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sábado, 4 de maio de 2013

Autobiografia na Música - Trabalhos Avulsos (Quarteto Toulon) - Capítulo 37 - Por Luiz Domingues

Tenho uma história paralela, mas que tem a ver com este capítulo também, por ter ocorrido nessa época do "Quarteto Toulon".
 

O Sérgio Henriques (tecladista com o qual toquei na banda de apoio de Tato Fischer, e também como membro do Terra no Asfalto), participara da turnê, "Saudade do Brasil", ao atuar como segundo tecladista da banda de apoio de Elis Regina. Depois que acabou, teve férias da turnê com Elis Regina, e chegou a tocar conosco na volta do Terra no Asfalto, ao final de 1980, mas logo  deixou-nos novamente, para ir tocar na turnê do LP "Lança Perfume", da Rita Lee. Encerrada essa turnê da Rita, voltou a ensaiar com a Elis, desta feita para tocar na nova turnê, chamada : "Trem Azul".
E assim que a turnê começou em São Paulo, o Sérgio sinalizou que poderíamos assistir uma edição, desde que não fosse nos dias mais concorridos, sexta; sábado e domingo. E assim fomos, em uma quarta-feira. O Sérgio apareceu na porta da casa de espetáculos, para cumprimentar-nos, e liberou quatro ingressos, eu (Luiz Domingues); Cido Trindade; Pitico Freitas, e a Vilma, fomos ver o show da Elis Regina, naquela noite (não recordo-me da data correta, infelizmente).
Apesar de ser uma quarta-feira, e estar frio, o público ali presente na fila da bilheteria, foi enorme. Fomos orientados pelo Sérgio a deixar todo mundo entrar, e só depois irmos à bilheteria fornecer nossos nomes, e apanhar os convites em regime de cortesia. Mas enquanto o público entrava, aconteceu um momento cinematográfico, do qual nunca esquecer-me-ei...
Eis que subitamente, surgiu uma limusine preta e enorme, típica norteamericana, e naquela época era raro ver uma dessas. Hoje em dia, são muitas pelas ruas de São Paulo, mas naquela época, chamava muito a atenção. Aí, desceu um motorista negro e alto, com um uniforme impecável, azul pavão, com os botões da casaca dourados, quepe e luvas brancas. A multidão parou para ver, a conversa parou nas rodinhas formadas pelas pessoas ali a aguardar.

Então, o motorista abriu a porta traseira e saiu do carro : Caetano Veloso, com as mãos dadas com Sonia Braga, e Gilberto Gil com sua nova esposa, Flora. Nesse instante, a reação das pessoas no entorno, foi ridícula ! As pessoas em uníssono, soltaram um -"Ooohh"... a abrir o caminho para que os dois casais famosos entrassem de uma forma triunfal, como se fosse a cerimônia de entrega do Oscar...
Nós quatro, os hippies deslocados em meio àquela plateia burguesa, formada por homens engravatados e senhoras com seus vestidos longos, e casacos de pele... enfim, ficamos sob um ataque de risos... passada essa comoção subserviente, o público "plebeu" entrou na casa de espetáculos para que só depois, os "hippiezinhos" pudessem entrar. Tratava-se de uma casa nova de shows em São Paulo, filial do Canecão, do Rio de Janeiro. Infelizmente esse "Canecão" paulistano não prosperou, e poucos meses depois, fechou as suas portas. Talvez por ser localizado na zona norte, onde não havia tradição para casas noturnas naquela época. Hoje em dia, a zona norte de São Paulo, está lotada por casas para todo o tipo de eventos e gostos musicais, mas naquela época, os estabelecimentos que lotavam, eram mesmo nas zonas, sul e oeste de São Paulo.

O Sérgio estava bem alegre, e chamou-nos para participar da "alegria", onde o pessoal da banda estava, em um recanto longe dos camarins. Lembro do pessoal dos sopros, Bocato; Bangla; Farias, e Garfunkel, nessa confraternização. O show foi impecável. O repertório interpretado por Elis Regina, mesclou clássicos do repertório da Elis, com as músicas do novo LP, "Trem Azul".
Posso afirmar que apesar de ter sido um show de uma cantora da MPB, a sonoridade tinha quase pegada de Rock, com um peso contundente, e arranjos ousados, cheios de momentos de virtuosismo instrumental. Apreciei muito o som do baixista, Luisão. Ele extraiu um som aveludado do seu Fender Precision Bass, e tocou demais, com um swing mezzo jazzistico, mezzo Soul, além das brasilidades, das quais foi um mestre.
O César Camargo Mariano não estava nessa banda, pois havia brigado com a Elis, na ocasião. Menos de seis meses depois, ela faleceria, e nas imagens do jornalismo que cobriu o sepultamento, o Sérgio Henriques e sua esposa, Celina Silva, apareceram bastante, e com indisfarçável tristeza em destaque, muito abalados. Até hoje, quando surge retrospectiva da morte da Elis Regina, essas imagens passam com a presença marcante do casal.
Em 2008 ou 2009, não lembro-me ao certo, a Rede Globo fez um especial da Elis, ao mesclar imagens reais e dramaturgia. Nas partes reais, a Celina Silva prestou vários depoimentos. E assim foi a noite em que o efêmero, "Quarteto Toulon" foi em peso ver a grande Diva da MPB, Elis Regina... 

Abaixo, veja o vídeo de um trecho do show da Elis dessa turnê, infelizmente, derradeira para ela :

Não é exatamente do dia em que fomos, mas dá uma ideia do que vimos. Dá para ver bem o Sérgio Henriques aos teclados. A pegada é quase de show de Rock, com os músicos que a acompanhavam a tocar com pegada e virtuosismo.
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Autobiografia na Música - Trabalhos Avulsos (Quarteto Toulon) - Capítulo 36 - Por Luiz Domingues

E assim, prosseguimos a apresentar-nos. No dia seguinte, dia 15 de agosto de 1981, tocamos para mais gente na casa. Cerca de cento e vinte pessoas jantaram a escutar a nossa MPB cheia de pegada Rocker.
A Vilma era mediana a cantar, mas tinha suas qualidades, também. A coragem que tinha ao mergulhar de cabeça, sem medo, foi positiva. Ela não intimidava-se, e assim, cantava e tocava flauta a  dar o seu melhor, com firmeza, sem constranger-se pelas reações gélidas de uma plateia indiferente.
Nem mesmo o chato do gerente e sua obsessão pelo volume, a inibia em seus arroubos para soltar a voz em interpretações mais ousadas, ao buscar notas mais agudas. O som era cheio de improvisos. Em dados momentos, músicas como "Odara" e "Fé Cega, Faca Amolada", ficavam enormes, com o Pitico a executar solos rockers, e sob tendência setentista, ou seja, enormes... 

Além de divertirmo-nos um pouco, foi uma forma também de esticar o repertório que era pequeno, e como a banda fora apenas um caça-níqueis, sem planos para ter uma continuidade, não houve previsão para ensaios, muito menos predisposição para tal.


Tocamos também nos dias 21; 22; 28 e 29 de agosto de 1981. O menor público nesse restaurante, foi no dia 21, com vinte pessoas presentes e o maior, no dia 29, com cento e cinquenta pessoas. O nome, "Quarteto Toulon", foi sugestão do Cido Trindade, mas sinceramente, não lembro-me o seu real motivo de ser. Deve ter sido pela sonoridade da palavra, e não por ligação com a cidade francesa.

 
Mas antes dessa escolha, o apelido interno da banda era, "Quarteto Qualquer Nota", por referir-se ao caráter relaxado de uma banda que tocava sem ensaiar, e errava bastante ao vivo... nunca mais tive notícias da Vilma, quando o Quarteto Toulon desmanchou-se, após a última apresentação no restaurante Delfos. Alguns dias depois, o Terra no Asfalto estaria reunido novamente, a dispensar tal banda emergencial e assim foi a breve história de mais um trabalho avulso que fiz. Mas a banda gerou mais uma história extra-musical que relatarei, a seguir 

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Autobiografia na Música - Trabalhos Avulsos (Quarteto Toulon) - Capítulo 35 - Por Luiz Domingues

Mas toda essa pressa não serviu para nada, pois o Chez Bernard culminou em não aceitar-nos, porque esperavam um som intimista ao estilo de uma MPB lounge, e com um Power-Trio Rocker, mesmo esforçando-nos para conter o volume e a pegada, naquele bar isso fora demasiado barulhento para os seus padrões, e certamente que perturbamos as "dez" pessoas que estavam ali presentes...

E assim, só fomos arrumar um emprego, quase um mês, depois, em um restaurante grego, localizado no bairro de Pinheiros, zona oeste de São Paulo, chamado : "Delfos".

A Vilma não era nenhuma grande cantora...pelo contrário, tinha muito pouco alcance vocal, e se não conseguisse ouvir-se bem, tendia a desafinar. Não desafinava grotescamente, mas sempre ficava aquém ou além do tom correto, meio "coma" pelo menos, a causar uma pequena estranheza para nós. Claro, uma sutileza dessas passava despercebida para o público leigo, mas um ouvido mais lapidado, percebia, e não havia como ela superar essa deficiência com o equipamento de P.A. precário que a casa  fornecia-nos.
E o mesmo sucedia-se com a flauta. Não sendo uma grande flautista, mas ainda apenas uma estudante do instrumento, ela fazia solos com várias notas fora da harmonia, por falta de conhecimento teórico de harmonia, ou na maior parte das vezes, por não ouvir-se direito. A primeira apresentação no restaurante Delfos, foi no dia 14 de agosto de 1981. Havia cerca de sessenta pessoas presentes no recinto, e pior que um bar, tocar em restaurante foi uma experiência terrível, no sentido de convivermos com a ausência absoluta de atenção...
A cada final de música, o silêncio mostrava-se constrangedor em relação à banda, e só era quebrado pelo movimento dos garçons e pelas pessoas a conversar nas mesas...

Desde a primeira apresentação, o gerente incomodou-nos com a questão do volume. Chegava a ser cômico ele a sinalizar-nos para diminuir, mesmo com a banda a estar sob patamares de baixo volume, constrangedores, até, principalmente para o Cido Trindade. Tocar bateria nessas circunstâncias, é uma tortura para o baterista. Mesmo ao considerar-nos "barulhentos", fomos contratados para tocar fixo, às sextas e sábados.


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Autobiografia na Música - Trabalhos Avulsos (Quarteto Toulon) - Capítulo 34 - Por Luiz Domingues

Nos meses subsequentes, logo após essa tentativa que tive em participar de um trio orientado pelo Jazz-Rock, com Pitico Freitas, e José Luiz Dinola, o Terra no Asfalto voltou, e firmou-se de tal forma, que supriu as minhas necessidades financeiras imediatas, ao fazer com que eu parasse de aceitar outros convites para atividades avulsas. Eu tinha saído do Língua de Trapo na minha primeira passagem, e essa calmaria com o Terra no Asfalto, duraria até o meio de 1981.

No capítulo do Terra no Asfalto, conto o por quê da parada forçada.
Cabe dizer aqui, que nesses dois meses em que tal banda ficou parada, Paulo Eugênio e Wilson Canalonga Junior estavam resignados por esperar a banda voltar, mas eu e Cido Trindade não podíamos dar-nos a esse luxo, e sendo assim, resolvemos montar uma forma emergencial, uma banda cover, para tocar MPB na noite, nesses meses.

Nessa circunstância, lembrei-me do Pitico Freitas, que apesar de ser Rocker, sabia tocar bastante material da MPB, e precisava ganhar um dinheiro rápido, também. Mas como nenhum de nós cantava o suficiente para assumir tal tarefa, resolvemos fazer contatos, para visar arrumarmos um vocalista.
Liguei para o guitarrista, Lizoel Costa, que tinha um enorme cadastro pessoal a conter músicos de qualquer especialidade, e para qualquer estilo de música, e assim, ele indicou-nos alguns cantores e cantoras. Entrevistamos alguns, inclusive uma cantora, mas nenhum mostrou-nos o perfil que queríamos. Então, o Pitico teve uma indicação de um amigo, sobre uma garota que era "meio hippie", e que cantava e tocava flauta.
A garota chamava-se, Vilma, e parecia determinada a trabalhar. Fizemos um teste mínimo com ela, e a aceitamos sem uma maior avaliação mais apurada. Como estávamos necessitados, assim que arrumamos um local para tocar, marcamos logo a primeira data, sem ensaiar mesmo. Eu e Pitico fizemos várias anotações com harmonias de clássicos da MPB, e lá fomos nós tocar sem ensaiar...

Como a Vilma estava muito insegura, resolvemos fazer a primeira apresentação que foi um teste, com o reforço do vocalista do Língua de Trapo e irmão do Pitico, o Pituco Freitas, em título de ajuda. Essa apresentação ocorreu no Bar Chez Bernard, um casa noturna, dirigida e frequentada por franceses, bem elegante, por sinal, no dia 17 de julho de 1981. Foi uma apresentação curta, mas razoável, por considerar-se a falta de ensaios prévios.

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domingo, 7 de abril de 2013

Autobiografia na Música - Trabalhos Avulsos (Trio com Pitico Freitas e José Luiz Dinola) - Capítulo 33 - Por Luiz Domingues

De fato, foram minhas primeiras performances mais contundentes  com o José Luiz Dinola, que dois anos depois, tornar-se-ia meu colega de Chave do Sol. Achava-o bem técnico já naquela época, mas fora esses ensaios de 1980, pouco conversamos a seguir. Tanto que, quando esse projeto não andou mais, eu só fui falar com ele, novamente em julho de 1982, quando o convidei para tocar com A Chave do Sol.
Para o leitor ter ciência, preferi chamar o Edmundo, para trabalhar com A Chave do Sol, antes, sem nunca tê-lo visto tocar, e tecnicamente ele era muito inferior ao Zé Luiz. Tudo porque eu era muito mais amigo do Edmundo nessa época, pois ele gravitara na órbita do Terra no Asfalto (como conheci o baterista Edmundo, já está contado no capítulo sobre o Terra no Asfalto). Pena que esse projeto de banda, nem nome conseguiu ter, pois as ideias do Pitico Freitas eram boas, e ele tocava uma guitarra cheia de swing, meio no estilo do guitarrista norteamericano, Tommy Bolin.
A impressão inicial que tive do Zé Luiz Dinola, foi muito boa pela técnica, mas pelas conversas que tivemos, achei que tínhamos pouca afinidade, pois ele só apreciava a escola do Jazz-Rock, praticamente, e eu tinha um leque de preferências muito mais amplo. Já o Edmundo, era um sujeito com o qual a minha identificação era muito maior, haja vista a vasta coleção de discos dele, que batia muito com o meu gosto musical. Era baseada no melhor do Rock 1960 / 1970, sob inúmeras tendências.

Depois que conheci o Zé Luiz Dinola, melhor (quando entrou definitivo na Chave do Sol), ficamos muito amigos, embora na parte musical ele ainda fosse fechado na questão do Jazz-Rock. 
Pois é... o Dinola tinha essa característica muito forte naquela época, e mesmo com a Chave a prosperar muitos nos anos vindouros, foi duro lidar com essa visão fechada dele. No tempo do Sidharta (entre 1997 e 1999 e cuja história tem capítulo em específico, naturalmente), ele estava bem mais aberto, mas mesmo assim, culminou em deixar o projeto, por divergência musical. 

Foi assim então, a super efêmera carreira desse trio, supostamente voltado ao Jazz-Rock instrumental.
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sexta-feira, 5 de abril de 2013

Autobiografia na Música - Trabalhos Avulsos (Trio com Pitico Freitas e Zé Luiz Dinola) - Capítulo 32 - Por Luiz Domingues

Após a frustrada passagem com o grupo, Jungô, meu próximo trabalho paralelo foi uma tentativa em formar um trio orientado pela escola do Jazz-Rock, ao estilo dos anos setenta. Foi assim : conforme já revelei no capítulo do Língua de Trapo, eu fui gravar uma fita demo, a visar tentar classificar uma música para o vocalista, Pituco Freitas, participar do Festival FICO, como cantor solo.
Nesta foto de 1986, José Luiz Dinola estava em ação, em um show da Chave do Sol
 

Fomos gravar no estúdio de ensaios da banda, "Contrabando", cujo baterista era um rapaz chamado, José Luiz Dinola, e tal banda contava com o Tony Babalu, como guitarrista, e  já muito experiente na ocasião, e os demais membros (Ronaldo; Edson e Renata), eram bem jovens, ainda. O guitarrista, Pitico Freitas, que era irmão do Pituco Freitas, foi o elo, pois era amigo de escola do José Luis Dinola, e conhecia o pessoal do Contrabando. Algum tempo depois dessa gravação, o Pitico Freitas chamou-me, ao convidar-me a ensaiar com ele, e José Luiz, pois estavam a precisar de um baixista para um novo projeto que articulavam.
                      Pituco Freitas, em foto bem mais atual 

O Pitico era o oposto do seu irmão, Pituco, em termos de influências musicais. Enquanto o Pituco tinha toda aquela formação de MPB tradicional, bossa nova e afins, o Pitico era Rocker, gostava de Rainbow, Led Zeppelin, e Ted Nugent, por exemplo. E o José Luiz era apaixonado por Jazz-Rock, e estava cansado do som do Contrabando, que era muito parecido com o Made in Brazil, ou seja, Rock tradicional, e bem simples. Então eu aceitei, e foi marcado assim um ensaio a ser realizado no estúdio que pertencia ao baixista de uma banda cover de Beatles, chamado Felipe, em Pinheiros, zona oeste de São Paulo.
Ensaiamos três temas meio "funkeados", que o Pitico tinha semi prontos. A intenção seria empreenderr um som na linha do Jeff Beck, na fase de seus álbuns, "Blow by blow" / "Wired", ou seja, um clássico Jazz Rock instrumental com acento swingado de orientação Funk & Soul. Nenhum de nós três tínhamos condições para fazer isso com maestria, mas após o primeiro ensaio, vimos que por outro lado, que o material que produzimos não era para descartar-se, também. Mais dois ensaios foram realizados, mas aí os compromissos de cada um, inviabilizaram a continuidade do projeto, pois no meu caso, eu estava bem comprometido com os momentos iniciais do Língua de Trapo; o Terra no Asfalto aspirava uma possível "volta" de suas atividades, e nas horas vagas, eu estava a ter ensaios, na expectativa da gravação do LP do cantor, Leandro (história já contada neste capítulo dos trabalhos avulsos). Sendo assim, esse projeto foi curto e extinguiu-se com três ensaios, apenas. Todavia, foi vital passar por tal experiência, pois serviu-me para que pudesse ter conhecido melhor o José Luiz Dinola, que dois anos depois, tornar-se-ia cofundador de minha banda autoral, A Chave do Sol.

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domingo, 4 de novembro de 2012

Autobiografia na Música - Língua de Trapo - Capítulo 8 - Por Luiz Domingues


Então, sem dinheiro e sem parentes importantes, como dizia o Belchior, criamos uma embalagem inusitada para acompanhar a fita K7 : um saco de papel de supermercado, todo amassado e com um carimbo barato, onde colocávamos o nome da banda e da demo : "Língua de Trapo - Sutil Como um Cassetete". A manufatura desse material foi lenta. A reprodução das fitas ocorreu de forma caseira, feita na residência do Carlos Melo, que possuía um duplo deck; e a confecção das capas, xerocada e com o acréscimo de uma gravata feita com retalho, em forma de língua. Literalmente uma língua de trapo...


Programa do show "Solitário", do cantor, Pituco Freitas, realizado no Teatro Gazeta, em 8 de novembro de 1980 

Nesse ínterim, a encerrar-se aquela série de shows solos, desta vez foi o vocalista, Pituco Freitas, que resolvera apresentar-se. A banda que acompanhou-o foi mais elétrica, comigo no baixo; seu irmão Pitico Freitas na guitarra (ele tinha uma bela Gibson Les Paul, preta); Celso Mojola no piano; e um baterista chamado : Edson "Kiko". O show foi batizado como "Solitário", e foi realizado no Teatro Gazeta, em 8 de novembro de 1980, com um surpreendente público formado por cem pessoas, aproximadamente. 



Esse show ocorreu no inusitado horário das onze horas da manhã, e no mesmo dia, por volta das dezessete horas, o Língua de Trapo participou pela primeira vez de um programa de TV (sem contar o jornalismo da TV Bandeirantes, um mês antes). Tratou-se do programa, Dárcio Campos, da TV Bandeirantes e gravado no próprio Teatro Bandeirantes. Ele era um comunicador brega, que fazia uso de um bordão ridículo : "Geração Shanti", com a mão a gesticular uma saudação “vulcana” do Sr. Spock, do Star Trek...

Íamos ser submetidos a um júri, e para tal, defendemos a música "Tragédia Gramatical". Ao final, vencemos o outro concorrente por três a dois e o voto de Minerva foi da cantora, Elizabeth "Tibet". Seu comentário foi hilário : -"vou votar no Língua de Trapo, porque a letra deles é incrível, embora não diga absolutamente nada"...
Caímos na risada, imediatamente, mas acho que ela não percebeu a bobagem que havia dito. Nos anos noventa, eu já como amigo dela, contei-lhe essa história pitoresca, e ela mostrou-se surpreendida, por não lembrar-se de nada...



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quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Autobiografia na Música - Língua de Trapo - Capítulo 5 - Por Luiz Domingues

Um pouco antes dessa época, em março de 1980, essa formação passou a ser considerada um grupo fixo, sob o nome de "Laert Sarrumor e os Cúmplices". E sim, o Laert Júlio havia adotado como seu nome artístico doravante, a palavra "Sarrumor", um neologismo que ele havia criado para o seu fanzine de cartoons dos anos setenta, o "Sarrumorjovem". Sarro e humor tornou-se seu mote principal.                                                             

Nessa foto, dá para ver as costas do tecladista, Celso Mojola, e eu estou meio de lado, compenetrado no meu baixo, Giannini "RK". A garota praticamente só dançou, e não fazia sentido algum a sua presença ali, pois não era componente da banda, mas sim uma concorrente que entrou por sua própria conta na nossa apresentação. Mas quem brilhou mesmo foi o nosso vocalista, Pituco Freitas

 
Foto dos calouros sendo recepcionados, no segundo semestre de 1980, na faculdade Cásper Líbero, tendo no dia a apresentação do Língua de Trapo, como show de recepção da nova turma


Certamente depois desse Festival de Bauru, isso tornou-se oficial, doravante. Essa repercussão no Festival de Bauru acredito ter sido um agente impulsionador e tanto. Depois dele, já a entrar em junho de 1980, sabíamos que o trabalho estava a ganhar corpo. A reação espontânea e massiva do público daquele festival, deu-nos muita confiança em prosseguir. E dessa forma, animados com esse sucesso no Festival de Bauru realizado nos dias 30 e 31 de maio, e 1º de junho de 1980, inscrevemos músicas em outros festivais e também fizemos shows pelo circuito universitário. 
Programa distribuído aos calouros, com a lista do repertório a ser tocado. Nota-se a presença de várias músicas que fariam sucesso a posteriori, com a ascensão da banda, de 1982 em diante
  
Lembro-me que batizamos o show como "Sutil como um Cassetete" e fizemos dois shows com lotação esgotada na Faculdade Cásper Líbero, o berço da banda. Seguiram-se shows na Química da USP; Crusp (alojamento de estudantes da USP), e logo a seguir, seguimos para Sorocaba, para mais um festival de MPB universitário. Nesse festival, reforçados de Pitico Freitas na guitarra (irmão do vocalista Pituco), e Tato Fischer no piano, defendemos as músicas: "Tragédia Gramatical" e "Instante de Ser" (essa, curiosamente não mostrava-se satírica e era também remanescente do repertório do Boca do Céu / Bourréebach), além de "Chorocaba", de autoria do Guca Domenico. 
Classificamos as três músicas para a final e o resultado obtido foi o 3° lugar com "Tragédia Gramatical" e melhor intérprete para o Pituco Freitas. O Festival de Sorocaba teve duas eliminatórias e a final, realizadas nos dias 15; 22, e 29 de agosto de 1980. A presença de Tato Fischer foi provisória, a substituir o tecladista, Celso Mojola, que não pode estar presente nessa ocasião. E foi a terceira vez que eu tocaria com ele, visto que fui side / man em sua banda de apoio em mini turnê em 1979, e ele tivera algumas participações como tecladista e vocalista na minha banda cover, o "Terra no Asfalto". 
Depois de Sorocaba, fomos à Osasco, na grande São Paulo, para defender as músicas: "Circular 46" (Guca / Carlos Melo); "Tragédia Afrodisíaca" ( Guca / Carlos Melo); "Arrojo" (Laert) e "Romance em Peruíbe" (Laert / Guca). Isso ocorreu em 5 de setembro de 1980. 
Como músicos convidados, tivemos as presenças de : Pitico Freitas, a tocar cavaquinho e João Roberto, na viola. Nesse Festival, super mal organizado e sem público, praticamente, desistimos de participar da final, devido à falta de estrutura mínima necessária. E nesse ínterim, houve um show solo do cantor; compositor e violonista Guca Domenico. A banda de apoio foi o novo combo, Laert Sarrumor e seus Cúmplices" (que nesse show recebeu a alcunha de "Panela Vazia"), e o repertório inteiro com composições do Guca. Ele batizou esse show solo como : "Versátil como um Adesista". 
Claro, nomes irônicos como "Sutil como um Cassetete" e "Versátil como um Adesista", tinham conotação política óbvia.

Foto de Homero Sergio Moura, que era estudante da Cásper Líbero, a flagrar o show de recepção dos novos calouros, em 11 de agosto de 1980. Dá para ver o Laert bem na frente; Fernando Marconi na bateria, e eu só pelo braço do meu baixo, Giannini "RK" e minha mão no braço do instrumento. Pela altura do braço, devia estar a tocar uma nota "La" da quinta casa da corda, "Mi"...  

A seguir, um show de "Laert Sarrumor e os Cúmplices" na Estação São Bento do Metrô, onde o jornalismo da TV Bandeirantes registrou e exibiu no seu noticiário do meio-dia no dia seguinte. Foram mostrados flashs da banda em ação e uma micro / entrevista com o Laert. Esse show ocorreu no dia 8 de outubro de 1980. Nessa época, foi elaborado uma lista para definirmos outro nome para a banda e sob uma votação, decidiu-se por : "Língua de Trapo".

Continua...