segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Autobiografia na Música - Língua de Trapo - Capítulo 49 - Por Luiz Domingues


A seguir, tocávamos um frevo, chamado, "Conspurcália", de autoria do Laert Sarrumor. Nessa animada canção com ares carnavalescos, o Laert escreveu uma letra a satirizar a indústria alimentícia, e a quantidade absurda de porcarias que induz-nos a comer, ao colocar elementos químicos abomináveis na comida industrializada, sem o menor pudor. Hoje em dia é tema na moda, com a onda ecológica que vivemos, mas em 1983, soava como algo exótico ou mesmo, um maneirismo típico de cultura hippie, ridicularizada. Claro, por tratar-se de Língua de Trapo, o tratamento sarcástico estava garantido. Lembro-me do guitarrista, Serginho Gama, a fazer um pequeno ritual para provocar o público. Isso foi fruto da improvisação dele (o chamado, "caco" teatral), e não aconteceu no show de estreia. Tal improviso pôs-se a desenvolver-se ao longo das apresentações, e só consolidou-se durante a longa temporada que faríamos no Teatro Lira Paulistana, meses depois.
Após uma vinheta rápida, ele costumava voltar ao palco, ao trajar uma camiseta do Botafogo (seu time do coração, pois é carioca). Ele entrava com um jeito bem forçado no típico "malandro" carioca, a tomar um refrigerante (o contraste : "malandro" a tomar refrigerante ?), geralmente uma Fanta Laranja em lata. Muitas vezes, ele oferecia às pessoas da plateia. Só por entrar com a  camiseta do Botafogo, já causava reações. Geralmente vaias e pequenas provocações, principalmente aqui em São Paulo, onde os times do Rio, são rivais históricos dos nossos clubes. Mas mesmo com esse clima não tendo grande relação com a música, apesar da latinha de refrigerante, aliás, uma sutileza que só percebiam ao final da música, o fato é que ofertava-nos um efeito interessante. A música, por si só, empolgava também. Lembro-me do Naminha, a iniciá-la na caixa e bumbo da bateria, e imediatamente contagiar o teatro. E aí, entrávamos com o instrumental todo, e o Laert a cantava em duo com o Pituco. Gostava de tocá-la, pois lembrava-me os frevos do Moraes Moreira. Uma canção bem composta, arranjada, empolgante, e claro, com letra corrosivamente satírica, no clima do trabalho todo. 

"Conspurcália"  (Laert Sarrumor) 
Há dias em que eu chego em casa
Preparo algo para comer, um lagarto me sorri, sarcástico e ferino
Um ácido corrói parte do intestino
Congelada, a carne me convida
E a salada é só inseticida
Esta comida, menina, tem anilina

Engorda o porco e faz morrer
Corantes, acidulantes
Gases, aromatizantes
Mamãe prepara a merenda com muito carinho
E assim ela encomenda a gastrite do filhinho
ue beleza, a cirrose está posta
E a sobremesa, lá-lálá-lá-lá
Esta comida, menina, tem toxina
Engorda o porco e faz morrer
É esse maldito regime, é esse maldito regime macrobiótico
É esse maldito regime, é esse maldito regime macrobiótico   

Nem preciso dizer que os versos finais tinham dupla conotação. 
"Maldito Regime", teve esse poder do duplo sentido, a provocar o governo autoritário de então. Não foi uma novidade, pois lembro-me do humorista, Jô Soares, nos anos setenta, com um espetáculo denominado : "Viva o Gordo, Abaixo o regime", com essa clara intenção da dubiedade. Mas, mesmo sem ser original, a ideia na música foi muito boa, e rendeu-nos muitas risadas.
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Autobiografia na Música - Língua de Trapo - Capítulo 48 - Por Luiz Domingues


Então tocávamos um Rock. A ideia seria fazer um Rock simples, no estilo dos Rolling Stones, sem firulas e de certa forma, atemporal, sem querer firmar a piada em cima da caricatura musical em si. Chamava-se : "Crocodilo" e tratou-se de uma composição do Laert Sarrumor. O objetivo foi satirizar os exploradores da fauna e da flora, portanto tinha um certo caráter ecológico, mas a real intenção subliminar, foi alfinetar políticos ruralistas conservadores, invariavelmente contrários à reforma agrária e geralmente envolvidos com uma série de crimes ambientais. Independente do tema e da piada, eu apreciava muito tocar essa canção, pois era um momento em que mais aproximava-me do Rock, embora esse não fosse o objetivo do trabalho do Língua de Trapo. O Laert a cantava e fazia uma performance a la Mick Jagger e o público apreciava e entrava no embalo. Se por um lado era um momento com forte interação musical, por outro, essa pequena euforia, tirava o foco da letra, e o seu objetivo que era fazer rir, porém a refletir-se sobre o tema. Conforme comentarei mais para a frente, essa música foi ao ar no programa, "A Fábrica do Som", em 1984, e trata-se de um dos poucos vídeos que existem no You Tube, com a minha presença na banda.

"Crocodilo"(Laert Sarrumor)

Sou do Centro-oeste, tenho muito estilo
Carango importado, bolsa crocodilo
Sou o novo rico de Goiás
Já garanti meu dia de amanhã
Comprei fazenda em Ponta Porã
Eu tiro o couro, arranco a pele, extermino, assino e dou fé

Todo mundo sabe, já deu no jornal
No Globo Repórter deu especial "Matança no Pantanal"
Mas todos tem é que cruzar os braços
Pois para o dólar, não há embaraços
Eu tiro o couro, arranco a pele, extermino e dou fé
Eu mato jacaré, eu mato jacaré...
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Autobiografia na Música - Língua de Trapo - Capítulo 47 - Por Luiz Domingues


Então, chegava o momento para executar : "Na Minha Boca". Era um samba tenso, com um andamento lento e que acompanhava a agonia do cantor em transmitir a mensagem, sob uma interpretação brilhante do Laert, que simulava um preso político ao tentar expressar-se após uma sessão de tortura. Ele entrava com uma camisa-de-força, maquiado como se tivesse acabado de sair do eletrochoque e ia a cantar e a livrar-se da camisa. E a entrada era também chocante, com ele a ser conduzido ao palco pelo ator, Paulo Elias e pelo Pituco Freitas, vestidos como policiais supostamente à paisana, ou seja, aquele "disfarce" que mais parece uniforme de tão acintoso que é. E essa música era do repertório do antigo, "Boca do Céu", o que enchia-nos de orgulho, pois era um autêntico tesouro de nossos primórdios na música, ao referir-me ao Laert e eu, mesmo, naturalmente.

"Na Minha Boca" (Laert Sarrumor)

Eu tenho tanta coisa pra dizer
Mas as palavras não brotam na minha boca
Eu acho que tô com medo de falar
Falar é muito difícil, que coisa louca

Eu tenho tanto medo pra falar
Mas as palavras não dizem que coisa louca
Eu acho que eu tô com muita coisa pra brotar
Brotar é muito difícil, na minha boca

Fulano falou e não se deu bem
Sicrano calou e tudo bem
Na sala, todo mundo mudo
Com medo da bala que vem à baila
E ninguém fala...

Nos primeiros versos, ele gaguejava, e ia a soltar-se da camisa-de-força. Com semblante de louco, acentuado pela maquiagem. Na metade para o final, cantava desenvolto, e a banda o acompanhava gradualmente. Em princípio, ao tocarmos com o ritmo fragmentado para acentuar a questão da tortura e a entrar no swing normal, na parte final. Mas a verdade é : acredito que mesmo com uma mensagem praticamente explícita, não fora todo mundo que percebera o seu teor e assim, achou ser apenas uma música que falava sobre manicômios, talvez uma crítica ao sistema de saúde. Foram poucos os que ligaram-se que era a história de um torturado político, a tentar denunciar tal abuso. Essa foi pelo teor, uma das prediletas de todos os Línguas, mas não arrancava risadas hilariantes do público, ao destoar um pouco da praxe do show.


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domingo, 22 de setembro de 2013

Autobiografia na Música - Língua de Trapo - Capítulo 46 - Por Luiz Domingues

"Toada da Sub-Cultura" (Lizoel Costa / Carlos Melo)

Nós já pensemo em assartá um banco
Pra levantar dinheiro pra comprar um carro
Nós já cansemo de andar a tranco e barranco
De andar a pé e ficar amassando barro

Nóis quer trocar nossas charrete ultrapassada
Mas nem que seje pra berganhar por um barco
Porque as muié só qué andar motorizada
Na base do automovi movido a arco

Juro por Deus, se nóis ganha na loteria
No mesmo dia nóis torra 100%
Comprando uma romisetinha bem robusta
Pra ir pra Augusta arrumar um casamento

Por Deus do céu, acho que nóis daria um braço
Pra ter uma caranga envenenada
Com tala larga e os párachoque de aço
Pra todos sábados arrumar namorada

Farol de milha e os escapamento aberto
Um toca-fitas americano bem possante
Tocando sempre aquelas musca do Roberto
De preferência "Lady Laura"e "Amada Amante"

Eu sei que iam chamar nóis de preibóizinho
De burguesinho e até de matusquela
Porque o cotovelo do invejoso dói
Ao ver preibói, ao ver um astro de novela 

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Autobiografia na Música - Língua de Trapo - Capítulo 45 - Por Luiz Domingues

A seguir, todos saiam do palco, e somente ficavam em cena,  Lizoel Costa e João Lucas. Ambos estavam acostumados a satirizar duplas sertanejas, não esses bregalhões da Era pós-governo Collor, mas as duplas de raiz, tipo Tonico & Tinoco, e similares. Então, eles contavam algumas piadas a carregar no sotaque, e com o Lizoel ao violão, e o João Lucas no acordeom, tocavam a música : "Toada da Subcultura". O grande impacto, dava-se quando toda aquela estética caipira era usada para falar sobre política engajada, e assim, tornava-se hilário abordar o tema sob tal estética prosaica. 
Um truque usado toda noite e que funcionava muito bem, fora protagonizado pelo ator, Paulo Elias. Ele saía do camarim pelo jeito que fosse possível em cada local, para não ser visto pela plateia, e a usar roupas comuns, infiltrava-se na plateia, como se fosse um espectador que chegara atrasado. No meio de uma piada contada pelos "caipiras" Lizoel e João, o Paulinho emitia um berro : -"essa piada é velha" ! Imediatamente o João Lucas retrucava ao microfone : -"a sua mãe também é velha, mas não é todo mundo que conhece". O teatro vinha abaixo, sob uma reação esperada por todos nós, e isso seria a deixa para a música começar. Quanto ao Paulinho, ele nem esperava pela resposta do João Lucas, pois sua função no sketch estava cumprida. Dessa forma, voltava imediatamente ao camarim, onde preparava-se para os novos números. 
O número dos dois era muito bom, e arrancava muitas risadas do público. E também era estratégico para dar um respiro para o restante da banda. A música era de autoria do Carlos Melo e do Lizoel Costa. Essa canção, foi uma das raras antigas que foram executadas no show de estreia, realizado no TUCA, em 15 de novembro de 1983.

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Autobiografia na Música - Língua de Trapo - Capítulo 44 - Por Luiz Domingues

A seguir, saíamos do palco sob a deixa de mais uma vinheta, e enquanto o público continuava a desopilar o fígado, tirávamos aquele paletó cor de abóbora medonho, e voltávamos ao palco a usar chapéus típicos de cowboy norteamericano. Tratava-se de um chapéu vermelho, bem espalhafatoso e claro, já arrancava risadas mesmo antes de começarmos a próxima música. Tratava-se da canção, "Country os Brancos", no estilo da Country Music, a satirizar o preconceito contra os índios e claro, ao final com uma provocação à Funai, que também não sei como a censura da época deixou passar. A música era de autoria do Carlos Melo e do Lizoel Costa. O Laert a cantava junto com o Pituco, e ambos entravam com revólveres de brinquedo e coldre.

"Country os Brancos" (Carlos Melo e Lizoel Costa)

Meu sonho era ir para o Velho Oeste
Dar uns tiros de pistola e de canhão
Fazer tudo que John Wayne fazia
Co'as filha dos cacique valentão

Meu sonho era ser um texano
Dos bem bacano, o xerife mais temido
Daquele que chega em casa e beija o cavalo
E na mulher, finca um tapão no pé do ouvido

Me lembro dos meus tempo de pixote
Nóis ia no cinema de domingo
Pra ver aqueles filme engajado
Dólar furado, Bat-Masterson e Ringo

O Rin-Tin-Tin era um big dum artista
Era racista, só mordia as indiarada
Porque nos filme Bang-Bang que se preza
Pele vermelha sempre vira carne assada

Tirei passaporte pro Arizona
Meu sonho era inda ser cowboy
Quando cheguei nos Estados Unidos
Fui recebido com as honras de um herói
Xerife me deu um revólver de prata

E disse :"Mata quantos índios o senhor quiser"
Porque aqui o cabra que matar mais indio
Tem por troféu a mais formosa das muié

Fui dando tiro a torto e direito
Matei uns déis indígena medonho
Casei com um muierão de sete parmo
Depois mais carmo vi que tudo era um sonho

Eu nunca fui cowboy no Arizona
Tô no Amazonas tem uns quatro mês ou mais
Num devo nada pros cowboy que tem no Texas
Pois ando armado a serviço da Funai

Os erros gramaticais nesse country music, são todos propositais, ao estilo Adoniran Barbosa...
Continua... 

sábado, 21 de setembro de 2013

Autobiografia na Música - Sala de Aulas - Capítulo 6 - Por Luiz Domingues

Outra motivação que criei logo no começo das aulas em 1987, nessa fase em que utilizei as dependências da residência do Beto Cruz, foi a de trocar vários posters de bandas de Heavy-Metal e Hard-Rock oitentistas, com eles, alunos, por LP's de artistas sessenta / setentistas, que eu apreciava.
Fora uma boa troca, pois eram muitos posters, e em sua maioria de bandas oitentistas que eu não gostava nem um pouco, oriundos de muitas revistas que eu comprara por conter matérias com a minha banda, A Chave do Sol e também a outra banda formada de sua dissidência, A Chave / The Key. E a minha primeira safra de alunos, pelo contrário, gostava dessa onda em torno do Heavy-Metal e Hard-Rock oitentistas. 

Nessa primeira fase, lembro-me mais detalhadamente de um aluno que apareceu mais ou menos em agosto de 1987, chamado, Roberto Garcia Morrone, pois tornou-se amigo, e posteriormente acompanhou toda a trajetória do Sidharta e da Patrulha do Espaço, até a fase do lançamento do CD Chronophagia, em 2000. 
Lembro-me também de Marcelinho "Carioca" Dias (nada a ver com o jogador). Ele tinha esse apelido por ter nascido em Volta Redonda. Mas nem o apelido tinha fundamento, pois se era do interior do estado do Rio, deveria ser Marcelinho "Fluminense", enfim... gente boníssima e muito esforçado, pois morava em São Bernardo do Campo, região do ABC, e para chegar ao Jardim Bonfiglioli, usava três ônibus. Na verdade, seis, ao contar-se a sua volta para a casa. Ele tinha uma banda, que posteriormente chegou a abrir um show d'A Chave em 1989, e ao mudar de nome para "Aura", gravou uma fita demo em 1990, sob minha produção (passagem já devidamente escrita no capítulo : "Trabalhos Avulsos", quando falei do trabalho que fiz com o "Aura").  
Lembro-me de uma vez, em 1988, quando no meio da aula surgiu uma conversa sobre um documentário de um famoso médium espírita, e um tanto quanto afeminado, e com isso a despertar as mais variadas piadas. Enfim, a aula teve de encerrar-se, tamanha algazarra que isso acarretou. Foi uma sessão de gargalhadas contagiantes e intermináveis, ao ponto do Beto descer do andar superior da casa, para saber o que estava a acontecer, e pedir silêncio, pois estávamos a atrapalhar a sua aula de guitarra.

Outro aluno que lembro-me bem, foi o César Cardoso. Sobrinho do cantor, Wanderley Cardoso. Outro sujeito muito gentil e que embrenhou-se posteriormente no mundo da TV. Já em 1990, estaria como estagiário na MTV. Depois acompanhou Serginho Groisman no "Programa Livre", do SBT, e já faz anos, está na Rede Globo, a trabalhar na produção de programas importantes como o Fantástico, por exemplo.
Continua...