quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Deserto - Por Julio Revoredo


Oceano bípede, que se desprende.

Da tríplice hélice.

Oblíquo recuo, do absurdo que compreende o duplo eterno retorno, as armas de Satanás, Asquirimonio e desavoredo.
Alívio selvagem, como remotos cavalos, visagens, de quem em fundo lilás, me traz.

Ao cair da tarde, surgiu o Sol voraz.

Ultrapasso o pássaro, Satã, ensaia ?
O imperceptível branco, o nítido nulo.

Descortina-se o sobrevoo do oceano bípede, do qual destoo.

Perdendo a mente na ventania, fosmearia, eu?!

Ou então, reboo, reboo, abstenho-me do ócio, do nada, trevoo sob o luar cáustico, o pior ser humano se humaniza com a dor.

Não existem espaços vazios, tudo está completo.
O fogo venifluamente, fustiga os meus pensamentos, seiva ! 

Seiva ! 

Superação, abstração, superação, abstração.

Sombras opressivas, donde o venifluo impera no entorno, o globo ocular, Heros Laertius, Ulyss, Ulysses, Ulissem, Ulyssen, ulixes, errores Ulyssis !
A impressão concretiza-se, depois do momento.

Sopram os ventos de incomum, nada ao tudo, tudo ao nenhum, tetragrama?! Tetragrama!

3/7?

Oh!

Homeonauta, darda-lhe-ei a Lua, deste bípede oceano.

A parte de quebrangulo, abre-se em mim uma absconsa ferida, antes do sertão, Finnegans Wake !
E um tirocínio! E um tirocínio! E um tirocínio?!

Escorpiões cegos, cegos escorpiões, círculos de fogo, convulsões.

Dextrorsamente desarrumado, dextrorsamente desarrumado.

Sobremanha, sobrehomem, a impressão, o fato, a impressão, o fato, a impressão.

O cego com a solombra do Androctonus crassicauda (rescorpião negro), nos olhos.

Terra discedit!
Averso flumine, solus ex omnibus.

Allatrani Maria oram maritima, volutatio animi, hospita aequora, acheloiades euxinum mare, caspium mare, codanus sinus, conclusum mare, asphaltttes, arva  Neptunia!

Cogitur in nubes aer, omnes codem coelmur celo tehancrem, ardor oculoraum?

Zyz.
Fogo que cintila nos olhos, abre-se a terra, mar, contracorrente, o ar torna-se obscuro, todos os caminhos para a sepultura.

Sob o tríptico evar do rinocerante, reboa a inexatidão do caos disforme, que ablepa, a transição do olho santo a trívia!

R b rt brwng d ss sbr u+m v s o obscr d srsllo : qndo scrvi est vrs smnte d e e+u connc amoso significado agra, s_+o d uso.

Meu rosto e uma terra infértil, que obducta o ígneo, ora prono, ora solombra.

Oceano, ocreano, ocreano, limão!?

A contrafigura, contrafigura, contrafigura, mare.

O microcosmos do buraco da agulha, aponto para o homem ígneo de costas, sem sombra, sem rosto, como o Sol ou mais, quase um laivo.
Em mim, obliteram-se imagens da Grécia de John Fowles, da Grécia de "O Mago", numa fração célere de impressão.

Oh! Exogenio, oh! exogenio mental!

Enquanto vivo, inteligo com a impressão, lturnonstuneinddropout.

Entreolho, olhosanto, sobremanha, sobrepenso, suspenso, como um imã, do fim ao começo. 

Que pontes tombem para o inacessível.
Latex / perfume de gasolina, vortex, contragiros, vortex, latex, Coca-Cola, graxa, benzina, ferrugem, borboleta azul íris-da-praia, dedaleiro, embiruçu, nonada, no meio, fogo no espelho, máscara de água, voo, bípede.

Antenas de raça, rotação ripostes, no centro cinza, jaguardalvos sorrolhos, ondas de um mar, outro mar e outro radar

Off  minor no ar! Epistrophy no ar!
A ingente e selvagem selva de pedra, em mim, veníflua, não suporta nem um rio, muito menos, um janeiro!

De repente, o Riomar, ora balso, emulsões, pálpebras violáceas, asas, do nada.

Oceano, oceano, oceano, osnis trípiticos bacoanianos, pálpebras, azul verde limão carrel, hipocampo, nevral dissolução Poundiana.
Ascende-se no oceano, nesse oceano, o sordello, estalo, vela que desinça-se do absurdo que compreende (inverte-se), onblíquo recuo (desdobra-se), da tríplice hélice (pés enterrados na terra, do homem inculto ao caos solar), que se desprende (o fascínio do salto no vago obscuro).

O oceano bípede (enfim, cai-se a máscara, dá-se a luz) : oceano bípede!?

Unipede engano, eremico.


Julio Revoredo é colunista fixo do Blog Luiz Domingues 2. Poeta e letrista de diversas músicas que compusemos em parceria, em três bandas pelas quais eu atuei: A Chave do Sol, Sidharta e Patrulha do Espaço.

"Deserto", é um poema mais do que especial que este Blog tem a honra de publicar. É um grande apanhado de signos instigantes que permeiam a obra do poeta como um todo e quem o acompanha com atenção neste Blog, através de sua coluna, há de reconhecer tais citações. Ele trabalhou nessa criação com esmero e é com muita alegria que este Blog o revela ao mundo.  

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 217 - Por Luiz Domingues


Planejamos os shows de lançamento do EP com uma certa antecedência. Fechamos três dias no Teatro Lira Paulistana com esse intento, e desde o meio de agosto, praticamente, pensamos nesse lançamento, em vários detalhes. Mais comedida, mas com a mesma intenção dos shows de lançamento do compacto, em 1984, queríamos novamente um show com atrativos extra-musicais. 

Não que tivéssemos arrependimentos em relação às performances nonsense que fizéramos em 1984, mas desta feita, não desejávamos que tais intervenções ofuscassem a banda, e nessa altura, queríamos muito atrair a atenção para o "novo som" da banda e também para o nosso novo vocalista, que afinal de contas, entrara para a banda com essa missão em específico. Outro ponto em que pensamos, foi a ideia de conter um cenário. 

Esta obra acima, foi assinada por Beth Dinola e pertence a uma colecionadora particular de Roma, Itália.

Nesse sentido, encomendamos uma ideia a ser desenvolvida pela irmã do Zé Luiz, a Elizabeth Dinola. Como já narrei, a Beth Dinola era (é) artista plástica, e embora a sua especialidade fosse a arte em cerâmica, ela desenhava e pintava a usar técnicas as mais diversas, como grafite; óleo e aquarela, entre outras. Então, ela concebeu uma pintura que seria reproduzida no tecido, diretamente, mas com um efeito de sobreposição que proporcionaria uma profundidade muito bonita, quase sob um efeito de 3D, natural. A ideia que sugerimos para ela, foi uma síntese do que imaginávamos representar esse novo álbum, no tocante à sua temática contida nas letras das músicas. Evocávamos valores humanistas; falávamos de igualdade social; ética; espiritualidade via vida extraterrestre etc. Então, nesses termos, pensamos em uma representação humana, mas sem identidade específica, como a representar a humanidade como um todo, sob uma atitude contemplativa ou algo similar. 

Posto isso, a Beth mostrou-nos alguns esboços (rafs), e nesse sentido, em meio a tal material prévio, agradou-nos bastante a figura de um homem de costas, a mirar para o horizonte, no topo de uma montanha, e com raios de sol à sua vista. E para imprimir a profundidade, uma segunda camada recortada como o miolo de uma fechadura de porta, faria com que o espectador do show visse o homem a contemplar o panorama, pelo buraco da fechadura. Bem, é necessário esmiuçar a simbologia ? Acredito que não, mas cometerei a análise, assim mesmo : A chave do disco, seria a descoberta do sol, ou coisa que o valha, enfim. Aprovamos o "raf", e assim, posteriormente a Beth trabalhou forte na pintura sobre o tecido que continha uma dimensão grande, portanto, foram dias e dias de labuta em seu atelier.

O Zé Luiz e a sua costumeira habilidade manual incrível para qualquer tarefa de marcenaria & afins, tratou em fazer o recorte do tecido e idealizou todo o esquema com o qual ele seria instalado não somente no Teatro Lira Paulistana, mas como em qualquer outro teatro, doravante. Foi óbvio que tencionávamos usar o cenário durante a turnê inteira do EP, e até o advento de um eventual novo disco, quando providenciaríamos um novo cenário, por conseguinte. Testes de armação foram efetuados pelo Zé Luiz, com a ajuda de sua irmã, Beth Dinola e minha, no atelier e realmente havia ficado lindo. A ideia da sobreposição ficou fantástica, e mais uma vez o Zé Luiz trouxe-nos o seu talento extra-musical para abrilhantar a banda em outros aspectos. 

E no quesito das performances, de novo contamos com a colaboração do poeta, Julio Revoredo; como performer; redator; e consultor, naturalmente. Contaríamos também com aqueles amigos e agregados da banda, que auxiliaram-nos em 1984. Criamos no "brainstorm", algumas loucuras, mas não tão nonsense como as de 1984. Contudo, antes de falar sobre os shows, tivemos um compromisso anterior a ser cumprido, e curiosamente, no mesmo local, o Teatro Lira Paulistana...

Continua... 

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 216 - Por Luiz Domingues


Ainda em julho, havíamos sido contactados pelo diretório acadêmico de uma escola estadual de segundo grau. No meio universitário, era comum D.A.'s de faculdades mobilizar-se para produzir shows de Rock e / ou MPB, e basta ler através dos capítulos da história do Língua de Trapo, em minha autobiografia, para constatar o quanto esse nicho foi importante, por exemplo. Contudo, um D.A. de uma escola de segundo grau, foi bem mais raro, e claro que ficamos um pouco ressabiados, pois se lidar com jovens universitários já seria preocupante pela suposta imaturidade no trato profissional, o que dizer de garotos em idade colegial ? Claro que a abordagem inicial foi ótima, e surpreendemo-nos com a seriedade com a qual fomos tratados na sondagem inicial, mas em ao tratar-se de garotos, quem garantiria que cumpririam as nossas exigências, e não digo apenas no quesito cachet, mas sobretudo pela condução de todo o trâmite a envolver a questão do equipamento providenciado; divulgação; organização etc...? Pelo lado positivo, apreciamos muito o entusiasmo dos garotos, e a sua proposta mostrara-se interessante, ao promover um micro festival de música autoral, e com A Chave do Sol como headliner do evento. 

Seria um show ao ar livre, no pátio da escola e além de tudo o que mencionei, preocupava-nos outras questões. Por exemplo, haveria a autorização oficial do colégio ? Quem garantiria a segurança ? Fico até contente por estar a admitir essa preocupação que tivemos previamente, pois a surpresa positiva que tivemos, foi tão positiva, que eu costumo lembrar-me dessa passagem como um exemplo de como as aparências enganam. Muitas vezes na vida, e não só a pensar n'A Chave do Sol, mas em minha carreira toda, eu estive diante de situações paradoxais desse porte. Essa foi uma delas...

Apesar de certa desconfiança de nossa parte, fechamos o show, e os garotos mostraram-se muito responsáveis em atender as nossas exigências básicas, que não foram nada estrambóticas, mas meramente garantias de que haveria um equipamento de som e luz, com qualidade mínima possível para a realização de um show de Rock profissional. Claro que não exigimos equipamento de primeira linha, nem camarins a conter pedidos exóticos. Haveria a presença de duas bandas autorais boas, formada por ex-alunos da própria escola e que mesmo a habitar o patamar bem underground, nós já havíamos ouvido falar sobre ambas. Foram : Anacrusa e TNT. O Anacrusa inclusive, já mantinha uma boa kilometragem na música, a mostrar-se bem respeitável. 


No dia do show, quando chegamos ao Colégio Gualter da Silva, localizado no bairro da Vila Carioca, um subdistrito do bairro do Ipiranga, zona sudeste de São Paulo, e gostamos em ver o empenho da garotada do D.A. Estavam mobilizados desde o início da manhã e naquela hora, cerca de 14:00 horas, o palco estava montado, com o técnico do PA contratado, a finalizar a equalização inicial. Portanto, já foi positivamente surpreendente que tudo estivesse pronto para o soundcheck. E no tocante à organização, eles houveram feito toda a logística da bilheteria; assim como a organização para a entrada do público; limpeza dos banheiros e trabalhavam a todo vapor na organização da cantina que venderia bebidas e lanches, além de ter preparado camarins privativos, a usar logicamente, as salas de aula da escola, e também por pensar em uma barraca para a comercialização de discos & souvenirs. Providenciaram o documento oficial de autorização da escola; além da autorização da parte da delegacia de ensino, e taxa do ECAD paga, previamente. Tinham também solicitado apoio da Policia Militar, que faria a segurança do evento. Apenas um fator deixou-nos apreensivos : eles resolveram que o palco seria sustentado de uma forma não convencional, porque fugira-lhes do seu orçamento, a contratação de uma empresa especializada nesse tipo de armação de palcos provisórios, e a solução encontrada para improvisar a sustentação, foi no sentido em usar-se dezenas de carteiras escolares !

Quando vimos aquela solução, ficamos realmente preocupados, pois aparentava ser um perigo e tanto, usar esse tipo de estrutura não usual. O Zé Luiz, que era o nosso "professor Pardal", desde sempre, foi verificar a estrutura montada que sustentava os tablados de madeira, que formaria o piso, e veio dizer-nos que estava impressionado, pois os garotos haviam feito amarrações com cordas náuticas, mediante grosso calibre, de uma maneira muito forte, e segundo ele, nem sentiríamos que a sustentação do palco sustentara-se com esse tipo de material. De fato, o palco não movia-se nem um milímetro, conforme verificamos através de uma inspeção realizada por nós quatro, componentes da banda, e dessa forma, ficamos tranquilos. O soundcheck foi tranquilo. O equipamento contratado não fora proveniente de uma empresa grande de mercado, mas mostrou-se muito digno e o técnico além de mostrar a sua competência, foi solícito, educado e gente boa. 

Os rapazes do TNT amavam Mutantes fase Prog, ou seja, corriam risco de vida ante a inquisição oitentista...

Fiquei amigo dos membros das duas bandas, principalmente o pessoal do TNT, com os quais mantive contato por bastante tempo depois desse evento. Gostava do som deles, que mostrava-se como uma avis rara naquela década, pois apesar de seus membros serem bem jovens, professavam aberta influência setentista, a cultuar bandas banidas do imaginário popular na década de oitenta. Esse show, no Colégio Gualter da Silva, foi o primeiro em que realizamos mediante a disponibilidade do novo disco recém lançado em mãos, apesar de nós não o termos encarado como show de lançamento. Isso por que estávamos a planejar um lançamento oficial para setembro, no Teatro Lira Paulistana, aonde inclusive, já tínhamos três datas reservadas. Mas foi ótimo ter o novo disco em mãos, logicamente. 

Vendemos cerca de vinte unidades naquela noite, para darmos o início de sua vendagem, ainda que não alardeada oficialmente desde esse dia. E ao final, tivemos mais uma boa surpresa : recebemos o nosso cachet sem nenhum problema. Eram garotos imberbes em sua maioria, mas agiram como homens maduros, muito mais que muitos picaretas que conhecemos no decorrer da trajetória da banda e estendo essa triste realidade para a minha carreira inteira, lamentavelmente. Ficamos muito contentes em ter fechado e participado desse show, que foi impecável pela lisura da garotada e animado pela recepção do público. Tudo isso ocorreu no dia 24 de agosto de 1985, no pátio da Escola Estadual Gualter da Silva, com cerca de trezentas pessoas presentes ao evento.

Antes de falar dos três shows de lançamento do EP, no Teatro Lira Paulistana, devo falar ainda de um show avulso ocorrido anteriormente a essas datas, e também falarei bastante sobre a maratona de divulgação do disco, que fizemos, assim que ele chegou da fábrica. Infelizmente não existe nenhum registro desse show, tanto em termos de fotos, quanto portfólio. Mas eu soube que um rapaz filmou o nosso show com uma câmera Mini-VHS, uma raridade na época. Infelizmente, que eu saiba, ele não disponibilizou tal material no You Tube, pelo menos até os dias atuais. Ao surgir alguma novidade nesse sentido, posto imediatamente esse raro material, é claro.



Continua... 

domingo, 21 de dezembro de 2014

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 215 - Por Luiz Domingues


Com as sessões de estúdio encerradas, e o disco tendo passado pelo processo industrial do "corte", o produtor, Luiz Calanca já encomendara à fábrica, a prensagem inicial, concomitante à gráfica que preparava a capa. Ainda em agosto, ambos os fornecedores prometiam fazer a entrega, e nessa expectativa, estávamos animados para ter enfim um novo álbum na praça, e que refletisse as mudanças que havíamos promovido, a fim de buscarmos enfim, uma melhor adequação à cena oitentista. Tínhamos esperanças em "Um Minuto Além", como balada, e que permitisse -nos transitar por rádios e TV; havia a presença de "Crisis (Maya), como legítima representante d'A Chave do Sol de 1982 / 1984; e as quatro músicas centradas na estética do Hard-Rock, para tentar abocanhar o público pesado oitentista. 

Não demorou muito, e essa percepção tornou-se visível, e assim, ficar claro que a tentativa fora equivocada, mas logicamente que  explicitarei esse detalhe no decorrer da narrativa, oportunamente. 

Entretanto, de volta a falar sobre a agenda, o nosso próximo compromisso seria uma aposta, e rendeu uma boa história ! Estávamos a trabalhar constantemente com o produtor, Antonio Celso Barbieri, mas ele era um agente autônomo, e não empresário nosso, e nem de ninguém de uma forma específica e exclusiva. A Cooperativa Paulista de Rock, que começara com perspectivas animadoras no início do ano, esvaíra-se rapidamente. O produtor, Mário Ronco perdeu bem rápido o seu entusiasmo inicial, e depois daquelas ações que já descrevi, com matérias nos jornais e os shows no Teatro Arthur Azevedo, só trouxe uma novidade a mais, em maio, quando convocou as bandas para uma entrevista coletiva a visar uma matéria no jornal : "Shopping News"/ "City News", que fora desde os anos sessenta, o principal jornal de bairro de São Paulo. 

Muito bem, a matéria saiu com destaque de página inteira, com fotos, mas com aquela abordagem pejorativa com a qual a imprensa grande havia tratado-nos anteriormente, em abril. Portanto, apesar de estarmos com muitas novidades a ocorrer, e com o disco no forno, não tínhamos naquele momento um empresário exclusivo e confiável, com o qual pudéssemos sonhar em vivermos dias melhores, ou que no mínimo, fosse esperto o suficiente, para aproveitar o "momentum", aquele raro e sutil instante onde um artista pode "acontecer". 

Nesse ínterim, o guitarrista Cesar Achon, da banda, "Mammoth", com a qual havíamos tocado no Buso Palace, de São Caetano do Sul / SP, em junho, acenou com uma oportunidade diferente, e assim convidou-nos a participar, também. Ele conhecera um empresário, que não era do métier do Rock, mas detinha lá os seus contatos, e ao verificar a movimentação toda em torno do BR-Rock oitentista, ventilou tentar alguma coisa nesse mundo, todavia com uma proposta bizarra : ao tentar levar o Rock ao seu mundo, e não o contrário. Bem, não custou nada ao menos ouvir a proposta do rapaz, e assim, eu e Rubens fomos à Vila Formosa, na zona leste de São Paulo, onde encontramo-nos com o Cesar Achon, e um representante da banda, "Karisma", que também entraria nessa história. 
O excelente guitarrista, Cesar Achon, em foto bem mais atual

O Cesar, que era (é) uma pessoa culta e bem articulada, portanto mantinha todo o bom senso possível, alertou-nos que o sujeito era um habitante do "mundo brega", mas desejava fazer uma experiência com shows de Rock nesse circuito de salões e clubes, onde vendia artistas populares. Até aí, tudo bem, não custava ouvi-lo, e quem sabe tentar uma experiência, e no máximo, na pior das hipóteses, teríamos uma história bizarra para contar no futuro, e certamente foi o que aconteceu, e aqui estou eu a concretizar essa previsão pessimista... 

De fato, o rapaz era bem desse mundo, avesso ao nosso, mas dentro desse "planeta brega", detinha os seus contatos e vendia os seus artistas nessas circunstâncias peculiares. Foi o tal negócio : valeria a pena fazer show de Rock autoral nesse tipo de ambiente 100% avesso ? É claro que não, nem precisava conjecturar. Todavia, sabíamos que fãs de Rock, em todas as suas vertentes, existiam nos bairros da periferia, portanto, por quê não tentar atingir esse nicho, também ? Sendo práticos, é claro que seria uma oportunidade para tocarmos para Rockers mais humildes, que não tinham dinheiro para pagar ingressos em teatros ou danceterias de bairros nobres, onde costumávamos tocar. Sendo assim, Maomé iria até a montanha. Desprovidos de qualquer afetação, apesar de estarmos com exposição midiática acima da média para uma banda underground, e a ostentar uma agenda de shows significativa, embora não tivéssemos um empresário exclusivo, e dentro desse raciocínio todo, aceitamos fazer a experiência inicial. 

Dessa forma, foi marcado um show para o início de agosto, no salão da "Sociedade Amigos de Vila Formosa", ou seja, uma associação de bairro. A Vila Formosa não é periférica, pelo contrário, é um bairro tradicional e bem estruturado da zona leste de São Paulo, mas se desse certo, os contatos do sujeito, apontavam aí sim, para bairros longínquos do extremo da zona leste da cidade, principalmente. Então, no dia 10 de agosto de 1985, tocamos no "S.A. de Vila Formosa", mas apesar da camaradagem entre as bandas, deu tudo errado, ao demonstrar que o rapaz deveria mesmo prosseguir com os seus artistas brega obscuros, e sem dúvida, com a proposta de shows realizados sob "playback", isto é, a famigerada dublagem...

Bingo... o sujeito recebeu uma lista de equipamento mínimo, mas no dia do show, o P.A. que havia no local, mostrou-se simplesmente horroroso, assim como a iluminação. Enfim, diante disso, perdemos a esperança em qualquer tipo de negociação posterior com o rapaz, assim como o Cesar Achon, que ficou chateado, também. O evento até ganhou um nome charmoso nos cartazes e filipetas : "Rock in Concert".


Mas além da estrutura ter sido péssima, o público esperado não compareceu. Apenas cento e oitenta pessoas pagaram ingressos, em meio a um salão que era bem grande, onde caberia entre oitocentas a mil pessoas, tranquilamente. Fizemos o show, mas com grande sacrifício, pois o equipamento realmente fora um desastre. Graças ao Cesar Achon, inclusive, ficou melhor, por conta de seus esforços de última hora para amenizar a situação, ao trazer reforço de equipamento seu, de casa. Contudo, foi duro tocar naquela reverberação de um salão grande, e semi-vazio, com aquele equipamento péssimo. 

O próximo show, ainda em agosto, teria tudo para ser um desastre igual ou pior, mas revelou-se uma grata surpresa.


Continua...

sábado, 20 de dezembro de 2014

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 214 - Por Luiz Domingues


Sobre a decisão do produtor, Luiz Calanca, em lançar o nosso disco sob a rotação de 45 RPM, claro que tal decisão de sua parte, assustou-nos. Esperávamos lançar o álbum com a tradicional rotação de 33 1/3, ou seja, um formato de Long Play (LP). Quando ele comunicou-nos, de imediato questionamos a sua decisão, pois certamente geraria confusões com muita gente a colocar o disco para rodar na rotação errada etc e tal. A argumentação dele, foi em torno de que o formato 45 RPM era uma tendência alternativa, que seria moda em Londres, novamente naquele instante, portanto, seria interessante adotarmos tal concepção.

Pelo aspecto técnico, a argumentação foi baseada no fato do disco conter sulcos mais largos, e assim ganhar em qualidade sonora, com pontas de graves e agudos, a ser realçadas. E outro fato, de ordem econômica, pois pelo fato em conter sulcos mais largos, apresentaria menos faixas, e por ter menos faixas, poderia essa economia ser repassada ao consumidor, com o EP de 45 RPM, a cobrar um preço intermediário entre o compacto e o LP. Bons argumentos, todos, mas o definitivo e mais óbvio foi : ele, Calanca, estava a bancar, ele mandava... 

Todavia, o nosso temor pela confusão advinda dessa mudança de rotação, em face do que as pessoas não estavam habituadas, também fora um bom argumento, e infelizmente tivemos a constatação disso, assim que o disco foi lançado no mercado. Insistimos muito para que uma tarja fosse introduzida na capa, a deixar claro ao consumidor, que tal disco não tocaria corretamente na rotação tradicional, e que o usuário precisaria mudar a rotação de seu pick-up para ouvi-lo corretamente, no entanto, o Calanca não achou necessária tal medida, ao alegar que as pessoas acostumar-se-iam facilmente com tal modificação.

Outro fator que preciso registrar neste ponto da minha autobiografia e da história d'A Chave do Sol : desde a estreia, ouvíamos comentários negativos sobre a performance do novo vocalista, Fran Alves. 


E nesses meses todos, de janeiro até julho, que é o ponto onde encontro-me na narrativa, recebemos muitas cartas enviadas por  fãs, com esse tipo de opinião negativa sobre a voz e a performance dele, como intérprete e frontman. Aquelas cartas e comentários que ouvia, entristeciam-me, pois considerava o Fran Alves, um vocalista de alto quilate, com desenvoltura em todos os sentidos da vocalização. Ele tinha técnica, pois respirava corretamente, ao extrair a emanação de sua voz, diretamente do diafragma. Tinha afinação excelente; potência vocal impressionante; emissão; dicção; alcance enorme nos graves mais baixos, e agudos muito altos. O seu timbre era interessante, ainda que eu reconheça que a rouquidão é um recurso que nem todo mundo aprecia. Não é todo mundo que gosta do Rod Stewart, mas ninguém pode negar que ele seja um tremendo cantor, e eu achava isso exatamente sobre o Fran Alves. Porém, fui convenci-me que infelizmente, eu não fazia parte da maioria, e pelo contrário, representava a minoria. Somente os membros da banda, e o poeta, Julio Revoredo teciam elogios à ele. 

Chegou-se em um ponto, em que eu precisei ter um jogo de cintura para não deixar que ele lesse as cartas de fãs, e como membro da banda, ele tinha todo o direito de ler e querer responder, mas eu evitei a todo custo que magoasse-se com tais ataques. E houve o lado humano, é claro. Desde que entrou na banda, afeiçoamo-nos à ele, pois ele era um Ser Humano sensacional. Eu e Zé Luiz (o Rubens, bem menos), tornamo-nos muito amigos dele. Eu, particularmente admirava-o pela luta em prol do seu sonho em vencer na música, viver da sua arte etc. A sua bondade e generosidade eram enormes e basta ler a letra da canção : "Um Minuto Além", que era de sua autoria, para ter-se a ideia de seus ideais nobres como pessoa humana, e artista. 

Então, cada vez que eu lia uma carta a falar algo desagradável sobre ele, tal manifestação alheia partia-me o coração, pelo aspecto humano, pois achava injusto da parte do fã, não considerar esse lado, e claro que ninguém nem pensa nisso, em tese, quando emite uma opinião sobre um artista. Outro aspecto : estávamos a mudar a sonoridade da banda. A maioria dos fãs que manifestavam-se, mantinham na mente, a "velha", A Chave do Sol, a tocar como trio, e muito calcada no Jazz-Rock dos anos setenta. Agora, com esse repertório mais pesado e "moderno" para os anos oitenta, precisávamos de um vocalista a apresentar "punch", e o Fran Alves em nossa concepção, foi um vocalista mais do adequado para a função. Mais que isso, o novo disco ainda nem havia sido lançado e deparávamo-nos com toda essa rejeição ? Aquilo chateava-me profundamente. Bem, mesmo com meus esforços em não deixar que ele tomasse ciência do teor das cartas escritas por fãs, ele era inteligente e sensível, ao perceber evidentemente, que nos shows, havia um clima ruim para ele, por parte de alguns fãs. 

Digo isso com muito pesar, mas cheguei a presenciar fãs a abordar-nos no camarim de um pós-show, com a postura abominável em colher autógrafos do trio original, e ignorá-lo retumbantemente. Eu e Zé Luiz falamos com ele (aconteceu no Teatro Lira Paulistana, certa vez), ao tentar minimizar o mal-estar, mas por mais que solidarizássemo-nos e ofertássemos o devido suporte, claro que ele magoava-se com a situação gerada por fatores de ordem externo. Lamento revelar tudo isso na narrativa, mas não poderia omitir a verdade, aos fãs do trabalho. Além do mais, tal rejeição sistemática por parte dos fãs, foi o fator preponderante que minou a sua permanência na banda por mais tempo, porém ainda é cedo para falar desse momento de ruptura. Por enquanto, fica só o registro de que ele foi um grande vocalista, e um tremendo Ser Humano, que infelizmente sofreu com tais manifestações do público, e não houve nada que pudéssemos fazer para reverter esse quadro ou no mínimo, amenizá-lo. 
Continua...

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 213 - Por Luiz Domingues


E o que ocorreu foi que a última música a ser mixada tratou-se de :  "Um Minuto Além". Estávamos a começar a levantar o som do baixo, quando notamos que infelizmente a 4 ª corda, "Mi", estava um pouco fora da afinação. Pareceu algo inacreditável, mas ninguém havia notado essa falha durante as gravações das bases. Ouvimos novamente por dezenas de vezes a mesma canção, durante as sessões de overdub da guitarra, e mais uma centena de ocasiões nas gravações dos vocais. De minha parte, eu sempre fui paranoico com afinação em sessões de gravação. Além de estar atento ao ouvido, checava constantemente a afinação do instrumento, com o afinador eletrônico. 

Portanto, quase 13:00 horas de um domingo, onde estávamos a trabalhar exaustivamente desde as 18:00 horas do sábado, e um problema desses surge, do nada... pois até então, tínhamos ouvido incontáveis vezes a música, e só naquele momento, essa desafinação fora sentida. Tratou-se de um desnível muito sutil. Algo de menos de meio-coma (coma é uma subdivisão milimétrica de uma nota musical a definir-se com um conjunto de vibrações), mas claro que não poderíamos mixar a música daquela forma, e mandar prensar o disco com uma falha desse porte. Por outro lado, o Luiz Calanca precisava sair do Vice-Versa com a fita de meia polegada na mão, porque na segunda-feira, havia agendado a sessão de corte de acetato, no estúdio da RCA, com o Oswaldo Martins, o técnico que mais "cortou" discos no Brasil, por décadas. 

Então, mesmo extenuado, prontifiquei-me para ir buscar o meu baixo. Se ele estivesse na casa do Rubens, teria sido muito rápido, com o trajeto entre os bairros de Pinheiros e Itaim-Bibi, a ser cumprido em poucos minutos, ainda mais em um domingo. Mas ele encontrava-se em minha residência, no Tatuapé, zona leste de São Paulo, e isso demandaria bem mais tempo. Sendo assim, o Zé Luiz, o técnico, ofereceu um baixo de sua propriedade, que segundo ele, estava bem regulado e com cordas novas e importadas instaladas (acho que eram da marca GHS, não lembro-me ao certo, mas eram de meu inteiro agrado, pois eu só usava cordas da marca GHS ou Rotosound nessa época). De pronto aceitei a oferta, para facilitar as coisas, visto que o baixo estava ali no estúdio. O Zé Luiz tocava baixo e bateria. O único problema, seria que tratava-se de um baixo... Giannini...

Naquela época, o preconceito com os instrumentos nacionais era enorme e de fato, infelizmente, eram instrumentos muito inferiores em relação às marcas consagradas internacionais. Claro que a ideia era regravar com o meu Fender Jazz Bass, mas não havia tempo hábil para outra solução, pois precisávamos apanhar o instrumento, levantar o som, regravar e voltar à mixagem. Bem, pois ele de fato estava impecável, com as cordas a "tinir",  com aquele timbre característico de "novas". Eu gravei, e ficou perfeito. Esse segredo, ficou guardado por vinte e oito anos (este trecho foi escrito em 2013), até que eu começasse a contá-lo nestas linhas. Somente a banda; o produtor Luiz Calanca; o técnico Zé Luiz, e a namorada do Fran Alves à época, souberam disso ! Sem preconceitos, digo que o resultado ficou à altura do Fender que eu usei nas outras canções. Ninguém, nunca reparou que nessa faixa, eu tivesse usado outro baixo, e supostamente a ostentar um nível de qualidade inferior. Lembro-me que fora um baixo de cor vermelha, no tom "cherry", com o escudo branco e perolado. 

Por volta das 18:00 horas do domingo, a mixagem foi dada por encerrada, a estabelecer uma maratona insana com vinte e quatro horas, e muito cansaço envolvido nesse esforço. Estavam encerradas as gravações e mixagens do segundo álbum d'A Chave do Sol.

No dia seguinte, o Rubens representou a banda na sessão de corte, nos estúdios da RCA, com o produtor, Luiz Calanca, presente também, naturalmente. O fotolito da capa já estava pronto, e após um teste de cor rejeitado (o vermelho da contra capa ficou desbotado na primeira prova da gráfica), finalmente o Luiz Calanca o aprovou, e encomendou a sua impressão. Sobre a questão dele ter sido lançado em 45 rpm, falo logo mais, e tenho histórias, algumas hilárias, sobre as confusões que essa decisão gerou...



Continua...