transparecesse ao público. Fizemos o show habitual que estava ensaiado, calcado no EP recém lançado. Os shows ocorreram nos dias 25 e 26 de outubro de 1985.
No dia 25, uma sexta-feira, cerca de setenta pessoas assistiu-nos, e no dia seguinte, sábado, dia 26, duzentas pessoas lotaram as dependências da casa localizada no bairro do Jabaquara, zona sul de São Paulo, a dois quarteirões da estação do metrô, homônima. No show do sábado, o Fran Alves terminou o show desgastado.
Na minha ótica atual, amparado pelo distanciamento histórico, é óbvio que ele somatizara a sua tristeza emocional decorrente de toda a amargura que acumulara ao longo dos dez meses em que foi membro da banda, graças aos comentários negativos que a sua presença na formação despertara, por parte das pessoas em geral. Mesmo ao manter uma postura observada em um grau de dignidade exemplar, foi natural que estivesse arrebentado emocionalmente. E como somatização inevitável, a sua voz, ao término do segundo show, esteve muito prejudicada. Ele pediu-nos desculpas, ali mesmo no Rainbow Bar, mas comunicou-nos que dificilmente reuniria condições para cumprir o show do dia seguinte, ao ar livre, em uma praça pública.
De fato, ele não recuperaria-se a tempo, pois encerramos o show do sábado, na madrugada do domingo, e o compromisso na praça pública, seria no início daquela mesma tarde. Agradecemos a boa vontade dele, e o dispensamos desse sacrifício, dispondo-nos a cumprir o show sob o formato de trio, e assim evocar o repertório antigo, e de qualquer forma, seria um show de choque, portanto, não haveria nenhum problema para o trio original fazê-lo, sem a presença do Fran Alves.
O Rainbow Bar teve uma longevidade grande como casa noturna. Eu não saberia dizer quando foi fundado oficialmente, mas acredito que estava com as suas portas abertas desde o início dos anos oitenta, provavelmente, 1981. Tal estabelecimento conteve vários proprietários nessa trajetória e nessa época, um dos sócios era o vocalista / guitarrista, Roberto Cruz, além de seu irmão, o baixista, Claudio Cruz (não lembro-me com precisão, mas acho que o Marcos Cruz, um outro irmão deles, foi sócio, também). O Rubens teve uma ideia, mas a iniciativa dessa projeção que realizou, partiu dele, exclusivamente, sem comunicar-nos previamente. Quando soubemos da ideia, na verdade ele já antecipara-se e estava a negociá-la.
Não estou a queixar-me, de forma alguma, pois nesse caso, essa antecipação de sua parte foi providencial. De fato, pela dramaticidade da nossa situação naquele momento, com a saída do Fran Alves, a contrastar com a existência de diversos compromissos firmados; incluso um disco novo, recém lançado para ser divulgado e a mídia especializada a falar sobre nós, o tempo urgia ! Então, alguns dias depois desses últimos shows do Fran Alves conosco, o contato e o decorrente convite, já havia sido feito, por parte dele, Rubens, para que um novo vocalista assumisse a vaga disponível n'A Chave do Sol, e o nome em questão foi : Roberto Cruz, nome artístico, Beto Cruz, e logo, entre nós, tratado como, "Betão"...
Roberto Cruz. Nome artístico, Beto Cruz, e para os amigos, Betão...
Para encerrar esta etapa do relato, antes de avançar enfim nessa nova perspectiva que avistou-se, falo sobre o show ocorrido em tal praça pública. Foi uma inauguração promovida pele prefeitura de São Paulo.
Um pequeno terreno pertencente à prefeitura, em plena Avenida Sumaré, na zona oeste de São Paulo, acabara de ser remodelado, e seria entregue à população. Alguns meses antes desse evento, uma senhora fora atropelada e perdera a sua vida, exatamente naquele trecho da avenida. Talvez passasse despercebida a tragédia, se fosse uma pessoa comum, como tantas que morrem nessas tristes circunstâncias e tornam-se apenas um número nas estatísticas. Mas essa senhora, chamada Ana Maria Poppovic, foi uma psicóloga e educadora proeminente com fama catedrática e atuação destacada com crianças excepcionais e sua morte trágica repercutira na mídia. E claro, com essa conexão, sua morte causou comoção, e rendeu muitas reportagens nos jornais, rádio e TV, nessa época. Então, quando a prefeitura deu uma arrumada naquele terreno abandonado, ao promover uma remodelagem para um micro parque, a conter paisagismo; equipamento com brinquedos para a criançada; alguns aparelhos de ginástica; bancos, e pista de cooper, tratou logo de homenagear a senhora acidentada. A Praça Ana Maria Poppovic foi inaugurada com um show d'A Chave do Sol. Infelizmente, apesar da inauguração ter contado com uma cerimônia oficial, e a presença de familiares da senhora falecida, mais autoridades e políticos, a presença do público foi diminuta a meu ver, ao considerar-se o barulho midiático que tal evento pudesse suscitar. Enfim, nas minhas anotações, apenas setenta pessoas estiveram presentes. Uma vantagem nós tínhamos em relação a qualquer outra banda que tinha um vocalista frontman, e não instrumentista na sua formação : sempre que surgia uma emergência, fazer o show no velho formato de trio não causava-nos embaraços.
Dessa forma, tocamos, sem o Fran, mas sem problemas maiores, no campo estrutural, porque no emocional, estávamos chateados.
E assim foi, no domingo, dia 27 de outubro de 1985, ao inaugurarmos a Praça Ana Maria Poppovic, que aliás, está super mal cuidada nos dias atuais (2016), praticamente a retroceder à condição de um terreno baldio, sujo, com equipamentos quebrados, e frequentada por gente mal intencionada, e à cata de refúgio para atividades ilícitas. Da segunda-feira em diante, a vida seria muito corrida para a banda, não só pela perda do Fran Alves, mas por outras oportunidades que estavam a aparecer...
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sábado, 3 de janeiro de 2015
Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 226 - Por Luiz Domingues
Nesse ínterim, o Fran Alves tomou a palavra em um dia de ensaio, e expôs os seus sentimentos com tudo o que estava a acontecer-lhe, e à banda naquele momento. Não tivemos contra argumentação para demovê-lo de sua iniciativa em querer deixar a banda, e buscar outro rumo em sua carreira. Ele estava acuado pelos acontecimentos, e sentia que não havia nada que nós três (Gióia; Dinola & Domingues), poderíamos fazer para amenizar tal situação.
Foram fatores externos e aparentemente irreversíveis contra os quais ele não reunia condições para lutar contra. A banda também estava a ser prejudicada por essa situação, em sua ótica, portanto, a sua decisão em deixá-la pareceu-lhe ser a única solução que traria benefícios para todas as partes. Muito nobre e magnânimo da parte dele pensar dessa forma, mas é claro que a banda teve a sua parcela de culpa nessa história, ainda que de forma indireta e sem dolo !
A nossa estratégia adotada desde o final de 1984, revelara-se um desastre. Hoje, percebo que não tivemos uma outra solução naquela época, mas no calor dos acontecimentos, é óbvio que eu fiquei muito chateado com esse erro de estratégia, e assumo a minha parcela de culpa nessa história, pois definitivamente, fui um dos, senão o maior incentivador dessa iniciativa. Ameniza a minha consciência, o fato de que fiz / fizemos o que achei / achamos ser o melhor para a banda naquele instante.
A banda teve prejuízos com tal decisão em tomar aquele rumo, sem dúvida. Mas como já expressei inúmeras vezes na narrativa, foi uma situação limítrofe para uma banda como a nossa. Só havia um caminho para chegar-se ao mainstream na década de oitenta : Pós-Punk. A opção por trilhar o caminho do Hard / Heavy foi o menos ruim, tão somente, e com a agravante de não ser um caminho óbvio para o mainstream, mas apenas uma aposta naquele momento. E essa aposta nunca concretizou-se, essa é a verdade.
Nem para os aficionados desses gêneros, pois não considero o sucesso do Sepultura em meios inimagináveis, como um caminho delineado, mas um caso à parte, motivado por outros fatores diversos, e que não acho que valha a pena ser esmiuçado nesta narrativa. Enfim, quando A Chave do Sol colocou esse peso no seu som, não dimensionou o fato de que seria um risco decepcionar os seus fãs antigos, acostumados ao anacrônico som setentista que fazíamos anteriormente, e sob forte acento calcado no Jazz-Rock, e pior, não angariaríamos o público aficionado das correntes do Hard / Heavy oitentista, a não ser em pequena proporção, e que seria desprezível em termos de estatísticas.
Pelo lado humano, foi pior ainda conviver com a ideia de que perderíamos o companheiro Fran Alves, um colega muito gentil, munido de princípios; caráter, e vontade obstinada em construir uma carreira vitoriosa. O vilipêndio pelo qual ele fora submetido, foi triste e nesse aspecto, não tivemos como amenizar tal situação e convencê-lo de que deveria permanecer e arriscar um pouco mais conosco. Quem sabe um eventual segundo disco com essa formação, e alguns ajustes estéticos, não teria contornado os problemas que enfrentamos ?
Por outro lado, sabíamos que em um eventual novo disco, aquele peso deveria ser coibido, não restou-nos dúvidas. Portanto, a solução melhor foi mesmo uma reestruturação, com nova mudança de formação, e orientação sonora.
Acatamos a decisão do Fran Alves com muito pesar, por tudo o que já mencionei, e acertamos que os próximos três próximos shows que faríamos, seriam os últimos com a sua presença. Seriam realizados no Rainbow Bar, em duas datas (sexta e sábado), e um terceiro show ar livre no domingo posterior, para inaugurar uma nova praça pública criada pela prefeitura, no bairro das Perdizes, zona oeste de São Paulo.
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sexta-feira, 2 de janeiro de 2015
Autobiográfica na Música - A Chave do Sol - Capítulo 225 - Por Luiz Domingues
Mesmo com a animação em torno do novo disco; oportunidades no rádio e TV; e sobretudo pela agenda em expansão, estávamos a sentir que o Fran estava muito incomodado com a reação dos fãs. Situação muito desagradável, pois tratou-se de manifestações espontâneas, e que teve um caráter viral, praticamente. E o pior de tudo : não tínhamos controle sobre tal, pois vinha na maior parte das vezes, da parte de pessoas que nem conhecíamos. O máximo que eu poderia fazer, seria evitar que cartas que contivessem críticas duras à sua pessoa, vindas de fãs, fossem lidas por ele. Nesse caso, como eu cuidava pessoalmente dessa correspondência, e tornara-se meu hábito diário passar pela agência do correio para apanhar o movimento do dia, houve essa possibilidade em construir-se uma espécie de filtragem estratégica.
Ainda mais inconveniente, foi constatar que a despeito da opinião das pessoas ter que ser respeitada em via de regra, tal sentimento popular foi muito mais o fruto de uma birra, do que a formação de uma opinião sensata, baseada em argumentos lógicos. As perguntas que estabelecíamos para nós mesmos, foram : o Fran era mau cantor ? Desafinava ? Não tinha uma emissão vocal forte ? Detinha má dicção ? Ele não tinha alcance de oitavas ? Teria sido um mau intérprete ? Mau "frontman" ? Nada disso poderia ser aceito como argumento, pois sabíamos que ele era muito bom em quesitos técnicos.
Talvez tenha sido prejudicado pela brusca mudança de orientação sonora e estética pela qual passamos, assim que adentramos em 1985, muito mais preocupados em aproveitar alguma suposta porta que abrir-se-ia por conta das oportunidades possíveis geradas pela euforia gerada em torno da realização do Festival Rock in Rio. Nesse fator, eu acredito, certamente. O fato da voz dele ser rouca poderia não agradar muita gente. Como eu já disse anteriormente, é uma mera questão de gosto, mas existe pessoas que não apreciam o estilo de Rod Stewart, mas alguém consegue cravar a opinião de que Rod seja uma mau cantor ? Tudo isso é análise a posteriori e cabível na minha autobiografia, todavia na época, no calor dos acontecimentos, tal índice de rejeição preocupou-nos duplamente, pois foi um claro prejuízo à banda, e um desgaste emocional ao nosso vocalista, que na minha ótica, não merecia ter absorvido todas essas críticas.
Tirante o aspecto humano, pois sei bem o quanto ele sentiu, e também o quanto era uma pessoa gentil. Enfim, depois dos shows de lançamento do EP, a tensão nesse sentido, aumentou, e ele passou a demonstrar que não suportaria mais tal pressão. Um próximo compromisso avistou-se em outubro, no mesmo Lira Paulistana. Não tratou-se de uma produção do Antonio Celso Barbieri, tampouco nossa, pois havíamos recém lançado o disco novo, ali mesmo naquele teatro. Mas tratou-se de um convite irrecusável, pois seria uma série de shows comemorativos em torno dos seis anos de existência do Teatro Lira Paulistana.
E assim, fomos escalados para o dia 22 de outubro de 1985, sem banda de abertura, nem divisão com outro artista. Não foi um grande público que compareceu nesse dia, mesmo por que havíamos recém realizado três shows ali mesmo, naquele mesmo palco. Cerca de cinquenta pagantes compareceram naquela noite, e para não dizer que esse show foi feito sem nenhum atrativo, usamos o "cenário da fechadura", mas sem a figura do homem que causara polêmica anteriormente, e o poeta, Julio Revoredo novamente participou do número do homem camuflado, que na verdade foi uma encenação instigante, porém bem fácil para ser produzida e encenada. Não fizemos muito esforço em termos de divulgação para esse show, é bem verdade, e isso reforça o conceito de que o baixo público presente, não poderia ter sido melhor, mesmo. O motivo de nossa suposta negligência nesse sentido, foi o fato de que teríamos dois shows para cumprir naquela mesma semana, e assim, consideramos a participação no show do Lira Paulistana, como uma oportunidade extra, já que as nossas baterias estavam centradas nos dois shows do final de semana. Muita coisa aconteceu nesse final de outubro de 1985, que provocaria uma mini revolução interna na banda, e logo mais, conto tudo em detalhes.
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A Chave do Sol Capítulo 225,
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quinta-feira, 1 de janeiro de 2015
Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 224 - Por Luiz Domingues
A terceira ocorrência foi a seguinte : Ao seguir a orientação do apresentador, Fausto Silva, fomos preparar o material e eu, pessoalmente, fui levá-lo à produção do programa, "Perdidos na Noite", nas dependências da TV Record de São Paulo.
Nessa época, a TV Record ainda pertencia à família Machado de Carvalho, e apesar de estar decadente, ainda notava-se nos velhos estúdios localizados na Avenida Miruna, no bairro de Moema, lembranças dos tempos gloriosos de outrora, através de fotos espalhadas pelos murais etc. Bem, reminiscências a parte, lá fui eu com disco; release e portfólio debaixo do braço. Fui recebido por uma produtora, cujo nome não recordo-me, mas que era certamente uma estagiária, subordinada da produtora chefe, Lucimara Parisi.
Ela recolheu o nosso material, e não demonstrou muito entusiasmo quando eu disse-lhe que a banda havia participado de muitas edições do programa, "Balancê, da Rádio Excelsior / Globo, tampouco impressionou-se quando eu disse-lhe que o Fausto Silva em pessoa, havia orientado-me a procurar a Lucimara etc. A sua resposta, apesar de simpática, pareceu-me mecânica, com a afirmação de que "analisariam" o material, e dar-nos-iam uma resposta em alguns dias, a fornecer então um número de telefone para fornecer-nos o seu veredicto definitivo. Passado alguns dias, ligamos para a produção, e um processo marcado pela postergação cansativa em ofertar-nos uma resposta concreta. Um dia, enfim, uma produtora emitiu uma resposta. Disse-nos então que sentia muito, mas nós não seríamos convidados a apresentarmo-nos no programa.
A resposta lacônica irritou-me, pois na minha concepção, a banda reunia totais condições para apresentar-se. Quantos programas de TV nós já havíamos realizado até aquele ponto ? Inclusive a tocar ao vivo, foram muitos, ora bolas...
Bem, claro que foi um direito deles em recusar-nos, mas eu achava incompreensível o caráter lacônico com o qual a mocinha explicava a decisão de sua cúpula, e insisti para que ela desse-me uma explicação decente e plausível.
Então, eu tive o impulso em pedir a devolução de material, em caráter de cobrança de uma satisfação, pois um disco, e a cópia da papelada de portfólio, não haveria por faltar-nos, em realidade. Eu fui portanto, à TV Record novamente, e ao apresentar-me na porta da sala onde várias pessoas trabalhavam, uma moça veio atender-me. Cobrei uma explicação melhor, e aí, eu tive que aturar a franqueza desconcertante e desagradável que tanto evitaram falar-me ao telefone, com ela a dizer-me :
-"Sinto muito, mas o som da sua banda é uma BOSTA"...
É claro que cada um pensa o que deseja, e artista é vitrine sujeito à pedradas, mas tal afirmativa chocou-me, evidentemente. Então, pedi-lhe o material, e ela entregou-me, mas faltava o disco dentro da capa vazia que entregara-me. Ela foi buscar o disco, e quando a vi a retirá-lo de uma vitrola portátil, eu notei que a rotação estava em 33 &1/3 ! Claro que essas pessoas consideraram uma "bosta", o som da banda, a ouvi-lo na rotação errada...
Argumentei essa observação de pronto com ela, mas mesmo assim, a decisão de veto para o programa manteve-se irredutível. Uma pena, pois teria sido muito divertido participar, e de fato, estávamos acostumados a interagir com o Fausto Silva, por conta de nossas participações no programa, Balancê, da rádio. E quanto ao desaforo proferido de maneira injusta, só posso lamentar o fato de que na capa, não houvesse uma tarja chamativa para alertar as pessoas sobre o fato do disco não rodar adequadamente na rotação usual em 33 & 1/3...
-"A sua banda é uma BOSTA"..., pois bem, eis que eu dormi com a orelha quente depois dessa...
Continua...
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