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segunda-feira, 24 de abril de 2023

Crônicas da autobiografia - O precipício, o arame e o sorriso do grande artista - Por Luiz Domingues

Aconteceu no tempo do Terra no Asfalto, em algum momento de 1981

O Terra no Asfalto foi formado em 1979, com a intenção de ser uma banda de execução de releituras ou "covers" como queiram. Com a exceção de um breve período de 1981, no qual se aventou criar algo autoral e que foi rapidamente frustrado em sua tentativa, a predisposição dessa banda sempre foi de atuar como banda de entretenimento em casas noturnas, predominantemente, mas também em festas corporativas, escolares e diversas outras oportunidades do gênero que surgiram em sua trajetória.

Como eu já relatei com detalhes no meu texto autobiográfico, o grande mérito dessa banda foi ter arregimentado em suas diversas formações, músicos incríveis e eu, em início de carreira, me beneficiei muito desse convívio para aprender muito e crescer como músico.

Debruçado sobre o piano, Sergio Henriques observa o grande, Cesar Camargo Mariano a tocar. Elis Regina está sentada ao lado e em pé, o trompetista, Farias e o baixista, Luizão Maia, com roupa escura. Em algum momento de ensaio de 1980

Um desses geniais músicos que fizeram parte do Terra no Asfalto, foi o grande, Sergio Henriques, músico de sólida formação acadêmica, nível técnico alto e que foi reconhecido por sua capacidade por ter sido "side-man" de diversos artistas famosos da MPB mainstream dos anos sessenta, setenta e oitenta, em seu auge. Elis Regina, Rita Lee, Pepeu Gomes e Jorge Benjor estão nessa lista, além dele ter feito trabalhos significativos com artistas menos famosos no âmbito comercial, mas importantes artisticamente, como o grupo "Premeditando o Breque", por exemplo.

E entre acompanhar artistas do mega estrelato da música "mainstream" e tocar com a nossa humilde banda, Sergio esteve conosco sempre nas brechas de sua agenda, principalmente em meio as suas obrigações com Elis Regina e Rita Lee com quem mais atuou nesse tempo no qual também esteve conosco, concomitantemente.

Certa vez, a nossa banda tocou em um bar localizado no bairro da Bela Vista, o popular "Bexiga" na cidade de São Paulo e cujo palco estava montado em um mezanino altíssimo, que denotava ter sido o pavimento superior de uma antiga residência, cujo imóvel fora adaptado para se tornar uma casa noturna, muitos anos depois.

Lembro-me da dificuldade incrível que foi colocar todo o nosso equipamento naquele palco ermo, cujo acesso era feito apenas por uma escada estilo "caracol" e extremamente estreita. Outra alternativa não menos cansativa foi erguer os equipamentos com muita dificuldade, incluso no uso de mesas para elevar ao máximo a altura das pessoas envolvidas nessa tarefa e foi o que fizemos com a maioria dos amplificadores, as peças da bateria e o piano do Sergio.

Tarefa extenuante por si só, já a realizamos com a perspectiva de que repetiríamos a operação no decorrer da alta madrugada, lá pelas quatro horas da manhã ou mais que isso e foi o que ocorreu, inclusive com a impertinente ação do gerente da casa que não facilitou em nada tal operação, ao exigir que só empreendêssemos tal desmonte após não haver mais nenhum cliente da casa, sendo que muito antes do que ele nos autorizou, a casa já estava bem vazia com a presença apenas dos últimos ébrios relutantes para ir embora para as suas respectivas residências. 

Todavia, o ínterim desse trabalho de montagem e desmontagem foi o que se mostrou mais assustador, visto que o palco era pequeno e para alojar a nossa banda que atuou como sexteto nessa noite, com a participação do Sergio e mais o equipamento, tal operação fez com que a linha de frente da banda, com a presença do vocalista Paulo Eugênio e o Sergio, cujo piano elétrico, "Würlitzer", não teve outra escolha a não ser se alojar bem na frente e ajustado de forma enviesada, e assim, todos ficaram com espaço limitado, incluso os trio de cordas da nossa banda, formado por eu (Luiz), Aru Junior e Wilson Canalonga Filho e sobretudo paro o nosso baterista, Cido Trindade, que mal podia empreender os movimentos básicos de seus braços para poder tocar confortavelmente. 

Todavia, tais fatos não foram os mais alarmantes nessa apresentação, por incrível que pareça, pois além da altura absurda desse palco e da sua pequenez nas dimensões, eis que na sua extremidade não havia nenhum equipamento de segurança para assegurar que quem ali estivesse a tocar pudesse sentir algum amparo estratégico como uma grade, por exemplo. E para piorar a situação, o gerente da casa tomou como providência prosaica para fornecer a nossa segurança, a instalação de um fio de arame, isso mesmo, para ser estendida no comprimento do palco e à meia altura e que segundo ele, seria um aviso "psicológico" estratégico sobre o precipício que ali existia, para ninguém cair e se machucar.

Durante a apresentação, o incômodo de todos foi gritante, não apenas pelo calor excessivo que sentimos a tocar amontoados e sob a ação dos amplificadores, mas também pelo medo de alguém perder o equilíbrio e fazer com que algum equipamento ou nós mesmos caíssemos daquela altura e não foram poucos os sustos que tivemos com pedestais que ameaçaram despencar, além de pedais de guitarras e sobretudo do piano elétrico do Sérgio que estava ali instalado no limite. 

O suor do Sergio e do Paulo, que estavam bem na ponta do palco, respingava nas pessoas que estavam nas mesas bem abaixo a nos ver e ouvir. Latas de refrigerantes e cervejas que eles estavam a usar, quase caíram também. Mesmo assim, com tantas condições adversas, a apresentação foi ótima e entre tantas coisas, apesar de todo esse desconforto, o Sergio tocava a sorrir, porque adorava tocar conosco e amava tocar, acima de tudo. Na mesma época, ele estava ali conosco por conta de uma pausa da turnê da Elis Regina com a qual tocava, como segundo tecladista da banda, braço direito do Cesar Camargo Mariano e enquanto esperava começar os ensaios com Rita Lee, com quem ele iria tocar nos show de lançamento do LP "Lança Perfume" na ocasião.

Sem se importar em tocar em lugares simples assim, conosco, em contraste com os palcos glamourosos com os quais estava acostumado a se apresentar, não se furtava de ajudar a carregar o  equipamento e erguê-lo naquela altura desse bar em específico, tampouco com o aperto compatível para shows de contorcionistas, mas não para uma banda de Rock e nem mesmo ao correr risco de se machucar gravemente ou no mínimo, danificar o seu piano elétrico, que era super caro por natureza. 

Ele tocava e sorria, feliz por estar ali conosco e a reproduzir a arte de nossos ídolos em comum, a se coadunar com o Led Zeppelin, Yes, Stevie Wonder, Gilberto Gil e tantos outros artistas que admirávamos e que tínhamos um enorme prazer de executar as suas obras nessas noitadas animadas.

Lembrei muito do Sergio nos primeiros dias de março de 2023, não só por essa história mas por muitas outras que tivemos em parceria, pois fui comunicado do seu falecimento, infelizmente. 

Muito jovem para partir, eis que a fatalidade lhe ocorreu precocemente. Aqui ficamos sem a sua arte aos teclados, mas lá na dimensão na qual ele foi morar, tenho certeza que encontrou com os nossos companheiros do Terra no Asfalto, que também já haviam se mudado para lá anteriormente: Geraldo Gereba, Fernando "Mu" e Paulo Eugênio Lima. O Terra no Asfalto de lá, que seria poeticamente o "Céu no Asfalto", digamos assim, ganhou um reforço de muito peso: Sergio Henriques, o nosso Rick Wakeman do Terra no Asfalto. 

Descanse em paz e muito obrigado por tudo.

terça-feira, 23 de junho de 2020

Luiz Domingues: Primeira Entrevista ao Programa Vitrola Verde / Cesar Gavin


Amigos: é com prazer que eu anuncio o lançamento do primeiro episódio da minha entrevista concedida ao amigo, músico e ativista cultural, Cesar Gavin, para o seu espetacular canal, Vitrola Verde! 

Neste episódio, eu contei histórias sobre a minha primeira banda em 1976, o Boca do Céu, as duas passagens que eu tive pelo grande Língua de Trapo, também sobre a banda cover, Terra no Asfalto em que fiz parte, além de um trabalho avulso que eu tive em 1980 e que gerou uma participação em disco.
Eis o link para assistir no You Tube:
https://www.youtube.com/watch?v=01zQDwxHWeE

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Autobiografia na Música - Terra no Asfalto - Capítulo 68 - Por Luiz Domingues

Último capítulo desta parte importante de minha trajetória musical.
Como de praxe, deixo claro que posso reabrir o capítulo em qualquer momento, desde que fatos novos apareçam, com a possibilidade de materiais perdidos que possam surgir; correções; adendos; contatos com ex-membros que tragam algum elemento diferente à narrativa etc. Como já deixei claro ao longo de toda a narrativa, o Terra no Asfalto foi mais que um meio para ganhar dinheiro, meramente, em um momento em que foram cruciais dois aspectos em minha vida : 

1) Ganhar dinheiro e; 
2) Autoafirmação como músico profissional.
Ao ir além, foi um verdadeiro curso intensivo que fiz, para dar-me experiência musical; destreza ao instrumento; segurança; postura de palco, e convívio com músicos de alto nível. Infelizmente, além da narrativa desta autobiografia, praticamente não existe material dessa banda. Por tratar-se de uma banda cover, nunca cogitamos fotografar apresentações, tampouco fazer uma sessão com fotos promocionais. Não existe um release oficial, histórico ou qualquer material, a não ser as minhas anotações de apoio com datas, locais e quantidade de público presente nas apresentações, fora pouquíssimos itens de portfólio, que tenho usado e abusado como ilustração, nos capítulos. Melhor que nada, diria o otimista, mas muito pouco para o pessimista de plantão...
Mesmo assim, e por considerar ter sido um celeiro com grandes músicos, eu mesmo criei uma comunidade na extinta rede social Orkut, a visar preservar um pouco da história da banda, embora eu reconheça que o pouco que ali conteve, fora o conteúdo que eu mesmo reuni e disponibilizei nesta autobiografia. Mesmo assim, o objetivo foi agregar material; histórias e observações sobre o trabalho dessa banda, que embora não fizesse música autoral, foi uma banda formada por grandes músicos que por ali passaram. O Orkut fechou as suas portas, infelizmente, mas eu abri comunidades em outras redes sociais com o mesmo teor. Portanto, esse recurso encontra-se nas Redes Sociais, "Google+" e "Yoble", em um primeiro instante, mas tenho planos de seguir tal estratégia em outras redes, igualmente. Estejam convidados a participar, e já deixo o recado : quem porventura possuir algum tipo de material (fotos; filmagens; recortes de jornais & revistas, cartazetes e filipetas), por favor divulguem-nos na comunidade, seja de que Rede Social, for. 

Agradeço a todos os companheiros que passaram pela banda, por todos os shows que fizemos. Mas sobretudo pela enorme ajuda que ofertaram-me, ao fazer a transição de que tanto necessitava, em suplantar a barreira inicial dos primeiros e difíceis anos de minha carreira, para uma condição de músico profissional, em condições de lutar por uma carreira autoral no mundo musical. Obrigado ao Cido Trindade, por acreditar em minha pessoa, sobretudo em um momento onde percebeu que eu melhorara como instrumentista, quando vislumbrou levar-me para um trabalho como side-man, a acompanhar o cantor, Tato Fischer, e sem o qual, não acarretaria na oportunidade por ter conhecido o tecladista, Sérgio Henriques. Agradeço Sérgio Henriques por ter tido a perspicácia em indicar esse trio que acompanhava o Tato Fischer, para fundir-se a um outro trio de músicos, e ter nascido assim, o primeiro sexteto raiz do Terra no Asfalto. Sem Sérgio Henriques, eu não teria conhecido Paulo Eugênio, que foi o homem aglutinador do Terra no Asfalto.
Através de Paulo Eugênio, conheci Wilson Canalonga Jr.; Geraldo "Gereba"; Fernando "Mu", e Aru Junior, quatro guitarristas da pesada. 

Obrigado, Paulo Eugênio Lima, onde estiver, por ter proporcionado-me a chance para tocar com essas feras, por oitenta e três apresentações, onde sem dúvida, tal carga teve o peso de um curso intensivo para a minha formação profissional.

Obrigado ao Wilson Canalonga Junior, pelo convívio, amizade, conversas animadas sobre os Beatles, que adoramos, e pela possibilidade em ouvir as suas vocalizações nos bonitos backing vocals que fazia.

Obrigado, Geraldo "Gereba", pela sua guitarra "arretada". Seus solos inacreditáveis ainda ressoam em minha memória, cheios daquela brasilidade que só você, e o Pepeu Gomes possuem... e que esteja a tocá-los aí, do "outro lado" !

Muito grato, Fernando "Mu" ! Você foi o primeiro grande guitarrista Rocker com o qual eu pude ter a honra em tocar. Tocar contigo, foi como estar no palco do festival de Woodstock, a tocar com um Deus do Rock, verdadeiramente. 

Jamais esquecer-me-ei de sua interpretação para : "Star-Spangled Banner", ao fazer toda a ruideira proveniente das alavancadas criadas pelo Jimi Hendrix, , só que através de uma guitarra Gibson Les Paul Jr, a puxar o headstock na mão ! Fazer aquilo sem alavanca, foi inacreditável, e deixaria o Hendrix com o seu queixo caído !

Obrigado, Aru Junior ! Você foi um professor e um maestro para a minha trajetória. Sua dica em torno do mise-en-scenè, mudou mesmo a minha vida, e se sou respeitado em minha carreira, devo muito à essa orientação valiosa. E que bom que esteja do "lado de cá", espero que por muitos anos, ainda.

Obrigado, Luis Bola ! Você foi muito generoso comigo, e os sons do Frank Zappa que ouvimos na sua casa, foram sempre muito inspiradores.

Edson "Kiko" : já expressei através da narrativa, as minhas desculpas, reiteradas vezes. Espero que esteja bem neste momento !  
Um agradecimento especial ao Edmundo, pelo apoio recebido logo no início das atividades da banda, e amizade expressa por muitos anos, ainda que vejamo-nos sazonalmente.

Aos agregados, amigos e músicos com passagens rápidas, um muito obrigado, igualmente.

O Terra no Asfalto teve méritos, apesar de ter sido somente uma banda cover. E nos agradecimentos expressos acima, fica uma constatação : teve o efeito de uma verdadeira teia... uma peça ligou-se à outra, e sem as quais, eu não teria tido tantas oportunidades. O fim do Terra no Asfalto foi o começo da história d'A Chave do Sol em minha trajetória. Basta continuar a ler, dali em diante...

Muito obrigado por acompanhar, amigo leitor !



Autobiografia na Música - Terra no Asfalto - Capítulo 67 - Por Luiz Domingues

Agregados do TNA:

Edmundo Gusso: baterista & percussionista, Rocker, anfitrião, amigo e incentivador da nossa banda

Esqueci-me da maioria dos nomes daquela trupe de amigos freaks que a banda colecionou ao longo de sua trajetória. Lembro-me mais vividamente do Edmundo Gusso, que além de ser o mais assíduo, manteve contato nos anos posteriores. 

                   Ney Haddad, dono do estúdio "Quorum"

Além dele, houve o Ney Haddad, então adolescente, e que depois disso, e há muitos anos está consolidado como um baixista tarimbado. É dono do estúdio Quorum, e toca no "Mobilis Stabilis", além de outros muitos trabalhos. 

Outro amigo, foi o "Catito", um freak louco que possuía uma Kombi, e muitas vezes auxiliou-nos com o transporte do nosso equipamento. 

Outro rapaz, acho que chamava-se Sérgio, e era irmão de um dos músicos da banda experimental, "Uakti". 

Roatã Duprat (baixista superb), também merece a menção, certamente como um bom amigo que acompanhou, e ajudou a banda.

Um amigo do Paulo Eugênio, chamado : Pérsio, possuía um equipamento de PA, que alugava para bandas de baile, principalmente. Muitas vezes socorreu-nos, ao alugar-nos um mini PA, com microfones e pedestais. Mantive contato com ele, e no tempo d'A Chave Do Sol, alugamos um PA com grande proporção para dois shows, em 1983 e 1984, respectivamente e cujas histórias estão relatadas nos capítulos dessa banda.

Havia mais uns cinco ou seis agregados desses, cujos nomes apagaram-se da minha memória, infelizmente.

E as namoradas/esposas dos membros: Consuelo, Maria Helena, Mary Ellen, Virgínia, Lilian e Bruna, que eu me lembro e outras as quais fico a dever os nomes.
Continua... 

Autobiografia na Música - Terra no Asfalto - Capítulo 66 - Por Luiz Domingues

Participações Especiais :

Edmundo : 

Residência do baterista, Edmundo, onde tudo começou para o Terra no Asfalto, em dezembro de 1979

O Edmundo, amigo fiel do Paulo Eugênio, e que foi o primeiro benfeitor da banda (ao emprestar a sua residência a realização dos nossos primeiros ensaios), só participou da banda uma vez como convidado, ao tocar percussão em uma apresentação do Terra no Asfalto, em Campinas / SP, na Escola de Idiomas, Cultura Inglesa, em 1980. Apesar dessa efêmera participação, foi testemunha assídua de toda a carreira da banda. E por ser um amigo que eu tinha boas referências, foi o primeiro em quem pensei, quando quis recrutar um baterista para A Chave do Sol. Esse episódio já foi registrado no capítulo : "A Chave do Sol". Muitos anos depois, ele compareceu em vários shows da Patrulha do Espaço e do Pedra.



Tato Fischer :
                   Tato Fischer, em foto bem mais atual

Também efêmera, porém produtiva, foi a passagem meteórica de Tato Fischer pelo Terra no Asfalto. A sua melhor colaboração, foi na primeira edição da apresentação na Escola de Idiomas, Cultura Inglesa, em 1980. Também teve uma participação em uma apresentação acústica, e bem improvisada, e nada mais. Falei sobre o Tato Fischer com detalhes, no capítulo : Trabalhos Avulsos". Nunca mais tive contato com ele, depois dessa sua participação com o Terra no Asfalto. 



Catalau : 

                        Catalau, na época do Golpe de Estado

Não chegou a tocar ao vivo, nem como participação especial, mas foi cogitado para ser guitarrista / vocalista do Terra no Asfalto, em meados de 1980. Fez poucos ensaios acústicos, mas a sua participação não concretizou-se. Encontrei-o em 1983, a tocar no "Fickle Pickle", e a partir de 1985, ele brilhou muito no Golpe de Estado, até afastar-se em meados dos anos 1990, e dar uma guinada na vida, quando tornou-se pastor evangélico, e cantor gospel. Convivi bastante com ele, entre 1983 e 1990, mas depois que deixou o Golpe de Estado, e tornou-se evangélico, a última vez foi no camarim do Sesc Pompeia em 2003, quando dividiu um show coletivo com a participação da Patrulha do Espaço, onde eu estava a atuar, e Serguei.

Maurício "Pardal"  :
Mal esquentou o banco de baterista, pois foram só quatro apresentações. A banda estava desfigurada em 1982, e não esboçava reação para evitar esse fim presumível, quando ele, a sentir o clima, saiu pela tangente, até a ironizar, conforme já relatei.
Pouco sei do "Pardal" antes e depois de sua passagem meteórica pelo Terra no Asfalto. Sei apenas que era um músico com extrema qualidade técnica, mas desconheço a sua trajetória pessoal, para citá-la aqui. Nunca mais tive notícias suas, após 1982.


Wagner "Sabbath" :

Registro aqui, como forma carinhosa e honorária, mas na verdade não foi membro, tampouco aspirante a membro. O Wagner "Sabbath" foi um rapaz que aparecia com frequência nas apresentações, e insistia com viva tenacidade para que nós o deixássemos cantar com a banda, de uma maneira fortuita. Ele queria cantar e tocar guitarra, a todo custo. A sua insistência fora tão grande, que um dia enfim o deixamos que apresentasse-se sozinho à guitarra, no intervalo de uma apresentação nossa, ocorrida no Bar 790. Graças a ele, o poeta, Julio Revoredo, seu amigo de longa data, compareceu em algumas apresentações do Terra no Asfalto, e posteriormente, passou a acompanhar a carreira d'A Chave do Sol, ao apresentar o poeta, formalmente para nós, e daí, este veio a tornar-se o nosso parceiro letrista em várias composições. E claro... pedia para dar cantar com A Chave do Sol, e sonhava em ser o nosso vocalista. No capítulo d'A Chave do Sol, tenho boas histórias dele. 



Rubens Gióia : 
                                Rubens Gióia, em foto bem mais atual

Embora a sua participação tenha limitado-se a três ou quatro ensaios acústicos, e reuniões de escolha de repertório, claro que merece a citação. Ou seja, Rubens Gióia não teve de fato uma história no Terra no Asfalto, mas ao mesmo tempo, esse contato supostamente efêmero, foi fundamental para delinear o início d'A Chave do Sol. Dispensa comentários aqui, pois é personagem fixo e vital no capítulo : "A Chave do Sol".


Continua...    

Autobiografia na Música - Terra no Asfalto - Capítulo 65 - Por Luiz Domingues

Fernando Guimarães Vasconcellos, ou simplesmente, "Mu": 

Eu tinha uma versão um pouco distorcida sobre a morte do Fernando "Mu". O Rolando Castello Júnior, baterista da Patrulha do Espaço, havia relatado-me que o Fernando "Mu" fora assassinado no Largo 13 de Maio, centro do bairro de Santo Amaro, na zona sul de São Paulo, por um traficante de drogas. Foi quase isso na verdade. Segundo apurei com o Aru Junior, em visita à sua residência (2 de maio de 2012), o Fernando "Mu" foi mesmo assassinado, mas em uma padaria próxima à estátua do Borba Gato, na Av. Santo Amaro, e alguns quarteirões distante do Largo 13 de maio. Foi de fato um traficante de drogas a cobrar um acerto de contas, mas o devedor da conta não fora o Fernando "Mu!"

Rara foto do Fernando Guimarães Vasconcellos, o popular: "Mu" a tocar violino no encarte do disco da "Bandazul", lançado nos anos oitenta. Acervo e cortesia: Edmundo Gusso

O sujeito que estava a ser perseguido por bandidos, estava a tomar cerveja com o Fernando "Mu", em uma determinada madrugada de domingo para segunda. Um carro com quatro bandidos chegou, abordou o sujeito, e o Fernando "Mu", de forma imprudente, tentou amenizar a situação dramática do seu amigo. Dessa forma, o rapaz escapuliu ao aproveitar a confusão gerada, mas os bandidos não tiveram compaixão, e assassinam o Fernando "Mu", de uma forma fria, e muito cruel. Segundo o Aru Junior, foram três tiros à queima roupa, disparados diretamente à sua cabeça. E o Aru chegou a ser avisado a tempo, para comparecer ao velório. Isso ocorreu em 1997, e não em 1995, como eu supunha anteriormente.

O Fernando "Mu" saiu do Terra no Asfalto em 1980, com uma grande oportunidade, mas infelizmente não a aproveitou. Por não firmar-se na peça teatral, "Calabar", perdeu oportunidades de ouro para infiltrar-se no mundo da MPB mainstream.

Elenco e músicos da peça "Calabar". O Fernando "Mu" é o último em pé, na fileira mais alta, da esquerda para a direita


Nos primórdios d'A Chave do Sol, chegou a aparecer uma tarde no Bar Deixa Falar, em 1982, e presenciou um ensaio nosso, rapidamente. Lembro-me em vê-lo a atuar em uma banda de Rock Progressivo, de grande categoria (com o tecladista / guitarrista, Fernando Costa na formação), ao apresentar-se no programa "A Fábrica do Som", da TV Cultura de São Paulo, em 1984. Soube, anos depois, pelo amigo em comum, Edmundo Gusso, que ele gravara um álbum com a "bandazul" entre 1986 e 1987.

Mas infelizmente foi o som errado, para a época errada. Depois disso, só fui saber mesmo de seu falecimento por motivo violento, muitos anos depois. O "Mu" chamava-se Fernando Guimarães Vasconcellos, mas ninguém que o conhecia o chamava assim. E no curtíssimo tempo em que foi membro do Terra no Asfalto, entrou a impor-se. Tinha uma postura altiva, era temperamental, mas eu sentia que por baixo dessa casca forjada para parecer um "outsider " durão, havia um senso de humanidade.

Como músico, ele foi excepcional. Um dos melhores com quem já toquei, apesar de tão pouco tempo em que trabalhamos juntos. Sua segurança era enorme. Seus solos eram infernais; sua interpretação como cantor era intensa, e sua postura de palco fora a de um grande artista. Infelizmente, ele não teve a oportunidade para ser reconhecido como o grande artista que o foi, e sua carreira foi calcada na absoluta obscuridade do mundo underground, de onde jamais conseguiu libertar-se. Eu sinto muito que um talento desses tenha ficado circunscrito à última divisão da música, a tocar para poucos que nem percebiam o seu talento. E outra fator que eu admirava nele, foi o elán Rocker. Ele tinha o Rock nos olhos, como uma marca de nascença que poucos possuem. Que esteja bem acompanhado, na presença de Hendrix, "lá do outro lado"... 

Luis "Bola":

O Luis Bola foi baterista duas vezes do Terra no Asfalto, mas na realidade, ele tocou muito pouco. Deu azar por entrar em momentos de baixa, com uma agenda pequena, ou em fase de reformulação da banda. Era um rapaz determinado e com um bom astral. Bom baterista, camarada e com disposição para trabalhar. Ajudou-me ao arrumar-me trabalhos avulsos (relatado amplamente no capítulo"Trabalhos Avulsos"). 

Passei muitas horas prazerosas em sua casa, a ouvir os discos de sua coleção gigantesca de vinis. Era louco pelo Frank Zappa, e foi nessa fase onde eu também culminei em mais escutar a obra do mestre, Zappa. Depois do Terra no Asfalto, vi o Luis Bola, em 1984, ao levar a esposa para uma consulta pré-natal. 

Não me recordo se foi a primeira ou segunda filha do casal, que estava a chegar. Só lembro-me que foi repentino e muito rápido, pois fora um dia chuvoso, e ele se limitou a cumprimentar-me, pois estava preocupado em amparar a esposa grávida, e em meio à chuva. E foi a última vez que o vi, ou tive alguma notícia sua.

Edson "Kiko":

O Edson foi um músico que eu indiquei em um momento onde o Cido Trindade deixou-nos, subitamente. Admiro muito a sua boa vontade em esforçar-se para dominar um universo musical do qual não fazia parte, pois ele não acompanhava o Rock, e gostava mesmo era de música étnica, jazz etc. Foi muito generoso, ao ceder-nos a sua residência no bairro do Pacaembu, zona oeste de São Paulo, para ensaios super confortáveis. O quarto de ensaios era imenso, e mesmo na ausência de vedação, tocávamos sossegados, sem problemas com a vizinhança. 

Era um bom músico, e só ficava um pouco deslocado em nosso contexto mais centrado no Rock, mas deu conta do recado. A saída dele foi lamentável, ainda que a obedecer uma resolução que privilegiara em tese, o melhor para a banda naquele instante. Fiquei bem constrangido, por sentir-me maculado, eticamente a falar. Já pedi as minhas desculpas neste capítulo, e reitero-as aqui. 

Soube de uma notícia dele, no meio dos anos oitenta, ao dar conta de que estava a apresentar-se com uma banda orientada pelo som "World Music", com tendências africanas. Fiquei contente em saber disso, pois fora o seu desejo artístico. E isso foi a última coisa que eu soube dele.

Continua...

Autobiografia na Música - Terra no Asfalto - Capítulo 64 - Por Luiz Domingues

Paulo Eugênio Lima:

Na primeira foto, eis a persona de Paulo Eugênio Lima a atuar com o Terra no Asfalto em março de 1981. Acervo e cortesia: Cido Trindade. Click: desconhecido. Na segunda foto, eis uma Brasília preta bem parecida com a do Paulo Eugênio. Considero tal carro emblemático na história dessa banda, ao ponto de sempre que venho a pensar nesse carro, despertar-me lembranças desse trabalho e dos companheiros que nele militaram comigo
 
Depois que fizemos a reunião final de acerto das contas sobre o espólio do equipamento, em 1983, nunca mais eu tive contato algum com o Paulo Eugênio Lima. Em visita que fiz à casa do guitarrista Aru, tive enfim uma péssima notícia ao seu respeito.
 
Fui informado que ele faleceu há cerca de cinco ou seis anos atrás (sob a perspectiva de 2016, deve ter sido em 2009 ou 2010, o Aru também não sabia essa informação com precisão). Segundo ele disse-me, o Paulo Eugênio faleceu em uma mesa de cirurgia de hospital. Não sabemos se foi em decorrência de uma doença, ou se sofreu um acidente, ou mesmo se ainda fora vítima de alguma violência urbana, enfim. 
 
Paulo Eugênio Lima era um bom cantor, sem dúvida. Mesmo sem instrução teórica, ele tinha noções boas de afinação, pulso, ritmo, andamento, emissão, respiração, enfim, o be-a-bá do vocalista profissional. 
 
Era também um bom percussionista, muitas vezes a ajudar-nos com as suas intervenções rítmicas, e assim trazer balanço à banda. Tinha boa dicção e cantava bem em inglês, com pronúncia bastante aceitável. 
 
A sua performance de palco era boa, com desinibição e comunicava-se bem com o público, muito respaldado por ter sido guia de excursões à Disney World. Ele sabia conduzir o público e tinha um carisma inegável. 
 
Lamento muito que já tenha partido, por considerar que era pouca coisa mais velho do que eu, e hoje talvez estivesse na casa dos cinquenta e poucos anos, de onde concluo que faleceu muito jovem. 
 
O Paulo foi uma personalidade aglutinadora para a banda. Sempre foi o dínamo nesse sentido, ao tomar a dianteira para promover as reformulações necessárias na parte interna da banda, além de ser o “business man”, pois todos os contatos de nossas apresentações, foram fruto de seus esforços, não como empresário, eu diria, mas como relações públicas, sem dúvida, pois ele tinha esse dom natural em sua personalidade, por envolver-se com as pessoas, mediante o seu forte poder de persuasão. 
 
A "Brasília preta" que ele possuía, foi emblemática, pois representou o "Pauloeugêniomovel" oficial e assim, é praticamente um símbolo do Terra no Asfalto, naqueles três anos em que convivemos e trabalhamos pelos bares de São Paulo. Que esteja bem lá no céu, a cantar com o Mu e o Gereba, talvez em uma nova fase da banda, agora chamada: “Céu no Asfalto”

Depois que fizemos a reunião final de acerto das contas do equipamento por volta de março de 1983, nunca mais tive contato algum com o Paulo Eugênio. Em visita que fiz à casa do guitarrista Aru Junior, em maio de 2012, tive uma péssima notícia a respeito dele. Fui informado que ele falecera há cerca de quatro ou cinco anos atrás (ou seja, que o leitor considere 2007, ou 2008, e o Aru também não soube essa informação com precisão). Segundo ele disse-me, o Paulo Eugênio faleceu em uma mesa de cirurgia de hospital. Não sabemos se foi em decorrência de uma doença; ou se sofrera um acidente, ou mesmo se ainda fora vítima de algum tipo de violência urbana, enfim. 

O Paulo Eugênio era um bom cantor, sem dúvida. Mesmo sem instrução teórica, ele tinha noções boas de afinação; pulso; ritmo; andamento; emissão; respiração, enfim, o be-a-bá do vocalista. Era também um bom percussionista, muitas vezes ao auxiliar com suas intervenções rítmicas, a trazer balanço à banda. Tinha boa dicção, e cantava bem em inglês, com pronúncia aceitável. Sua performance de palco era boa, com desinibição, e comunicava-se bem com o público, muito respaldado por ter sido guia de excursões à Disney World. Ele sabia conduzir o público, e tinha um carisma interessante. Lamento muito que já tenha partido, ao considerar que era pouca coisa mais velho do que eu, e hoje (2012, quando escrevi este trecho), talvez estivesse na casa dos "cinquenta e poucos anos", de onde concluo que faleceu muito jovem. 

O Paulo foi uma personalidade aglutinadora para a banda. Sempre foi o dínamo nesse sentido, ao tomar a dianteira para reformulações necessárias na parte interna da banda, além de ser o business man, pois todos os contatos para as apresentações, foram fruto de seus esforços, não como empresário, eu diria, mas como relações públicas, sem dúvida. A Brasília preta da primeira foto, é emblemática, pois foi o "Pauloeugêniomovel" oficial, e é praticamente um símbolo do Terra no Asfalto, naqueles três anos em que convivemos, e trabalhamos pelos bares de São Paulo.

Aru Júnior ou Aru:

          O grande guitarrista, Aru Junior, em foto bem mais atual

Em maio de 2012, fui visitar o Aru Junior em sua residência, onde passamos horas a falar sobre as nossas lembranças do Terra no Asfalto. Muitas informações novas foram-me passadas desde essa visita e ajudaram-me a encerrar esse capítulo do Terra no Asfalto, com maior riqueza de detalhes. 
 
O Aru Junior foi o membro dessa banda, em que tive mais contato depois do final da banda. Lembro-me em 1988, quando convidou-me a conhecer a sua casa na ocasião, onde ele mantinha um estúdio de ensaios. Nessa época, ele estava casado com uma cantora chamada: Dadá Cyrino, que também fora apresentadora da TV Cultura de São Paulo, onde chegou a apresentar A Chave, na fase "sem Sol" (conto essa história no capítulo adequado). 
 
Ele cogitava nessa ocasião, montar uma banda autoral e chegou a convidar-me para conhecer o trabalho, mas eu estava com A Chave e não pude comprometer-me na ocasião. A sua esposa na época, estava para lançar-se no mercado fonográfico hispânico, com um repertório Pop latino e talvez sobrasse oportunidade para ser side-man em sua banda de apoio. 
 
Mas não frutificou tal proposta, apesar do casal ter ido assistir um show d'A Chave, no Black Jack Bar nesse ano, 1988. Anos depois, o Aru Junior apareceu em um show da Patrulha do Espaço, no Centro Cultural São Paulo (em 2000, para ser preciso). 
 
Ele conhecia o Rolando Castello Júnior desde os anos setenta, pelo fato do Júnior ter namorado a sua irmã, Ruth. Em retribuição, eu fui assistir a apresentação da banda: “Yessongs”, cover do "Yes", no Café Piu-Piu do bairro do Bexiga, dias depois. Fiquei contente por vê-lo a tocar e cantar em grande estilo, o repertório complexo do Yes e com perfeição, ainda mais ao contar com o excelente baixista, Gerson Tatini (Ex-Moto Perpétuo), na formação e sem dúvida, este músico é o maior especialista em executar as linhas do Chris Squire, no Brasil. 
 
Em 2011, quando eu comecei a tocar com o Kim Kehl e Os Kurandeiros, o baterista, Carlinhos Machado contou-me sobre a entrada do Aru na banda de apoio do ex-Secos & Molhados, Gerson Conrad, onde ele foi baterista por muitos anos. 
 
Fiquei muito contente por saber dele, quando decorrente desse contato, rapidamente adicionamo-nos no Facebook, e agora o contato está sacramentado, pois além do mais, moramos no mesmo bairro.
Bem parecida com essa, assim era a Gibson SG do Aru Junior, que tantos solos sob alto padrão produziu para o Terra no Asfalto 

E outras duas curiosidades que ele contou-me na tarde de 2 de maio de 2012: a primeira, foi relatada quando eu falei sobre o Fernando Mu, nestas considerações finais. 
 
A segunda, diz respeito à própria família dele, Aru Junior, e surpreendeu-me, pelo caráter inusitado da coincidência, ao melhor estilo "mundo pequeno". 
 
Pois no capítulo: "Trabalhos Avulsos" da minha autobiografia, eu relatei a formação de um trio instrumental onde atuariam eu, Cido Trindade e o cunhado dele, Aru, um rapaz chamado: Luis, um guitarrista com estilo bastante jazzístico. 
 
Pois bem, quando perguntei dele (o cunhado, Luis), fui informado que a sua segunda filha, sobrinha do Aru, era estrela no mundo do Indie Rock internacional... como assim? Pois tal sobrinha do Aru chama-se: Luiza e foi guitarrista da banda indie: "Cansei de Ser Sexy". Inacreditável mundo pequeno! Quando o Terra no Asfalto estava na ativa, lembro-me do nascimento da primeira filha do casal, Luis & Ruth, chamada: Diana. A Luiza nasceu depois, cresceu, tornou-se guitarrista, e fez turnês de cunho mundial com a sua banda, veja que curioso.
Na foto recortada acima, a persona de Aru Junior a tocar com o Terra no Asfalto em março de 1981. Acervo e cortesia: Cido Trindade. Click: desconhecido
 
Bem, para falar sobre o Aru, especificamente, tenho a dizer que trata-se de um músico com sólida formação teórica. É multi-instrumentista, pois toca bem piano e estudou violoncelo em uma universidade norte-americana. 
 
Como guitarrista, ele é excepcional e o seu estilo transita entre Steve Howe e Jimmy Page em doses maciças e com pitadas generosas de George Harrison nessa receita. Bom vocalista e com talento como arranjador, quando entrou na banda, tornou-a segura, toda arrumadinha tal como uma orquestra. 
 
Se por um lado perdemos o ímpeto dos primeiros tempos com a espontaneidade do Gereba e a rebeldia Rocker do Mu, com o Aru, transformamo-nos em uma orquestra bem ensaiada e muito segura.
 
Aprendi muita coisa com ele, que era bem mais experiente. Mas uma lição que eu aprendi com ele e reputo ter mudado a minha vida, nem tem a ver com teoria musical e diz respeito à mise-en-scène: ele insistia para que todos os músicos da banda fizéssemos movimentos com o instrumento, pois segundo dizia: -"o público leigo não entende de música em sua maioria. O sujeito do público olha e não sabe discernir se você toca bem ou mal. Mas se você agitar-se freneticamente, o convencerá que você é ótimo". 
 
Nunca mais esqueci-me dessa dica, e a partir do nascimento d'A Chave do Sol, adotei uma performance de palco a mais frenética possível, impressionado com essa orientação. Com isso, eu despertei a atenção de fãs e jornalistas, o que gerou uma aura sobre a minha carreira, ao superestimarem-me como músico. Muito do que construí na minha carreira, foi graças a essa postura cênica adotada e decorrência da valiosa dica do Aru Junior.
 
E sou-lhe eternamente grato por ter tido o cuidado em escolher a dedo um baixo com extrema qualidade, na América do Norte, que acompanha-me até hoje, gravou todos os discos da minha carreira e aparece em dúzias de vídeos e fotos das bandas onde atuei. Realmente foi uma escolha preciosa, pois esse baixo é mesmo demais como instrumento e foi o meu primeiro baixo com alto nível que tive, após anos a tocar em instrumentos de segunda e terceira linha. 
 
Esse é Aru Junior, um verdadeiro maestro, com uma vivência enorme na música, além do talento e alta capacidade técnica. Vá assisti-lo nos shows do Gerson Conrad, onde é seu guitarrista, e comprove!
 
Continua...

Autobiografia na Música - Terra no Asfalto - Capítulo 63 - Por Luiz Domingues


Geraldo "Gereba": 

Nunca mais vi o Gereba depois da frustrada tentativa em reativar o Terra no Asfalto, na metade de 1982. Sei apenas que ele faleceu anos depois, por conta de uma cirrose. Não tenho essa confirmação oficial sobre a época do ocorrido, nem onde foi. O que posso dizer para ilustrar sobre ele, acredito já ter expresso amplamente no capítulo inteiro, sempre que referi-me à sua pessoa. Para reforçar, o Gereba foi um talento bruto, sem nenhuma instrução musical. Era puro ouvido e sensibilidade. Seu estilo era brasileiro, e o seu ídolo máximo foi o Pepeu Gomes, de quem tirou todos os solos à perfeição. E tal como Pepeu, tocava sem nenhuma estrutura digna de seu talento. Usava uma guitarra da marca "Rei" (parecida com a da foto acima), uma grosseira réplica da guitarra Fender, modelo Jazz Master, mas verdade, longe da qualidade da norteamericana famosa, e a revelar-se, péssima. Portanto, ele nunca teve uma guitarra importada com qualidade. 

Outro ídolo seu, foi o Alvin Lee. Mesmo sem entender uma só palavra em inglês, ele adorava o Ten Years After, e sabia tocar muitas músicas, a reproduzir fielmente o som do Alvin Lee, de uma forma muito emocionante. Como ser humano, o Gereba era um rapaz com boa índole. Sujeito simples e alegre, o tempo todo. Foi, guardadas as devidas proporções, uma espécie de "Garrincha" do Terra no Asfalto. Prosaico e ingênuo em certos aspectos, porém um monstro pela sua criatividade e desenvoltura à guitarra, tal como o jogador das pernas tortas, o foi em relação ao futebol. Assim como quase todos os membros do Terra no Asfalto, fico a dever uma foto, pois nada tenho em portfólio, tampouco achei na internet.

Wilson Canalonga Jr. ou "Wilsinho":

 
Na primeira foto, Wilson em foto bem mais atual a atuar ao vivo pelo nordeste. O Wilson usou no Terra no Asfalto, um modelo de guitarra exatamente como esse da foto, acima. Tratava-se de uma guitarra da marca, Giannini, modelo "Pingo de Ouro", preta como a da foto. Era uma guitarra que a Giannini lançara no mercado ao final dos anos setenta, como réplica da guitarra britânica, "Vox", modelo "Tear Drop", imortalizada pelo saudoso guitarrista dos Rolling Stones, Brian Jones, nos anos sessenta, que a usou bastante. Mas aqui no Brasil, esse modelo da Giannini também era conhecido como "Guitarra Craviola" ou "Pingo de Ouro"
 
Quando deixou o Terra no Asfalto, início de 1982, o Wilson já estava imbuído de um objetivo pessoal: estudar música. E de fato, ele se matriculou no "Clam", a famosa escola dirigida pelos componentes do Zimbo Trio. 
 
Naquela escola, que era excelente pela sólida pedagogia baseada em cursos norte-americanos, a mentalidade era excessivamente jazzística. Nada contra, mas quem entrava naquela egrégora, tendia a afastar-se do Rock, ao criar paradigmas e preconceitos.  
 
Encontrei com ele em 1983, mais ou menos e verifiquei que a sua mentalidade já estava diferente, só a citar as feras do Jazz, etc. e tal. Depois disso, fiquei muitos anos sem notícias, até que o Edmundo, nosso amigo em comum, contou-me em 2000, quando esteve presente em um show da Patrulha do Espaço, que o Wilson havia mudado-se para o nordeste, há muitos anos, e havia desenvolvido uma técnica enorme na guitarra, a tocar Jazz, e nem queria saber mais do Rock.  
 
Em conversa que tive com o Aru, ele passou-me mais informações, para enriquecer esta narrativa. Foi quando eu soube por exemplo, que ele, Wilson, estava a morar no Recife e teve outra filha. E indo além, soube também que no início dos anos noventa, ele chegou a formar uma banda orientada pelo Rock Progressivo setentista, com o próprio Aru Junior, denominada: "Nave". Após alguns desentendimentos, o "Nave" foi conduzido adiante pelo vocalista, Roger Troyan, ex-“Yessongs” (banda cover do Yes, cujo guitarrista fora o Aru Junior).
 
Essa circunstância não foi muito agradável, segundo o Aru contou-me, com discórdia sobre o nome da banda, sendo que o fundador e criador do nome, fora o próprio, Aru. Mas o Wilson mudou-se para Recife e a sua predileção era mesmo, atualmente, e desde muito tempo, o Jazz. Ele continua casado com a Consuelo, que no tempo do Terra no Asfalto, era uma adolescente bem novinha, apenas.
Paulo Eugênio tinha razão, Wilsinho tinha traços faciais bem parecidos com o Paul McCartney
 
A falar do Wilsinho que eu conheci ao final de 1979, ele era um guitarrista iniciante, mas com muita vontade de desenvolver-se ao máximo, na guitarra. Se nos solos e harmonizações, ainda não era o grande músico que viria a ser depois, a sua participação como guitarrista base, violonista e backing vocals do Terra no Asfalto, sempre foi muito importante. 
 
No quesito humano, era um rapaz tranquilo, gentil e sempre disposto a ajudar as pessoas. Fanático pelos Beatles, tinha bastante semelhança fisionômica com o Paul McCartney e nas apresentações, o Paulo Eugênio brincou muitas vezes com ele, ao chamar a atenção do público para esse detalhe. 
 
Em 2012, acrescento que através do Aru Junior, o guitarrista, Wilson Canalonga Junior, descobriu o meu endereço no Facebook e adicionou-me. Fiquei muito feliz com essa solicitação de amizade, e claro que o aceitei imediatamente e dessa maneira fui direto ao seu “inbox”, e escrevi-lhe uma longa saudação, onde expliquei-lhe a minha determinação de estar a escrever as minhas memórias, e que havia um capítulo exclusivo para contar a trajetória do Terra no Asfalto. 
Na foto recortada acima, a persona de Wilson Canalonga Junior a tocar com o Terra no Asfalto em março de 1981. Acervo e cortesia: Cido Trindade. Click: desconhecido
 
Para encerrar, eu reforço o meu agradecimento ao Wilson, pelo companheirismo que tivemos entre 1979 e 1982, quando atuamos juntos no Terra no Asfalto.
 
Continua...