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quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Autobiografia na Música - Terra no Asfalto - Capítulo 68 - Por Luiz Domingues

Último capítulo desta parte importante de minha trajetória musical.
Como de praxe, deixo claro que posso reabrir o capítulo em qualquer momento, desde que fatos novos apareçam, com a possibilidade de materiais perdidos que possam surgir; correções; adendos; contatos com ex-membros que tragam algum elemento diferente à narrativa etc. Como já deixei claro ao longo de toda a narrativa, o Terra no Asfalto foi mais que um meio para ganhar dinheiro, meramente, em um momento em que foram cruciais dois aspectos em minha vida : 

1) Ganhar dinheiro e; 
2) Autoafirmação como músico profissional.
Ao ir além, foi um verdadeiro curso intensivo que fiz, para dar-me experiência musical; destreza ao instrumento; segurança; postura de palco, e convívio com músicos de alto nível. Infelizmente, além da narrativa desta autobiografia, praticamente não existe material dessa banda. Por tratar-se de uma banda cover, nunca cogitamos fotografar apresentações, tampouco fazer uma sessão com fotos promocionais. Não existe um release oficial, histórico ou qualquer material, a não ser as minhas anotações de apoio com datas, locais e quantidade de público presente nas apresentações, fora pouquíssimos itens de portfólio, que tenho usado e abusado como ilustração, nos capítulos. Melhor que nada, diria o otimista, mas muito pouco para o pessimista de plantão...
Mesmo assim, e por considerar ter sido um celeiro com grandes músicos, eu mesmo criei uma comunidade na extinta rede social Orkut, a visar preservar um pouco da história da banda, embora eu reconheça que o pouco que ali conteve, fora o conteúdo que eu mesmo reuni e disponibilizei nesta autobiografia. Mesmo assim, o objetivo foi agregar material; histórias e observações sobre o trabalho dessa banda, que embora não fizesse música autoral, foi uma banda formada por grandes músicos que por ali passaram. O Orkut fechou as suas portas, infelizmente, mas eu abri comunidades em outras redes sociais com o mesmo teor. Portanto, esse recurso encontra-se nas Redes Sociais, "Google+" e "Yoble", em um primeiro instante, mas tenho planos de seguir tal estratégia em outras redes, igualmente. Estejam convidados a participar, e já deixo o recado : quem porventura possuir algum tipo de material (fotos; filmagens; recortes de jornais & revistas, cartazetes e filipetas), por favor divulguem-nos na comunidade, seja de que Rede Social, for. 

Agradeço a todos os companheiros que passaram pela banda, por todos os shows que fizemos. Mas sobretudo pela enorme ajuda que ofertaram-me, ao fazer a transição de que tanto necessitava, em suplantar a barreira inicial dos primeiros e difíceis anos de minha carreira, para uma condição de músico profissional, em condições de lutar por uma carreira autoral no mundo musical. Obrigado ao Cido Trindade, por acreditar em minha pessoa, sobretudo em um momento onde percebeu que eu melhorara como instrumentista, quando vislumbrou levar-me para um trabalho como side-man, a acompanhar o cantor, Tato Fischer, e sem o qual, não acarretaria na oportunidade por ter conhecido o tecladista, Sérgio Henriques. Agradeço Sérgio Henriques por ter tido a perspicácia em indicar esse trio que acompanhava o Tato Fischer, para fundir-se a um outro trio de músicos, e ter nascido assim, o primeiro sexteto raiz do Terra no Asfalto. Sem Sérgio Henriques, eu não teria conhecido Paulo Eugênio, que foi o homem aglutinador do Terra no Asfalto.
Através de Paulo Eugênio, conheci Wilson Canalonga Jr.; Geraldo "Gereba"; Fernando "Mu", e Aru Junior, quatro guitarristas da pesada. 

Obrigado, Paulo Eugênio Lima, onde estiver, por ter proporcionado-me a chance para tocar com essas feras, por oitenta e três apresentações, onde sem dúvida, tal carga teve o peso de um curso intensivo para a minha formação profissional.

Obrigado ao Wilson Canalonga Junior, pelo convívio, amizade, conversas animadas sobre os Beatles, que adoramos, e pela possibilidade em ouvir as suas vocalizações nos bonitos backing vocals que fazia.

Obrigado, Geraldo "Gereba", pela sua guitarra "arretada". Seus solos inacreditáveis ainda ressoam em minha memória, cheios daquela brasilidade que só você, e o Pepeu Gomes possuem... e que esteja a tocá-los aí, do "outro lado" !

Muito grato, Fernando "Mu" ! Você foi o primeiro grande guitarrista Rocker com o qual eu pude ter a honra em tocar. Tocar contigo, foi como estar no palco do festival de Woodstock, a tocar com um Deus do Rock, verdadeiramente. 

Jamais esquecer-me-ei de sua interpretação para : "Star-Spangled Banner", ao fazer toda a ruideira proveniente das alavancadas criadas pelo Jimi Hendrix, , só que através de uma guitarra Gibson Les Paul Jr, a puxar o headstock na mão ! Fazer aquilo sem alavanca, foi inacreditável, e deixaria o Hendrix com o seu queixo caído !

Obrigado, Aru Junior ! Você foi um professor e um maestro para a minha trajetória. Sua dica em torno do mise-en-scenè, mudou mesmo a minha vida, e se sou respeitado em minha carreira, devo muito à essa orientação valiosa. E que bom que esteja do "lado de cá", espero que por muitos anos, ainda.

Obrigado, Luis Bola ! Você foi muito generoso comigo, e os sons do Frank Zappa que ouvimos na sua casa, foram sempre muito inspiradores.

Edson "Kiko" : já expressei através da narrativa, as minhas desculpas, reiteradas vezes. Espero que esteja bem neste momento !  
Um agradecimento especial ao Edmundo, pelo apoio recebido logo no início das atividades da banda, e amizade expressa por muitos anos, ainda que vejamo-nos sazonalmente.

Aos agregados, amigos e músicos com passagens rápidas, um muito obrigado, igualmente.

O Terra no Asfalto teve méritos, apesar de ter sido somente uma banda cover. E nos agradecimentos expressos acima, fica uma constatação : teve o efeito de uma verdadeira teia... uma peça ligou-se à outra, e sem as quais, eu não teria tido tantas oportunidades. O fim do Terra no Asfalto foi o começo da história d'A Chave do Sol em minha trajetória. Basta continuar a ler, dali em diante...

Muito obrigado por acompanhar, amigo leitor !



Autobiografia na Música - Terra no Asfalto - Capítulo 64 - Por Luiz Domingues

Paulo Eugênio Lima:

Na primeira foto, eis a persona de Paulo Eugênio Lima a atuar com o Terra no Asfalto em março de 1981. Acervo e cortesia: Cido Trindade. Click: desconhecido. Na segunda foto, eis uma Brasília preta bem parecida com a do Paulo Eugênio. Considero tal carro emblemático na história dessa banda, ao ponto de sempre que venho a pensar nesse carro, despertar-me lembranças desse trabalho e dos companheiros que nele militaram comigo
 
Depois que fizemos a reunião final de acerto das contas sobre o espólio do equipamento, em 1983, nunca mais eu tive contato algum com o Paulo Eugênio Lima. Em visita que fiz à casa do guitarrista Aru, tive enfim uma péssima notícia ao seu respeito.
 
Fui informado que ele faleceu há cerca de cinco ou seis anos atrás (sob a perspectiva de 2016, deve ter sido em 2009 ou 2010, o Aru também não sabia essa informação com precisão). Segundo ele disse-me, o Paulo Eugênio faleceu em uma mesa de cirurgia de hospital. Não sabemos se foi em decorrência de uma doença, ou se sofreu um acidente, ou mesmo se ainda fora vítima de alguma violência urbana, enfim. 
 
Paulo Eugênio Lima era um bom cantor, sem dúvida. Mesmo sem instrução teórica, ele tinha noções boas de afinação, pulso, ritmo, andamento, emissão, respiração, enfim, o be-a-bá do vocalista profissional. 
 
Era também um bom percussionista, muitas vezes a ajudar-nos com as suas intervenções rítmicas, e assim trazer balanço à banda. Tinha boa dicção e cantava bem em inglês, com pronúncia bastante aceitável. 
 
A sua performance de palco era boa, com desinibição e comunicava-se bem com o público, muito respaldado por ter sido guia de excursões à Disney World. Ele sabia conduzir o público e tinha um carisma inegável. 
 
Lamento muito que já tenha partido, por considerar que era pouca coisa mais velho do que eu, e hoje talvez estivesse na casa dos cinquenta e poucos anos, de onde concluo que faleceu muito jovem. 
 
O Paulo foi uma personalidade aglutinadora para a banda. Sempre foi o dínamo nesse sentido, ao tomar a dianteira para promover as reformulações necessárias na parte interna da banda, além de ser o “business man”, pois todos os contatos de nossas apresentações, foram fruto de seus esforços, não como empresário, eu diria, mas como relações públicas, sem dúvida, pois ele tinha esse dom natural em sua personalidade, por envolver-se com as pessoas, mediante o seu forte poder de persuasão. 
 
A "Brasília preta" que ele possuía, foi emblemática, pois representou o "Pauloeugêniomovel" oficial e assim, é praticamente um símbolo do Terra no Asfalto, naqueles três anos em que convivemos e trabalhamos pelos bares de São Paulo. Que esteja bem lá no céu, a cantar com o Mu e o Gereba, talvez em uma nova fase da banda, agora chamada: “Céu no Asfalto”

Depois que fizemos a reunião final de acerto das contas do equipamento por volta de março de 1983, nunca mais tive contato algum com o Paulo Eugênio. Em visita que fiz à casa do guitarrista Aru Junior, em maio de 2012, tive uma péssima notícia a respeito dele. Fui informado que ele falecera há cerca de quatro ou cinco anos atrás (ou seja, que o leitor considere 2007, ou 2008, e o Aru também não soube essa informação com precisão). Segundo ele disse-me, o Paulo Eugênio faleceu em uma mesa de cirurgia de hospital. Não sabemos se foi em decorrência de uma doença; ou se sofrera um acidente, ou mesmo se ainda fora vítima de algum tipo de violência urbana, enfim. 

O Paulo Eugênio era um bom cantor, sem dúvida. Mesmo sem instrução teórica, ele tinha noções boas de afinação; pulso; ritmo; andamento; emissão; respiração, enfim, o be-a-bá do vocalista. Era também um bom percussionista, muitas vezes ao auxiliar com suas intervenções rítmicas, a trazer balanço à banda. Tinha boa dicção, e cantava bem em inglês, com pronúncia aceitável. Sua performance de palco era boa, com desinibição, e comunicava-se bem com o público, muito respaldado por ter sido guia de excursões à Disney World. Ele sabia conduzir o público, e tinha um carisma interessante. Lamento muito que já tenha partido, ao considerar que era pouca coisa mais velho do que eu, e hoje (2012, quando escrevi este trecho), talvez estivesse na casa dos "cinquenta e poucos anos", de onde concluo que faleceu muito jovem. 

O Paulo foi uma personalidade aglutinadora para a banda. Sempre foi o dínamo nesse sentido, ao tomar a dianteira para reformulações necessárias na parte interna da banda, além de ser o business man, pois todos os contatos para as apresentações, foram fruto de seus esforços, não como empresário, eu diria, mas como relações públicas, sem dúvida. A Brasília preta da primeira foto, é emblemática, pois foi o "Pauloeugêniomovel" oficial, e é praticamente um símbolo do Terra no Asfalto, naqueles três anos em que convivemos, e trabalhamos pelos bares de São Paulo.

Aru Júnior ou Aru:

          O grande guitarrista, Aru Junior, em foto bem mais atual

Em maio de 2012, fui visitar o Aru Junior em sua residência, onde passamos horas a falar sobre as nossas lembranças do Terra no Asfalto. Muitas informações novas foram-me passadas desde essa visita e ajudaram-me a encerrar esse capítulo do Terra no Asfalto, com maior riqueza de detalhes. 
 
O Aru Junior foi o membro dessa banda, em que tive mais contato depois do final da banda. Lembro-me em 1988, quando convidou-me a conhecer a sua casa na ocasião, onde ele mantinha um estúdio de ensaios. Nessa época, ele estava casado com uma cantora chamada: Dadá Cyrino, que também fora apresentadora da TV Cultura de São Paulo, onde chegou a apresentar A Chave, na fase "sem Sol" (conto essa história no capítulo adequado). 
 
Ele cogitava nessa ocasião, montar uma banda autoral e chegou a convidar-me para conhecer o trabalho, mas eu estava com A Chave e não pude comprometer-me na ocasião. A sua esposa na época, estava para lançar-se no mercado fonográfico hispânico, com um repertório Pop latino e talvez sobrasse oportunidade para ser side-man em sua banda de apoio. 
 
Mas não frutificou tal proposta, apesar do casal ter ido assistir um show d'A Chave, no Black Jack Bar nesse ano, 1988. Anos depois, o Aru Junior apareceu em um show da Patrulha do Espaço, no Centro Cultural São Paulo (em 2000, para ser preciso). 
 
Ele conhecia o Rolando Castello Júnior desde os anos setenta, pelo fato do Júnior ter namorado a sua irmã, Ruth. Em retribuição, eu fui assistir a apresentação da banda: “Yessongs”, cover do "Yes", no Café Piu-Piu do bairro do Bexiga, dias depois. Fiquei contente por vê-lo a tocar e cantar em grande estilo, o repertório complexo do Yes e com perfeição, ainda mais ao contar com o excelente baixista, Gerson Tatini (Ex-Moto Perpétuo), na formação e sem dúvida, este músico é o maior especialista em executar as linhas do Chris Squire, no Brasil. 
 
Em 2011, quando eu comecei a tocar com o Kim Kehl e Os Kurandeiros, o baterista, Carlinhos Machado contou-me sobre a entrada do Aru na banda de apoio do ex-Secos & Molhados, Gerson Conrad, onde ele foi baterista por muitos anos. 
 
Fiquei muito contente por saber dele, quando decorrente desse contato, rapidamente adicionamo-nos no Facebook, e agora o contato está sacramentado, pois além do mais, moramos no mesmo bairro.
Bem parecida com essa, assim era a Gibson SG do Aru Junior, que tantos solos sob alto padrão produziu para o Terra no Asfalto 

E outras duas curiosidades que ele contou-me na tarde de 2 de maio de 2012: a primeira, foi relatada quando eu falei sobre o Fernando Mu, nestas considerações finais. 
 
A segunda, diz respeito à própria família dele, Aru Junior, e surpreendeu-me, pelo caráter inusitado da coincidência, ao melhor estilo "mundo pequeno". 
 
Pois no capítulo: "Trabalhos Avulsos" da minha autobiografia, eu relatei a formação de um trio instrumental onde atuariam eu, Cido Trindade e o cunhado dele, Aru, um rapaz chamado: Luis, um guitarrista com estilo bastante jazzístico. 
 
Pois bem, quando perguntei dele (o cunhado, Luis), fui informado que a sua segunda filha, sobrinha do Aru, era estrela no mundo do Indie Rock internacional... como assim? Pois tal sobrinha do Aru chama-se: Luiza e foi guitarrista da banda indie: "Cansei de Ser Sexy". Inacreditável mundo pequeno! Quando o Terra no Asfalto estava na ativa, lembro-me do nascimento da primeira filha do casal, Luis & Ruth, chamada: Diana. A Luiza nasceu depois, cresceu, tornou-se guitarrista, e fez turnês de cunho mundial com a sua banda, veja que curioso.
Na foto recortada acima, a persona de Aru Junior a tocar com o Terra no Asfalto em março de 1981. Acervo e cortesia: Cido Trindade. Click: desconhecido
 
Bem, para falar sobre o Aru, especificamente, tenho a dizer que trata-se de um músico com sólida formação teórica. É multi-instrumentista, pois toca bem piano e estudou violoncelo em uma universidade norte-americana. 
 
Como guitarrista, ele é excepcional e o seu estilo transita entre Steve Howe e Jimmy Page em doses maciças e com pitadas generosas de George Harrison nessa receita. Bom vocalista e com talento como arranjador, quando entrou na banda, tornou-a segura, toda arrumadinha tal como uma orquestra. 
 
Se por um lado perdemos o ímpeto dos primeiros tempos com a espontaneidade do Gereba e a rebeldia Rocker do Mu, com o Aru, transformamo-nos em uma orquestra bem ensaiada e muito segura.
 
Aprendi muita coisa com ele, que era bem mais experiente. Mas uma lição que eu aprendi com ele e reputo ter mudado a minha vida, nem tem a ver com teoria musical e diz respeito à mise-en-scène: ele insistia para que todos os músicos da banda fizéssemos movimentos com o instrumento, pois segundo dizia: -"o público leigo não entende de música em sua maioria. O sujeito do público olha e não sabe discernir se você toca bem ou mal. Mas se você agitar-se freneticamente, o convencerá que você é ótimo". 
 
Nunca mais esqueci-me dessa dica, e a partir do nascimento d'A Chave do Sol, adotei uma performance de palco a mais frenética possível, impressionado com essa orientação. Com isso, eu despertei a atenção de fãs e jornalistas, o que gerou uma aura sobre a minha carreira, ao superestimarem-me como músico. Muito do que construí na minha carreira, foi graças a essa postura cênica adotada e decorrência da valiosa dica do Aru Junior.
 
E sou-lhe eternamente grato por ter tido o cuidado em escolher a dedo um baixo com extrema qualidade, na América do Norte, que acompanha-me até hoje, gravou todos os discos da minha carreira e aparece em dúzias de vídeos e fotos das bandas onde atuei. Realmente foi uma escolha preciosa, pois esse baixo é mesmo demais como instrumento e foi o meu primeiro baixo com alto nível que tive, após anos a tocar em instrumentos de segunda e terceira linha. 
 
Esse é Aru Junior, um verdadeiro maestro, com uma vivência enorme na música, além do talento e alta capacidade técnica. Vá assisti-lo nos shows do Gerson Conrad, onde é seu guitarrista, e comprove!
 
Continua...

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Autobiografia na Música - Terra no Asfalto - Capítulo 61 - Por Luiz Domingues


Bem, o Terra no Asfalto foi uma banda cover que apesar de ter sido criada com esse objetivo, exclusivamente (salvo a vã tentativa para tornar-se banda autoral, ao final de 1981), teve muitos méritos. O primeiro e óbvio, foi no sentido em proporcionar-me uma escola viva, onde libertei-me enfim da fase inicial da minha carreira, onde a insegurança em apresentar um nível técnico como principiante, fora superada.

Claro, um pouco antes, quando eu fui tocar na banda de apoio do cantor, Tato Fischer, em 1979, na verdade eu já estava seguro e com um nível técnico mínimo necessário para considerar -me um músico profissional, mas no Terra no Asfalto, ganhei ainda mais desenvoltura e cancha de palco (apesar da banda ter atuado predominantemente circunscrita aos humildes palcos de casas noturnas). O segundo ponto também é motivo de orgulho. Mesmo por ser uma banda irregular, com diversas idas e vindas, o Terra no Asfalto teve em suas fileiras, grandes músicos. Não é toda banda cover que pode orgulhar-se por ter tido tantos músicos bons assim, em sua trajetória. O terceiro ponto são as histórias acumuladas. Algumas engraçadas, outras desagradáveis, mas no cômputo geral, quando uma banda, mesmo sendo cover, reúne um repertório com histórias ocorridas em sua carreira, é sinal de que foi prolífica. O início foi sob puro improviso.

A maneira com a qual foi formada, foi inusitada, com praticamente uma fusão feitas às pressas. Aquele primeiro show de 1979, que gerou a semente inicial, foi de uma insanidade total, mas provou também que havia uma "química", e de fato, aquele conglomerado formado por músicos juntados às pressas, gerou uma banda. A entrada do Fernando "Mu", trouxe um élan. Foi o meu primeiro contato com um guitarrista de alto nível, e embora muito genioso, e difícil para lidar-se como Ser Humano, foi a oportunidade para ter a minha primeira sensação no sentido em estar dentro de uma banda com comprometimento Rocker, e dotada de um nível técnico compatível com essa pretensão. Não levo em conta o trio do Tato Fischer nesse mesmo sentido, pois ali eu também estava a tocar com músicos de um nível alto, principalmente o Sérgio Henriques, mas não foi exatamente uma banda de Rock.

O crescimento da banda, a atrair público nos primeiros bares, e posterior oportunidade para tocar em bares mais categorizados, foi bonito, apesar de ser meramente o trabalho de uma banda cover. Os momentos difíceis do meio do ano de 1980, não amargurou-me, pois eu estava a todo vapor a tocar nos primórdios do Língua de Trapo, e a participar de vários trabalhos paralelos. E convenhamos, com dezenove para vinte anos de idade, as intempéries da vida nem são sentidas inteiramente.

Na foto recortada acima, eis a minha própria persona (Luiz Domingues), a tocar com o Terra no Asfalto em março de 1981. Acervo e cortesia: Cido Trindade. Click: desconhecido

A volta do Terra no Asfalto, ao final de 1980, coroou a trajetória da banda, ao dar-lhe a sua melhor fase, com regularidade, várias apresentações memoráveis, e um dinheiro providencial. Banda cover não é, nem nunca foi o meu objetivo de vida, mas recordo-me com carinho de várias ocasiões onde o Terra no Asfalto tocou para públicos entusiasmados, e arrancou aplausos e gritos. Não fora o nosso som, e sim o sucesso fácil da criação alheia, mas ficou a lembrança de uma banda azeitada, e com recursos técnicos muito bons.

Após a parada forçada, no meio de 1981, a banda perdeu o fôlego e nunca mais alcançou esse patamar máximo que conseguíramos anteriormente. Entre muitos percalços, finais e recomeços, estendemos o Terra no Asfalto até proporcionar-me uma oportunidade de vida, enfim, quando nos seus estertores, conheci o guitarrista, Rubens Gióia, e finalmente montei a minha banda de Rock autoral, sonho perseguido desde 1976, e que o caráter infantojuvenil do Boca do Céu, não permitira-me realizar em sua plenitude. Posso afirmar sem medo de errar, que o Terra no Asfalto foi a semente primordial do nascimento d'A Chave do Sol.
Continua... 

Autobiografia na Música - Terra no Asfalto - Capítulo 60 - Por Luiz Domingues


Uma outra história ocorreu no final de 1980, um pouco antes da reformulação da banda com a entrada do Aru Junior. Foi em um Sarau improvisado que o Paulo Eugênio inseriu não o Terra no Asfalto, que estava parado oficialmente naquela fase da pré entrada do Aru Junior, mas de maneira informal, fomos a um sítio nas proximidades de Cotia, na Grande São Paulo, onde o objetivo foi apenas passarmos um final de semana recreativo. O local era de propriedade de amigos dele e assim, passamos um final de semana a jogar futebol em um campo oficial bem estruturado, e na noite do sábado, tocamos para entreter os convidados. Isso não fora uma novidade, pois nessa entressafra da banda na segunda metade de 1980, o Paulo já havia levado-nos para tocar informalmente de forma acústica, em festas particulares, promovidas por amigos dele.

Nessa ocasião do sítio, estávamos eu; Luiz Domingues; Geraldo "Gereba"; Wilson Canalonga Junior, e o Paulo Eugênio fez percussão e voz. A nota triste desse passeio foi que eu tive a infeliz ideia em jogar como goleiro durante o futebol vespertino, e ao fazer uma defesa, ao espalmar a bola (e imprudentemente sem usar luvas), machuquei meus dedos. anular e mindinho da mão esquerda.

Na hora, cheguei a pensar em tê-los fraturado, mas foi só o susto mesmo. Inchados e a doer bastante, prejudicou bastante a minha performance na Jam Session do sábado à noite. Não anotei isso como atividade oficial do Terra no Asfalto, pois foi muito informal mesmo. Apesar de haver ali cerca de trinta pessoas pelo menos a assistir e cantar etc e tal, aquilo fora só uma jam informal, portanto, não computei como uma apresentação oficial.
Isso deve ter acontecido por volta de outubro, pois o comentário da semana fora o show do Peter Frampton, no Ginásio do Ibirapuera, que estava para acontecer, ou já tinha ocorrido, não recordo-me direito. E um fato curioso, o Wilson  Canalonga Junior estava obcecado em aprender a executar o solo da música : "My Love", do Paul McCartney. Ficou a madrugada inteira a repetir incansavelmente aquele solo, ao ponto de sua namorada, Consuelo, brigar com ele, irritada com a repetição enjoativa. Se lembrar de mais histórias, mesmo com o capítulo encerrado, não hesitarei em reabri-lo para adendos. Feito isso, estou a chegar ao final da minha história com o Terra no Asfalto.
Continua... 

Autobiografia na Música - Terra no Asfalto - Capítulo 59 - Por Luiz Domingues


Portanto, o último suspiro de vida do Terra no Asfalto, deu início à gestação d'A Chave do Sol, e tal história prossegue nos capítulos dessa banda. Antes de encerrar a história do Terra no Asfalto, vou recuar um pouco na cronologia para contar algumas histórias que não ficaram registradas, por não haver uma cronologia fixa sobre cada uma dessas ocorrências.

Uma delas, trata-se sobre a mania compulsiva que o Paulo Eugênio; Gereba, e Wilson mantinham como uma tradição na confraria formada pelos três, formatada por anos de convívio juntos, e revelava-se muito engraçada. Isso nada tem a ver com música, devo esclarecer previamente. Eles praticavam uma pequena transgressão quando estavam juntos em alguma festa particular, ou mesmo a visitar a residência de alguém. Ao fornecer desculpas tolas, como por exemplo, ir ao banheiro, ou mesmo à cozinha para beber água, eis que atacavam a geladeira e a despensa das pessoas, mais pela brincadeira em si, do que qualquer outra motivação possível. 

Mostrava-se hilária tal ação, pois em questão de segundos, como se fossem gafanhotos famintos, comiam tudo o que podiam. A rapidez e a voracidade com que faziam essas brincadeiras teve requintes até, pois chegaram a fritar ovo, e esquentar arroz na panela, sem que o anfitrião percebesse, pelo menos ao ponto em dar flagrante, pois panelas e pratos sujos os denunciavam a posteriori. Eu cheguei a ver isso acontecer, e ficava impressionado como enchiam as respectivas bocas, e até os questionava sobre isso poder causar-lhes um sério dano, ao engasgar. E fui vítima também, pois uma vez em minha casa, mediante uma reunião da banda, o Paulo Eugênio descobriu na minha cozinha, uma torta de banana recém saída do forno, que minha mãe preparara. O objetivo daquela torta, fora servir à eles mesmos, mas após diversas saídas suspeitas do Paulo Eugênio, que saía a todo instante para "beber água", descobri que ele a devorara sozinho. Eu achei até engraçada essa compulsão, mas a minha mãe ficou horrorizada quando contei-lhe o ocorrido...

Continua...

Autobiografia na Música - Terra no Asfalto - Capítulo 58 - Por Luiz Domingues


Foi assim a derradeira tentativa para prolongar a vida dessa banda : nesse período, o Paulo Eugênio relatou-me que queria reformular a banda. Sem Wilson Canalonga Jr.; Sérgio Henriques; Cido Trindade, e Aru Junior, ou seja quase todos os membros mais regulares, checou comigo, se eu ficaria. Por falta de perspectivas melhores, eu aceitei, é claro. O mesmo deu-se com o Geraldo "Gereba". Contudo, precisávamos de mais um guitarrista e um baterista. O Luis Bola, opção sempre lembrada nas emergências, não quis desta feita, ter mais envolvimento em um projeto desses. Então, sem perspectivas para termos um novo baterista, ao menos sob curto prazo, resolvemos empreender ensaios acústicos para renovar o repertório. Nesse ínterim, o Paulo Eugênio relatou-me que a Dona Sabine, a senhora que era proprietária do "Café Teatro Deixa Falar", indicara-lhe um jovem guitarrista que estava com vontade em formar uma banda. Ele era namorado de sua filha, tinha uma guitarra Fender Stratocaster, e segundo ela, detinha um nível técnico muito bom, e já teria inclusive, gravado um compacto com uma banda autoral, razoavelmente conhecida no métier do Rock Paulista, o "Santa Gang". 
Esta foto do Rubens Gióia, é de outubro de 1986, em um show d'A Chave do Sol

Então, marcamos um encontro no Café Teatro Deixa Falar, para uma noite em que não haveria apresentação por lá e assim fomos apresentados. Seu nome era : Rubens Gióia. De fato, eu lembrava-me dele, visualmente, por vê-lo a assistir-nos no Deixa Falar, em ocasiões próximas passadas. Fizemos uma pequena Jam Session, informalmente, e verificamos que ele era um guitarrista quentíssimo de Rock. Dessa maneira, marcamos ensaios acústicos para preparar um repertório, enquanto o Paulo Eugênio fazia contatos para arrumar um baterista. Seria a tentativa de estabelecer uma nova encarnação do Terra no Asfalto, com Paulo Eugênio; Geraldo "Gereba"; Rubens Gióia, e eu, Luiz Domingues, em princípio, até que arrumássemos um baterista para fechar o quinteto. Fizemos alguns encontros desses na residência do Rubens, um ou dois na casa em que o Gereba estava hospedado, mas rapidamente estabeleci amizade com o Rubens, e quando percebemos que tínhamos os mesmos ideais no Rock e não queríamos montar uma banda cover, fundamos : A Chave do Sol. Restou-nos comunicar ao Geraldo "Gereba" e Paulo Eugênio, que estávamos a sair fora dessa tentativa efêmera para ressuscitar o Terra no Asfalto, com o propósito de batalharmos pela nossa carreira autoral.

O Paulo Eugênio ficou chateado, e chegou a falar algumas coisas desagradáveis em sinal de contrariedade, mas eu respondi-lhe que a tentativa para fazer o Terra no Asfalto vir a tornar-se uma banda autoral, havia fracassado, e que eu não tinha mais paciência para tocar em banda cover, apesar de precisar do dinheiro. Enfim, daí em diante, só fui ter contato com os remanescentes da banda, para negociar a partilha do equipamento que possuíramos, que fora comprado em sociedade, ao início de 1981. E para dar um impulso ao início da Chave do Sol, ao invés de ficar com o amplificador de baixo, simplesmente, abri mão desse conforto lógico, e deixei o amplificador aos demais para que o vendessem e ficassem com o dinheiro. Preferi ficar com o mini PA, e a mesa de 12 canais. Com isso, o equipamento básico de ensaios d'A Chave do Sol, estava garantido para os primeiros quatro anos de vida da banda.


Continua...  

Autobiografia na Música - Terra no Asfalto - Capítulo 57 - Por Luiz Domingues


Nos dias 28 e 29 de maio de 1982, o Terra no Asfalto realizou as últimas apresentações de sua história. Foram duas sessões realizadas no Colégio João XXIII, e desta feita, não foi perante uma multidão de pequeninos, como no Colégio Magno.

As duas sessões foram vistas por setenta e cento e vinte crianças, somente. Apesar do cachet fixo, foi nítido o desânimo em fazer apresentações às 8:00 horas da manhã para crianças, e o Paulo Eugênio, apesar de estar ainda a negociar com outros colégios, percebeu que não houve mais ânimo, e parou de agendar-nos.
Estávamos todos cansados daquele esquema, ainda que também a precisar de dinheiro. O Aru Junior estava farto, e queria algo mais sólido. Geraldo " Gereba" tinha aquele seu estilo "bonachão" e pareceu alheio ao desfecho. O Paulo Eugênio não escondia de ninguém, que sonhava com o "TNA" forte, a atuar em bares novamente, e o Sérgio Henriques só estava a aguardar para ir tocar com a Gal Costa (posteriormente tudo mudou, e ele foi tocar mesmo com o Jorge Benjor e a seguir, com o Premeditando o Breque). E o baterista, Maurício "Pardal", que só cumprira quatro apresentações para um público infantil, resumiu os seus sentimentos na volta desse último show, ao usar de seu deboche habitual. Na Kombi que conduziu-nos com o equipamento, veio a bordo a contar histórias de sua vida, quando tocara em conjuntos de baile pelo interior, e o quanto odiara aquilo. Mas falava em tom de deboche, embora fosse um lamento.
E o auge dessa manifestação deu-se quando ele pegou um violão e com a Kombi em movimento, pôs-se a cantar em plenos pulmões, canção : "Amada Amante", do Roberto Carlos, em puro tom de deboche, e entre os versos, improvisava uma letra em clima de paródia, ao descrever que não ficaria em uma banda que tocava às 8:00 horas da manhã para crianças etc. Bem, não deixou de ser engraçada essa manifestação, ainda que esse escárnio retratara bem o fim da banda, sob profunda melancolia. Após uma reunião final, as portas do Terra no Asfalto, fecharam-se para sempre. Nesse período do fim de maio, até meados de julho, houve uma última tentativa para reerguer a banda, mas não resultou em nada, ou melhor, nada para o "TNA", porém, precipitou a concepção da minha banda autoral (A Chave do Sol), que finalmente consegui montar após anos e anos a perseguir tal sonho.


Continua... 

domingo, 15 de dezembro de 2013

Autobiografia na Música - Terra no Asfalto - Capítulo 56 - Por Luiz Domingues


Nos dias 1°; 8 e 15 de maio de 1982, fizemos mais três apresentações no Café Teatro Deixa Falar, com público fraco nos três dias (vinte e cinco; vinte; e vinte e cinco pessoas, respectivamente). Foram de fato as três últimas apresentações do Terra no Asfalto em uma casa noturna, seu objetivo principal por ofício, desde que fora fundada em dezembro de 1979. Dali em diante, aconteceriam apenas mais quatro apresentações em ambiente escolar, conforme o Paulo Eugênio queria direcionar-nos, doravante. E com essa perspectiva um tanto quanto nebulosa, e por ter como base realista a decadência no circuito de bares, novamente, aconteceu uma última reformulação na formação. Wilson Canalonga Jr., um dos membros mais assíduos, e oriundo da primeiríssima formação de 1979, debandou definitivamente, e o mesmo ocorreu com o Cido Trindade, outro egresso de 1979, mas bem menos regular, com várias idas e vindas. Dessa forma, para cumprir essas datas agendadas em colégios, foram recrutados dois músicos. O primeiro era conhecido, Geraldo "Gereba", outro egresso de 1979, e com várias idas e vindas, também. O segundo, foi um baterista chamado : Maurício "Pardal", conhecido do Aru Junior, e do Sérgio Henriques. 

Empreendemos alguns ensaios na residência / estúdio do Maurício, um rapaz brincalhão e com bom astral. Tratava-se de um casarão nas Perdizes, zona oeste de São Paulo, e ele possuía uma estrutura muito boa, com bastante equipamento, e vedação praticamente profissional, por considerar-se ser um estúdio caseiro. O repertório seria o montante que tocávamos normalmente pela noite, acrescido de uma ou outra novidade de última hora.

O primeiro compromisso ocorreu em um colégio chamado : "Magno", que ficava localizado na Chácara Flora, bairro da zona sul de São Paulo. Tratou-se de um bom cachet fixo, e o formato da apresentação, seguira o padrão que fizéramos na Cultura Inglesa em 1980. O pretexto seria o dos alunos poder acompanhar as músicas, com as letras em mãos, para aprimorar o inglês. Dessa maneira, fizemos duas apresentações no mesmo dia, no pátio desse colégio.

Na primeira sessão, foi bizarro tocarmos Led Zeppelin às 8:00 horas da manhã ! Chegamos ao colégio por volta das 6:00 horas para os primeiros preparativos. Foi estranho montar o equipamento no pátio da escola, nesse horário insalubre, e sob o frio já acentuado de maio.

E pior ainda ocorreu quando as classes foram liberadas, e os professores e monitores organizaram as crianças para assistir-nos. Sentadas no chão, gritavam excitadas com a situação, claro... já esperávamos pela euforia, mas não que seria com uma audiência formada por crianças na faixa etária em torno de dez a dose anos, no máximo ! Estávamos a tocar para crianças, e apesar dos constrangimentos, foi até divertido por um certo aspecto. Na segunda sessão, após longa e entediante espera, tocamos por volta do meio-dia para outra turma, quando observou-se a presença de crianças um pouco mais velhas e adolescentes. Tratou-se de meninos e meninas entre 12 e 14 anos de idade, pelo que lembro-me. Na primeira sessão, foi perante quatrocentas crianças, e na segunda, trezentas e cinquenta, segundo a contagem dos professores. Cumprimos essa etapa, e na semana seguinte, fomos tocar em outro colégio, nos mesmos moldes.
Continua...
 

Autobiografia na Música - Terra no Asfalto - Capítulo 55 - Por Luiz Domingues



Após essa frustrada tentativa para tornar o Terra no Asfalto, uma banda autoral, dispersamos de vez. Mas em meados de fevereiro de 1982, o Paulo Eugênio recrutou os velhos componentes da banda novamente, um a um, por considerar que todos estavam sem dinheiro, e sem grandes perspectivas naquele início de ano.

Dessa maneira, mediante poucos ensaios, eliminamos a ferrugem adquirida pelo ócio e colocamos de novo a banda no circuito, com a perspectiva em tocarmos em um circuito de bares, novamente, mas sobretudo pela promessa do Paulo Eugênio em abrir uma nova frente de trabalho, a investir no setor de espetáculos fechados para escolas. Essa foi uma ideia que ele mantivera como meta, desde a época em que fizemos com grande êxito uma apresentação na Escola de Idiomas Cultura Inglesa em 1980, com um desdobramento posterior em uma unidade dessa mesma escola, em Campinas, no interior do estado. E segundo ele, já estava encaminhado um projeto semelhante, preparado para vender em colégios particulares, oriundos da clientela de seu tio, que detinha uma agência de turismo, especializada em excursões escolares para a Disneylândia, em Orlando, Florida. Cido Trindade estava agora dividido entre estudar alucinadamente para obter nível técnico no patamar de seus ídolos virtuoses da bateria, e ensaiar com a cantora Lily Alcalay (onde ele encaixou-me, também, e esse assunto já foi contado no capítulo dos Trabalhos Avulsos); Wilson estudava guitarra no Clam, e dividia-se entre o seu emprego público, e as atividades como pai recente, com o nascimento da sua primeira filha. O Aru Junior também aceitou, e o Sérgio Henriques contava com a perspectiva em trabalhar com a Gal Costa, mas estava parado naquele instante, e bastante chateado com a morte da Elis Regina, com quem estivera muito envolvido, desde 1980. Sendo assim, o Terra no Asfalto voltou à ativa na noite de 20 de março de 1982, quando subiu ao palco do Café Teatro Deixa Falar, com um surpreendente público de cem pessoas, na plateia. A formação dessa volta, contou com o quinteto mais estável da história do TNA (Paulo Eugênio; Aru Junior; Cido Trindade; Wilson Canalonga Junior, e eu, Luiz Domingues), com o acréscimo do membro nem sempre presente, mas antigo, Sérgio Henriques.

O clima, no entanto, não fora o mesmo de outrora. Mesmo por ser uma banda cover, e como já salientei diversas vezes neste capítulo, uma banda cover tem relação interna frágil, pois não possui a "argamassa do sonho", o clima na banda fora melhor em 1980 & 1981.

Nesse instante de 1982, foi nítido que todos estavam ali meramente por absoluta falta de perspectivas melhores para cada um, individualmente. Uma nova apresentação ocorreu no mesmo Café Teatro Deixa Falar, em 3 de abril de 1982, com quarenta pessoas presentes na casa. Paulo Eugênio estava a centrar os seus esforços nesse plano em realizar apresentações em colégios, com cachet fixo, e estava difícil retomar o embalo de 1981, na melhor fase da banda.

Mais uma vez tivemos sorte por embalar uma festa fechada.
No dia 15 de abril de 1982, voltamos ao Café Teatro Deixa Falar, desta feita para uma festa fechada e promovida pelo Centro Acadêmico da Faculdade de Direito da Universidade Mackenzie. Acredito que o Deixa Falar não recebia um público assim tão significativo, desde o tempo de suas glórias vividas em sua encarnação anterior, como o "Be Bop a Lula", nos anos setenta. Foram trezentas e cinquenta pessoas naquela noite a dançar e vibrar com o nosso som. Mas, nos dias posteriores, 16 e 17 de abril de 1982, a rotina decadente da casa, restabeleceu-se, e tocamos assim, respectivamente para vinte e trinta pessoas, apenas. Porém, o clima melhorou novamente, como a estabelecer uma autêntica gangorra, ao tocarmos novamente em uma festa fechada, desta feita realizada em um espaço onde nunca havíamos tocado anteriormente, e que revelava-se um sonho de consumo para todas as bandas cover da cidade : o bar "Sem Fim", que ficava localizado na Rua Bela Cintra, próximo à Av. Paulista. Foi um dos mais curiosos casos em que a banda envolveu-se. 
Foi uma festa fechada por esquerdistas, simpatizantes do Partido Solidariedade da Polônia, que comemorava os feitos do líder sindical, Lech Walessa, que lutava por mais democracia ante a ditadura de esquerda e ferrenha da parte dos soviéticos. Mas, por aqui a ditadura era de outra extremidade, e a despeito do Partido Solidariedade representar uma luta contra o esquerdismo extremo, ainda assim mostrara-se uma atividade proscrita, ao prestar essa solidariedade ao "Solidariedade", com o perdão da redundância.

Portanto, tocamos sob um clima tenso, com pessoas a entrar no bar apenas mediante senhas e um clima de medo, pois houve rumores de que poderia haver uma batida policial da repressão etc e tal. Fomos instruídos a tocar com um volume aquém do nosso padrão habitual, e embora fosse uma festa em tese, e as pessoas dançassem e bebessem, ao parecer divertir-se, deu para sentir uma tensão. E a decoração denunciaria qualquer tentativa em ludibriar a polícia, caso ela aparecesse, pois havia bandeiras do partido Solidariedade e várias pessoas usavam bottons com o logotipo de tal agremiação política, grafado em polonês. Não aconteceu nada de mal, e pudemos sair do local dentro de nossa rotina habitual da noite. Mas foi bem sui generis essa festa.
Continua...