sábado, 20 de dezembro de 2014

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 214 - Por Luiz Domingues


Sobre a decisão do produtor, Luiz Calanca, em lançar o nosso disco sob a rotação de 45 RPM, claro que tal decisão de sua parte, assustou-nos. Esperávamos lançar o álbum com a tradicional rotação de 33 1/3, ou seja, um formato de Long Play (LP). Quando ele comunicou-nos, de imediato questionamos a sua decisão, pois certamente geraria confusões com muita gente a colocar o disco para rodar na rotação errada etc e tal. A argumentação dele, foi em torno de que o formato 45 RPM era uma tendência alternativa, que seria moda em Londres, novamente naquele instante, portanto, seria interessante adotarmos tal concepção.

Pelo aspecto técnico, a argumentação foi baseada no fato do disco conter sulcos mais largos, e assim ganhar em qualidade sonora, com pontas de graves e agudos, a ser realçadas. E outro fato, de ordem econômica, pois pelo fato em conter sulcos mais largos, apresentaria menos faixas, e por ter menos faixas, poderia essa economia ser repassada ao consumidor, com o EP de 45 RPM, a cobrar um preço intermediário entre o compacto e o LP. Bons argumentos, todos, mas o definitivo e mais óbvio foi : ele, Calanca, estava a bancar, ele mandava... 

Todavia, o nosso temor pela confusão advinda dessa mudança de rotação, em face do que as pessoas não estavam habituadas, também fora um bom argumento, e infelizmente tivemos a constatação disso, assim que o disco foi lançado no mercado. Insistimos muito para que uma tarja fosse introduzida na capa, a deixar claro ao consumidor, que tal disco não tocaria corretamente na rotação tradicional, e que o usuário precisaria mudar a rotação de seu pick-up para ouvi-lo corretamente, no entanto, o Calanca não achou necessária tal medida, ao alegar que as pessoas acostumar-se-iam facilmente com tal modificação.

Outro fator que preciso registrar neste ponto da minha autobiografia e da história d'A Chave do Sol : desde a estreia, ouvíamos comentários negativos sobre a performance do novo vocalista, Fran Alves. 


E nesses meses todos, de janeiro até julho, que é o ponto onde encontro-me na narrativa, recebemos muitas cartas enviadas por  fãs, com esse tipo de opinião negativa sobre a voz e a performance dele, como intérprete e frontman. Aquelas cartas e comentários que ouvia, entristeciam-me, pois considerava o Fran Alves, um vocalista de alto quilate, com desenvoltura em todos os sentidos da vocalização. Ele tinha técnica, pois respirava corretamente, ao extrair a emanação de sua voz, diretamente do diafragma. Tinha afinação excelente; potência vocal impressionante; emissão; dicção; alcance enorme nos graves mais baixos, e agudos muito altos. O seu timbre era interessante, ainda que eu reconheça que a rouquidão é um recurso que nem todo mundo aprecia. Não é todo mundo que gosta do Rod Stewart, mas ninguém pode negar que ele seja um tremendo cantor, e eu achava isso exatamente sobre o Fran Alves. Porém, fui convenci-me que infelizmente, eu não fazia parte da maioria, e pelo contrário, representava a minoria. Somente os membros da banda, e o poeta, Julio Revoredo teciam elogios à ele. 

Chegou-se em um ponto, em que eu precisei ter um jogo de cintura para não deixar que ele lesse as cartas de fãs, e como membro da banda, ele tinha todo o direito de ler e querer responder, mas eu evitei a todo custo que magoasse-se com tais ataques. E houve o lado humano, é claro. Desde que entrou na banda, afeiçoamo-nos à ele, pois ele era um Ser Humano sensacional. Eu e Zé Luiz (o Rubens, bem menos), tornamo-nos muito amigos dele. Eu, particularmente admirava-o pela luta em prol do seu sonho em vencer na música, viver da sua arte etc. A sua bondade e generosidade eram enormes e basta ler a letra da canção : "Um Minuto Além", que era de sua autoria, para ter-se a ideia de seus ideais nobres como pessoa humana, e artista. 

Então, cada vez que eu lia uma carta a falar algo desagradável sobre ele, tal manifestação alheia partia-me o coração, pelo aspecto humano, pois achava injusto da parte do fã, não considerar esse lado, e claro que ninguém nem pensa nisso, em tese, quando emite uma opinião sobre um artista. Outro aspecto : estávamos a mudar a sonoridade da banda. A maioria dos fãs que manifestavam-se, mantinham na mente, a "velha", A Chave do Sol, a tocar como trio, e muito calcada no Jazz-Rock dos anos setenta. Agora, com esse repertório mais pesado e "moderno" para os anos oitenta, precisávamos de um vocalista a apresentar "punch", e o Fran Alves em nossa concepção, foi um vocalista mais do adequado para a função. Mais que isso, o novo disco ainda nem havia sido lançado e deparávamo-nos com toda essa rejeição ? Aquilo chateava-me profundamente. Bem, mesmo com meus esforços em não deixar que ele tomasse ciência do teor das cartas escritas por fãs, ele era inteligente e sensível, ao perceber evidentemente, que nos shows, havia um clima ruim para ele, por parte de alguns fãs. 

Digo isso com muito pesar, mas cheguei a presenciar fãs a abordar-nos no camarim de um pós-show, com a postura abominável em colher autógrafos do trio original, e ignorá-lo retumbantemente. Eu e Zé Luiz falamos com ele (aconteceu no Teatro Lira Paulistana, certa vez), ao tentar minimizar o mal-estar, mas por mais que solidarizássemo-nos e ofertássemos o devido suporte, claro que ele magoava-se com a situação gerada por fatores de ordem externo. Lamento revelar tudo isso na narrativa, mas não poderia omitir a verdade, aos fãs do trabalho. Além do mais, tal rejeição sistemática por parte dos fãs, foi o fator preponderante que minou a sua permanência na banda por mais tempo, porém ainda é cedo para falar desse momento de ruptura. Por enquanto, fica só o registro de que ele foi um grande vocalista, e um tremendo Ser Humano, que infelizmente sofreu com tais manifestações do público, e não houve nada que pudéssemos fazer para reverter esse quadro ou no mínimo, amenizá-lo. 
Continua...

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