Foto de Rodrigo Hid, em um momento de descontração no estúdio Overdrive, em 2005. Click de Grace Lagôa
Com o Rodrigo a assumir a guitarra, o Pedra encontrou o seu formato
ideal. Mas esse não fora o plano inicial, pois o Tadeu era (é) um excelente guitarrista, e não cogitávamos
perdê-lo naquele instante tão prematuro da história de uma banda que mal nascera.
Foi surpreendente; desagradável; e de certa forma
chocante, mas ao final, deu tudo certo com o Rodrigo a assumir o seu
lugar de direito na banda. O Rodrigo é um talento como multi-instrumentista, portanto, deixá-lo
a tocar apenas um instrumento, ou somente a cantar, seria desperdiçá-lo. Sorte
do Pedra em poder contar com esse talento, portanto.

Rodrigo Hid e eu, Luiz Domingues, no estúdio Overdrive, em 2005, durante as sessões de gravação do disco. Foto de Grace Lagôa
Confesso que
sinto uma certa revolta em ver tanta porcaria consagrada no mainstream,
só por conta de lobby, e comprometimento com estéticas mancomunadas com
jornalistas vendidos & empresários inescrupulosos, para na contrapartida, deixar-se a margem, um
talento como o de Rodrigo Hid. Cito aqui o Rodrigo, sem demérito aos demais, incluso eu. Apenas
para realçar o seu talento como multi-instrumentista; cantor; compositor e
letrista. No tocante ao direcionamento artístico do Pedra, se tivesse
aparecido um produtor de peso... mas creio que hoje em dia as coisas não
funcionam mais assim.

Sessão de gravação das guitarras de Xando Zupo. Click de Grace Lagôa
Por incrível que pareça, as coisas
pioraram, pois antigamente os produtores de gravadoras pegavam bandas de
qualidade, e moldavam-nas no padrão Pop vagabundo.
Hoje, bandas de
qualidade nem chegam perto... eles preferem fabricar garotos emo, que já
vem prontos no esquema, sem dar-lhes o menor trabalho.
Os tempos eram outros, e nenhum produtor moderno desses que vampirizam,
interessar-se-ia em produzir uma banda formada por veteranos, e com o som cheio
de
firulas. Para eles, seria muito mais fácil e econômico investir em
bandas de meninos que já fazem esse som, mostram-se como absolutamente moldáveis, e
tem a juventude ao seu lado, como condição sine que non.
Continua...
Visto hoje em dia, acho que até tenho um diagnóstico, mas na época pareceu algo surreal. E
no caso do Alex, não é que estivesse desanimado.
Alex Soares, em um ensaio de 2005. Foto de Grace Lagôa
Ele queria muito que
desse certo, mas a sua expectativa era diferente. Ele queria um caminho
Pop, acentuadamente popularesco. Nós tínhamos uma meta, e ele pensava em
outra, foi isso. Quanto aos demais, claro, estávamos empolgados.
O meu diagnóstico é o de que Tadeu Dias, apesar de possuir uma tremenda bagagem
em MPB e Black Music, com sólida formação teórica, inclusive, gostava
mesmo, era de Heavy-Metal. Logo nos primeiros ensaios, ele fazia
brincadeiras nesse sentido, as vezes, ao insinuar Riffs de Metal, só para
brincar nos ensaios e nós divertíamo-nos, ao tratar disso exatamente dessa forma, ou
seja, como uma brincadeira.
Mas logo que o ano de 2005 virou, o
Tadeu surpreendeu-nos, pois ao mesmo tempo em que alegava estar atolado com serviço em favor do
Simoninha; faltava aos nossos ensaios, no entanto, arrumara tempo para fazer
shows com bandas
oitentistas de Heavy Metal, como "Centúrias"; "Harppia", e "Salário
Mínimo", em
festivais saudosistas, realizados no Bar Blackmore. Ora, se estava muito
comprometido em trabalhar com tal artista da
gravadora Trama, encontrava tempo para tocar com essas bandas e logicamente
ensaiar antes ? Aí começamos a perceber que as brincadeiras eram na verdade, o seu gosto pessoal...
Uma das últimas fotos de Tadeu Dias conosco, em 2005. Click de Grace Lagôa
Logo
depois que deixou o Pedra, eis que entrou em uma banda orientada pelo Heavy-Metal, chamada
: "Cavalar". Vimos matérias em sites como o Wiplash, por exemplo, a dar ciência sobre tal banda e com Tadeu em sua formação, e aí
entendemos finalmente o por quê dele ter entediado-se com o rumo que o Pedra adotara.
Continua...
Sem dúvida que o Xando apoiou esse molho em torno da Black Music, nas linhas de baixo, que eu criei. Ele era o compositor da maioria das
músicas, e também adora a Black Music.
E dá-lhe Fender Precision ! Foto de Grace Lagôa a registrar a minha sessão de gravação do primeiro álbum do Pedra
Só que tem um diferença, ele gosta
do funk setentista, e da Disco Music, e eu prefiro o R'n'B e Soul
cinquenta / sessentistas.
Onde concordamos, como ponto em comum, é no funk setentista.
Em relação à
atuação do Rodrigo na guitarra, infelizmente ficou prejudicado mesmo,
pois a maioria das canções teve o seu planejamento primordial feito para que Xando e Tadeu
trabalhassem em duo.
O Rodrigo só foi atuar em poucas faixas posteriores, como
guitarrista, em uma segunda etapa de gravações.
Mas como logo
assumiu o posto, com a saída de Tadeu Dias, tirou todas as músicas já
a imprimir o seu estilo.
Ficou o sentimento de que teria sido ideal ter
gravado tudo desde o começo, mas o destino não quis assim. E quanto ao entrosamento, certamente que veio rápido.
É normal em uma banda que dá os seus primeiros passos, que haja um entusiasmo por parte de todos. O
Rodrigo foi o último a chegar (nessa etapa), e apresentou-se desgastado
psicologicamente. Foi natural que demorasse a animar-se, mas esse processo
de revitalização acabou por acontecer rapidamente, para o bem dele, e da
banda.
Alex Soares, flagrado pela lente de Grace Lagôa, no início de 2005
O Alex Soares estava um pouco abaixo desse entusiasmo,
mais por ser extremamente cético em relação ao mundo mainstream.
Ele
queria que desse certo, claro, mas duvidava do direcionamento que nós almejávamos. Se
dependesse de suas concepções, deveríamos simplificar o som, para buscar
as nossas oportunidades no "planeta brega", acintosamente. Isso não
teria sido uma estratégia desprezível, se o nosso objetivo fosse esse, mas
nós queríamos atingir o Pop por outro patamar, com qualidade artística
ilibada, e não ter que apelarmos para o baixo nível total.

Foto de ensaio, com Tadeu Dias no centro da imagem, a pilotar a sua Fender Stratocaster. Foto de Grace Lagôa
E o Tadeu Dias simplesmente desistiu, tendo gravado a sua parte sem
maior entusiasmo, e a seguir, para deixar-nos sem maiores explicações. Mas demoramos para perceber a sua real intenção naquele momento, não
tendo sido uma situação cristalina. Independente de tais conjunturas
estruturais e estratégicas sobre gestão de carreira, estávamos longe ainda de pisar em um palco. Isso só aconteceria em maio de 2006.
Continua...
Como
costumamos dizer, se a banda
toca sem muito empenho, o baterista prejudica-se, pois grava
com uma interpretação frouxa, sem vida, e aí, sob um efeito dominó, todos
os
outros instrumentos baseiam-se nessa pegada sem alma, e a gravação
coloca-se como irremediavelmente arruinada. Não querer participar da
gravação guia de sua
banda é algo muito estranho, e que despertou a nossa atenção, ao acender
uma luz amarela em nossa percepção. O Tadeu deu mostras de não estar
mais entusiasmado em fazer parte dessa banda, mas seguimos em frente,
sem deixarmo-nos abalar por isso. Gravada
a bateria, chegou a minha vez.
Senti um imenso prazer em gravar aquelas
músicas, pois estava encaixado no espírito da sonoridade do Pedra.

O
contato com várias vertentes do Rock era costumeiro na minha rotina de
tantos trabalhos anteriores, mas foi no Pedra onde mais pude
aproximar-me da
Black Music, que é uma escola que adoro, mas nunca havia tido a
oportunidade para tocar, propriamente a falar. Músicas como "Vai
Escutando; "Me Chama na Hora"; "Sou Mais Feliz", e "O Dito Popular",
transitavam entre o Soul, R'n'B e Funk, portanto, o meu lado Motown /
Stax, regozijou-se.
Foto de Grace Lagôa a registrar o momento em que gravei minha participação no disco
Usei bastante os meus baixos Fender, tanto o Jazz Bass,
quanto o Precision, e em ambos, creio ter atingido os melhores timbres
da minha carreira, graças ao trabalho do Renato Carneiro como técnico, e
produtor de estúdio, além do apoio do Xando. De fato, esses trabalhos, no
quesito baixo, foram muito elogiados posteriormente, e muito
orgulha-me em saber disso.
Por não percebermos tais "sinais", seguimos a ensaiar e a relevar as faltas do guitarrista, Tadeu Dias. Nesta
altura, o som estava bem encorpado, com a entrada do Rodrigo Hid, como
tecladista, e dessa forma, pensávamos em alguns ajustes onde duas
guitarras e teclados poderiam "embolar" o som.
E por levar-se em conta que eu era / sou
um baixista que gostava / gosto de criar e frasear, esse cuidado tinha que ser
ainda mais observado.
Ao conhecer o Renato Carneiro, percebi que entender-nos-íamos bem, pois tratava-se de um rapaz extremamente humilde e acessível.
Falava a nossa linguagem, como técnico de futebol que já foi jogador, e
fala a língua dos "boleiros".
Pausa
para a água, durante a sessão de gravação do meu baixo, em 2005. Da
esquerda para a direita : eu, Luiz Domingues; Renato Carneiro, e Xando
Zupo. Foto de Grace Lagôa
Ao notar essa possibilidade, animei-me ainda mais, pois antevi uma gravação tranquila, com diálogo
franco, e abertura para opinar.
Mais ou menos na época do carnaval
de 2005, o Xando reservou o seu estúdio para o Pedra começar a tão
esperada gravação de seu primeiro trabalho.
Ao usarmos o método
tradicional do "um-por-um", ao começar pela bateria, marcamos o início para gravar com o
Alex Soares e para tanto, a preparar a equalização de seu instrumento, e guia da
banda para poder gravá-lo. Para que o baterista possa
gravar na sua plenitude, técnica e criativamente, é imprescindível que
tenha uma guia bem feita pela banda.
Foto de Grace Lagôa, na sessão de gravação da bateria, com Alex Soares
Continua...
No início de 2005, o Xando já movimentava-se para colocar a banda no
rumo da gravação do primeiro CD.
E o primeiro passo foi apresentar-nos ao
Renato Carneiro, um excepcional técnico de som, e que gravara o Big
Balls nos anos noventa, no estúdio Mosh. O Renato trabalhava há muitos anos
a operar o som de duplas sertanejas famosas, ao vivo. Havia trabalhado com
Christian & Ralf, e naquele momento, estava há quase cinco anos com
Zezé Di Camargo e Luciano.
Outra possibilidade muito boa, seria poder
contar com o Renato Carneiro eventualmente, também, como técnico de som de
nossos shows ao vivo.
Começamos a sonhar com essa possibilidade e havia
outra possibilidade ainda mais animadora que seria a de contar também
com um outro técnico de alto nível, também chamado Renato, Renato Sprada
para ser preciso.
Igualmente
veterano, e com enorme experiência no campo da
sonorização ao vivo, foi técnico de som d'O Terço nos anos setenta (na
fase dos LP's "Criaturas da Noite" e "Casa Encantada"); excursionou com
Gonzaguinha no auge da carreira dele, incluso a turnê onde o grande, Luiz
Gonzaga, pai de Gonzaguinha, excursionou junto.
Naquele momento de 2005,
estava fixo com o cantor / ator, Fábio Jr.
Os dois
Renatos, ambos magos dos botões... grandes técnicos de áudio ! De
camiseta esverdeada, Renato Carneiro, e de preto, Renato Sprada. Início
de 2005, em foto de Grace Lagôa
Com a volta dos ensaios, e o surgimento
de mais músicas, estávamos a fechar arranjos, e a prepararmo-nos para a
gravação.
Com o Rodrigo a criar ótimas intervenções aos teclados, e Xando e
Tadeu Dias, a entender-se bem nas guitarras.
Notávamos, no entanto, que o
baterista, Alex Soares, parecia economizar um pouco nos seus arranjos
pessoais.
Falávamos para ele ousar um pouco mais, mas ele alegava estar
a tentar padronizar a sua bateria em um patamar mais Pop, propositalmente.
Foto de Grace Lagôa, da sessão de gravação do primeiro álbum do Pedra, início de 2005
Claro que o
Pedra nasceu com a mentalidade em estar aberto ao Pop, mas o Alex
demonstrava ter outros parâmetros sobre o que deveria ser considerado
como algo comercial. E outro ponto que hoje é fácil para ser visualizado, mas
era obscuro na época : o distanciamento que o guitarrista, Tadeu
Dias, estava a demonstrar.
Faltava aos ensaios com frequência nesse período (início de 2005),
ao alegar
ter dificuldades com os seus compromissos assumidos com o cantor, Simoninha.
De fato, havia viajado para a
França com ele nessa época, mas logo voltara para o Brasil.
Essa
súbita mudança de comportamento fora incompreensível, contudo, pois nos
primeiros ensaios, entre outubro e dezembro de 2004, ele
comparecia com assiduidade e pontualidade. Mostrava-se animado nos
ensaios, a contribuir com ideias, e a esforçar-se para dar o melhor de si
à banda.
Na sala de
estar da residência do Xando Zupo em 2005, ao olharmos fotos históricas da
carreira de Grace Lagôa, e ainda com Tadeu Dias sorridente, e a fazer
parte de nossa banda...
Ele era muito brincalhão, e fazia-nos rir de suas piadas e imitações etc. Portanto, não havia indícios de que estivesse insatisfeito,
tampouco distante.
Mas
logo no início de 2005, mudou o seu comportamento, bruscamente. No início,
claro que não percebíamos isso.
Uma primeira ausência deu-se por conta de sua viagem para Paris; outra
vez, por uma gravação de um especial do Simoninha para a MTV; seguido de constantes problemas alegados com o automóvel.
Enfim, começaram a suceder-se as faltas, mas atribuíamos isso
aos compromissos dele com Simoninha, e a fatalidade em ter problemas com
seu carro, fatalidade que pode ocorrer para qualquer pessoa.
Continua...
Naquela idade, em que vi meu primeiro cadáver, acho que ainda nem
roubava as moedinhas da minha mãe para comprar doce de amendoim. Ainda bem que nunca tive vocação para roubar mais que o necessário.
Com vinte e poucos anos dei de ler o evangelho e a graça de Cristo
me redimiu de ser muito desonesto. Ainda hoje sinto dó da minha mãe, quando penso que eu roubava suas moedinhas de vinte centavos, que era mais ou menos quanto custava o doce de amendoim na venda.
Eu era viciado em doce de amendoim. O que me leva a escrever, todavia, foi minha primeira experiência real com a morte, face a face. Por um motivo qualquer, eu descera para comprar pão, ou algo assim; os dias naqueles primeiros anos eram bonitos e
claros, em geral.
Naquele tempo, só tocava nas rádios músicos de
talento. A mídia de massa ainda não tinha instaurado seu pesadelo sobre a terra. Era, contudo, um dia fatal.
Oculto das minhas vistas, estava o morto. Era um velho vendedor de
laranjas. Um comentário me chegou aos ouvidos, me dando conta do
acontecido, "mataram o velho".
A carroça estava virada, as laranjas
espalhadas pelo chão. Eu via um sangue grosso e triste espalhado pelo
asfalto. Minhas pernas ficaram tremulas. Havia encontrado a morte.
Uma voz na minha consciência de menino introvertido
sussurrava que "eles eram capazes de matar". Eles eram os outros.
Fiz o contorno da multidão que se ajuntava ao redor da carroça, ainda abalado. Segui em frente para cumprir minha missão. Nesse dia, sai do paraíso, ao ver meu primeiro cadáver. E percebi
que haviam eles, os outros, os assassinos.
Marcelino Rodriguez é colunista sazonal do Blog Luiz Domingues 2. Escritor de vasta e consagrada obra, aqui nos traz uma crônica forte, contando a história de um menino que pela primeira vez tem contato com a inevitabilidade da morte.