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quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Autobiografia na Música - Terra no Asfalto - Capítulo 68 - Por Luiz Domingues

Último capítulo desta parte importante de minha trajetória musical.
Como de praxe, deixo claro que posso reabrir o capítulo em qualquer momento, desde que fatos novos apareçam, com a possibilidade de materiais perdidos que possam surgir; correções; adendos; contatos com ex-membros que tragam algum elemento diferente à narrativa etc. Como já deixei claro ao longo de toda a narrativa, o Terra no Asfalto foi mais que um meio para ganhar dinheiro, meramente, em um momento em que foram cruciais dois aspectos em minha vida : 

1) Ganhar dinheiro e; 
2) Autoafirmação como músico profissional.
Ao ir além, foi um verdadeiro curso intensivo que fiz, para dar-me experiência musical; destreza ao instrumento; segurança; postura de palco, e convívio com músicos de alto nível. Infelizmente, além da narrativa desta autobiografia, praticamente não existe material dessa banda. Por tratar-se de uma banda cover, nunca cogitamos fotografar apresentações, tampouco fazer uma sessão com fotos promocionais. Não existe um release oficial, histórico ou qualquer material, a não ser as minhas anotações de apoio com datas, locais e quantidade de público presente nas apresentações, fora pouquíssimos itens de portfólio, que tenho usado e abusado como ilustração, nos capítulos. Melhor que nada, diria o otimista, mas muito pouco para o pessimista de plantão...
Mesmo assim, e por considerar ter sido um celeiro com grandes músicos, eu mesmo criei uma comunidade na extinta rede social Orkut, a visar preservar um pouco da história da banda, embora eu reconheça que o pouco que ali conteve, fora o conteúdo que eu mesmo reuni e disponibilizei nesta autobiografia. Mesmo assim, o objetivo foi agregar material; histórias e observações sobre o trabalho dessa banda, que embora não fizesse música autoral, foi uma banda formada por grandes músicos que por ali passaram. O Orkut fechou as suas portas, infelizmente, mas eu abri comunidades em outras redes sociais com o mesmo teor. Portanto, esse recurso encontra-se nas Redes Sociais, "Google+" e "Yoble", em um primeiro instante, mas tenho planos de seguir tal estratégia em outras redes, igualmente. Estejam convidados a participar, e já deixo o recado : quem porventura possuir algum tipo de material (fotos; filmagens; recortes de jornais & revistas, cartazetes e filipetas), por favor divulguem-nos na comunidade, seja de que Rede Social, for. 

Agradeço a todos os companheiros que passaram pela banda, por todos os shows que fizemos. Mas sobretudo pela enorme ajuda que ofertaram-me, ao fazer a transição de que tanto necessitava, em suplantar a barreira inicial dos primeiros e difíceis anos de minha carreira, para uma condição de músico profissional, em condições de lutar por uma carreira autoral no mundo musical. Obrigado ao Cido Trindade, por acreditar em minha pessoa, sobretudo em um momento onde percebeu que eu melhorara como instrumentista, quando vislumbrou levar-me para um trabalho como side-man, a acompanhar o cantor, Tato Fischer, e sem o qual, não acarretaria na oportunidade por ter conhecido o tecladista, Sérgio Henriques. Agradeço Sérgio Henriques por ter tido a perspicácia em indicar esse trio que acompanhava o Tato Fischer, para fundir-se a um outro trio de músicos, e ter nascido assim, o primeiro sexteto raiz do Terra no Asfalto. Sem Sérgio Henriques, eu não teria conhecido Paulo Eugênio, que foi o homem aglutinador do Terra no Asfalto.
Através de Paulo Eugênio, conheci Wilson Canalonga Jr.; Geraldo "Gereba"; Fernando "Mu", e Aru Junior, quatro guitarristas da pesada. 

Obrigado, Paulo Eugênio Lima, onde estiver, por ter proporcionado-me a chance para tocar com essas feras, por oitenta e três apresentações, onde sem dúvida, tal carga teve o peso de um curso intensivo para a minha formação profissional.

Obrigado ao Wilson Canalonga Junior, pelo convívio, amizade, conversas animadas sobre os Beatles, que adoramos, e pela possibilidade em ouvir as suas vocalizações nos bonitos backing vocals que fazia.

Obrigado, Geraldo "Gereba", pela sua guitarra "arretada". Seus solos inacreditáveis ainda ressoam em minha memória, cheios daquela brasilidade que só você, e o Pepeu Gomes possuem... e que esteja a tocá-los aí, do "outro lado" !

Muito grato, Fernando "Mu" ! Você foi o primeiro grande guitarrista Rocker com o qual eu pude ter a honra em tocar. Tocar contigo, foi como estar no palco do festival de Woodstock, a tocar com um Deus do Rock, verdadeiramente. 

Jamais esquecer-me-ei de sua interpretação para : "Star-Spangled Banner", ao fazer toda a ruideira proveniente das alavancadas criadas pelo Jimi Hendrix, , só que através de uma guitarra Gibson Les Paul Jr, a puxar o headstock na mão ! Fazer aquilo sem alavanca, foi inacreditável, e deixaria o Hendrix com o seu queixo caído !

Obrigado, Aru Junior ! Você foi um professor e um maestro para a minha trajetória. Sua dica em torno do mise-en-scenè, mudou mesmo a minha vida, e se sou respeitado em minha carreira, devo muito à essa orientação valiosa. E que bom que esteja do "lado de cá", espero que por muitos anos, ainda.

Obrigado, Luis Bola ! Você foi muito generoso comigo, e os sons do Frank Zappa que ouvimos na sua casa, foram sempre muito inspiradores.

Edson "Kiko" : já expressei através da narrativa, as minhas desculpas, reiteradas vezes. Espero que esteja bem neste momento !  
Um agradecimento especial ao Edmundo, pelo apoio recebido logo no início das atividades da banda, e amizade expressa por muitos anos, ainda que vejamo-nos sazonalmente.

Aos agregados, amigos e músicos com passagens rápidas, um muito obrigado, igualmente.

O Terra no Asfalto teve méritos, apesar de ter sido somente uma banda cover. E nos agradecimentos expressos acima, fica uma constatação : teve o efeito de uma verdadeira teia... uma peça ligou-se à outra, e sem as quais, eu não teria tido tantas oportunidades. O fim do Terra no Asfalto foi o começo da história d'A Chave do Sol em minha trajetória. Basta continuar a ler, dali em diante...

Muito obrigado por acompanhar, amigo leitor !



Autobiografia na Música - Terra no Asfalto - Capítulo 63 - Por Luiz Domingues


Geraldo "Gereba": 

Nunca mais vi o Gereba depois da frustrada tentativa em reativar o Terra no Asfalto, na metade de 1982. Sei apenas que ele faleceu anos depois, por conta de uma cirrose. Não tenho essa confirmação oficial sobre a época do ocorrido, nem onde foi. O que posso dizer para ilustrar sobre ele, acredito já ter expresso amplamente no capítulo inteiro, sempre que referi-me à sua pessoa. Para reforçar, o Gereba foi um talento bruto, sem nenhuma instrução musical. Era puro ouvido e sensibilidade. Seu estilo era brasileiro, e o seu ídolo máximo foi o Pepeu Gomes, de quem tirou todos os solos à perfeição. E tal como Pepeu, tocava sem nenhuma estrutura digna de seu talento. Usava uma guitarra da marca "Rei" (parecida com a da foto acima), uma grosseira réplica da guitarra Fender, modelo Jazz Master, mas verdade, longe da qualidade da norteamericana famosa, e a revelar-se, péssima. Portanto, ele nunca teve uma guitarra importada com qualidade. 

Outro ídolo seu, foi o Alvin Lee. Mesmo sem entender uma só palavra em inglês, ele adorava o Ten Years After, e sabia tocar muitas músicas, a reproduzir fielmente o som do Alvin Lee, de uma forma muito emocionante. Como ser humano, o Gereba era um rapaz com boa índole. Sujeito simples e alegre, o tempo todo. Foi, guardadas as devidas proporções, uma espécie de "Garrincha" do Terra no Asfalto. Prosaico e ingênuo em certos aspectos, porém um monstro pela sua criatividade e desenvoltura à guitarra, tal como o jogador das pernas tortas, o foi em relação ao futebol. Assim como quase todos os membros do Terra no Asfalto, fico a dever uma foto, pois nada tenho em portfólio, tampouco achei na internet.

Wilson Canalonga Jr. ou "Wilsinho":

 
Na primeira foto, Wilson em foto bem mais atual a atuar ao vivo pelo nordeste. O Wilson usou no Terra no Asfalto, um modelo de guitarra exatamente como esse da foto, acima. Tratava-se de uma guitarra da marca, Giannini, modelo "Pingo de Ouro", preta como a da foto. Era uma guitarra que a Giannini lançara no mercado ao final dos anos setenta, como réplica da guitarra britânica, "Vox", modelo "Tear Drop", imortalizada pelo saudoso guitarrista dos Rolling Stones, Brian Jones, nos anos sessenta, que a usou bastante. Mas aqui no Brasil, esse modelo da Giannini também era conhecido como "Guitarra Craviola" ou "Pingo de Ouro"
 
Quando deixou o Terra no Asfalto, início de 1982, o Wilson já estava imbuído de um objetivo pessoal: estudar música. E de fato, ele se matriculou no "Clam", a famosa escola dirigida pelos componentes do Zimbo Trio. 
 
Naquela escola, que era excelente pela sólida pedagogia baseada em cursos norte-americanos, a mentalidade era excessivamente jazzística. Nada contra, mas quem entrava naquela egrégora, tendia a afastar-se do Rock, ao criar paradigmas e preconceitos.  
 
Encontrei com ele em 1983, mais ou menos e verifiquei que a sua mentalidade já estava diferente, só a citar as feras do Jazz, etc. e tal. Depois disso, fiquei muitos anos sem notícias, até que o Edmundo, nosso amigo em comum, contou-me em 2000, quando esteve presente em um show da Patrulha do Espaço, que o Wilson havia mudado-se para o nordeste, há muitos anos, e havia desenvolvido uma técnica enorme na guitarra, a tocar Jazz, e nem queria saber mais do Rock.  
 
Em conversa que tive com o Aru, ele passou-me mais informações, para enriquecer esta narrativa. Foi quando eu soube por exemplo, que ele, Wilson, estava a morar no Recife e teve outra filha. E indo além, soube também que no início dos anos noventa, ele chegou a formar uma banda orientada pelo Rock Progressivo setentista, com o próprio Aru Junior, denominada: "Nave". Após alguns desentendimentos, o "Nave" foi conduzido adiante pelo vocalista, Roger Troyan, ex-“Yessongs” (banda cover do Yes, cujo guitarrista fora o Aru Junior).
 
Essa circunstância não foi muito agradável, segundo o Aru contou-me, com discórdia sobre o nome da banda, sendo que o fundador e criador do nome, fora o próprio, Aru. Mas o Wilson mudou-se para Recife e a sua predileção era mesmo, atualmente, e desde muito tempo, o Jazz. Ele continua casado com a Consuelo, que no tempo do Terra no Asfalto, era uma adolescente bem novinha, apenas.
Paulo Eugênio tinha razão, Wilsinho tinha traços faciais bem parecidos com o Paul McCartney
 
A falar do Wilsinho que eu conheci ao final de 1979, ele era um guitarrista iniciante, mas com muita vontade de desenvolver-se ao máximo, na guitarra. Se nos solos e harmonizações, ainda não era o grande músico que viria a ser depois, a sua participação como guitarrista base, violonista e backing vocals do Terra no Asfalto, sempre foi muito importante. 
 
No quesito humano, era um rapaz tranquilo, gentil e sempre disposto a ajudar as pessoas. Fanático pelos Beatles, tinha bastante semelhança fisionômica com o Paul McCartney e nas apresentações, o Paulo Eugênio brincou muitas vezes com ele, ao chamar a atenção do público para esse detalhe. 
 
Em 2012, acrescento que através do Aru Junior, o guitarrista, Wilson Canalonga Junior, descobriu o meu endereço no Facebook e adicionou-me. Fiquei muito feliz com essa solicitação de amizade, e claro que o aceitei imediatamente e dessa maneira fui direto ao seu “inbox”, e escrevi-lhe uma longa saudação, onde expliquei-lhe a minha determinação de estar a escrever as minhas memórias, e que havia um capítulo exclusivo para contar a trajetória do Terra no Asfalto. 
Na foto recortada acima, a persona de Wilson Canalonga Junior a tocar com o Terra no Asfalto em março de 1981. Acervo e cortesia: Cido Trindade. Click: desconhecido
 
Para encerrar, eu reforço o meu agradecimento ao Wilson, pelo companheirismo que tivemos entre 1979 e 1982, quando atuamos juntos no Terra no Asfalto.
 
Continua...

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Autobiografia na Música - Terra no Asfalto - Capítulo 61 - Por Luiz Domingues


Bem, o Terra no Asfalto foi uma banda cover que apesar de ter sido criada com esse objetivo, exclusivamente (salvo a vã tentativa para tornar-se banda autoral, ao final de 1981), teve muitos méritos. O primeiro e óbvio, foi no sentido em proporcionar-me uma escola viva, onde libertei-me enfim da fase inicial da minha carreira, onde a insegurança em apresentar um nível técnico como principiante, fora superada.

Claro, um pouco antes, quando eu fui tocar na banda de apoio do cantor, Tato Fischer, em 1979, na verdade eu já estava seguro e com um nível técnico mínimo necessário para considerar -me um músico profissional, mas no Terra no Asfalto, ganhei ainda mais desenvoltura e cancha de palco (apesar da banda ter atuado predominantemente circunscrita aos humildes palcos de casas noturnas). O segundo ponto também é motivo de orgulho. Mesmo por ser uma banda irregular, com diversas idas e vindas, o Terra no Asfalto teve em suas fileiras, grandes músicos. Não é toda banda cover que pode orgulhar-se por ter tido tantos músicos bons assim, em sua trajetória. O terceiro ponto são as histórias acumuladas. Algumas engraçadas, outras desagradáveis, mas no cômputo geral, quando uma banda, mesmo sendo cover, reúne um repertório com histórias ocorridas em sua carreira, é sinal de que foi prolífica. O início foi sob puro improviso.

A maneira com a qual foi formada, foi inusitada, com praticamente uma fusão feitas às pressas. Aquele primeiro show de 1979, que gerou a semente inicial, foi de uma insanidade total, mas provou também que havia uma "química", e de fato, aquele conglomerado formado por músicos juntados às pressas, gerou uma banda. A entrada do Fernando "Mu", trouxe um élan. Foi o meu primeiro contato com um guitarrista de alto nível, e embora muito genioso, e difícil para lidar-se como Ser Humano, foi a oportunidade para ter a minha primeira sensação no sentido em estar dentro de uma banda com comprometimento Rocker, e dotada de um nível técnico compatível com essa pretensão. Não levo em conta o trio do Tato Fischer nesse mesmo sentido, pois ali eu também estava a tocar com músicos de um nível alto, principalmente o Sérgio Henriques, mas não foi exatamente uma banda de Rock.

O crescimento da banda, a atrair público nos primeiros bares, e posterior oportunidade para tocar em bares mais categorizados, foi bonito, apesar de ser meramente o trabalho de uma banda cover. Os momentos difíceis do meio do ano de 1980, não amargurou-me, pois eu estava a todo vapor a tocar nos primórdios do Língua de Trapo, e a participar de vários trabalhos paralelos. E convenhamos, com dezenove para vinte anos de idade, as intempéries da vida nem são sentidas inteiramente.

Na foto recortada acima, eis a minha própria persona (Luiz Domingues), a tocar com o Terra no Asfalto em março de 1981. Acervo e cortesia: Cido Trindade. Click: desconhecido

A volta do Terra no Asfalto, ao final de 1980, coroou a trajetória da banda, ao dar-lhe a sua melhor fase, com regularidade, várias apresentações memoráveis, e um dinheiro providencial. Banda cover não é, nem nunca foi o meu objetivo de vida, mas recordo-me com carinho de várias ocasiões onde o Terra no Asfalto tocou para públicos entusiasmados, e arrancou aplausos e gritos. Não fora o nosso som, e sim o sucesso fácil da criação alheia, mas ficou a lembrança de uma banda azeitada, e com recursos técnicos muito bons.

Após a parada forçada, no meio de 1981, a banda perdeu o fôlego e nunca mais alcançou esse patamar máximo que conseguíramos anteriormente. Entre muitos percalços, finais e recomeços, estendemos o Terra no Asfalto até proporcionar-me uma oportunidade de vida, enfim, quando nos seus estertores, conheci o guitarrista, Rubens Gióia, e finalmente montei a minha banda de Rock autoral, sonho perseguido desde 1976, e que o caráter infantojuvenil do Boca do Céu, não permitira-me realizar em sua plenitude. Posso afirmar sem medo de errar, que o Terra no Asfalto foi a semente primordial do nascimento d'A Chave do Sol.
Continua... 

Autobiografia na Música - Terra no Asfalto - Capítulo 60 - Por Luiz Domingues


Uma outra história ocorreu no final de 1980, um pouco antes da reformulação da banda com a entrada do Aru Junior. Foi em um Sarau improvisado que o Paulo Eugênio inseriu não o Terra no Asfalto, que estava parado oficialmente naquela fase da pré entrada do Aru Junior, mas de maneira informal, fomos a um sítio nas proximidades de Cotia, na Grande São Paulo, onde o objetivo foi apenas passarmos um final de semana recreativo. O local era de propriedade de amigos dele e assim, passamos um final de semana a jogar futebol em um campo oficial bem estruturado, e na noite do sábado, tocamos para entreter os convidados. Isso não fora uma novidade, pois nessa entressafra da banda na segunda metade de 1980, o Paulo já havia levado-nos para tocar informalmente de forma acústica, em festas particulares, promovidas por amigos dele.

Nessa ocasião do sítio, estávamos eu; Luiz Domingues; Geraldo "Gereba"; Wilson Canalonga Junior, e o Paulo Eugênio fez percussão e voz. A nota triste desse passeio foi que eu tive a infeliz ideia em jogar como goleiro durante o futebol vespertino, e ao fazer uma defesa, ao espalmar a bola (e imprudentemente sem usar luvas), machuquei meus dedos. anular e mindinho da mão esquerda.

Na hora, cheguei a pensar em tê-los fraturado, mas foi só o susto mesmo. Inchados e a doer bastante, prejudicou bastante a minha performance na Jam Session do sábado à noite. Não anotei isso como atividade oficial do Terra no Asfalto, pois foi muito informal mesmo. Apesar de haver ali cerca de trinta pessoas pelo menos a assistir e cantar etc e tal, aquilo fora só uma jam informal, portanto, não computei como uma apresentação oficial.
Isso deve ter acontecido por volta de outubro, pois o comentário da semana fora o show do Peter Frampton, no Ginásio do Ibirapuera, que estava para acontecer, ou já tinha ocorrido, não recordo-me direito. E um fato curioso, o Wilson  Canalonga Junior estava obcecado em aprender a executar o solo da música : "My Love", do Paul McCartney. Ficou a madrugada inteira a repetir incansavelmente aquele solo, ao ponto de sua namorada, Consuelo, brigar com ele, irritada com a repetição enjoativa. Se lembrar de mais histórias, mesmo com o capítulo encerrado, não hesitarei em reabri-lo para adendos. Feito isso, estou a chegar ao final da minha história com o Terra no Asfalto.
Continua... 

Autobiografia na Música - Terra no Asfalto - Capítulo 59 - Por Luiz Domingues


Portanto, o último suspiro de vida do Terra no Asfalto, deu início à gestação d'A Chave do Sol, e tal história prossegue nos capítulos dessa banda. Antes de encerrar a história do Terra no Asfalto, vou recuar um pouco na cronologia para contar algumas histórias que não ficaram registradas, por não haver uma cronologia fixa sobre cada uma dessas ocorrências.

Uma delas, trata-se sobre a mania compulsiva que o Paulo Eugênio; Gereba, e Wilson mantinham como uma tradição na confraria formada pelos três, formatada por anos de convívio juntos, e revelava-se muito engraçada. Isso nada tem a ver com música, devo esclarecer previamente. Eles praticavam uma pequena transgressão quando estavam juntos em alguma festa particular, ou mesmo a visitar a residência de alguém. Ao fornecer desculpas tolas, como por exemplo, ir ao banheiro, ou mesmo à cozinha para beber água, eis que atacavam a geladeira e a despensa das pessoas, mais pela brincadeira em si, do que qualquer outra motivação possível. 

Mostrava-se hilária tal ação, pois em questão de segundos, como se fossem gafanhotos famintos, comiam tudo o que podiam. A rapidez e a voracidade com que faziam essas brincadeiras teve requintes até, pois chegaram a fritar ovo, e esquentar arroz na panela, sem que o anfitrião percebesse, pelo menos ao ponto em dar flagrante, pois panelas e pratos sujos os denunciavam a posteriori. Eu cheguei a ver isso acontecer, e ficava impressionado como enchiam as respectivas bocas, e até os questionava sobre isso poder causar-lhes um sério dano, ao engasgar. E fui vítima também, pois uma vez em minha casa, mediante uma reunião da banda, o Paulo Eugênio descobriu na minha cozinha, uma torta de banana recém saída do forno, que minha mãe preparara. O objetivo daquela torta, fora servir à eles mesmos, mas após diversas saídas suspeitas do Paulo Eugênio, que saía a todo instante para "beber água", descobri que ele a devorara sozinho. Eu achei até engraçada essa compulsão, mas a minha mãe ficou horrorizada quando contei-lhe o ocorrido...

Continua...

Autobiografia na Música - Terra no Asfalto - Capítulo 58 - Por Luiz Domingues


Foi assim a derradeira tentativa para prolongar a vida dessa banda : nesse período, o Paulo Eugênio relatou-me que queria reformular a banda. Sem Wilson Canalonga Jr.; Sérgio Henriques; Cido Trindade, e Aru Junior, ou seja quase todos os membros mais regulares, checou comigo, se eu ficaria. Por falta de perspectivas melhores, eu aceitei, é claro. O mesmo deu-se com o Geraldo "Gereba". Contudo, precisávamos de mais um guitarrista e um baterista. O Luis Bola, opção sempre lembrada nas emergências, não quis desta feita, ter mais envolvimento em um projeto desses. Então, sem perspectivas para termos um novo baterista, ao menos sob curto prazo, resolvemos empreender ensaios acústicos para renovar o repertório. Nesse ínterim, o Paulo Eugênio relatou-me que a Dona Sabine, a senhora que era proprietária do "Café Teatro Deixa Falar", indicara-lhe um jovem guitarrista que estava com vontade em formar uma banda. Ele era namorado de sua filha, tinha uma guitarra Fender Stratocaster, e segundo ela, detinha um nível técnico muito bom, e já teria inclusive, gravado um compacto com uma banda autoral, razoavelmente conhecida no métier do Rock Paulista, o "Santa Gang". 
Esta foto do Rubens Gióia, é de outubro de 1986, em um show d'A Chave do Sol

Então, marcamos um encontro no Café Teatro Deixa Falar, para uma noite em que não haveria apresentação por lá e assim fomos apresentados. Seu nome era : Rubens Gióia. De fato, eu lembrava-me dele, visualmente, por vê-lo a assistir-nos no Deixa Falar, em ocasiões próximas passadas. Fizemos uma pequena Jam Session, informalmente, e verificamos que ele era um guitarrista quentíssimo de Rock. Dessa maneira, marcamos ensaios acústicos para preparar um repertório, enquanto o Paulo Eugênio fazia contatos para arrumar um baterista. Seria a tentativa de estabelecer uma nova encarnação do Terra no Asfalto, com Paulo Eugênio; Geraldo "Gereba"; Rubens Gióia, e eu, Luiz Domingues, em princípio, até que arrumássemos um baterista para fechar o quinteto. Fizemos alguns encontros desses na residência do Rubens, um ou dois na casa em que o Gereba estava hospedado, mas rapidamente estabeleci amizade com o Rubens, e quando percebemos que tínhamos os mesmos ideais no Rock e não queríamos montar uma banda cover, fundamos : A Chave do Sol. Restou-nos comunicar ao Geraldo "Gereba" e Paulo Eugênio, que estávamos a sair fora dessa tentativa efêmera para ressuscitar o Terra no Asfalto, com o propósito de batalharmos pela nossa carreira autoral.

O Paulo Eugênio ficou chateado, e chegou a falar algumas coisas desagradáveis em sinal de contrariedade, mas eu respondi-lhe que a tentativa para fazer o Terra no Asfalto vir a tornar-se uma banda autoral, havia fracassado, e que eu não tinha mais paciência para tocar em banda cover, apesar de precisar do dinheiro. Enfim, daí em diante, só fui ter contato com os remanescentes da banda, para negociar a partilha do equipamento que possuíramos, que fora comprado em sociedade, ao início de 1981. E para dar um impulso ao início da Chave do Sol, ao invés de ficar com o amplificador de baixo, simplesmente, abri mão desse conforto lógico, e deixei o amplificador aos demais para que o vendessem e ficassem com o dinheiro. Preferi ficar com o mini PA, e a mesa de 12 canais. Com isso, o equipamento básico de ensaios d'A Chave do Sol, estava garantido para os primeiros quatro anos de vida da banda.


Continua...  

Autobiografia na Música - Terra no Asfalto - Capítulo 57 - Por Luiz Domingues


Nos dias 28 e 29 de maio de 1982, o Terra no Asfalto realizou as últimas apresentações de sua história. Foram duas sessões realizadas no Colégio João XXIII, e desta feita, não foi perante uma multidão de pequeninos, como no Colégio Magno.

As duas sessões foram vistas por setenta e cento e vinte crianças, somente. Apesar do cachet fixo, foi nítido o desânimo em fazer apresentações às 8:00 horas da manhã para crianças, e o Paulo Eugênio, apesar de estar ainda a negociar com outros colégios, percebeu que não houve mais ânimo, e parou de agendar-nos.
Estávamos todos cansados daquele esquema, ainda que também a precisar de dinheiro. O Aru Junior estava farto, e queria algo mais sólido. Geraldo " Gereba" tinha aquele seu estilo "bonachão" e pareceu alheio ao desfecho. O Paulo Eugênio não escondia de ninguém, que sonhava com o "TNA" forte, a atuar em bares novamente, e o Sérgio Henriques só estava a aguardar para ir tocar com a Gal Costa (posteriormente tudo mudou, e ele foi tocar mesmo com o Jorge Benjor e a seguir, com o Premeditando o Breque). E o baterista, Maurício "Pardal", que só cumprira quatro apresentações para um público infantil, resumiu os seus sentimentos na volta desse último show, ao usar de seu deboche habitual. Na Kombi que conduziu-nos com o equipamento, veio a bordo a contar histórias de sua vida, quando tocara em conjuntos de baile pelo interior, e o quanto odiara aquilo. Mas falava em tom de deboche, embora fosse um lamento.
E o auge dessa manifestação deu-se quando ele pegou um violão e com a Kombi em movimento, pôs-se a cantar em plenos pulmões, canção : "Amada Amante", do Roberto Carlos, em puro tom de deboche, e entre os versos, improvisava uma letra em clima de paródia, ao descrever que não ficaria em uma banda que tocava às 8:00 horas da manhã para crianças etc. Bem, não deixou de ser engraçada essa manifestação, ainda que esse escárnio retratara bem o fim da banda, sob profunda melancolia. Após uma reunião final, as portas do Terra no Asfalto, fecharam-se para sempre. Nesse período do fim de maio, até meados de julho, houve uma última tentativa para reerguer a banda, mas não resultou em nada, ou melhor, nada para o "TNA", porém, precipitou a concepção da minha banda autoral (A Chave do Sol), que finalmente consegui montar após anos e anos a perseguir tal sonho.


Continua... 

domingo, 15 de dezembro de 2013

Autobiografia na Música - Terra no Asfalto - Capítulo 56 - Por Luiz Domingues


Nos dias 1°; 8 e 15 de maio de 1982, fizemos mais três apresentações no Café Teatro Deixa Falar, com público fraco nos três dias (vinte e cinco; vinte; e vinte e cinco pessoas, respectivamente). Foram de fato as três últimas apresentações do Terra no Asfalto em uma casa noturna, seu objetivo principal por ofício, desde que fora fundada em dezembro de 1979. Dali em diante, aconteceriam apenas mais quatro apresentações em ambiente escolar, conforme o Paulo Eugênio queria direcionar-nos, doravante. E com essa perspectiva um tanto quanto nebulosa, e por ter como base realista a decadência no circuito de bares, novamente, aconteceu uma última reformulação na formação. Wilson Canalonga Jr., um dos membros mais assíduos, e oriundo da primeiríssima formação de 1979, debandou definitivamente, e o mesmo ocorreu com o Cido Trindade, outro egresso de 1979, mas bem menos regular, com várias idas e vindas. Dessa forma, para cumprir essas datas agendadas em colégios, foram recrutados dois músicos. O primeiro era conhecido, Geraldo "Gereba", outro egresso de 1979, e com várias idas e vindas, também. O segundo, foi um baterista chamado : Maurício "Pardal", conhecido do Aru Junior, e do Sérgio Henriques. 

Empreendemos alguns ensaios na residência / estúdio do Maurício, um rapaz brincalhão e com bom astral. Tratava-se de um casarão nas Perdizes, zona oeste de São Paulo, e ele possuía uma estrutura muito boa, com bastante equipamento, e vedação praticamente profissional, por considerar-se ser um estúdio caseiro. O repertório seria o montante que tocávamos normalmente pela noite, acrescido de uma ou outra novidade de última hora.

O primeiro compromisso ocorreu em um colégio chamado : "Magno", que ficava localizado na Chácara Flora, bairro da zona sul de São Paulo. Tratou-se de um bom cachet fixo, e o formato da apresentação, seguira o padrão que fizéramos na Cultura Inglesa em 1980. O pretexto seria o dos alunos poder acompanhar as músicas, com as letras em mãos, para aprimorar o inglês. Dessa maneira, fizemos duas apresentações no mesmo dia, no pátio desse colégio.

Na primeira sessão, foi bizarro tocarmos Led Zeppelin às 8:00 horas da manhã ! Chegamos ao colégio por volta das 6:00 horas para os primeiros preparativos. Foi estranho montar o equipamento no pátio da escola, nesse horário insalubre, e sob o frio já acentuado de maio.

E pior ainda ocorreu quando as classes foram liberadas, e os professores e monitores organizaram as crianças para assistir-nos. Sentadas no chão, gritavam excitadas com a situação, claro... já esperávamos pela euforia, mas não que seria com uma audiência formada por crianças na faixa etária em torno de dez a dose anos, no máximo ! Estávamos a tocar para crianças, e apesar dos constrangimentos, foi até divertido por um certo aspecto. Na segunda sessão, após longa e entediante espera, tocamos por volta do meio-dia para outra turma, quando observou-se a presença de crianças um pouco mais velhas e adolescentes. Tratou-se de meninos e meninas entre 12 e 14 anos de idade, pelo que lembro-me. Na primeira sessão, foi perante quatrocentas crianças, e na segunda, trezentas e cinquenta, segundo a contagem dos professores. Cumprimos essa etapa, e na semana seguinte, fomos tocar em outro colégio, nos mesmos moldes.
Continua...
 

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Autobiografia na Música - Terra no Asfalto - Capítulo 28 - Por Luiz Domingues

Após essa pausa do Terra no Asfalto, as atividades ficaram paradas.
Eu estava a realizar vários trabalhos (já relatei alguns desse período, no capítulo dos "Trabalhos Avulsos"), e a tocar no preâmbulo do Língua de Trapo, onde as atividades pareciam estar a melhorar. Então, meu contato com o Terra no Asfalto resumira-se a ver o Paulo Eugênio; Gereba, e Wilson, os últimos membros que sobraram dos escombros da banda, esporadicamente, e com o Paulo a tentar articular uma volta. O Luis Bola desinteressara-se de vez, ao verificar que as perspectivas estavam bem devagar, e eu estava ocupado com outras atividades, em outros trabalhos. 

Então, lembro-me apenas de irmos juntos ver a peça teatral Calabar, no Teatro São Pedro, além de termos ido assistir o filme "The Rose", no cinema (e como não sair da sala de cinema com vontade em estar dentro de uma banda de Rock à moda antiga ?). Além disso, o Paulo Eugênio levou-me certa vez na residência de um professor de canto, onde ele estava a participar de suas aulas. O professor já era idoso naquela época, e sinceramente não lembro-me de seu nome. Recordo-me apenas que falava com forte sotaque estrangeiro, e não identificado facilmente a denotar que provavelmente seria oriundo de algum país do leste europeu. O que marcou, foi que tratava-se um senhor idoso muito irreverente, pois seus métodos não mostravam-se nada ortodoxos...

Entre outras coisas, fazia seus alunos deitar-se em uma cova de terra que tinha no fundo do quintal de sua casa, e com o objetivo em jogar terra com a pá sobre eles, praticamente a soterrá-los. Só com a cabeça e os braços de fora e totalmente cobertos pela areia, tinham que repetir os exercícios vocais por ele propostos, e de fato, o esforço para cantar mostrava-se tremendo, com o peito enterrado, a dificultar a respiração, mediante o diafragma comprimido. Uma vez, o professor perguntou-me, ao fulminar-me : "Por quê o contrabaixo" ? Fiquei com vergonha em dizer-lhe que o baixo fora meramente casual na minha vida, e respondi-lhe vagamente que gostava das notas graves... meia verdade, pois gosto das médias e agudas também. Lembro-me também que esse senhor morava em uma casa, localizada na Rua Cônego Eugênio Leite, no bairro de Pinheiros, zona oeste de São Paulo. 


Continua...

sábado, 6 de julho de 2013

Autobiografia na Música - Terra no Asfalto - Capítulo 27 - Por Luiz Domingues


Lembro-me em ter assistido a peça teatral, Calabar, no Teatro Pedro II, na Barra Funda, zona oeste de São Paulo. Fui com o Paulo Eugênio; Wilson e Gereba, e lá encontramos os amigos, Roatã Duprat, e a Virgínia, namorada do Fernando "Mu".

http://homenagemaomalandro.blogspot.com/2009/06/peca-calabar.html

Nesse link acima, consta a ficha técnica dessa montagem, com o nome do Mu, citado.   

Foi um espetáculo denso, bem produzido e recheado por atores famosos. O Fernando "Mu" tocava violão; guitarra e bandolim muito bem, obviamente, e a banda, formada por músicos de alto nível, claro.
O Fernando "Mu" é o primeiro, da direita para a esquerda, na parte mais alta, a usar um paletó de cor clara

Infelizmente, soubemos que o Fernando "Mu" fora demitido pouco tempo depois, por motivos desagradáveis. Fomos informados que ele costumava chegar atrasado nas apresentações, além de apresentar sinais de embriagues. Soubemos também, que ficou insustentável a situação dele, e infelizmente ele foi demitido daquela que poderia ter sido a sua grande porta aberta para voos maiores na carreira.

Como instrumentista, seu talento e preparo eram inquestionáveis, mas no quesito profissionalismo, infelizmente ele não adequou-se à uma situação de alto nível.

Depois de sua saída do Terra no Asfalto, e dessa vez que fui ao teatro assisti-lo atuar em Calabar, só fui vê-lo novamente em 1982, por acaso, quando apareceu de surpresa no bar Deixa Falar, onde A Chave do Sol ensaiava em seus primeiros momentos. Foi uma visita curta e inesperada, visto que ele procurava a Dona Sabine, dona da casa, provavelmente para tentar agendar uma data para uma banda cover em que estava a atuar. E depois, no início de 1984, o vi a atuar a atuar em uma banda autoral orientada pelo Prog Rock, pela TV, ao apresentar-se no programa : "A Fábrica do Som". Lembro-me que o tecladista dessa banda foi o Fernando "The Crow" Costa, futuro guitarrista do Inox. Mas que eu saiba, essa banda não avançou. Também pudera... Rock Progressivo em 1984, representaria lutar contra a maré daquele momento, ao caracterizar-se quase como uma afronta. Soube também que ele fora assaltado na saída de um bar no Brooklin, zona de sul de São Paulo, e agredido, ficou desmaiado. Quando foi socorrido, sua Gibson Les Paul Junior, ano 1958, havia desaparecido. Hoje em dia, ela estaria a valer ainda mais que naquela época. E muitos anos depois, soube que ele fora assassinado em uma padaria, no Brooklin, bairro da zona sul de São Paulo.
Continua...