quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

Fazer o que é Necessário - Por Luiz Domingues

“Vivendo no mundo material” é o nome de uma música e que também batiza um dos (bons) álbuns que compuseram a carreira solo do saudoso guitarrista dos Beatles, George Harrison. Profundamente impactado pela filosofia indiana de uma maneira generalizada, Harrison focou a sua música, ainda dentro do trabalho dos Beatles por preceitos espiritualistas e no avançar da carreira solo, tal prerrogativa se intensificou ainda mais.

Bem, a grande questão filosófica nesse caso é o questionamento sobre o excesso de apego aos bens materiais e as inúmeras consequências que tal mentalidade impõe à imensa maioria das pessoas, principalmente entre as nações ocidentais do planeta.

Dentro dessa perspectiva, chamava a atenção em um determinado bairro de uma grande cidade sulamericana, a atuação de um senhor idoso que se mostrava muito ativo em ações culturais e sociais. Determinado, ele ajudava dezenas, quiçá centenas de pessoas sob inúmeros aspectos, alguns dramáticos inclusive, a representar mazelas sociais a envolver situação de miserabilidade, fome e doença.

No entanto, ele não fazia o gênero do filantropo munido com candura, a esbarrar no bom-mocismo piegas, pois ao contrário, ele tinha uma personalidade forte, a se pautar pela praticidade absoluta. A trocar em miúdos, ele era muito objetivo e dizia a todos, que apenas fazia o que precisava ser feito e nada mais.

Infelizmente não é dessa forma que muitas pessoas pensam no âmbito social, e assim, o senhor Natanael Goicocheya começou a ser observado pela sua ação abnegada. Ora, ficara óbvio que a ação voluntariosa do senhor em questão, chamara a atenção das pessoas, que de forma diametralmente oposta ao pensamento dele, enxergavam a ação voluntária como uma maneira de autopromoção a ser aproveitada para alavancar a ascensão social pessoal de quem se mostra como uma “liderança” comunitária.

Bem, na mesma medida em que Natanael apenas fazia o que achava necessário para ajudar a comunidade, a sua personalidade forte o impelia a manter um distanciamento dessa aspiração, da qual ele considerava asquerosa, a revelar um tipo de materialismo que ele abominava e mais do que isso, lhe incomodava muito a ideia de que pessoas pensassem dessa maneira, ao calcular as benesses pessoais que seriam advindas do esforço para empreender ações de voluntariado dessa natureza.

E assim, quanto mais ele se entregava ao trabalho comunitário, mais era aconselhado por muitas pessoas a aproveitar a sua popularidade para se promover, forjar amizade com empresários e até aceitar conversar com pessoas ligadas a partidos políticos, a visar quem sabe, se afiliar e se tornar um potencial “quadro” eleitoral, como liderança que ele já exercia de forma natural.

Natanael se irritava tanto com esse tipo de assédio, que a cada dia ficou mais mal-humorado no cotidiano e sem que ninguém percebesse, na contrapartida ele redobrou os seus esforços para trabalhar de forma intensa para auxiliar os mais carentes.

Criticado de forma contumaz, ele se tornou um alvo fácil da maledicência alheia, apesar de toda a sua força de trabalho em prol dos mais carentes, ao se constituir de uma inacreditável perspectiva de formação de opinião, em frontal contraposição ao que ele fazia para auxiliar a sua comunidade.

Nesse sentido, boatos se espalharam aos montes, a criticar a sua linha de atuação em si, sempre a dar a entender que “não seria possível que ele não adquirisse nenhuma vantagem para fazer o que fazia”, daí a insinuar que ele certamente trabalhava a visar algum tipo de obtenção de vantagem pessoal escusa ou a criticar o seu mau-humor crônico, no sentido de que seria uma ação teatral da parte dele para “disfarçar” os seus reais propósitos.

E pior ainda, a zombar de suas vestimentas sempre puídas e o seu mau odor generalizado, fruto do seu suor, haja vista que ele não parava um segundo de trabalhar e na maior parte do tempo a exercer funções braçais de grande esforço físico. E nesse aspecto, outras teorias foram formuladas a dar conta de que isso caracterizaria algum tipo de doença mental ou simplesmente a se tratar de um distúrbio gerado pelo abuso do álcool ou outras drogas e que o tornaram por conseguinte, um desleixado de sua aparência pessoal. 

Enfim, a sua ótima atuação no sentido da ajuda abnegada aos carentes, se tornou menor ante a maledicência criada para denegri-lo, simplesmente por que as pessoas não concebiam que alguém pudesse não aspirar ganhar dinheiro, ter ascensão social e buscar o consumo desenfreado como um ideal de vida, não apenas pelo aspecto do prazer hedonista em si, mas também pela questão da ostentação que gera prazer efêmero para quem gosta de se sentir “superior” por conta de seus bens acumulados.

Um desses que não se conformavam com a postura do Natanael, o interpelou diretamente e de forma incisiva, o questionou de uma forma deveras agressiva ao lhe dizer que “esse negócio de trabalhar gratuitamente” seria uma falsa compreensão da mensagem de cunho igualitária de um filósofo que expressara a sua tese muitos séculos atrás, ao apelar para algum princípio intelectual e com objetivo moral que o atingisse como uma forma de argumento inquestionável e definitivo. 

Em seguida, este homem indignado sacou um panfleto do bolso, que se tratava de um texto assinado por um famoso comunicador da TV, cujo texto versava sobre a sua particular interpretação e deveras distorcida da fala desse tal filósofo e assim, esse homem que lhe entregara o panfleto exortou Natanael a ler com atenção tal ponderação, para poder refazer a sua “equivocada”, segundo a sua visão, forma de enxergar a questão da igualdade e fraternidade entre os homens.

Natanael apanhou o pedaço de papel, olhou para a figura abjeta desse senhor estampado na ilustração, este a se revelar como um notório serviçal de crápulas que usavam o poder da sua indústria de comunicação para forjar golpes de estado & afins, leu a manchete e a seguir, amassou o panfleto e o jogou na lata de objetos recicláveis. 

Após se livrar do panfleto, Natanael não proferiu uma única palavra e simplesmente voltou a trabalhar, a carregar sacos de arroz para um caminhão que faria a distribuição aos famintos da comunidade, que haviam chegado como donativos, naquele dia.

Uma pessoa, a observar de longe, comentou com outra que estava próxima de si: -“Ele faz o que precisa ser feito e nada mais”. 

domingo, 13 de fevereiro de 2022

A Timidez Atroz - Por Luiz Domingues

Não é fácil buscar uma adaptação a um meio social, seja lá qual for, quando se é tímido e inseguro, por conseguinte, sem coragem para tomar qualquer atitude sem correr o perigo de ser atabalhoado e gerar escárnio da parte das pessoas em geral.

Um fator desencadeia o outro, portanto, quando a pessoa é insegura, tende a se retrair ainda mais a alimentar o medo da rejeição. E como contrapartida, se tenta fazer algo fora das suas possibilidades, geralmente tende a cometer gafes que a levam a um tipo de exposição desastrosa que pode estigmatiza-la, ou seja, não é fácil a vida do tímido que tenta mudar a sua situação em um meio social a ter apenas a experimentação empírica, sem apoio de um profissional preparado para lidar com o seu transtorno de ordem psicológica.

Este foi o caso de Norberto Camponne, um jovem oriundo de Lecce, na região da Puglia, Itália, que se mostrava extremamente tímido desde que nascera. No entanto, apesar dessa insegurança enorme que ele possuía para conviver socialmente, ele era inteligente e ao se sobressair nos estudos, conseguiu uma bolsa de estudos em uma universidade prestigiada do norte do país.

Mesmo ao sentir um medo terrível de ficar longe de sua família, aceitou de pronto a colocação, mas secretamente, tremeu quando chegou na cidade de Torino.

A duras penas, ele teve muita sorte de ser aceito por um pequeno grupo de amigos no alojamento estudantil que diferentemente da mentalidade habitual no meio universitário, tais membros desse grupo abominavam a prática do “bullying” e mais do que isso, ao perceberem a timidez contumaz de Camponne, o aceitaram em seu meio, no sentido de o convidarem para todo o tipo de atividade que eles promoviam, além dos estudos, de cunho esportivo, social, cultural ou simplesmente recreativo.

Nos esportes, ele não demonstrava habilidade em qualquer modalidade e mesmo para ser um torcedor na arquibancada, a sua falta de noção como se portar, fazia dele um alvo fácil de todo o tipo de brincadeiras da parte de outros estudantes, portanto, os seus amigos passaram a evitar que ele fosse assistir jogos para poupá-lo da possibilidade de se tornar estigmatizado, ao ponto de que pudesse se sentir humilhado

Em termos culturais, ele de fato se portava com maior discrição e por ser inteligente em ambientes desse porte e assim, por ter um bom nível cultural, não cometia gafes, mas no âmbito social, principalmente para lidar com as meninas, a sua fragilidade emocional lhe causava vários constrangimentos.

Certa vez em uma festa, Camponne bebeu para criar coragem de abordar uma moça pela qual se sentira atraído, ao ponto de se tornar inconveniente e dessa forma, ele foi sumariamente rejeitado por ela.

A sua reação foi agressiva ao atirar o conteúdo de seu copo de cerveja nas costas dela, quando esta se virou para se afastar dele e por sorte, a sua falta de pontaria fez com que o líquido atingisse o solo e não a moça.

Rapidamente os seus amigos o tiraram daquele local, pois poderia gerar retaliações da parte de outras pessoas que tomariam para si a ofensa cometida contra a garota.

E assim os rapazes aprenderam a conviver com essas atitudes intempestivas de Norberto, a relevar os seus rompantes, na esperança de que ele se livraria aos poucos de seus traumas, portanto, a se portarem como psicólogos práticos, porém, sem noção alguma sobre um assunto técnico do qual não tinham nenhum conhecimento.

Não passou muito tempo e na saída de um show de uma banda de Rock da qual eles haviam ido assistir, ele tirou a cabeça para fora do carro e ofendeu diversos fãs que caminhavam silenciosamente para o ponto de ônibus. Os amigos não esperavam a atitude descabida e desta vez, não relevaram ao lhe dar uma repreensão verbal, pois entre outras consequências, várias pedras e pedaços de paus foram arremessados pelos jovens pedestres que se sentiram ofendidos gratuitamente e assim, todos os passageiros do carro se sentiram em perigo por conta disso, além do próprio dono do veículo, que reclamou ainda mais com as pedras que atingiram a lataria do seu carro.

E em outra ocasião, Norberto estava a ouvir uma conversa sobre moda e em tom de crítica, os seus amigos discorriam sobre a feiura das bermudas que muitos rapazes estavam a usar no cotidiano da universidade e notadas pelas alamedas e corredores do campus universitário. Sem falar nada, Norberto apenas olhava e escutava, até que a conversa mudou e o assunto foi encerrado.

Alguns dias depois, em um passeio noturno que fizeram de carro, eis que Norberto estava a conversar sobre outras questões, quando avistou um grupo de rapazes a usarem as indefectíveis bermudas, objeto de discussão ocorrida dias antes e devidamente fora da pauta daquele momento, e mesmo fora daquele contexto de momento, não teve dúvida ao colocar a cabeça para fora da janela do carro e berrar em sua direção: -“Vão comprar calças, seus FDP”...

De imediato, um dos rapazes sacou um revólver que tinha consigo na cintura e sobre o qual, obviamente que Norberto não detectara anteriormente, e então ele disparou para o alto e a gritar de forma irada que atiraria no desgraçado que mexera com ele e seus amigos, sem motivação alguma para tal.

Evidentemente que o motorista se apressou para evadir-se do local para garantir a segurança de todos e logo que ficaram fora do alcance do rapaz armado e insultado, parou e com apoio dos demais colegas, passou uma descompostura em Norberto que se retraiu de imediato, ao entender que realmente passara dos limites.

Entretanto, a paciência desses rapazes para com ele se esgotou depois desse evento e paulatinamente eles foram deixando de convidá-lo para participar das atividades do grupo.

E quanto ao Norberto, bem, esse gelo da parte de quem o acolhera como amigo e lhe dera tanto apoio moral para que este se livrasse de suas amarras psicológicas, foi um duro golpe para a sua autoestima. 

Entretanto, tal problema gerado, ao invés de lhe provocar uma reflexão, na verdade só o levou ao estágio inicial de sua reclusão social, ao se sentir novamente isolado, sem coragem para enfrentar os seus problemas e assim, ele se colocou absorto na sua timidez.

Quando a graduação chegou para aquela turma, o distanciamento estava tão grande que ninguém sequer teve alguma notícia do paradeiro dele. Souberam apenas que ele se formara, pegou o seu diploma e sumiu, muito provavelmente de volta à sua terra natal e nada mais.    

sábado, 5 de fevereiro de 2022

A Bênção Nossa de Cada Dia - Por Telma Jábali Barretto

Hábito antigo e pouco ou nada quase usado no presente, era frequente, antes, por nossos mais velhos, pais, avós e até quaisquer mais idosos que convivíamos, sempre que saíamos ou até mesmo quando no momento de recolher antes de dormir... e, até e, sempre que precisássemos de apoio, proteção ou também de ânimo para quando a coragem ou atitude fossem necessárias. Uma infinidade e gama desses bons fluidos aconteciam no oferecimento desse cuidado que, muito e tanto, muitas vezes, fortaleciam num sentimento amparador que daí parecia vir a nós. Bastante comum era e ainda segue, de alguma maneira, acontecendo por sacerdotes quando, em suas funções, nos fechos de seus trabalhos, ofertando seu bendizer para após distanciarmos. Como se fossem permanecer conosco ... ou ... para que assim sentíssemos... 

Aqueles que acostumados a isso cresceram, amadureceram, seguem valorizando e exercendo uns com outros numa forma de atenção, de intervenção a favor daqueles para quem expressam e... agradecendo quando assim, de forma igual, recebem. Tem outras parecidas bênçãos, não nomeadas que, sempre e em abundância, nos cercam e sobre essas gostaríamos de falar um pouco para, talvez, diferenciar e mais valorizar. 

São aquelas trazidas pela Vida em Sua fartura atenta, sempre presente que a cada espaço e oportunidade disponibilizado por nós, permitindo irrigar, refrigerando e alimentando nossa alma das mais diversas maneiras nas pequenas circunstâncias que percebemos fomos poupados de algo difícil, agraciados por uma especial facilidade, transpomos situação desafiadora, num abraço, sorriso ou olhar que conforta em determinado momento crucial, numa atenção gratuita que nos surpreenda, alivie ou comova e, mesmo e até e... por que não?!... uma repreensão que nos desperta, acorda e empurra para crescer assim como aquele tipo de silêncio que traz a trégua que parecia impossível e... sem computarmos as ‘miles’ e infinitas formas que a natureza, por si só, nos brinda gratuita e fortuitamente com sons, imagens e perfumes. 

Preciso é que estejamos abertos, observadores daquilo e daqueles que nos cercam com apurada disposição receptiva e... num estado grato, merecedor, sabendo acolher, ‘deixando’ que esse fluxo nos alcance e deixando também que aconteça através de nós, entendendo e sentindo que esse ir e vir permeie nosso existir, sendo parte dessa maré de contínuas trocas, bênçãos chegando e saindo, imantando a tudo e todos com esse frescor acalentador! Que haja percepção alerta e aberta para que essas boas vibes encontrem ressonância em nós, através de nós e o reconhecimento e a satisfação desse fluir harmonizador seja desafio, conquista e perene na vidinha nossa cheia de graça, de Graças... Amém, amém, amém e... assim seja agora e sempre!!!

 

Telma Jábali Barretto é colunista fixa do Blog Luiz Domingues 2. Engenheira civil, é também uma experiente astróloga, orientadora sobre a harmonização de ambientes e instrutora de Suddha Raja Yoga.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

Pouco Trabalho e Muito Abuso - Por Luiz Domingues

Um pedreiro foi contratado para realizar uma pequena reforma em um escritório de advocacia. Ele não era nem de longe um profissional renomado no bairro sequer, mas como havia pressa na execução do serviço, o dono do escritório resolveu contratá-lo no afã de agilizar a resolução do problema.

Pois eis que o sujeito chegou para o primeiro dia de trabalho, fez a sua avaliação da situação e elaborou uma lista de materiais necessários para a execução do serviço. Liberada a verba para a aquisição dos produtos, ele foi à loja de material de construção e trouxe tudo, mas ao alegar que ficara tarde demais para iniciar naquele mesmo dia, eis que postergou o início do trabalho para a manhã do dia seguinte.

Isso de fato ocorreu, mas logo no dia posterior, ele faltou ao trabalho, ao alegar algum problema de saúde. E quando voltou ao serviço, procurou o domo do escritório para lhe pedir uma quantia irrisória a fim de comprar dois parafusos e duas buchas. Advogado muito ocupado com demandas jurídicas complexas, este não acreditou que o rapaz o procurou para lhe pedir esse valor íntimo.

Visivelmente irritado com essa interrupção inoportuna, ele simplesmente lhe perguntou se a falta de dois míseros parafusos não fora por conta do erro de cálculo quando da elaboração do material inicial ao que o pedreiro retrucou que obra é assim mesmo, portanto, se o doutor não fornecesse tal dinheiro, a obra ficaria paralisada. 

Isso foi a gota d’água, pois o advogado ficou muito incomodado com essa fala com tom ameaçador desferido pelo pedreiro e somado à irritação anterior de ter sido interrompido por uma motivação tão insípida, ele simplesmente tirou a carteira do bolso, lhe deu uma importância em dinheiro e o exortou a ir logo comprar os tais parafusos e buchas e que voltasse ao trabalho imediatamente.

Profundamente contrariado com essa situação, o advogado solicitou à sua secretaria que doravante, não gostaria mais de tratar nenhuma questão com esse rapaz e que ela assumisse a interlocução direta.

Então, a secretária conversou com o rapaz e lhe adicionou em uma rede social de recados rápidos, para poder tratar com agilidade sobre a obra.

Daí em diante, o pedreiro começou a enviar uma quantidade absurda de mensagens. Em princípio, baseado em fatos referentes ao serviço, mas de forma descabida, a comemorar com fotos e vídeos, fatos completamente irrelevantes a dar conta de cada minúsculo avanço do trabalho e obviamente que a secretária notou a verdadeira motivação do sujeito em bombardeá-la com tantas mensagens.  

No entanto, mesmo que o rapaz não fosse explícito e lhe desferir gracejos, ela logo notou o abuso e assim, apenas respondia as questões referentes à obra, como forma de deixar bem claro como conduziria a conversa e nem respondia as demais mensagens ou repercutia os vídeos bisonhos que ele mandava a mostrar encanamentos, tijolos sobrepostos e massa corrida a ser preparada.

Na contrapartida das suas bravatas, na verdade a obra estava a ser conduzida de uma maneira bisonha e mesmo a se colocar como equidistante dessa relação, na verdade p advogado percebera a morosidade e instruía a sua secretaria a cobrar celeridade do pedreiro.

Isso sem deixar de mencionar que funcionários do escritório haviam flagrado o pedreiro a promover sessões de flatulência no meio do expediente, enquanto o seu assistente, um adolescente, apenas ria da situação e claro, ambos sem trabalhar, como se estivessem em uma atividade recreativa da quinta série.

Três dias depois e com a obra longe do seu término, o rapaz procurou o advogado diretamente a lhe dizer que a sua vida estava a viver um inferno por conta da secretaria que tratava diretamente com ele.

Segundo o pedreiro, a secretaria havia se apaixonado perdidamente por ele e a abrir um parêntese em tom bastante presunçoso, ele acrescentou que isso não o surpreendia pois ele se sentia mesmo irresistível para as mulheres.

Atônito, o advogado nem teve força para interromper e seguiu a ouvir. Foi quando o petulante pedreiro foi mais incisivo ao dizer-lhe: -“Doutor, por causa do assédio insuportável da sua secretária, a minha esposa está em pé de guerra comigo, a falar sobre divórcio, eu não posso mais admitir essa situação”.

E foi além ao ameaçar: -“Doutor, ou o senhor afasta essa secretária daqui ou eu largo a obra”.

O velho advogado colocou calmamente os seus pesados óculos no rosto, tirou um maço de dinheiro da gaveta da sua mesa, e a falar com aspereza lhe disse: -“O senhor pegue o seu pagamento pelo serviço, recolha as suas ferramentas e desapareça daqui, não quero vê-lo mais”.

A se mostrar indignado, o pedreiro também elevou a voz e perguntou: –“mas o obra não acabou, o senhor vai me mandar embora, deixar o serviço pela metade e proteger a sirigaita da sua secretária? E como que eu fico? A minha mulher quer o divórcio por causa dessa mulher assanhada que dá em cima de mim, isso não é justo.

O advogado respirou fundo e lhe disse: -“tome aqui o cartão do escritório e peça para a sua esposa telefonar para a minha secretária”.

Rindo, o pedreiro retrucou em tom de estupefação ao dizer: -“Pelo amor de Deus, doutor, o senhor enlouqueceu? Justo para aquela mulher que está destruindo o meu casamento?”

O advogado colocou o cartão no bolso da camisa do pedreiro e lhe disse: -“não sou louco, não, rapaz. É para a sua mulher me ligar que eu faço questão de preparar a papelada do divórcio, gratuitamente, para ela”.