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domingo, 17 de novembro de 2013

Autobiografia na Música - Língua de Trapo - Capítulo 135 - Por Luiz Domingues


Hora de citar os personagens dessa história, e que acompanharam-me. Começo a citar principalmente os colaboradores que estiveram conosco em minha segunda passagem pela banda, em 1983 / 1984, quando a banda estava sob uma condição profissionalizada.

Laerte Vicente

Laert Vicente era / é um bom roadie, amigo e com um talento para vender discos, fora do comum. Era raro o dia em que ele não vendesse pelo menos uma caixa de LP's nos shows, e naquela época, o padrão de uma caixa saída de gravadora, comportava cento e setenta e cinco LP's. Divulgador; filipetador e colocador de cartazes experiente, além de ser roadie do Língua de Trapo, praticamente até hoje, tornou-se um divulgador de espetáculos, requisitado no mercado.

Na primeira aparição d'A Chave do Sol no programa : "A Fábrica do Som", que está disponibilizado no You Tube, ele aparece como espectador da performance da nossa banda, em destaque, pois estava sentado no chão, bem próximo ao palco e a tamborilar sobre ele. Existe um vídeo ao vivo do Língua de Trapo, acredito que do ano 2000, em que ele aparece como um personagem, ao interpretar : "o último Hippie do mundo", ou coisa que o valha, para aproveitar o seu próprio visual comum, como um Hippie da "velha guarda"...

Ayrton Mugnaini Junior

O Ayrton Mugnaini Junior, foi o músico que substituiu-me de imediato, assim que deixei a banda pela primeira vez, em 1981. Ele não efetivou-se na banda, mas sempre gravitou em sua órbita, como colaborador. É multi instrumentista; compositor; cantor; arranjador; jornalista e uma enciclopédia humana ambulante sobre o quesito música. Quando criaram o Google, certamente inspiraram-se no Ayrton, como modelo, pois ele é impossível. É inacreditável que um Ser Humano possa armazenar tanta informação em um cérebro orgânico. Considero-o um gênio.

Cassiano Roda e Marcelo Moraes
 
Cassiano Roda e Marcelo Moraes também foram pessoas que ajudaram muito a banda. O Marcelo e o seu talento nato como um performático cômico de "Stand-Up Comedy", ao usar a improvisação para acomodar as pessoas nas arquibancadas do Lira Paulistana, que fora inacreditável. E Cassiano Roda, como um colaborador com algumas parcerias em composições e ideias para piadas usadas nos shows.


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terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Autobiografia na Música - Língua de Trapo - Capítulo 12 - Por Luiz Domingues

Claro que ele (Laert), tentou demover-me de minha decisão. O chato, foi todos os seus argumentos coincidiram exatamente com o que eu pensava também. Chegou-se em um ponto onde não adiantava falar, só lamentar. Como já disse anteriormente, eu saí por necessidade financeira, contudo, embora gostasse e acreditasse que o trabalho lograria êxito, estava sob pressão familiar, e urgia ganhar dinheiro.


Se foi amistoso ? Sim, mas claro que nenhuma separação, por mais amistosa que seja, é agradável. E ficou acertado que eu faria mais uma apresentação com a banda. Não seria um show, propriamente dito, por isso eu considero aquele show no bar 790, em novembro de 1980, como último, nesse formato. Mas a última subida ao palco, foi para defender duas músicas em um festival Universitário, realizado em janeiro de 1981.
O palco foi nobre, o Palácio das Convenções do Anhembi, onde grandes artistas apresentavam-se regularmente. Foi o fim dessa minha primeira etapa com o Língua de Trapo, pois a história continuaria depois, com a minha volta, em outubro de 1983 e aí, tenho inúmeras histórias, com o Língua sob uma situação completamente diferente e frenética, chego lá, logo mais nesta narrativa. O clima dessa saída em 1981, foi chato, claro. Nesse momento eu estava já a atuar novamente com a banda cover, "Terra no Asfalto". Participar do festival foi um melancólico final que deixou-me mal, mas fazer o quê, não é ?
Assim, no dia 19 de janeiro de 1981, subi no palco do Palácio das Convenções do Anhembi, um palco histórico e elegante cidade de São Paulo, por sinal (Alice Cooper; Elis Regina; Festival Phono 73; Doces Bárbaros, Festival de Jazz de 1978...).

Defendemos as músicas "Tragédia Gramatical" e "Circular 46", com o Língua de Trapo, e a contar também com alguns músicos convidados.

A formação do Língua nessa noite, foi a seguinte :

Laert Sarrumor - Vocal
Pituco -Vocal
Lizoel Costa - Violão
Guca Domenico - Cavaquinho

Luiz Domingues - Baixo
Carlos Mello - Vocal e imitações
Fernando Marconi - Pandeiro
Celso Mojola - Teclados
 

Como músicos convidados, estiveram conosco :
Armando Tibério - Bateria
Gilles - Clarinete
André - Flauta Transversal


Lembro-me que não havia muito público presente, apesar de ser um festival badalado, e realizado em um teatro nobre da cidade. Os shows do Festival foram realizados pelo Made in Brazil, e a cantora Silvinha, ex-Jovem Guarda.
Assisti a ambos da coxia do teatro. O da Silvinha foi incrível, pois sua voz era de arrepiar. Ela cantou uma versão de "Lady Madonna", dos Beatles, onde deu um show de malabarismo vocal.
                                   Ayrton Mugnaini Jr.

E assim, toquei e despedi-me do Língua de Trapo. A música "Tragédia Gramatical", foi classificada, mas aí o Ayrton Mugnaini Jr. assumiu o posto interinamente, e participou da final do festival, pois uma grande reformulação aconteceu após a minha saída. Soube que o guitarrista carioca, Sergio Gama, entrou na banda, e uma nova cozinha foi instalada, com Luiz Lucas no baixo e Ademir Urbina, na bateria (esse último, baterista da banda de covers, "Áries", famosa na noite paulistana e concorrente do Terra no Asfalto, no mesmo circuito de casas noturnas). Nos teclados, saiu, Celso Mojola e entrou João Lucas, irmão do baixista Luiz Lucas.
Com essa nova formação e Fernando Marconi a fixar-se na percussão, o Língua começou sua trajetória meteórica de ascensão. Assisti de longe o sucesso deles, e sem saber que reencontrar-nos-íamos em setembro de 1983...

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segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Autobiografia na Música - Língua de Trapo - Capítulo 9 - Por Luiz Domingues



Infelizmente não tenho e desconheço quem tenha uma cópia dessa aparição no programa, Dárcio Campos. Isso porque ninguém tinha videocassete nessa época, praticamente. Inclusive, não havia disponível no mercado brasileiro na época (só começou a ser fabricado em 1982, aqui no Brasil). Talvez os mais abonados possuíssem-no, mediante aparelhos importados, mas isso era raríssimo.
A não ser que algum abnegado tenha gravado na época, realmente não existe esse registro. Mas essa hipótese é remota, mesmo por que, os poucos que tinham esse aparelho em casa, dificilmente assistiriam o programa Dárcio Campos em um sábado a tarde, e pior ainda, interessar-se-iam em gravar a participação de uma obscura banda como era o Língua de Trapo, naquela ocasião, a não ser que fosse um vidente...
E tenho dúvida se a TV Bandeirantes tenha esse material arquivado. Naquela época, as fitas de VT eram importadas e muito caras. As emissoras de TV costumavam regravar por cima, para otimizar o uso das fitas. É sabido por exemplo, que centenas de jogos de futebol foram apagados para que a extinta TV Tupi pudesse gravar novelas, por exemplo. Por isso que o acervo de gols do Pelé é tão pequeno, infelizmente. Fora dessa improvável hipótese, só na memória, mesmo. Bem, na minha com certeza, muito provavelmente na do Laert que tem excelente memória, e sempre foi minucioso com a preservação de tudo a respeito de sua carreira, mas quanto aos demais... não posso garantir nada.
E mesmo a estar sob um ridículo programa de calouros brega, no meu caso teve um sentido especial tocar naquele palco (para o Laert, também), pois ali aconteceu shows históricos do Rock e da MPB nos anos setenta. Tive esse momento de reflexão interna, enquanto tocava. Após essa primeira aparição em um programa de TV (com a devida ressalva que havíamos tido uma reportagem de um show ao vivo na estação São Bento do Metrô e já relatada anteriormente), a preocupação agora seria lançar a fita demo com um show a altura. Mas antes disso, começamos a vender a fita com aquele acabamento caseiro, que expliquei em capítulo anterior.
E foi um estouro de vendas...
Praticamente a nossa Faculdade inteira comprou, e muita gente de outras faculdades; amigos; parentes e conhecidos. Lembro-me que chegou-se em um ponto onde o Carlos não suportou a demanda para reproduzir em seu equipamento caseiro, e aí tivemos que encomendar cópias em estúdio, a encarecer um pouco a produção, mas a valer a pena, pela quantidade. Lançamos no início de dezembro de 1980. Eu saí da banda ao final de janeiro de 1981, e até quando permaneci, havíamos vendido mais de 1300 fitas. Um estouro total se levarmos em conta que fora uma produção amadora, sem divulgação, e sem respaldo algum. De forma artesanal e vendida no tète-a-tète, esse número pode ser considerado, fabuloso.
E quanto a produção no estúdio, não foi em um estúdio profissional de gravação, mas sim o estúdio de ensaio de uma banda cover que atuava na noite paulistana, chamada "Cia. Itda". E a quantidade de músicas foi enorme. Gravamos 18 músicas, o que tornou a missão cansativa. O resultado final, ao considerar-se que foi uma gravação ao vivo, com ambiente sem separações (a não ser alguns biombos, e portanto não evitou-se os vazamentos), ficou razoável. Em 4 canais, na mixagem foi inevitável o processo de redução. E no processo final, o estéreo armazenado sob uma arcaica fita K7, com seu indefectível chiado. Apesar disso tudo, a qualidade agradou-nos, e o sucesso de vendas comprovou a aprovação do trabalho. A base do repertório foi usada posteriormente na gravação do primeiro LP oficial do Língua. Isso ocorreu em 1982, mas eu não estaria mais na banda. Só voltei em 1983. Mas essa etapa, eu conto depois, na cronologia adequada...
O estúdio ficava localizado bem em frente a este observatório astronômico, da Av. Indianápolis, no bairro do Planalto Paulista, zona sul de São Paulo




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domingo, 4 de novembro de 2012

Autobiografia na Música - Língua de Trapo - Capítulo 8 - Por Luiz Domingues


Então, sem dinheiro e sem parentes importantes, como dizia o Belchior, criamos uma embalagem inusitada para acompanhar a fita K7 : um saco de papel de supermercado, todo amassado e com um carimbo barato, onde colocávamos o nome da banda e da demo : "Língua de Trapo - Sutil Como um Cassetete". A manufatura desse material foi lenta. A reprodução das fitas ocorreu de forma caseira, feita na residência do Carlos Melo, que possuía um duplo deck; e a confecção das capas, xerocada e com o acréscimo de uma gravata feita com retalho, em forma de língua. Literalmente uma língua de trapo...


Programa do show "Solitário", do cantor, Pituco Freitas, realizado no Teatro Gazeta, em 8 de novembro de 1980 

Nesse ínterim, a encerrar-se aquela série de shows solos, desta vez foi o vocalista, Pituco Freitas, que resolvera apresentar-se. A banda que acompanhou-o foi mais elétrica, comigo no baixo; seu irmão Pitico Freitas na guitarra (ele tinha uma bela Gibson Les Paul, preta); Celso Mojola no piano; e um baterista chamado : Edson "Kiko". O show foi batizado como "Solitário", e foi realizado no Teatro Gazeta, em 8 de novembro de 1980, com um surpreendente público formado por cem pessoas, aproximadamente. 



Esse show ocorreu no inusitado horário das onze horas da manhã, e no mesmo dia, por volta das dezessete horas, o Língua de Trapo participou pela primeira vez de um programa de TV (sem contar o jornalismo da TV Bandeirantes, um mês antes). Tratou-se do programa, Dárcio Campos, da TV Bandeirantes e gravado no próprio Teatro Bandeirantes. Ele era um comunicador brega, que fazia uso de um bordão ridículo : "Geração Shanti", com a mão a gesticular uma saudação “vulcana” do Sr. Spock, do Star Trek...

Íamos ser submetidos a um júri, e para tal, defendemos a música "Tragédia Gramatical". Ao final, vencemos o outro concorrente por três a dois e o voto de Minerva foi da cantora, Elizabeth "Tibet". Seu comentário foi hilário : -"vou votar no Língua de Trapo, porque a letra deles é incrível, embora não diga absolutamente nada"...
Caímos na risada, imediatamente, mas acho que ela não percebeu a bobagem que havia dito. Nos anos noventa, eu já como amigo dela, contei-lhe essa história pitoresca, e ela mostrou-se surpreendida, por não lembrar-se de nada...



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segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Autobiografia na Música - Língua de Trapo - Capítulo 7 - Por Luiz Domingues


Volto a falar sobre a escolha do nome nova da banda, Língua de Trapo, e cabe aqui uma explicação : realmente, esse nome foi escolhido por simbolizar a língua afiada, cheia de corrosão ácida para criticar através do humor, a política, sobretudo. E a ideia foi tirada de um verso da música, "Dá Nela", de Ary Barroso e Francisco Alves. 
              O grande Ary Barroso, em foto extraída da internet
 
Nessa música (interpretada pelo cantor, Francisco Alves), na verdade, uma marchinha de carnaval de 1930, conta-se a história de uma pessoa que tem o mau hábito de falar mal da vida alheia. E ela foi usada como vinheta na turnê do primeiro disco entre 1982 / 1983. A antecipar um pouco a cronologia, quando eu voltei ao Língua de Trapo, em outubro de 1983, ainda peguei o finalzinho dessa turnê ("Obscenas Brasileiras"), e cheguei a estar em cena com ela, pois era a hora da apresentação da banda, onde a música servia de “background” para um texto satírico, onde cada componente era apresentado, todos perfilados em fila indiana.
E ainda a falar da marcha carnavalesca, "Dá Nela" cujo verso a citar "Língua de Trapo", inspirou o nome da banda, devo alertar a quem for ouvi-la, que a parte cantada só começa lá pelo segundo minuto, apesar de ser uma marchinha bem curta.
Inacreditável tal conceito em 1930, onde o maestro arranjador tenha feito uma introdução instrumental tão longa. Certamente antecipou, visionariamente, eu diria,  o conceito "progressivo" em quase quarenta anos...

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sábado, 20 de outubro de 2012

Autobiografia na Música - Língua de Trapo - Capítulo 6 - Por Luiz Domingues

Após o show ao ar livre, realizado na Estação São Bento do Metrô, e por termos definido um nome para a banda, partimos para um projeto novo que daria novo impulso à nossa trajetória : a gravação de uma fita demo, não para levar em gravadoras, e pleitear assim uma suposta contratação, mas para vender de mão em mão nos shows, e assim obter lucro, e ao mesmo tempo, tratar em espalhar o trabalho de uma forma mais abrangente. Além do mais, como nesses primeiros tempos raramente tocávamos com equipamento minimamente profissional, o grande trunfo de nosso trabalho estava por ser mal explorado, isto é, as letras sob forte apelo satírico; a conter duplo sentido em alguns casos e com uma dose generosa de sarcasmo etc. 
Dessa forma, sentíamo-nos frustrados com essa deficiência técnica que prejudicava o entendimento de nosso trabalho, e a ideia em obter o material gravado, seria uma solução e tanto. E outro aspecto interessante e inerente à época, deu-se com o fato de que ninguém sonhava em lançar um disco independente naquele momento. Ou você era contratado de uma gravadora, ou era considerado um artista "amador". 



Naquele ano de 1980, havia apenas dois discos lançados no mercado sob forma independente (o do tecladista, Antonio Adolfo, "Feito em Casa", que fora lançado em 1977, e o da Patrulha do Espaço, em 1980, mesmo) e assim, seus respectivos lançamentos geraram grande polêmica, pois até ameaça de processo sofreram, sob a estapafúrdia alegação de que "violavam os direitos exclusivos da áudio difusão da indústria fonográfica"...

Equivaleria dizer em 1888, que os escravos violavam o direito dos fazendeiros explorar suas terras sem o ônus de ter que pagar salários aos trabalhadores, a tornar a libertação, um ato antieconômico... 

Então, gravamos entre os meses de outubro e novembro de 1980, no estúdio de ensaio da banda, "Cia. Ilimitada", que atuava na noite, a tocar covers. Esse estúdio cresceu, e tornou-se propriedade do tecladista, De Boni, que tocou com “O Terço” nos anos 1990, e que tocava no Cia. Iltda., naquela época. Foram gravadas dezoito músicas, sob um plano de gravação ao vivo, com pequenos overdubs, apenas. Foi uma demo sem nenhum requinte, mas que serviu aos propósitos, e coube no modesto bolso da banda naquela ocasião. Feito isso, pensamos em uma embalagem criativa, barata, e batizamos essa fita com o nome: "Sutil Como um Cassetete".

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sábado, 6 de outubro de 2012

Autobiografia na Música - Língua de Trapo - Capítulo 4 - Por Luiz Domingues

Foto rara do Festival de MPB de Bauru / SP, em 1980, com Laert Sarrumos; Carlos Melo e Guca Domênico a tocar instrumentos de percussão, durante a execução da música : "Tragédia Gramatical"

Ele ficou muito nervoso, pois havia ali pelo menos cinco mil pessoas e naquele clima de festival, com vaias misturadas a aplausos, torcidas organizadas de uma ou outra música etc. E sendo assim, estava muito tenso, pois estávamos acostumados a tocar para plateias de duzentas pessoas, no máximo, até então. Como a música começava sem sua presença no palco, ele tinha uns poucos segundos para concentrar-se. Nos ensaios, não havíamos combinado nenhuma performance extraordinária. 


O compositor avantgarde, Arrigo Barnabé, que estava em alta voga naquele momento entre o final da década de setenta e começo de década de oitenta    

Mas por conta do nervosismo, quando ele entrou em cena, e a aproveitar aquele ritmo todo fracionado da canção, a la Arrigo Barnabé, imprimiu uma exótica coreografia improvisada, cheia de lascividade. Então imagine um mestiço de japonês e italiano, alto e forte, trajado de uma forma tradicional, mas a entrar em cena com uma dança completamente inusitada...

Eu nunca havia visto uma reação espontânea em uníssono do público, a não ser na explosão de torcidas nos estádios quando comemoram o gol de seu time. 


Pituco Freitas em ação, no Festival de MPB do Sesc Bauru, em 1980. Eu apareço ao fundo, em uma rara foto com meu baixo Giannini, modelo "RK". O baterista, Fernando Marconi, está encoberto, e essa garota não era componente da nossa banda, mas na verdade, tratou-se de uma concorrente que resolveu sob improviso, participar de nossa performance, quando tocamos novamente, após o resultado, para celebrar o prêmio por "aclamação popular", que recebemos do júri


Ele entrou no palco e daquele jeito, a reação de cinco mil pessoas em uníssono ocorreu, sob uma ovação incrível. A música classificou-se para a final e nos bastidores ouvíamos rumores que ela havia recebido o apelido de : "melô do japonês gay"... não tinha nada a ver, claro, e comentários assim mais pareciam despeitados, visto que a maioria dos nossos concorrentes tiveram performances discretíssimas, sem nenhuma distinção especial. 


Laert Sarrumor; Carlos Melo (Castelo), e Guca Domenico, a caprichar nos Backing vocals da canção : "Tragédia Gramatical".  
 

Na final, nem ela, "Tragédia Gramatical", nem "Teologia do Sambão" ganhou prêmios, mas o júri decidiu dar-nos uma menção honrosa, como melhor performance e aclamação popular. Já a música do Carlos Melo, "A Vingança do Hipocondríaco", apesar de ser muito engraçada (tratava-se de um samba de breque, a la Moreira da Silva), pois arrolava nomes enormes de remédios impronunciáveis, não havia classificado-se para a final.


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terça-feira, 2 de outubro de 2012

Autobiografia na Música - Língua de Trapo - Capítulo 3 - Por Luiz Domingues

Já em relação aos festivais de MPB, as coisas aconteciam de forma bem mais profissional no tocante ao equipamento. Lembro-me de um festival desses, realizado no Sesc Bauru, onde aconteceu o primeiro sinal de que o Língua faria grande sucesso. Isso ocorreu ao final de maio de 1980. Ainda não éramos oficialmente o "Língua de Trapo", e nesses festivais apresentávamo-nos a defender as músicas do Laert; Guca Domenico ou do Carlos Melo (Castelo), geralmente, e a usar a alcunha de, "Laert Sarrumor e seus Cúmplices", as vezes, mas não necessariamente como uma banda estabelecida, pelo menos nesses primeiros meses. Defenderíamos três músicas nesse festival de Bauru / SP : "Teologia do Sambão"; "Tragédia Gramatical" e "A Vingança do Hipocondríaco". Eram músicas do Laert; Carlos, e Guca, respectivamente. 


Material impresso, distribuído ao público no Festival de Bauru, para acompanhar as letras, e com a inclusão de cartuns elucidativos sobre o teor delas 



Em "Teologia do Sambão", tocávamos um “Sambão Joia”, meio na onda dos “Originais do Samba” e a letra do Carlos era muito espirituosa, a tecer uma sátira à vinda do Papa João Paulo II ao Brasil (notícia forte em 1980), em contraponto com a ridícula ação do governador de São Paulo, Paulo Maluf, em torno da aventura da "Paulipetro". No auge da música que era cantada pelo Laert, o Carlos Melo apareceu fantasiado como Paulo Maluf, com um óculos fundo de garrafa e a música foi interrompida. Ele fez um discurso ridículo, a imitar com perfeição o então governador biônico de São Paulo e o público ovacionou a música.    


                Carlos Melo (Castelo), em foto bem mais atual 

Foi um sucesso a performance. E na outra música,"Tragédia Gramatical", outro fenômeno aconteceu. Essa música tratava-se de um bolero todo cheio de estranhas quebradas rítmicas, influência do Arrigo Barnabé que era a última moda em 1980. A letra fazia um jogo de palavras em cima dessa quebradeira. Era uma piada sutil, mas algo extraordinário ocorreu, por conta de um improviso do Pituco Freitas, nosso vocalista.
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