segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 408 - Por Luiz Domingues

No embalo dos lançamentos programados em torno do chamado: "projeto Bootlegs", eis que ficou pronto o segundo álbum dessa linhagem. Desta feita, e a seguir uma ordem cronológica pré-estabelecida, eis que surgiu o álbum: "Teatro Piratininga/SP 1983", a tratar-se de um show que realizamos nesse citado espaço em 30 de abril de 1983. 

Sobre o show em si, toda a sua história (que foi rica em detalhes, não apenas pelo espetáculo em si, mas a conter um longo preâmbulo a descrever diversas particularidades a respeito da sua produção), está devidamente descrita no capítulo correspondente sobre A Chave do Sol em meus Blogs 2 e 3 e que compõe o texto da minha autobiografia que em livro impresso, é chamado como: "Quatro Décadas de Rock"

Sobre o disco, particularmente, ele foi fruto da digitalização de uma fita K7 que conseguiu capturar grande parte do show, evidentemente ao perder a sua íntegra, devido à sua prosaica falta de espaço físico. Apesar das suas óbvias limitações tecnológicas, a notícia boa foi que a captura se mostrou surpreendente, dentro da sua realidade inerente, logicamente, e tal qualidade se explica pelo fato da fita ter sido usada através de um bom tape-deck, acoplado diretamente à linha da mesa de mixagem do show e o técnico que nos assistiu na ocasião, ao operar o nosso som ao vivo, teve a perspicácia de ligar na mandada do PA e não do monitor, ou seja, o som se mostra mais encorpado e com os instrumentos e vozes bem melhor mixados e mais uma vez eu faço a ressalva, dentro das limitações de uma gravação feita através de uma parca fita K7. 

Uma única ressalva nesse sentido se faz em relação ao som da guitarra que poderia ter sido melhor por um detalhe prosaico que o técnico e (e nem nós), percebemos naquele dia: o microfone instalado na boca do amplificador do Rubens Gióia, foi mal posicionado. 

Por ter sido usado um microfone Shure SM 57, este deveria ter sido colocado direcionado frontalmente ao alto-falante e ao ser colocado pendurado e por tal modelo de microfone ser unidirecional por natureza, é óbvio que não captou da maneira mais adequada a emissão do som de guitarra.

Uma boa nova em termos de repertório, foi que já a partir deste show, este que foi o primeiro sem a presença da nossa ex-vocalista, Verônica Luhr, nós já tivemos mais músicas autorais para apresentar, embora a balança ainda pendesse para as releituras com material alheio, para preenchermos o espaço de um show. 

O lado ruim foi que ainda estávamos a nos readaptar com a ideia da perda da nossa espetacular cantora, Verônica Luhr, e assim, nós distribuímos as músicas entre os três componentes de então, para a tarefa vocal. Nesse quesito, as melhores interpretações que são ouvidas nesse disco, na verdade são apenas as mais razoáveis, pois nenhum de nós três, membros remanescentes, chegou nem perto do potencial que ela possuía, mas o Rubens sempre foi o mais afinado e que melhor interpretava entre nós. E o Zé Luiz demonstrava ter potencial para desenvolver a sua performance. 

Já no meu caso, Luiz, bem, ao longo do disco eu até fiz alguns backing vocals razoáveis, mas a minha performance como cantor solo, foi sofrível. Tanto que eu segui apenas mais alguns meses a cumprir tal participação na divisão de vozes, mas desisti da ideia por uma questão de autocrítica. 

Muitos anos depois, eu melhorei bastante a minha performance, mas nunca mais tentei cantar de forma solo, embora eu considere hoje em dia que até poderia, pela melhora que tive, porém, mesmo assim, sempre irei preferir ficar restrito aos backing vocals e deixar a função solo para quem realmente sabe cantar e interpretar de fato.

Sobre o repertório do disco, eis a seguir as minhas considerações sobre a performance e as características do áudio alcançado para chegarmos a este disco. Primeiro e muito importante ponto: eu mesmo pedi para providenciara mudança da ordem original contida na fita K7, que gravara o show, quase na íntegra, pois a minha intenção ao montar o repertório do disco, foi priorizar o repertório autoral no início e deixar as releituras de covers, para o final, e não seguir o roteiro do show como ele foi montado ao vivo em 1983, de maneira intercalada.

Sobre a nossa composição, "Átila", só para constar, foi uma coincidência o fato dela ter sido realmente a primeira música do show, e veio a calhar que tenhamos mantido a fala proferida pelo nosso baterista, José Luiz Dinola, ao atuar como um apresentador da própria banda (ele diz: -"senhoras e senhores, A Chave do Sol"), mas tudo bem, não tínhamos condição para contar com uma produção mais requintada que nos garantisse o glamour que gostaríamos, no entanto, eu acho que foi interessante. 

A respeito da performance dessa música em específico, o andamento um pouco mais acelerado e típico de apresentação ao vivo, sob efeito natural da adrenalina, se faz presente. Na ordem natural do show, não seria "Luz", a próxima canção, mas para compor melhor o disco, e conforme eu já esclareci anteriormente, eu preferi privilegiar todo o material autoral, concentrado no início do álbum. 

Bem, "Luz" saiu com aquela energia típica das nossas apresentações ao vivo entre 1982 & 1983. O baixo ficou um pouco aquém nesta captura, mas em compensação, a minha voz no backing vocals aparece mais do que a do Zé Luiz.

Rubens faz uma breve introdução para explicar ao público que éramos, A Chave do Sol e que tocaríamos música autoral e algumas releituras sessenta-setentistas naquele noite, e que a seguir, tocaríamos: "Utopia". 

E nesta canção anunciada, a performance é boa no geral. Zé Luiz a canta com segurança, embora ele não soubesse modular na época e assim, é um tipo de interpretação linear, afinada, mas sem desenhar, a explorar as possibilidades para burilar melhor a sua melodia. 

Chama a atenção o forte sotaque paulistano que ele apresenta, fator natural para ele e também para eu e Rubens, é claro, mas deve soar gritante para quem não for de São Paulo. Entretanto, o lado bom foi que ele se soltou, vide ao final, quando até improvisou um vocalise solo para costurar o backing vocals que eu e Rubens mantivemos em uníssono sob o sentido do "looping".

Vem a seguir: "Intenções", cujo vocal solo é meu e a despeito de eu ter sido o mais fraco componente nesse quesito dentro da nossa banda, a minha performance é razoável. Falta emissão em uma ou outra palavra, mas não patinei na afinação e dentro do meu estreito limite à época, a interpretação foi razoável. Zé Luiz apoia no contraponto proposto para o refrão e na parte instrumental, a performance é bastante vibrante da banda. 

A música soa bem e chama a atenção pela quantidade grande de pontes, convenções, bruscas mudanças de ritmo com desdobradas, ou seja, por conta de tais atributos, eu sempre lamentarei muito que essa peça não tenha sido gravada em discos oficiais, visto que em minha opinião, foi uma das melhores composições e concepção de arranjo que tivemos no início das atividades da nossa banda. 

O nosso clássico tema instrumental, "18 Horas", entra de forma abrupta neste disco, infelizmente, por conta de ter sido mutilada, pois na captura da fita K7, ela fechara o lado A, e o técnico, ao demorar para perceber isso ao vivo e tratar por virar a fita para prosseguir a gravar a partir do lado B, naturalmente perdeu tempo e assim, além do começo que entrou já com o tema avançado, ele cortou praticamente todo o solo do Rubens, uma grande pena. Portanto, uma ginástica foi feita da parte do Kim Kehl que preparou esse áudio para o disco em 2020 e assim, a emenda quase que conseguiu disfarçar o corte brusco ao final com o intuito de providenciar um fechamento razoável para uma faixa que nós tínhamos toda mutilada nesta gravação original da fita K7. 

Pensei em não incluir o tema, justamente por essa deficiência, no entanto, creio que como material arqueológico, tudo é válido e assim, pedi ao Kim o esforço para fazer o melhor possível para termos ao menos uma amostra dessa peça tão importante do nosso repertório.

Vem a seguir, "Crisis (Maya)", com uma boa performance da banda, embora eu ache (e sempre achei) que a aceleração do andamento na parte B da música, sempre prejudicou a sua execução ao vivo.

Surpreende a próxima faixa, a primeira da parte de releituras e que eu deixei para o final do disco, pelo fato da música em si não ter sido um mega sucesso reconhecível de forma inexorável da parte do grande público. Por sugestão do Rubens Gióia, executamos a canção: "Let me In", proveniente de um disco solo do guitarrista, cantor e compositor, Rick Derringer. 

Peça com sabor ultra-setentista, tem um sentido Pop/Rock'n' Roll muito interessante. A nossa releitura foi acelerada, no entanto, em relação à versão de estúdio do disco de Rick Derringer (LP "Derringer", de 1976), contudo, nós seguimos mais a versão ao vivo do disco posterior dele (LP "Derringer Live", de 1977). 

O Rubens estava gripado no dia do show e assim, em alguns trechos onde a música exigiu a subida da tonalidade, a sua voz quase não saiu, com a emissão de um quase sussurro de sua parte, mas a despeito da questão do seu impedimento para cantar com maior desenvoltura nesse dia, ele não comprometeu de forma alguma. No todo, acho uma interpretação boa e certamente que surpreendeu o público presente no auditório naquele dia e mais ainda aos fãs d'A Chave do Sol que agora a ouvem nos dias atuais, através desse disco com caráter bootleg.

"Blue Suede Shoes" do Carl Perkins, seguiu o padrão de nossa interpretação para essa releitura, praticada nesse período entre 1982 e 1983, quando mais a tocamos em nossos shows. Chama-me a atenção que a minha voz no backing vocals esteja mais alta que a do Zé Luiz e claro que isso foi por conta do técnico de PA que assim preparou a mixagem do show ao vivo. 

"Black Night" do Deep Purple tem a sua versão bastante poderosa neste disco. É curioso um detalhe, antes de iniciarmos a performance em si, quando o Rubens a introduziu mediante um questionamento que fez para o público ao microfone: -"será que alguém se lembra de Deep Purple?" Bem, se houve alguém ali sentado no auditório em abril de 1983, que não se lembrava dessa banda britânica, acho que nós tratamos por refrescar-lhe a memória. 

Outro ponto interessante, a frase final de encerramento, feita dentro do andamento, mas claramente caracterizada por ser um clichê típico para ser utilizado em sentido de "rallentando", forçou uma sutil diferenciação na concepção do nosso arranjo, creio eu. 

Mesmo gripado, Rubens a canta bem, dentro de uma linha mais comedida, ele não teria a pretensão de buscar a emissão do vocalista, Ian Gillan com o Deep Purple, mas ao mesmo tempo a sua voz era (é) afinada e mais uma vez ao ouvi-lo, eu fico com a certeza de que a nossa busca frenética por um vocalista, por anos a fio, jamais foi vital pois o Rubens supriria o comando da voz, com alternância com o Zé Luiz Dinola e apoio de backing de nós três, eu incluso.

Vem a seguir a versão para: "Tie Your Mother Down", peça energética do Queen (contida no álbum: "A Day at the Races" de 1976), quando nós programamos para haver um solo de baixo no meio da performance. Interessante como eu busquei uma construção de solo muito inspirada nos solos do Chris Squire em meio aos shows do "Yes" nos anos setenta, inclusive a introduzir o recurso da dinâmica mediante o uso do volume feito no botão do instrumento para criar efeito e trechos ritmados para angariar a participação do público, mediante bicordes percutidos como se fosse uma guitarra e não um baixo. Bem, sempre estive anos-luz de distância desse saudoso mestre, mas ele é uma influência confessa de minha parte e com muito orgulho!

E a seguir, mediante uma deixa bem ensaiada, voltamos para a música com sentido apoteótico e a encerrarmos com pompa e circunstância. Ao final, o Zé Luiz enaltece-me ao microfone ao dizer: -"o bruxo da loucura paulistana, agitando no baixo... Tigueis" (ao usar o apelido que eu ostentava à época). Tal menção ao "bruxo" foi fruto de uma brincadeira interna, por eu ter usado um chapéu de bruxo em diversas apresentações da nossa banda, ocorridas em 1982.

A foto acima mostra uma cena do filme: The Phantom of the Paradise", de Brian De Palma, com o personagem: "Winslow" 

A minha voz na condução dos backing vocals é estranha, pois eu busquei imprimir um "drive" natural que evidentemente eu não tinha, e assim, o que se ouve é uma voz metálica, com registro médio anasalado, bem esquisita, mesmo. Me inspirei no Johnny Winter para buscar tal resultado, mas na prática, saiu a voz do personagem, Winslow, do filme de Brian De Palma: "The Phantom of the Paradise" ("O Fantasma do Paraíso").

"My My Hey Hey" do Neil Young/Crazy Horse foi um outro tema recorrente em nosso repertório de releituras e que sob a interpretação da Verônica Luhr, a nossa ex-vocalista, soava muito bem. Rubens passou a cantá-la nessa fase do Power-Trio, novamente instaurado e a defendeu com dignidade e posso dizer, mais se aproximou do original do Neil Young do que na interpretação da Verônica Luhr que por sua vez, insinuava a presença de Tina Turner.

Uma boa interpretação de "Purple Haze" vem a seguir, ainda que um tanto quanto acelerada em minha opinião. Rubens se dava muito bem ao interpretar o som de Jimi Hendrix, tanto na atuação à guitarra, obviamente parte vital desse processo, quanto na atuação vocal, inclusive ao balbuciar frases em meio à canção (algumas obscenidades são faladas bem ao estilo do que o Jimi costumava proferir em seus shows), e solos, tal como Hendrix o fazia. 

Tal interpretação de nossa parte foi programada para conter um solo do Rubens para o show, sem a banda no palco, para destacá-lo. E neste caso, é muito bom esse solo, inclusive com direito à citação de: "Hear my Train Coming", uma peça Blues do repertório do próprio, Jimi Hendrix, portanto, uma feliz menção.

Bem, a nossa releitura para "Jumping Jack Flash" dos Rolling Stones tem uma execução boa, vibrante, certamente, mas a minha performance vocal deixa muito a desejar, devo fazer a minha autocrítica sem pudor. Eu não desafino acintosamente, mas a absoluta falta de maleabilidade para modular, aliada à minha parca emissão e ao inglês macarrônico e indecifrável, realmente torna a experiência para o ouvinte, como algo radical, digamos assim. Em alguns trechos, eu cometi o desatino de perder o senso da melodia e praticamente passei a recitar alguns versos, ao invés de entoá-los. 

No entanto, entre omitir a peça e colocá-la no disco, eu novamente pensei que um disco bootleg tem a característica diferente de um álbum regular oficial e assim, somado ao fato cabal da raridade arqueológica que guarda em si, creio que não poderia ficar de fora. A nossa versão era mais inspirada na gravação do Johnny Winter do que a original dos Rolling Stones, devo acrescentar como um dado.

Vem a seguir a nossa interpretação para "Cocaine", canção Country/Folk-Rock composta por J.J. Cale, mas geralmente atribuída a sua criação para o guitarrista, Eric Clapton, graças à sua versão que ficou mais famosa. 

Zé Luiz a canta com certa desenvoltura, mas chama muito a atenção o seu sotaque ultra paulistano (o termo: "hang out" quando pronunciado nas ruas do bairro da Mooca, certamente é um bom exemplo), e o inglês macarrônico, ao pronunciar de forma bizarra algumas palavras, como por exemplo: "Forget" e há mais uma ocorrência nesta versão em específico: ele se esqueceu de um pedaço da letra e assim houve um hiato na sua performance. Mas tirante esses detalhes, é uma versão boa, bem tocada. 

Ao final, a minha fala ao microfone foi uma intervenção combinada, feita em todos os shows. Nós julgamos na época ter sido um ornamento interessante para o espetáculo, mas que na prática, se revelara apenas como uma piada interna e bem sem graça, devo acrescentar. Eis a minha voz a afirmar: -"é o brilho da cidade', para estabelecer uma espécie de ode, lastimável, eu digo hoje em dia, a um tipo de malandragem de rua, descabida pela insinuação infeliz. 

A seguir, vem uma super vibrante performance do tema instrumental, "Blue Wind" do guitarrista, Jeff Beck, com direito a uma menção ao tema: "Train Kept a Rollin' (de autoria de Tiny Bradshaw em 1951), e também pela introdução com bastante improviso criado com felicidade pelo Rubens Gióia. Tanto que logo no começo e não ao final como seria mais esperado, o Zé Luiz exalta a performance do Rubens ao microfone para o público: -"esse garoto incrível na guitarra, Rubão!" Ainda com a introdução em andamento, eu mesmo grito ao microfone: "Blue Wind". 

De fato, entre todas as releituras que foram regulares em nossos shows nesse período, a nossa interpretação para "Blue Wind", ao lado das canções de Jimi Hendrix, foram as que mais marcaram. Várias pessoas comentam sobre se lembrarem de nos verem a tocar "Blue Wind", até nos dias atuais, pois realmente marcou positivamente para muitos. Após um final apoteótico, o Rubens se despede do público ao dizer: -"Boa noite, muito obrigado, até uma próxima oportunidade"...

Na edição do disco, ficou bem demarcada a ideia de que o último tema: "Wild Thing" (tema do grupo: "The Troggs", mas a nossa versão certamente inspirada na regravação do Jimi Hendrix), foi a nossa volta ao palco para a execução de um pedido de "bis", pela reação da plateia. Soamos bem sessentistas nessa execução, algo muito estimulante para o meu gosto e formação pessoal, porém anacrônico para a década de oitenta em que vivíamos quando dessa gravação.

Então, é isso, creio que a missão foi cumprida com esse lançamento, pois eu fiquei muito feliz pelo resgate estabelecido e a imortalidade garantida para uma audição da banda ao vivo em 1983, ou seja, que presente para a memória da nossa banda, para nós, que somos os seus componentes e sobretudo para os fãs do trabalho.

Show no Teatro Piratininga de São Paulo, em 30 de abril de 1983, com operação de áudio de Pérsio (PA e monitor). Fotos: Seizi Ogawa. Produção de áudio e lay-out de capa em 2020: Kim Kehl. Um lançamento da Crossover Records. Coordenação geral: Luiz Domingues

Sobre a concepção da capa, contracapa e label do disco, o Kim Kehl optou pelo uso de uma foto ao vivo do próprio show, bem escolhida, embora no recorte a presença do Zé Luiz, atrás na bateria, ficou um pouco prejudicada, mas na contracapa isso ficou recompensado com uma foto individual dele, onde se vê bem o seu rosto. De resto, a concepção a seguir o padrão desses lançamentos "Bootlegs", a conter o logotipo da nossa banda de 1984 e o nosso nome em arco, com cor amarela. 

Enquanto a pandemia do Covid-19 persistia, ao menos mais uma novidade da nossa banda já estava a aquecer no forno.

Continua...

terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Autobiografia na Música - Trabalhos Avulsos (Disco solo de Rodrigo Hid) - Capítulo 106 - Por Luiz Domingues

Então chegou o dia! Eis que aquela gravação que eu fizera para compor o disco solo do amigo, Rodrigo Hid, se confirmou através do seu lançamento, não exatamente da maneira colo ele previra na ocasião (em 2017, e descrito no capítulo específico que tratou dessa história), pois o Rodrigo mudara o seu planejamento por força das circunstâncias.

Ocorre que a ideia seria lançar um CD tradicional com dez ou doze músicas, porém com a absoluta falta de tempo para tocar o projeto, visto que o Rodrigo há anos montara uma agenda de apresentações ao vivo praticamente lotada, de segunda a segunda, ele optou então por lançar as três primeiras músicas que gravara, de uma maneira virtual em princípio, distribuído em prateleiras virtuais como a CD Baby, em voga na ocasião e também em portais de streaming.

"Siga o Sol" (Rodrigo Hid). Eis o link para escutar no You Tube:

https://www.youtube.com/watch?v=yjZ1thI2Lm0 

Sobre a canção, eu já elaborei uma farta explicação sobre a sua origem, como parte de um possível material do repertório do Pedra e que fora rejeitado para entrar no seu álbum: "Fuzuê!", lançado em 2015. Posso, no entanto, e devo, na verdade, falar sobre essa canção lançada como single em outubro de 2020, principalmente a comentar sobre o seu áudio.

Em seu início, é magnífico o trabalho com violões sobrepostos, piano e os efeitos dos pratos da bateria. Os timbres ficaram muito bonitos. O baixo só emite a cabeça do compasso, mas já nesse instante é possível sentir o excelente timbre obtido.

Quando entra a melodia, efetivamente, a interpretação do Rodrigo é excepcional e o tratamento da sua voz nos paramétricos é muito bom, com uma limpidez impressionante. É muito rico o arranjo, com os violões e o piano a desenhar em perfeita concatenação. A linha de baixo e bateria é simples, mas impressiona a precisão e os timbres. 

Na parte em que se sobressaem o violão e o baixo, o timbre de ambos é muito bom, sobretudo o baixo, que soa com todo o poder de um Rickenbacker modelo 4001, de 1973, este de propriedade do Ricardo Schevano que gentilmente me emprestou e também ajudou-me a capturar o seu timbre incrível (plugado em um amplificador e caixa da marca Ampeg, reedição de um modelo dos anos setenta), absolutamente "Squireano", como manda a cartilha do Rock Progressivo.

A parte final é épica, mediante um coral de vozes, todas gravadas pelo próprio, Rodrigo, e em conjunto com um solo em dueto de guitarras, também pilotadas, ambas, pelo Rodrigo), a se revelar muito melódico (lembra muito o som do guitarrista norte-americano, Steve Hunter, em: "Camellia"), e a bateria do Zé Luiz Dinola a se soltar mais, com o meu baixo a segui-la, mas sem grandes exageros, de minha parte, para respeitar o arranjo concebido pelo Rodrigo. Em suma: uma canção belíssima, ultra melódica a evocar a tradição Folk dentro do Rock Progressivo setentista, que tanto o Rodrigo, quanto eu, mesmo, gostamos, certamente. 

E sobre a sua letra, ela é absolutamente inspirada, a se tratar de uma evocação espiritualista & holística, sem ranço religioso, com otimismo e humanismo, certamente.

"Eu sigo o sol dentro de mim", acho que expressa um aforismo bem profundo.

Gravado no Estúdio Orra Meu de São Paulo em abril de 2017

Técnicos de captura: Marcello Schevano e Gustavo Barcellos.

Técnicos de mixagem: Gustavo Barcellos e José Maron

Suporte para o som do baixo: Ricardo Schevano

Selos Orra Meu Records/Baratos Afins

Lançamento como single em outubro de 2020

Músicos:

Rodrigo Hid: Vozes, guitarras, violões e piano

José Luiz Dinola: Bateria

Luiz Domingues: Baixo

Bem, este foi mais um trabalho avulso que eu fiz com o Rodrigo Hid e a somar-se com a nossa atuação sob cooperação em três bandas autorais (Sidharta, Patrulha do Espaço e Pedra), foi óbvio que a nossa parceria musical ganhou mais uma linda peça e história para me dar orgulho e muita satisfação. E para reforçar, propiciou mais uma cozinha Domingues/Dinola para nos orgulharmos também! Além do mais, foi gravado no estúdio dos irmãos Schevano, com o Marcello a operar e Ricardo a dar suporte na timbragem do baixo. Obrigado, pelo convite para participar do seu trabalho, amigo!

Como uma outra música foi gravada em 2017, com o mesmo time, em seguida, abre-se mais um capítulo para este trabalho, para comentar sobre o seu lançamento. Sendo assim, possivelmente...

Continua...

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

Advento 2020... - Por Telma Jábali Barretto

Conhecido como tempo de preparação para o comemorado Natal Cristão, mas...nosso intuito é fazer uma reflexão diferente, como diferente tem sido o tempo atual e querendo manter a “vibe”e até aproveitando, seguindo seu curso... Sempre nessas épocas uma mobilização diferenciada acontece num convite a maior fraternidade e atenção a posições diversas nossas e o empenho aqui será aprofundar essas conceituações, convidando e propondo a que cada um, verdadeiramente tenha real e claro entender e, de preferência, estimular, assim, entendimentos, percepções novas a esse tão absolutamente incomum ano. Pensamos, isso sim!!! 

Deva ser gancho, deixa, clic para aquilo sempre necessário e mais especial seja nesse agora, abrindo a perspectiva de ampliação de olhar e quando pensamos nesse abrir, seja mesmo com disposição renovada, sem amarras nem condicionamentos que, muito confortáveis nos mantêm reféns de posturas antigas e viciadas e, por isso mesmo, seguras... Costumamos ser previsíveis para aqueles que convivemos: lado bom/lado ruim para sermos até ‘agradáveis’, confiáveis...?!.... Que tal ampliarmos nosso próprio repertório? Nem precisamos ser tão subjetivos já que a proposta é simplesmente abrir, refrigerar e oxigenar e, sendo igualmente práticos com conceitos bem corriqueiros como o de saúde, desde o que seja sentir saudável dentro da realidade física, emocional, social dentro da família e até nos espaços que frequentamos (desde profissional a quaisquer coletivos).

Abrigamos vícios e, respondendo a isso com amplitude de percepção, observando com nova atenção, ampliada... e quanto de piloto automático movemos desde o básico a quesitos conceituais sobre os quais temos pilares de segurança fincados ad eternum, que nem sabemos de onde trazemos, preservadores de sagradas raízes sem bem saber porque ali moram, vivem conosco se ainda propiciam conforto ou até não?!... Só aqui breves sugestões, mas explore e... quanto por questionar há! Pegue o fio... 

Esse é o Advento que estamos propondo! Vamos abrir gavetas encerradas ou abertas ao léu... esquecidas e dispostos a ver, rever e sentir num empenho de fato de criar um advento movido ao novo e especial como quem valoriza a oportunidade única da Vida, a cada agora, nosso e dos demais, dando uma ressignificada dimensão, muito além bandeiras alheias ou mecânicas sendo milagrosamente originais como verdadeiramente podemos e devemos ser!!! Feliz seja esse VIR a SER!!!

Telma Jábali Barretto é colunista fixa do Blog Luiz Domingues 2. Engenheira civil, é também uma experiente astróloga, consultora para a harmonização de ambientes e instrutora de Sudha Raja Yoga. Nesta reflexão, ela faz um balanço de fim de ano, porém, de uma forma fora do padrão.

sábado, 5 de dezembro de 2020

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 407 - Por Luiz Domingues

Sobre o material e a performance da banda, cabem mais algumas considerações. Para início de conversa, há de se destacar que a captura dos dois shows que alimentaram a fita K7, por uma questão de limitação extrema de espaço, tornou óbvio por conseguinte que cada apresentação ficasse circunscrita a um lado da fita, com cerca de trinta minutos, apenas. Portanto, foi um registro absolutamente aleatório, daí a existência de músicas repetidas e neste caso, consta até uma segunda versão de uma mesma música, contida em uma mesma apresentação. 

Em suma, essas são algumas músicas internacionais (algumas nacionais, incluso), que costumávamos tocar ao vivo, do início das atividades da banda em 1982, até meados de 1983, quando o repertório autoral ficou robusto o suficiente para preencher o espaço de um show completo e momento esse em que dispensamos o uso de covers/releituras para fazer volume em nossas apresentações.

As sete primeiras músicas correspondem à apresentação feita em um evento fechado, durante o Reveillon de 1982. Começa então com uma versão muito energética de "Brown Sugar" dos Rolling Stones, com a Verônica Luhr já a dar mostras de seu enorme potencial vocal, inclusive por improvisar bastante ao criar vocalises, quase durante a performance inteira da canção. A voz do Rubens aparece bem e a da sua irmã, Rosana Gióia contribui com um bom backing vocal. A guitarra, nesta faixa aparece um pouco mais do que o baixo e a bateria.

A segunda faixa, "Honk Tonk Women", também clássico dos Rolling Stones, se mostra com bastante balanço. Nesta performance, a voz do Rubens nos backing vocals ficou mais proeminente do que a da sua irmã, Rosana e a Verônica Luhr brilha muito com uma performance de arrepiar a lembrar o estilo de Tina Turner. O baixo está bem prejudicado por uma equalização submetida ao acaso, praticamente, mas dá para notar que eu busquei o estilo Soul/R'n'B a fugir da simplicidade espartana gravada por Bill Wyman (se bem que os fãs dessa mega banda britânica sabem muito bem que muitos baixos foram gravados mesmo pelo guitarrista, Keith Richards), com os Rolling Stones.

Eis a terceira canção e a se tratar de uma surpresa, certamente, aos fãs d'A Chave do Sol, na forma de um Blues com uma quase pegada Gospel (no sentido musical pelo estilo e não pela conotação religiosa) e por ser supostamente uma composição fora do nosso alcance natural pelo Rock, pois é uma peça do cancioneiro da MPB, em tese e no caso, chamada: "Muito Romântico", uma bela canção composta por Caetano Veloso e lançada em seu LP "Muito" de 1978. 

Na versão original do disco do Caetano Veloso, o arranjo é feito bem na linha Gospel/Spirituals, mediante um apoio de um coral, mas a nossa versão pendeu para o Blues clássico. Curioso, por uma questão de má equalização da banda, a gravação desta performance ficou quase que restrita à presença da voz e do baixo. A guitarra, a bateria e a voz backin' de Rosana Gíóia ficaram mais para trás, então, o baixo e a voz da Verônica Luhr, predominam, o que de certa forma tornou-a intimista para quem ouve esta gravação em específico, mas claro, não era assim que soava exatamente, nas ocasiões em que a tocamos.

Advém a quarta faixa, com a interpretação visceral de Verônica para o clássico de Neil Young/Crazy Horse: "My My Hey Hey". De fato, o nosso arranjo privilegiava o efeito do "crescente" na dinâmica e a Verônica aproveitava bem a deixa para dar ênfase ao seu improviso.

A versão de "O Contrário de Nada é Nada" dos Mutantes, ficou com muita energia e a Verônica mais uma vez nos brindou com uma bela performance. A voz da Rosana Gióia e do Rubens, contribuem bastante, igualmente. Mais uma vez, o baixo predomina junto às vozes, com a bateria e a guitarra bastante prejudicados na audição de uma mixagem mal resolvida na captura da gravação, portanto, na digitalização e pós-produção, nenhum milagre poderia ser feito para regularizar isso a posteriori, em 2020. 

Emblemático por ser um registro histórico, ao final da canção, a Verônica fala ao microfone: -"A Chave do Sol", um costume que ela praticava com bastante insistência ao término das músicas, eu me lembro bem dessa sua característica, em todos os shows, inclusive, em que ela participou como a nossa vocalista.

Uma segunda versão de "Brown Sugar" dos Rolling Stones marca presença como a sexta faixa, e a animação é igual à da primeira tomada que abre o disco. A diferença, foi que nesta nova versão, pelo fato do baixo predominar junto às vozes, dá para ouvir a sua linha com maior clareza e verificar dessa forma, que a minha proposta foi buscar o balanço da Soul Music, mais uma vez e "mea culpa" que eu faço, devo admitir que principalmente na parte do riff em sua parte "A", eu exagerei muito, com frases feitas com muitas notas e mediante rapidez, porém, atenua a minha culpa o fato de que na época eu pensava que por tocarmos como trio, no tocante à instrumentalização da nossa banda, eu precisava preencher espaço ao máximo, para garantir a devida sustentação para que o Rubens pudesse atuar sem sobrecarga. 

O Zé Luiz Dinola também exagerava na linha de bateria, exatamente por pensarmos igual e isso explica também os eventuais excessos cometidos por ambos, além da influência evidente do Jazz-Rock, a se configurar como uma marca registrada do nosso trabalho autoral ter sido forjado pela performance mais virulenta, digamos assim.

A sétima faixa, mostra uma leitura para: "Johnny B. Goode", clássico cinquentista do Rock'n' Roll, de autoria de Chuck Berry e com a Verônica Luhr a brilhar muito, mais uma vez. 

O baixo está na frente mais uma vez e curioso, mesmo que eu tenha tido um aparato super precário para tocar, ao usar a linha da mesa de mixagem e sem um bom amplificador para me auxiliar, mesmo assim, o timbre do meu baixo ficou surpreendente pelo brilho e mais um dado: apesar de eu usar a técnica do "pizzicato" à época, que sempre tende a abafar a emissão da nota, a torná-la mais grave, em essência. 

O solo do Rubens é ouvido como uma "sombra", muito ao fundo, mas mesmo assim dá para se deduzir que foi bastante energético. Verônica mais uma vez solta a voz e lembra a grande, Etta James, em seus melhores dias, certamente, mesmo com um equipamento super aquém para mostrar o seu verdadeiro potencial. Ela, Verônica, demonstrava possuir nessa época, um talento bruto impressionante, mesmo.

Vem então as músicas que compuseram o segundo show capturado, realizado no Café Palheta's de São Paulo, em 1º de janeiro de 1983, ou seja, no dia seguinte e a usar o mesmo equipamento do show anterior, retratado nas primeiras sete faixas deste disco. 

Em "Jumping Jack Flash", a oitava faixa e a se constituir de mais um clássico dos Rolling Stones, se trata de uma versão mais acelerada de nossa parte, mais a ver com a versão do Johnny Winter do que a dos próprios Rolling Stones e nesses termos, a Verônica se solta de uma forma impressionante. 

Nessa ocasião, ela mesmo sem nenhuma instrução sobre técnica vocal, tampouco sobre teoria musical, não se furtava a improvisar de uma forma intuitiva e absurda, ao fazer uma escalada vocal em termos de sobreposição, como se tivesse sido um arranjo bem concatenado, mas na verdade, foi fruto de sua intuição e demonstrou assim que o seu potencial nato era imenso. 

A guitarra do Rubens aparece um pouco mais e é muito bom o seu solo, cheio de elementos vindos do Blues. E alguns momentos mais amenos, dá para se ouvir um pouco a performance do Zé Luiz, ainda que limitada a uma maçaroca, sem a possibilidade de distinção entre as peças de seu kit de bateria e não haveria de ser diferente mediante um único microfone em posição "overall" para captar tudo, de uma forma indistinta e a "brigar" com os demais instrumentos e vozes.

A seguir, vem mais uma canção que gostávamos de tocar, pois exigia demais de todos pela energia esfuziante de sua natureza: "Now I'm Here" do Queen e claro, a Verônica escandaliza a soltar a voz. A chamada dela, a capella para dar a deixa para a volta do instrumental a finalizar a canção, impressiona ao mostrar a sua voz rasgada, selvagem, absolutamente adorável pela espontaneidade e força na emissão. Que cantora nós tivemos! E aqui, Rubens e Zé Luiz são melhor ouvidos. A evolução de um fraseado feito nos tambores, mostra o quanto Zé Luiz já era muito técnico e a nossa banda mal estava a iniciar os seus trabalhos nessa ocasião.

A décima faixa mostra mais uma versão de: "My My Hey Hey" do Neil Young/Crazy Horse e desta feita, mediante um outro show, como eu já expliquei. A performance é praticamente igual da parte da nossa banda, mas o som desta versão tem um padrão de volume mais baixo que as demais, mesmo assim, eu optei por incluí-la, por ser uma peça histórica, naturalmente e disco com característica de "bootleg" tem margem para que o critério técnico seja completamente relevado, eu considero dessa forma.

O mesmo ocorreu com a décima primeira faixa: "Honk Tonk Women" dos Rolling Stones, quando o áudio master ficou prejudicado. Mesmo assim, é uma versão interessante por ter deixado a linha do baixo bem proeminente e assim, a minha opção pelo balanço a la Black Music se mostra com clareza. 

Eu exagerei, confesso, e hoje em dia eu não arriscaria certas frases mais imprudentes, a desafiar a lei da divisão rítmica, digamos assim, mas há de se ressaltar o ímpeto juvenil que eu tinha naquela ocasião e também a boa surpresa de se ouvir essa versão, gravada de forma precária e mesmo assim, se observar um timbre muito bom, a mostrar o mérito genuíno de um baixo Fender Jazz Bass, puro e simples. 

Rosana Gióia fez uma linha de backing vocals boa, com afinação e isso deu margem para que a Verônica Luhr improvisasse e subisse em certos trechos, com um brilhantismo incrível. A sobreposição vocal que ela faz em vários trechos da sua interpretação, chega a ser impressionante.

A décima segunda faixa é mais uma versão da música do Mutantes: "O Contrário de Nada é Nada". Desta feita dá para ouvir melhor a guitarra do Rubens e também o seu backing vocals. Infelizmente, esta música estava cortada na fita K7 e assim, a solução foi estabelecer um efeito de "fade out" para encerrá-la durante a entrada do segundo refrão, para maquiar o seu final abrupto logo a seguir.

Eis que chegamos à última faixa, uma versão bastante energética para "Johnny B. Goode" do Chuck Berry. O baixo está bastante prejudicado nesta versão, que contém mais bateria para compensar e a guitarra, se apresenta medianamente. 

Logo no início, há uma microfonia bastante desagradável que ocorreu no momento da captura, mas que não foi possível eliminar na pós-produção de 2020. Houve sim um bom trabalho de limpeza feito, mas como uma camada geral, impossível de ser feita separadamente, pois se tratou de uma captura pobre com o "LR" (lados direito e esquerdo do estéreo), a se mostrar estático, ou seja, se limpou tudo em bloco e não separado por canal, portanto, se fosse para eliminar a tal microfonia, haveria um prejuízo generalizado. 

Bem, dura menos de três segundos e como é um bootleg em questão, fica tal incômodo ao ouvinte pelo espírito da sua espontaneidade de captura ao vivo, com as inerentes precariedades de equipamento que tivemos para essas apresentações de 1982 e 1983 e pelo certo "charme" estabelecido, por incrível que pareça, dentro desse espírito.

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terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Autobiografia na Música - Boca do Céu - Capítulo 66 - Por Luiz Domingues

A pandemia de 2020 não deu trégua, ao nos atrapalhar de uma maneira contumaz, no entanto, o que seriam alguns dias, semanas e quiçá, meses, para quem simplesmente nem cogitava mais reunir a formação clássica de uma banda que atuara há quarenta e quatro anos atrás? 

Pois é, com esse sentimento mais grandiloquente, conseguimos coibir a ansiedade por nos encontrarmos, para resgatar o material antigo da banda, o sonho que acalentamos quando nos reunimos no começo de 2020 para uma confraternização tão festiva e que gerou tal meta mais ambiciosa. 

Tentamos prosseguir com ensaios virtuais, mas esbarramos em dificuldades técnicas para que eles fossem produtivos, uma grande pena. Então, só nos restou ter paciência para que a situação sanitária periclitante fosse superada na sociedade em geral, para que pudéssemos nos reagrupar e formalizar assim uma série de ensaios de composição e arranjo das velhas canções e certamente pensar em novas peças que Wilton e Osvaldo anunciavam ter em mãos. 

Nesta foto acima, vê-se o recorte primordial para o recorte das almofadas confeccionadas por Ana Fuccia através de sua empresa, Ecoarte/Almophodas (esse é o nome, não errei a grafia).

Enquanto isso, por volta de agosto de 2020, uma ação de marketing saiu do projeto e se materializou através de uma parceria com a artesã e artista plástica, Amanda Fuccia, quando ela confeccionou uma capa de almofada a conter em seu verso, a foto clássica do Boca do Céu com o quinteto reunido no corredor lateral da minha então residência, em março ou abril de 1977 (foto que acreditamos ter sido clicada por Adelaide Giantomaso). 

Devidamente montada, eis a versão da almofada do Boca do Céu, com as fotos de 1977 (preto e branco) e 2020 (colorida)

E na sua parte posterior, a almofada foi montada com a foto da banda reunida, na mesma configuração, em 2020, quando da festiva reunião/ensaio promovida em fevereiro de 2020, com foto de Marcos Kishi.

Acima, alguns exemplos das camisetas que o Osvaldo Vicino preparou para o Boca do Céu e chama a atenção a bela concepção de design do logotipo que ele criou, o ótimo contraste obtido, principalmente no modelo de cor azul marinho e a inserção de uma frase de efeito a afirmar: "Grupo de Rock- Desde 1976". A denominação "grupo" estivera muito em voga nos anos setenta, em detrimento do termo, "banda", ter se tornado mais popular para designar um conjunto musical orientado pelo Rock. Daí, ser mesmo proposital para homenagear a nossa origem setentista.

Em setembro, Osvaldo Vicino levou adiante o seu esforço empreendido em torno da criação de um logotipo para a banda e assim, ele anunciou a confecção de camisetas, para incrementar ainda mais as ações de marketing, ou seja, estivemos impedidos de avançar no trabalho de resgate das canções por conta do isolamento motivado pela pandemia da Covid-19, no entanto, geramos mais ações de marketing em 2020, do que jamais chegamos perto nos anos setenta quando da origem e atuação do grupo, por conta da nossa inexperiência para saber lidar com tais trâmites e falta de recursos para investirmos naquela ocasião.

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sexta-feira, 27 de novembro de 2020

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 406 - Por Luiz Domingues

Então, escolhida a ordem das músicas, o Kim Kehl providenciou a sua edição, com o áudio já todo trabalhado e como última etapa da preparação, houve o esforço para compor a arte de capa e contracapa. 

Deixei-o livre para criar, naturalmente e apenas sugeri a inclusão do velho logotipo de 1984, aquele contido na capa do Compacto de 1984, a exibir figura de uma pomba branca a voar sob o sol, e que a tipologia das letras seguisse a linha curvada existente no mesmo citado compacto e lançado no mesmo ano, exatamente como uma forma de resgatar a tradição da nossa banda. 

O Kim utilizou fotos dessa formação com Verônica, extraídas de uma sessão feita durante um dos shows que fizemos na casa de espetáculos, Victoria Pub, entre fevereiro e abril de 1983. Como eu dispunha de poucas fotos, ele optou por recortar e montar como se fosse uma foto coletiva e com a presença de uma iluminação artificial a sugerir estarmos a tocarmos ao vivo em um grande palco.

Eis então aí a capa do CD "A Chave do Sol Ao Vivo 1982/1983", simples em sua concepção, mas a se mostrar muito bonita em seu resultado final, sem dúvida alguma, ao compor uma bela apresentação visual. A palavra "pirata" foi acrescida como uma tarja para deixar claro ao consumidor se tratar de um produto com um conteúdo de qualidade sonora bem mais modesto do que um álbum bem gravado. E de certa forma, acrescenta um charme extra a demarcar o caráter raro do material.

Na contracapa, o padrão de fundo a sugerir um palco sob a incidência da iluminação de um teatro, permaneceu. Nos primeiros esboços, o Kim chegou a testar fotos e até peças de portfólio como ilustrações, mas ao constatar que atrapalharia a leitura das informações básicas da ficha técnica, a opção pela simplicidade do fundo liso, prevaleceu. 

Sobre a ficha técnica, eu havia elaborado uma lista bem mais detalhada com muitas informações, mas isso obrigaria a se usar uma tipologia de letras sob um tamanho diminuto, e que dificultaria em demasia a sua leitura, até para quem enxerga bem e não faz uso de óculos, portanto, o Kim pediu-me a parcimônia máxima. 

Eu adoro ficha técnica de disco recheada com informações, mas no caso, isso demandaria a elaboração de um encarte especial e infelizmente tal inserção ficou fora do orçamento e assim, a opção foi discriminar o repertório exibido, a formação da banda nesses espetáculos e algumas breves menções extraordinárias.

Sobre o "label" do disco, fez-se a simplicidade mais uma vez a conter o nome e logotipo da nossa banda, a inserção da palavra "pirata" e o logotipo da produtora, Crossover Records e com o mesmo fundo padrão azulado a sugerir a iluminação de um show ao vivo.

Como eu já disse anteriormente, lastimo, mas não há neste álbum, uma única música autoral, embora na época, já tivéssemos algumas já compostas, casos de "18 Horas", "Luz" e "Utopia", por exemplo e estávamos a preparar outras, tais como: "Crisis (Maya)", "A Dança das Sombras", 'Intenções" e "Átila". 

Bem, foi por um mero acaso que esta gravação só tenha preservado a performance de temas internacionais (e alguns nacionais, também), que tocávamos em nossas apresentações como forma para encorpar o set list e à medida que o tempo avançou fomos a diminuir tal espaço gradativamente, até termos um show inteiramente autoral, a partir do segundo semestre de 1983. Mas este registro ficou assim em termos de repertório:

1) Brown Sugar (The Rolling Stones)

2) Honk Tonk Women (The Rolling Stones)

3) Muito Romântico (Caetano Veloso)

4) My My Hey Hey - (Neil Young)

5) O Contrário de Nada é Nada (Mutantes)

6) Brown Sugar (The Rolling Stones) (segunda versão)

7) Johnny B. Goode (Chuck Berry)

8) Jumping Jack Flash (The Rolling Stones)

9) Now I'm Here (Queen)

10) My My Hey Hey (Neil Young) 

11) Honk Tonk Women (The Rolling Stones)

12) O Contrário de Nada é Nada (Mutantes) (segunda versão e faixa cortada ao final)

13) Johnny B. Goode (Chuck Berry)

As faixas 1 a 7, são da exibição em um evento fechado em São Paulo, que cumprimos durante a noite de 31 de dezembro de 1982, noite de Reveillon, portanto. As faixas 8 a 13, correspondem a um show realizado em uma casa noturna chamada: "Café Palheta's" também de São Paulo.

As fotos de 1983 que serviram para compor a capa, foram clicks de Seizi Ogawa. Toda a produção de áudio e capa ficou a cargo de Kim Kehl e o lançamento através da produtora, Crossover Records. O primeiro lote, mediante cem cópias, foi entregue em agosto de 2020. 

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terça-feira, 24 de novembro de 2020

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 405 - Por Luiz Domingues

Pensei sob uma primeira instância em somente colocar nessa compilação, as músicas com o melhor padrão de áudio e esse foi o incisivo conselho da parte do Kim Kehl, inclusive, que avisou-me bem sobre a precariedade generalizada e que entre as canções, havia uma subdivisão a demarcar ainda mais discrepância sonora. 

Porém, eu argumentei que de fato, se fosse para ser analisado sob um critério puramente técnico, nenhuma faixa passaria pelo crivo mais apurado, visto que a gravação original fora feita de uma forma precária. Só para o leitor entender bem sobre o que eu falo, é preciso rememorar a maneira pela qual essas duas apresentações que compõem este disco, foram gravadas.

Primeiramente, é preciso destacar que a gravação foi proporcionada por um tape-deck caseiro. Claro, tratou-se de um bom aparelho para o propósito do uso doméstico, no padrão que convencionou-se como: "Hi-Fi", a tratar-se de um gravador da marca Gradiente, que fora uma peça de equipamento muito boa disponível no mercado nos anos setenta e oitenta, mas obviamente inadequada para promover a gravação de um show ao vivo de qualquer monta e mais ainda de uma banda de Rock. 

O segundo ponto, foi sobre o nosso equipamento usado para essas duas apresentações e que resultou na captura, respectivamente em cada lado da fita K7. 

Usamos o nosso pequeno PA (nesses shows em específico, ainda bem tímido, pois apenas ao final de janeiro de 1983, nós reunimos recursos para aumentá-lo), e com três microfones disponibilizados para as vozes, Verônica Luhr, Rubens Gióia e a convidada especial, Rosana Gióia, e apenas um para ser usado como um "overall" da bateria, ou seja, sem microfonar tal instrumento de uma forma minimamente adequada e nem ao menos o amplificador da guitarra, então foi realmente uma captura muito ruim. 

O fato do baixo sobressair-se em algumas faixas, deu-se pelo fato desse instrumento ter sido ligado na linha, ou seja, diretamente na mesa de mixagem, daí, obviamente ter obscurecido a guitarra e a bateria em quase todas as faixas e em algumas em específico ainda mais acintosamente.

E a terceira questão, diz respeito à própria "mídia" de armazenamento usada. A fita K7, por si só, sempre foi uma plataforma de captura de áudio bastante limitada, naturalmente. E com uma agravante, aliás, três: o fato de ter sido usada uma fita comum e não uma peça de cromo, que seria uma alternativa com um melhor padrão qualidade no tocante ao material químico de sua composição. 

No caso dessa fita que foi utilizada, ela era de segunda mão, portanto as nossas apresentações foram gravadas em cima de gravações de discos que o Rubens fazia normalmente para ouvir no som do seu carro, portanto, além do desgaste natural pelo uso, tal tipo de dispositivo sofria pelo armazenamento costumeiramente feito através do porta-luvas do automóvel, ou seja, sujeita ao calor extremo, se o carro ficasse exposto ao sol e com as janelas fechadas, por exemplo. 

E finalmente por ter sido usada em 1982-1983, pela última vez e ter sido também armazenada por longos trinta e sete anos, com pequenas intervenções anteriores, quando por exemplo em 2011, através de uma tentativa que foi feita para digitalizar tal fita, porém, sem a obtenção do êxito completo nessa empreitada.

Então ao pensar detidamente nessas questões técnicas e também a relevar a qualidade da performance da banda em certas faixas, com a presença de erros cometidos por um ou outro membro, além do inglês deficiente em termos de pronúncia que a Verônica apresentava para interpretar clássicos do Rock internacional nessa época e mesmo a completa falta de músicas autorais, eu pensei em todos esses aspectos negativos e no entanto, a balança pendeu para a utilização de todas as músicas no disco bootleg, pois eu considerei que esta seria uma peça arqueológica, portanto, todos os seus pecados técnicos e artísticos deveriam ser automaticamente relevados, pois a sua raridade haveria por suplantar tais questões.

Dessa forma, eu levei em consideração que todos os fatores arrolados acima foram pertinentes, certamente, entretanto, cabíveis para serem entendidos como critério para a elaboração de um álbum oficial, mas para o padrão "Bootleg", automaticamente nos levou a relevar deficiências de todos os níveis, ou seja, o que se valoriza é a questão do documento histórico em si, como a traduzir-se como um achado arqueológico, portanto raro, de uma época remota. Em suma, o que importa é o que representa como relíquia histórica.

Dessa forma, foi o que eu assumi como uma firme tomada de posição ao comunicar ao Kim Kehl, que: sim, queria lançar todas as músicas, inclusive uma que se apresenta cortada, a conter a sua performance interrompida.

Continua...