Quando Tomas pode ir ao Rio, seu encontro com Décio é sagrado na
enseada de Botafogo, onde o segundo tem um barco de dois andares, que é
simplesmente uma delícia.
Os dois são sujeitos acima das estatísticas,
porque são intelectuais, místicos e doutores, o supra-sumo da delicadeza
e da profundidade em termos de gente.
Verdadeiros discípulos de Saint
Martin.
Como sabem ler e escrever corretamente, além de terem bebido dos
grandes clássicos, tornaram-se de certo modo solitários no mundo
pós-moderno, sobretudo Tomas, viúvo. Toda vez que se encontram Décio
pergunta, ao leme:
-- E ai, Tomas, Já fazem dez anos. Tá na hora de você casar de novo.
-- Deixa isso quieto, irmão. Esse mercado de amor anda muito sinistro.
-- Mas você não está interessado em ninguém?
-- Até estive, numa gordinha que tinha um sorriso lindo.
-- Pessoal ou virtual?
-- Virtual, mas ela se revelou.
-- O que foi?
-- Ah, cara, um dia ela postou na rede social : “essa merda de Igreja”.
Fiquei apavorado.
Uma mulher que chama a santa madre igreja de merda,
de que não me chamaria dentro de casa, não é mesmo ?
-- Pulei fora antes mesmo de começar. Esse negócio de sorriso bonito engana a gente.
-- Nossa Senhora, nem diga. Por isso, eu parei num filho só. Pelo menos
noventa por cento das pessoas que conheço dessa geração, espero não
encontrar na outra margem do rio.
Essa coisa de rede social engana
muito.
Outro dia vi o pior jornalista do Rio com um belo sorriso na cara
redonda, e não sabia se ria ou chorava, parecia gente, mas é um ogro o
cara.
Tão bonitinho, tão engomado e sorrindo com a careca brilhante que
pega qualquer chapeuzinho vermelho na floresta.
Tomas, pega lá embaixo
uma long neck para a gente. Vamos voltar para a paisagem que é melhor.
Vamos ficar na paz de toda natureza sem gente.
Escuta isso aqui –
concluiu Décio, colocando os clássicos segundo o piano de Richard
Clayderman.
O barco ?
Deslizava na baia, onde ambos
recebiam o sol, o céu, o mar. O que ninguém conseguia ver, todavia, era a
alegria dos anjos naquela solidão de amigos.
Marcelino Rodriguez é colunista ocasional do Blog Luiz Domingues 2. Escritor de vasta e consagrada obra, nos traz aqui uma crônica leve, porém reflexiva.
Neste meu segundo Blog, convido amigos para escrever; publico material alternativo de minha autoria, e não publicado em meu Blog 1, além de estar a publicar sob um formato em micro capítulos, o texto de minha autobiografia na música, inclusive com atualizações que não constam no livro oficial. E também anuncio as minhas atividades musicais mais recentes.
sexta-feira, 5 de dezembro de 2014
quinta-feira, 4 de dezembro de 2014
Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 212 - Por Luiz Domingues
As gravações avançaram bastante em julho,
a culminar com o encerramento das vozes. Estávamos satisfeitos com toda a
captura, e agora viria a mixagem. Sei que o que vou contar aqui poderá causar um choque para alguns leitores, e entendo que realmente não tem o menor cabimento, sob qualquer hipótese. Todavia,
a mixagem foi feita em uma sessão única, estendida, é verdade, mas sob o
aspecto da economia máxima que um selo de pequeno porte como era a
Baratos Afins, poderia disponibilizar-nos, foi o melhor que tivemos,
infelizmente.
Então, em um sábado, entramos no estúdio por volta das 18:00 horas. e com o objetivo em mixar o álbum inteiro, ou até onde a condição humana permitisse. Nem perderei tempo em dizer o quanto é um procedimento errado, pois tudo o que eu disser, poderá ser mal interpretado pelo leitor leigo, no sentido de que poderá considerar como uma mera desculpa de minha parte. No entanto, quem é músico, e já gravou, sabe que a mixagem é a etapa mais delicada e para tanto, o ideal é que cada faixa do disco, seja trabalhada em uma sessão em separado, e se possível, com um intervalo de pelo menos um dia entre uma sessão e outra. Hoje em dia, com as gravações sendo feitas em processo digital, é possível cumprir a mixagem por etapas, e levar dias para fazer, sem perder nada, o que facilita demais o processo, mas naquela época, e a gravar em um estúdio comercial, com dezenas de clientes, se você interrompesse uma sessão para recomeçar em outro dia, simplesmente teria que começar tudo da estaca zero, a cada nova sessão.
Além de ser muito extenuante, o técnico / produtor e os próprios artistas envolvidos, tem que estar com o ouvido totalmente descansado para prestar muita atenção em detalhes ínfimos que até técnicos muito experientes tem dificuldade para perceber. Por isso, estou a tomar todo o cuidado para deixar claro, que não estou a falar tudo isso em tom de crítica pelo fato da Baratos Afins não poder proporcionar-nos tal mordomia, porque sei bem o quanto era dispendiosa a hora do estúdio, e ao mesmo tempo, curta, a verba de uma pequena gravadora. Em uma gravadora "major", em grandes produções, costumava-se destinar meses para um artista gravar o seu álbum, com margem até para o desperdício de tempo. Mas a nossa realidade fora bem diferente...
Posto isso, a mixagem foi assim, a toque de caixa, praticamente ao buscar um padrão geral de equalização para todas as canções. Dessa forma, quando levantamos o som de bateria da primeira música, praticamente mantivemos o mesmo padrão para as outras músicas, e a conter o mesmo procedimento adotado para o baixo; guitarra e voz.
Antes que eu esqueça-me, tivemos uma pequena participação especial do guitarrista / tecladista, Daril Parisi, do Platina , que gentilmente gravou uma participação aos teclados (arp-strings), na faixa : "Crisis (Maya)". Todavia, foi com um arranjo bem simples, nada marcante que pudesse fazer falta nas apresentações ao vivo, e de fato, nós tocávamos essa canção instrumental desde o início de 1983, em nossos shows. Enfim, a mixagem transcorreu dentro desse ritmo, porém, mesmo com toda essa pressa, demorou muitas horas. Mesmo que estivéssemos a trabalhar em uma única música, com o avançar das horas, não seria apenas o cansaço auditivo que prejudicaria o trabalho, mas o cansaço mental a estabelecer com que o ambiente tornasse-se um barril de pólvora, prestes a explodir. Não aconteceu nada nesse sentido mais exacerbado, mas claro que houve momentos sob tensão. Como fala-se popularmente : "mixagem é o momento onde as bandas brigam e acabam"...
De fato, trata-se de um momento tenso, onde o ego de cada um faz-se presente, e não necessariamente em prol do bem comum da banda. Tirante isso, existe o produtor a cobrar rapidez porque os ponteiros do relógio voam, literalmente, e refletem incisivamente no seu bolso, e algumas vezes existe embates estéticos com o técnico que está a operar a máquina (e tal tipo de questionamento estético não é da alçada de operadores de som, certamente). Não foi fácil lidar com o Zé Luiz, o técnico, que detinha uma personalidade forte, por exemplo.
A nossa sorte, foi que a banda estava coesa e sabia bem o que queria. E essa coerência interna entre nós, já foi um tremendo agente facilitador, em uma mixagem feita inadequadamente através de uma sessão apenas, para fechar o disco inteiro. Marcamos pequenas pausas para comer e espairecer, é verdade. No entanto, mesmo assim, foi bem cansativo. Lógico, muitas operações finais ainda usavam o recurso de muitas mãos a cumprir as pilotagens e que demandava a existência de pequenos ensaios sincronizados. Para a garotada de hoje em dia que nunca gravou à moda antiga, com gravador de fita e sem nenhuma automação digital, parece bizarro, mas com aquela quantidade absurda de botões para ser operados em tempo real, o único recurso humanamente possível era feito em torno de todos os músicos da banda a cooperar, a fazer a pilotagem, junto com o técnico e bastava um elemento apenas errar uma marcação, e a mixagem ficava arruinada, ao precisar que começasse-se tudo de novo...
Por volta das nove horas da manhã, decidimos estabelecer uma pausa maior, para um café reforçado na padaria da esquina. Estávamos todos extenuados, mas ainda faltavam duas músicas para mixar e fechar o disco. Mais ou menos às 13:00 horas, o trabalho encerrou-se, mas nesse instante, um fato dramático (ao considerar-se o cansaço), ocorreu...
Continua...
Então, em um sábado, entramos no estúdio por volta das 18:00 horas. e com o objetivo em mixar o álbum inteiro, ou até onde a condição humana permitisse. Nem perderei tempo em dizer o quanto é um procedimento errado, pois tudo o que eu disser, poderá ser mal interpretado pelo leitor leigo, no sentido de que poderá considerar como uma mera desculpa de minha parte. No entanto, quem é músico, e já gravou, sabe que a mixagem é a etapa mais delicada e para tanto, o ideal é que cada faixa do disco, seja trabalhada em uma sessão em separado, e se possível, com um intervalo de pelo menos um dia entre uma sessão e outra. Hoje em dia, com as gravações sendo feitas em processo digital, é possível cumprir a mixagem por etapas, e levar dias para fazer, sem perder nada, o que facilita demais o processo, mas naquela época, e a gravar em um estúdio comercial, com dezenas de clientes, se você interrompesse uma sessão para recomeçar em outro dia, simplesmente teria que começar tudo da estaca zero, a cada nova sessão.
Além de ser muito extenuante, o técnico / produtor e os próprios artistas envolvidos, tem que estar com o ouvido totalmente descansado para prestar muita atenção em detalhes ínfimos que até técnicos muito experientes tem dificuldade para perceber. Por isso, estou a tomar todo o cuidado para deixar claro, que não estou a falar tudo isso em tom de crítica pelo fato da Baratos Afins não poder proporcionar-nos tal mordomia, porque sei bem o quanto era dispendiosa a hora do estúdio, e ao mesmo tempo, curta, a verba de uma pequena gravadora. Em uma gravadora "major", em grandes produções, costumava-se destinar meses para um artista gravar o seu álbum, com margem até para o desperdício de tempo. Mas a nossa realidade fora bem diferente...
Posto isso, a mixagem foi assim, a toque de caixa, praticamente ao buscar um padrão geral de equalização para todas as canções. Dessa forma, quando levantamos o som de bateria da primeira música, praticamente mantivemos o mesmo padrão para as outras músicas, e a conter o mesmo procedimento adotado para o baixo; guitarra e voz.
Antes que eu esqueça-me, tivemos uma pequena participação especial do guitarrista / tecladista, Daril Parisi, do Platina , que gentilmente gravou uma participação aos teclados (arp-strings), na faixa : "Crisis (Maya)". Todavia, foi com um arranjo bem simples, nada marcante que pudesse fazer falta nas apresentações ao vivo, e de fato, nós tocávamos essa canção instrumental desde o início de 1983, em nossos shows. Enfim, a mixagem transcorreu dentro desse ritmo, porém, mesmo com toda essa pressa, demorou muitas horas. Mesmo que estivéssemos a trabalhar em uma única música, com o avançar das horas, não seria apenas o cansaço auditivo que prejudicaria o trabalho, mas o cansaço mental a estabelecer com que o ambiente tornasse-se um barril de pólvora, prestes a explodir. Não aconteceu nada nesse sentido mais exacerbado, mas claro que houve momentos sob tensão. Como fala-se popularmente : "mixagem é o momento onde as bandas brigam e acabam"...
De fato, trata-se de um momento tenso, onde o ego de cada um faz-se presente, e não necessariamente em prol do bem comum da banda. Tirante isso, existe o produtor a cobrar rapidez porque os ponteiros do relógio voam, literalmente, e refletem incisivamente no seu bolso, e algumas vezes existe embates estéticos com o técnico que está a operar a máquina (e tal tipo de questionamento estético não é da alçada de operadores de som, certamente). Não foi fácil lidar com o Zé Luiz, o técnico, que detinha uma personalidade forte, por exemplo.
A nossa sorte, foi que a banda estava coesa e sabia bem o que queria. E essa coerência interna entre nós, já foi um tremendo agente facilitador, em uma mixagem feita inadequadamente através de uma sessão apenas, para fechar o disco inteiro. Marcamos pequenas pausas para comer e espairecer, é verdade. No entanto, mesmo assim, foi bem cansativo. Lógico, muitas operações finais ainda usavam o recurso de muitas mãos a cumprir as pilotagens e que demandava a existência de pequenos ensaios sincronizados. Para a garotada de hoje em dia que nunca gravou à moda antiga, com gravador de fita e sem nenhuma automação digital, parece bizarro, mas com aquela quantidade absurda de botões para ser operados em tempo real, o único recurso humanamente possível era feito em torno de todos os músicos da banda a cooperar, a fazer a pilotagem, junto com o técnico e bastava um elemento apenas errar uma marcação, e a mixagem ficava arruinada, ao precisar que começasse-se tudo de novo...
Por volta das nove horas da manhã, decidimos estabelecer uma pausa maior, para um café reforçado na padaria da esquina. Estávamos todos extenuados, mas ainda faltavam duas músicas para mixar e fechar o disco. Mais ou menos às 13:00 horas, o trabalho encerrou-se, mas nesse instante, um fato dramático (ao considerar-se o cansaço), ocorreu...
Continua...
quarta-feira, 3 de dezembro de 2014
Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 211 - Por Luiz Domingues
De volta à gravação do EP, as sessões para gravar-se os overdubs de guitarras e vocais,
ocorreram em várias madrugadas do mês de julho de 1985. Foi tudo
bastante corrido, pois não tínhamos muitas horas disponíveis, isso porque o
produtor, Luiz Calanca ofereceu-nos um orçamento bastante modesto, no
padrão típico de produções independentes. Lógico, além de termos a
compreensão de que fora o melhor que o Luiz Calanca poderia oferecer-nos, estávamos gratos pela oportunidade, e quero deixar bem claro
que houve um esforço bem grande de nossa parte em sermos colaborativos.
Luiz Calanca e Rubens na técnica, a ouvir o material gravado.
Presentes também, o guitarrista da banda Fênix, Iran Bressan, sentado e a usar camiseta preta com estampa do guitarrista, Eddie Van Halen; no canto direito, semi-encoberto, vê-se ainda que encoberto, Ricardo Giudice, guitarrista do Abutre, e eu, Luiz Domingues, que estou sentado e encoberto, na linha da lata de cerveja na mão do Rubens. Click de Carlos Muniz Ventura
No caso das sessões de guitarra, o Rubens trabalhou com todo o nosso apoio e foi tudo tranquilo, apesar de corrido. Todos os solos e contra-solos estavam montados previamente, mediante os nossos ensaios caseiros. Eventuais novidades criadas sob improviso, foram mais em termos de efeitos, principalmente a alavancada de extensão na região grave, que deu um toque "Tony Iommi", na música "Ufos".
Em relação aos vocais do Fran Alves, um fato muito engraçado aconteceu logo na primeira sessão : enquanto ele fazia os seus primeiros testes para estabelecer o "level" para o técnico, ouvíamos um sutil zunido em cada emissão ocorrida em seu microfone. O técnico pensou em mil coisas relacionadas à frequências, depois mexeu nos patches de paramétricos e por fim, intrigado, checou a sala de gravação à procura de algum objeto que pudesse estar a vibrar e assim permitir essa estranha frequência, que parecia-se com um autêntico, "wistle". Então, para a surpresa de todos, o Fran soltou uma frase que despertou a atenção de todos : -"Ah... acho que eu já sei o que é"...
Inacreditavelmente, colocou a mão em sua boca, e através de um movimento forte, porém calculado, arrancou um pivô de sua arcada dentária ! Ficamos todos atônitos com essa atitude inusitada, mas desdentado e convicto do que estava a fazer, pediu para voltarmos aos testes, indo direto para a sala de gravação. E assim que começou a cantar, novamente, o estranho zumbido erradicara-se !
Rimos muito da situação, que na verdade fora tragicômica, no entanto, de fato, o pivô que não estava devidamente cimentado com o material odontológico, produzia esse sutil sopro, que submetido a um microfone dotado de uma sensibilidade absurda, parecia um canto de Banshee... e mais engraçado ainda, foi que ele o recolocava tranquilamente em sua arcada dentária, ao demonstrar estar acostumado com essa espécie de auto-odontologia, digamos assim...
Tudo correu bem depois desse artifício insólito da parte dele, e assim foram as sessões de gravação dos vocais do vocalista Fran Alves. Outro fator que precisa ser lembrado : no início das gravações, o técnico de som foi um sujeito chamado, "Nico". Ele fez a captura inicial das bases, mas logo a seguir, por uma determinação da direção do estúdio Vice-Versa, assumiu outro técnico, chamado, Zé Luiz.
Alta madrugada, a ouvir o resultado até ali coletado...
Na frente, sentados, Zé Luiz, o técnico; o produtor fonográfico, Luiz Calanca dorme sobre duas cadeiras, e Fran Alves. Em pé, da esquerda para a direita : Eliane Daic (produtora da banda e namorada do Zé Luiz Dinola na ocasião); Zé Luiz Dinola; Luiz Domingues; Rubens Gióia; e Iran Bressan (guitarrista da banda Fênix). Click de Carlos Muniz Ventura, baixista da banda Fênix.
Esse Zé Luiz era bem mais jovem, mas demonstrava capacidade, e o que tranquilizou-nos, sem dúvida, foi o fato de que ele estava a operar as gravações do disco do Platina, após a retomada dos trabalhos dessa banda, conforme já expliquei anteriormente. Dois pontos negativos eram salientes na personalidade dele :
1) Infelizmente, era um pouco distante, e demoramos um pouco para estabelecermos uma proximidade, visto que o Nico era bem mais simples no trato pessoal;
2) Ele demonstrava estar obcecado por conceitos modernosos de áudio, e no meio da década de oitenta, tornara-se impossível que não fosse alguma coisa abominável...
Outra foto do mesmo momento de cansaço no estúdio Vice-Versa, mas o click desta feita foi meu, para que o amigo, Carlos Muniz Ventura, pudesse ser fotografado. Ele é o quarto em pé, da esquerda para a direita, a usar uma camisa xadrez avermelhada.
De fato, nunca esqueço-me que em uma determinada madrugada dessas, uma discussão surgiu sobre como seria o padrão da mixagem, e o técnico fez um mise-en-scené para mostrar-nos o que ele considerava o máximo da qualidade moderna de uma mixagem. E não deu outra, eis que ele colocou sob um volume ensurdecedor, o hit "Relax", da banda britânica : "Frankie Goes to Hollywood".
As abominações que eu escutava das pessoas nos anos oitenta, veja só... nada como um dia após o outro, pois eu pergunto-lhe leitor amigo : o que representa "Frankie Goes to Hollywood" para a história do Rock ? Pois é...
Claro que era bem gravado e mixado, e claro que fora o que havia de mais moderno em termos de áudio, para 1985, mas também era um pastiche Pop, com a costumeira dose exagerada de reverber, típico daquela década. Fora os timbres de plástico daqueles instrumentos ridículos da época, sem nem ser necessário exprimir as razões pelas quais essa bandinha insignificante representava, estética e artisticamente a falar. E por fim, se fôssemos uma banda dessa estética do Pós-Punk, a flertar com o Techno-Pop oitentista, teria tudo a ver, mas nunca teríamos aquela sonoridade, e nem preciso explicar o por quê, não acha ?
Outra curiosa passagem com tal técnico, ocorreu em uma sessão de mixagem, posterior. Mediante o surgimento de uma polêmica levantada pelo Zé Luiz Dinola, ele irritou-se, a demonstrar um destempero fora de propósito. Irritado pelo pedido de mais volume em um tom-tom (um dos tambores de uma bateria), durante uma virada de determinada música, ele falou algo do tipo : -"Ah, querem mais volume ? Então toma"... para em seguida, levantar o botão master com certa truculência proposital.
A presença ilustre no estúdio, dos irmãos Giudice, Ricardo e Wagner, respectivamente guitarrista e vocalista do Abutre.Click de Carlos Muniz Ventura
E ainda nessa toada, mas agora em tom de piada, contou-nos uma "técnica" que usava para ludibriar músicos "chatos". Segundo ele, quando estes perturbavam-no para que ele imprimisse mais volume, ele colocava dois dedos a envolver o botão e os girava em falso, e em seguida falava para o músico : "e agora, melhorou" ? Em 99% dos casos, o músico dizia que sim, pois como um efeito placebo, psicologicamente acreditava que o volume aumentara, quando na verdade, não havia mudado nem um milímetro... Ha ha ha... foi óbvio que a galhofa conteve significado duplo com essa "revelação" de sua parte...
O produtor Luiz Calanca, vencido pelo cansaço na sessão de gravação. Click : Carlos Muniz Ventura
Ao ser justo, falei de aspectos negativos, mas com o tempo, ele colocou-se a afeiçoar-se um pouco mais conosco, e já nas sessões de mixagem, o clima foi quase em termos de camaradagem, mas nós entendíamos que o temperamento dele era assim mesmo.
A brincar de imitar a capa do LP Sheer Heart Attack, do Queen...
Continua...
Luiz Calanca e Rubens na técnica, a ouvir o material gravado.
Presentes também, o guitarrista da banda Fênix, Iran Bressan, sentado e a usar camiseta preta com estampa do guitarrista, Eddie Van Halen; no canto direito, semi-encoberto, vê-se ainda que encoberto, Ricardo Giudice, guitarrista do Abutre, e eu, Luiz Domingues, que estou sentado e encoberto, na linha da lata de cerveja na mão do Rubens. Click de Carlos Muniz Ventura
No caso das sessões de guitarra, o Rubens trabalhou com todo o nosso apoio e foi tudo tranquilo, apesar de corrido. Todos os solos e contra-solos estavam montados previamente, mediante os nossos ensaios caseiros. Eventuais novidades criadas sob improviso, foram mais em termos de efeitos, principalmente a alavancada de extensão na região grave, que deu um toque "Tony Iommi", na música "Ufos".
Em relação aos vocais do Fran Alves, um fato muito engraçado aconteceu logo na primeira sessão : enquanto ele fazia os seus primeiros testes para estabelecer o "level" para o técnico, ouvíamos um sutil zunido em cada emissão ocorrida em seu microfone. O técnico pensou em mil coisas relacionadas à frequências, depois mexeu nos patches de paramétricos e por fim, intrigado, checou a sala de gravação à procura de algum objeto que pudesse estar a vibrar e assim permitir essa estranha frequência, que parecia-se com um autêntico, "wistle". Então, para a surpresa de todos, o Fran soltou uma frase que despertou a atenção de todos : -"Ah... acho que eu já sei o que é"...
Inacreditavelmente, colocou a mão em sua boca, e através de um movimento forte, porém calculado, arrancou um pivô de sua arcada dentária ! Ficamos todos atônitos com essa atitude inusitada, mas desdentado e convicto do que estava a fazer, pediu para voltarmos aos testes, indo direto para a sala de gravação. E assim que começou a cantar, novamente, o estranho zumbido erradicara-se !
Rimos muito da situação, que na verdade fora tragicômica, no entanto, de fato, o pivô que não estava devidamente cimentado com o material odontológico, produzia esse sutil sopro, que submetido a um microfone dotado de uma sensibilidade absurda, parecia um canto de Banshee... e mais engraçado ainda, foi que ele o recolocava tranquilamente em sua arcada dentária, ao demonstrar estar acostumado com essa espécie de auto-odontologia, digamos assim...
Tudo correu bem depois desse artifício insólito da parte dele, e assim foram as sessões de gravação dos vocais do vocalista Fran Alves. Outro fator que precisa ser lembrado : no início das gravações, o técnico de som foi um sujeito chamado, "Nico". Ele fez a captura inicial das bases, mas logo a seguir, por uma determinação da direção do estúdio Vice-Versa, assumiu outro técnico, chamado, Zé Luiz.
Alta madrugada, a ouvir o resultado até ali coletado...
Na frente, sentados, Zé Luiz, o técnico; o produtor fonográfico, Luiz Calanca dorme sobre duas cadeiras, e Fran Alves. Em pé, da esquerda para a direita : Eliane Daic (produtora da banda e namorada do Zé Luiz Dinola na ocasião); Zé Luiz Dinola; Luiz Domingues; Rubens Gióia; e Iran Bressan (guitarrista da banda Fênix). Click de Carlos Muniz Ventura, baixista da banda Fênix.
Esse Zé Luiz era bem mais jovem, mas demonstrava capacidade, e o que tranquilizou-nos, sem dúvida, foi o fato de que ele estava a operar as gravações do disco do Platina, após a retomada dos trabalhos dessa banda, conforme já expliquei anteriormente. Dois pontos negativos eram salientes na personalidade dele :
1) Infelizmente, era um pouco distante, e demoramos um pouco para estabelecermos uma proximidade, visto que o Nico era bem mais simples no trato pessoal;
2) Ele demonstrava estar obcecado por conceitos modernosos de áudio, e no meio da década de oitenta, tornara-se impossível que não fosse alguma coisa abominável...
Outra foto do mesmo momento de cansaço no estúdio Vice-Versa, mas o click desta feita foi meu, para que o amigo, Carlos Muniz Ventura, pudesse ser fotografado. Ele é o quarto em pé, da esquerda para a direita, a usar uma camisa xadrez avermelhada.
De fato, nunca esqueço-me que em uma determinada madrugada dessas, uma discussão surgiu sobre como seria o padrão da mixagem, e o técnico fez um mise-en-scené para mostrar-nos o que ele considerava o máximo da qualidade moderna de uma mixagem. E não deu outra, eis que ele colocou sob um volume ensurdecedor, o hit "Relax", da banda britânica : "Frankie Goes to Hollywood".
As abominações que eu escutava das pessoas nos anos oitenta, veja só... nada como um dia após o outro, pois eu pergunto-lhe leitor amigo : o que representa "Frankie Goes to Hollywood" para a história do Rock ? Pois é...
Claro que era bem gravado e mixado, e claro que fora o que havia de mais moderno em termos de áudio, para 1985, mas também era um pastiche Pop, com a costumeira dose exagerada de reverber, típico daquela década. Fora os timbres de plástico daqueles instrumentos ridículos da época, sem nem ser necessário exprimir as razões pelas quais essa bandinha insignificante representava, estética e artisticamente a falar. E por fim, se fôssemos uma banda dessa estética do Pós-Punk, a flertar com o Techno-Pop oitentista, teria tudo a ver, mas nunca teríamos aquela sonoridade, e nem preciso explicar o por quê, não acha ?
Outra curiosa passagem com tal técnico, ocorreu em uma sessão de mixagem, posterior. Mediante o surgimento de uma polêmica levantada pelo Zé Luiz Dinola, ele irritou-se, a demonstrar um destempero fora de propósito. Irritado pelo pedido de mais volume em um tom-tom (um dos tambores de uma bateria), durante uma virada de determinada música, ele falou algo do tipo : -"Ah, querem mais volume ? Então toma"... para em seguida, levantar o botão master com certa truculência proposital.
A presença ilustre no estúdio, dos irmãos Giudice, Ricardo e Wagner, respectivamente guitarrista e vocalista do Abutre.Click de Carlos Muniz Ventura
E ainda nessa toada, mas agora em tom de piada, contou-nos uma "técnica" que usava para ludibriar músicos "chatos". Segundo ele, quando estes perturbavam-no para que ele imprimisse mais volume, ele colocava dois dedos a envolver o botão e os girava em falso, e em seguida falava para o músico : "e agora, melhorou" ? Em 99% dos casos, o músico dizia que sim, pois como um efeito placebo, psicologicamente acreditava que o volume aumentara, quando na verdade, não havia mudado nem um milímetro... Ha ha ha... foi óbvio que a galhofa conteve significado duplo com essa "revelação" de sua parte...
O produtor Luiz Calanca, vencido pelo cansaço na sessão de gravação. Click : Carlos Muniz Ventura
Ao ser justo, falei de aspectos negativos, mas com o tempo, ele colocou-se a afeiçoar-se um pouco mais conosco, e já nas sessões de mixagem, o clima foi quase em termos de camaradagem, mas nós entendíamos que o temperamento dele era assim mesmo.
A brincar de imitar a capa do LP Sheer Heart Attack, do Queen...
Continua...
Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 210 - Por Luiz Domingues
Estávamos nos bastidores, e
bastante animados por verificarmos que o público chegava aos borbotões, por todos
os portões do Parque. De fato, o peso do dinheiro investido pela
empresa cervejeira fez-se visível, com a divulgação caprichada
a surtir efeito.
O Ave de Veludo abriu o evento, com seu Blues-Rock ao sabor 1960 / 1970. Eu achava agradável o trabalho deles, mas como já salientei anteriormente, foi uma banda deslocada naquela década polarizada entre o Pós-Punk, "queridinho da mídia", e o Hard-Heavy "farofa" e / ou peso-pesado. O Gozo Metal veio a seguir, e sinceramente, a despeito de seus membros serem bons múiscos e pessoas bacanas, e o seu baixista , Orlando Lui, um exemplo de empreendedorismo, o seu som não despertava grandes emoções. Parecia ser um combo montado às pressas para surfar em uma onda, e de fato, acho que não estou a exagerar na minha percepção. Com relação ao Platina, que foi a terceira banda da noite, o seu som era o Hard oitentista, com muitos toques de virtuosismo, pois os três instrumentistas eram / são exímios músicos, muitas milhas acima da média nacional. Os irmãos Busic; Andria no baixo, e Ivan, na bateria, tocavam de uma forma sincronizada e virtuose, que dava a impressão que teriam aprendido a tocar os seus respectivos instrumentos, desde o berço. Mas na realidade, foi assim mesmo a trajetória deles, pois ambos são filhos do trompetista de Jazz, André Busic.
No caso do guitarrista, Daril Parisi, certamente que não ficava atrás. Excelente guitarrista e tecladista, Daril também era muito acima da maioria nesse meio do Hard / Heavy e por conseguinte, passava como um trator pela turma do Pós-Punk, e sua ruindade congênere (existe as honrosas exceções, Miguel Barela, é um deles). E ainda havia a exótica presença do vocalista / halterofilista, Seman, que tinha um vozeirão, é verdade, mas chamava mais a atenção pelo seu físico musculoso, como fisiculturista. Bem, o Platina agradou bem mais a plateia pelo seu potencial técnico mais avantajado, e de certa forma, as suas firulas virtuosísticas, aproximava-se bastante do som d'A Chave do Sol, nessa época do EP, principalmente. A diferença, foi que o Platina optou muito mais pelo Hard-Rock oitentista e sob teor americano, ou seja, a buscar o elemento Pop. Já em nosso caso, o Jazz-Rock setentista e firulento, que fazíamos nos nossos primórdios, mesclara-se agora a um peso mais "Heavy-Metal" e nesse caso, estávamos mais para o Metal britânico, digamos, ainda que não perfeitamente sincronizado com tal escola. O caminho do Hard-Pop oitentista, seria adotado por nós, sim, mas através de uma terceira guinada de nossa carreira, ainda no decorrer de 1985, porém a acentuar-se para valer nos anos de 1986 e 1987. Falta muita coisa para eu contar, antes de chegar nesse ponto.
Enfim, com o término da apresentação do Platina, o público mostra-se enorme e começara a escurecer, a possibilitar-se o uso de iluminação, elemento que nas edições anteriores da Praça do Rock, não ocorrera, por falta de verba.
Subimos ao palco e tocamos com muita energia. A frustração da noite anterior, onde não conseguíramos estabelecer contato com o público, estava superada totalmente, pois nesse domingo, a interação foi total. A responder aos estímulos do nosso vocalista, Fran Alves, o público foi inteiramente arrebatado. Lembro-me das primeiras fileiras, perto da grade de proteção, estar com uma enorme quantidade de braços esticados em nossa direção, ao demonstrar uma vibração típica de show, permeado pela emoção coletiva. A resumir : a tal da sinergia que faltara no Sesc Pompeia...
Cerca de cinco pessoas estiveram no evento, segundo a observação da Polícia Militar. Eu acho, particularmente, que essa avaliação foi muito modesta, e em minha opinião, houve um número bem maior de pessoas ali presentes.
Tanto foi assim, que eu lembro-me bem que a aglomeração tomou toda a frente da concha acústica, até a beirada do Lago, e as duas laterais estavam inteiramente tomadas até uma distância enorme, quase na metade de cada respectivo pavimento, que forma a pista de cooper do Parque. Portanto, foi uma multidão incrível. O som estava bom, com a monitoração muito melhor do que a da noite anterior, apesar de ser um show onde o soundcheck foi feito na base da correria total, por ter sido um show ao ar livre e daí, ultra corrido. Saímos de alma lavada, pois o nosso show arrancou muitos aplausos; gritos e urros do público. O nosso próximo compromisso seria em um salão, na zona leste de São Paulo, e esse show tem boas histórias para ser narradas...
No entanto, antes disso, preciso contar a história paralela da gravação do EP, que também contém fatos interessantes para ser descritos.
Continua...
O Ave de Veludo abriu o evento, com seu Blues-Rock ao sabor 1960 / 1970. Eu achava agradável o trabalho deles, mas como já salientei anteriormente, foi uma banda deslocada naquela década polarizada entre o Pós-Punk, "queridinho da mídia", e o Hard-Heavy "farofa" e / ou peso-pesado. O Gozo Metal veio a seguir, e sinceramente, a despeito de seus membros serem bons múiscos e pessoas bacanas, e o seu baixista , Orlando Lui, um exemplo de empreendedorismo, o seu som não despertava grandes emoções. Parecia ser um combo montado às pressas para surfar em uma onda, e de fato, acho que não estou a exagerar na minha percepção. Com relação ao Platina, que foi a terceira banda da noite, o seu som era o Hard oitentista, com muitos toques de virtuosismo, pois os três instrumentistas eram / são exímios músicos, muitas milhas acima da média nacional. Os irmãos Busic; Andria no baixo, e Ivan, na bateria, tocavam de uma forma sincronizada e virtuose, que dava a impressão que teriam aprendido a tocar os seus respectivos instrumentos, desde o berço. Mas na realidade, foi assim mesmo a trajetória deles, pois ambos são filhos do trompetista de Jazz, André Busic.
No caso do guitarrista, Daril Parisi, certamente que não ficava atrás. Excelente guitarrista e tecladista, Daril também era muito acima da maioria nesse meio do Hard / Heavy e por conseguinte, passava como um trator pela turma do Pós-Punk, e sua ruindade congênere (existe as honrosas exceções, Miguel Barela, é um deles). E ainda havia a exótica presença do vocalista / halterofilista, Seman, que tinha um vozeirão, é verdade, mas chamava mais a atenção pelo seu físico musculoso, como fisiculturista. Bem, o Platina agradou bem mais a plateia pelo seu potencial técnico mais avantajado, e de certa forma, as suas firulas virtuosísticas, aproximava-se bastante do som d'A Chave do Sol, nessa época do EP, principalmente. A diferença, foi que o Platina optou muito mais pelo Hard-Rock oitentista e sob teor americano, ou seja, a buscar o elemento Pop. Já em nosso caso, o Jazz-Rock setentista e firulento, que fazíamos nos nossos primórdios, mesclara-se agora a um peso mais "Heavy-Metal" e nesse caso, estávamos mais para o Metal britânico, digamos, ainda que não perfeitamente sincronizado com tal escola. O caminho do Hard-Pop oitentista, seria adotado por nós, sim, mas através de uma terceira guinada de nossa carreira, ainda no decorrer de 1985, porém a acentuar-se para valer nos anos de 1986 e 1987. Falta muita coisa para eu contar, antes de chegar nesse ponto.
Enfim, com o término da apresentação do Platina, o público mostra-se enorme e começara a escurecer, a possibilitar-se o uso de iluminação, elemento que nas edições anteriores da Praça do Rock, não ocorrera, por falta de verba.
Subimos ao palco e tocamos com muita energia. A frustração da noite anterior, onde não conseguíramos estabelecer contato com o público, estava superada totalmente, pois nesse domingo, a interação foi total. A responder aos estímulos do nosso vocalista, Fran Alves, o público foi inteiramente arrebatado. Lembro-me das primeiras fileiras, perto da grade de proteção, estar com uma enorme quantidade de braços esticados em nossa direção, ao demonstrar uma vibração típica de show, permeado pela emoção coletiva. A resumir : a tal da sinergia que faltara no Sesc Pompeia...
Cerca de cinco pessoas estiveram no evento, segundo a observação da Polícia Militar. Eu acho, particularmente, que essa avaliação foi muito modesta, e em minha opinião, houve um número bem maior de pessoas ali presentes.
Tanto foi assim, que eu lembro-me bem que a aglomeração tomou toda a frente da concha acústica, até a beirada do Lago, e as duas laterais estavam inteiramente tomadas até uma distância enorme, quase na metade de cada respectivo pavimento, que forma a pista de cooper do Parque. Portanto, foi uma multidão incrível. O som estava bom, com a monitoração muito melhor do que a da noite anterior, apesar de ser um show onde o soundcheck foi feito na base da correria total, por ter sido um show ao ar livre e daí, ultra corrido. Saímos de alma lavada, pois o nosso show arrancou muitos aplausos; gritos e urros do público. O nosso próximo compromisso seria em um salão, na zona leste de São Paulo, e esse show tem boas histórias para ser narradas...
No entanto, antes disso, preciso contar a história paralela da gravação do EP, que também contém fatos interessantes para ser descritos.
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Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 209 - Por Luiz Domingues
Chegamos cedo ao Parque da Aclimação, mas mesmo assim, já havia um público significativo, que chegara antecipadamente para garantir lugar próximo ao palco. Apenas à primeira vista que obtivemos, ainda na rua, tivemos o deslumbre de que o evento estava mesmo bastante aditivado em relação às edições anteriores. Foi impressionante o número de caminhões da empresa patrocinadora, que vimos pelas cercanias do Parque, e a movimentação de seus funcionários, a montar barracas. De fato, tratava-se de uma empresa de refrigerantes e cervejas, que veio apoiar com uma verba forte, e a disponibilizar a sua infraestrutura logística. Muitas barracas foram armadas para comercializar os seus produtos, e um material pesado de merchandising foi montado. Tudo bem que fora um tanto quanto espalhafatoso, mas impressionava ver o poder de organização e mobilização desses funcionários todos. A outra constatação visível e ainda mais interessante para nós, deu-se em relação ao equipamento de P.A. locado. Ao contrário das edições anteriores, onde o equipamento fora de segunda linha, quiçá terceira, desta feita, com a verba da cervejaria, os organizadores contrataram uma empresa forte do mercado, daquelas acostumadas a sonorizar grandes artistas do patamar mainstream, e também atrações internacionais.
Bem, com essa infraestrutura toda, claro que ficamos bem animados e se o show da noite anterior, no Sesc Pompeia havia causado-nos um certo dissabor, certamente que a visão do Parque, com essa movimentação toda, dissipara a nuvem de melancolia que pairava. Assim como o festival do Sesc, esse evento também chamara a atenção. E para aumentar a sensação que o Rock pesado estava com exposição maciça naquele final de semana, também estava a acontecer um festival com bandas pesadas no autódromo de Interlagos, onde inclusive os amigos do Platina estavam escalados para atuar, e eles também participariam da Praça do Rock. Portanto, não fora apenas A Chave do Sol que obtivera um final de semana mediante agenda cheia e exposição na mídia, significativa. As outras bandas que participariam da Praça do Rock foram : Ave de Veludo e Gozo Metal.
O Ave de Veludo detinha uma característica que aproximava-nos. Tanto quanto nós, essa foi uma banda que destoou da cena oitentista e não encaixara -se nos principais nichos daquela década. O seu trabalho era calcado no Blues-Rock do final dos anos 1960. Mais pareciam com o Fleetwood Mac, da fase Peter Green, ou mesmo com os Yardbirds. Portanto, era difícil para eles, achar um ambiente favorável, porque não tinham nada a ver com o Hard / Heavy oitentista, e muito menos com os derivados do Pós-Punk. Eram anacrônicos como nós. Eu achava o som deles bem parecido com bandas brasileiras setentistas e influenciadas pelo Blues, que não chegaram em grandes patamares no tocante à popularidade, tais como o Bagga's Guru; A Chave; Neblina; e o Burmah, todas muito boas, e a apresentar tais características do Blues-Rock. Até no visual, os rapazes não encaixavam-se. Costumavam apresentar-se a usar jeans desbotados e simples como figurino, meio na onda do Free (ao referir-me à grande banda britânica dos anos 1960 & 1970), mas no ambiente oitentista, eram alvo de críticas por essa modéstia hippie e demodé. Bem esse foi o panorama dessa edição da Praça do Rock, de julho de 1985.
E à medida que aproximava-se o início dos shows, víamos a plateia a avolumar-se. Os shows ainda nem haviam começado, e o público já era muito maior do que nas edições anteriores. Essa tarde / noite prometeu !
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terça-feira, 2 de dezembro de 2014
Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 208 - Por Luiz Domingues
Chegamos ao Sesc Pompeia na hora marcada pela produção, e o produtor Antonio Celso Barbieri mostrava-se contente com as matérias publicadas nos jornais mainstream. O festival já estava em curso, e na noite anterior tudo havia transcorrido bem, com bom público presente etc. O soundcheck foi eficaz, demo-nos bem com os técnicos de som e luz, mas as nossas explosões pirotécnicas particulares foram vetadas pelo corpo de bombeiros presente no Sesc.
Bem, convenhamos, eles tiveram razão em não deixar que usássemos aquela geringonça perigosa, ainda que o Zé Luiz houvesse esmerado-se em aperfeiçoá-la em seus sistema, e para tanto criara caixa de madeira bem mais seguras e a ostentar um visual mais agradável. Na ordem inversa, como era (e ainda o é), a praxe de shows coletivos, fizemos primeiro o soundcheck, com o Excalibur a aprumar-se a seguir, e o Viper por último, visto que esta última banda abriria a noitada. Nos camarins, o clima foi marcado pela total tranquilidade e a conter muita camaradagem entre as bandas. E os três shows ocorreram no horário, sem atropelos. Na hora dos shows de nossos amigos, ouvimos queixas das duas bandas, assim que terminaram as suas respectivas apresentações. Os seus componentes reclamavam muito da monitoração, que estava muito diferente da estabelecida durante o soundcheck. Falavam sobre distorções e rachaduras nos falantes, o que denotava que o técnico estava a dar o máximo de volume e daí, inevitavelmente o som ficaria mesmo uma maçaroca inaudível, para prejudicar a performance de qualquer banda. O segredo, nesse caso, é tocar mais baixo no palco, mas é raro o músico com essa disciplina no tocante à dinâmica, e ainda mais naquela ambientação oitentista e orientada pelo Heavy-Metal, onde tocar alto e com peso, fora uma "Lei" para tais bandas.
A despeito dessas considerações, o caso d'A Chave do Sol com aquele repertório bem mais pesado, não fugira à regra. Por mais cuidadosos que fôssemos, o nosso som estava pesado também, e seria difícil tocar mais amenamente.
Quando iniciamos, de fato a monitoração estava a rachar, o que tornaria o show difícil para qualquer banda. A minha lembrança também, foi de que parecia não haver conexão com o público. Acredito que a mixagem do P.A. também estivesse caótica, pois o público não respondia ao show, com a sinergia que esperávamos.
Nessa falta de sincronicidade, aliada à difícil monitoração de palco, fez com que perdêssemos a conexão. Não que tivéssemos feito um show ruim, com falhas musicais, mas a nossa performance esteve aquém das nossas reais possibilidades.
Somente em parcos momentos tivemos alguma conexão, ao arrancarmos aplausos mais efusivos, como por exemplo na execução da canção, "Um Minuto Além". Isso corrobora a minha impressão de que por ser uma balada mais amena, proporcionou ao público, um áudio mais aceitável, e daí, a reação mais condizente com a qual contávamos.
Toda banda passa por esse perigo, daí, a importância em possuir uma equipe técnica própria, pois independente do técnico do Sesc ser competente (é claro que o foi, caso contrário, não ocuparia o cargo em um teatro tão importante), pelo simples fato de não conhecer o som das três bandas, pode ter equivocado-se na sua mixagem, sem dúvida.
Bem, não foi um show maravilhoso pelos problemas
citados, mas também não saímos com o sentimento de "derrota" por ter
sido um fracasso. Se for para definir com uma só palavra, eu
diria que faltou "sinergia", e nesse caso, um fator alheio à nossa
vontade pode ter estabelecido essa falta de elo com o público.
E assim, está explicada a expressão de desagrado que o ator, Lineu Dias, teve ao assistir-nos. Ele podia não entender nada de música, muito menos de Rock, e certamente nada sobre o nosso desconforto em estarmos deslocados na estética oitentista hostil aos nossos padrões anacrônicos. Mas uma coisa foi certa : como ator, ele sabia e sentia com precisão o que era falta de sinergia entre artista e público, e daí, deve ter notado essa ruptura, que naquela noite, foi gritante. Paciência...
No domingo, teríamos uma chance para redimirmo-nos, ao apresentarmo-nos pela terceira vez no evento : "Praça do Rock". E desta feita, o evento estaria muito vitaminado pelo patrocínio forte que recebera, o que significou na prática, fomento em divulgação e equipamentos de alto nível disponibilizados aos artistas. Mas essa etapa eu narro no próximo capítulo.
E assim foi o show no Sesc Pompeia, no dia 27 de julho de 1985, com cerca de oitocentas pessoas presentes na plateia ...
Todas as fotos desse show no Sesc, foram clicadas por Rodolpho Tedeschi (Barba)
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segunda-feira, 1 de dezembro de 2014
Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 207 - Por Luiz Domingues
O show a ser realizado no Sesc Pompeia prometeu em todos os sentidos. Por ser um teatro bem estruturado e badalado da cidade, só pelo status em estar ali inserido, já seria um tremendo dividendo para nós. Em nosso caso, em específico, tínhamos uma familiaridade com aquele teatro, por termos participado de seis edições (somente cinco foram ao ar), do programa : "A Fábrica do Som", da TV Cultura de São Paulo, cujas gravações foram realizadas naquele palco. Além do Viper, haveria também a participação do Excalibur. Para nós seria um prazer dividir a noite com ambos os grupos, pois os seus componentes eram nossos amigos. Sobre o Excalibur, já falei anteriormente. Apesar de ter um som pesado, calcado no Heavy-Metal e oitentista em voga, tal banda mantinha a proximidade com a poesia "maldita" de autores da literatura francesa do século XIX, e isso dava-lhe um certo "quê" sessentista, via The Doors, obviamente, fruto da erudição surpreendente do seu vocalista, Beto. Sobre o Viper, recuo um pouco na cronologia para contar como conheci seus componentes.
Foi em uma edição do evento : "Praça do Rock", em1984, realizado no bucólico Parque da Aclimação, que eu compareci em determinada ocasião para assistir e prestigiar, mas não participar.
Lembro-me por ter estado próximo à concha acústica / palco, e fora durante um intervalo entre uma banda e outra. Ocorreu que nesse momento, fui abordado por cinco adolescentes imberbes e cabeludos, que afirmaram ser fãs do trabalho d'A Chave do Sol, que conheciam através das nossas já citadas aparições no programa "A Fábrica do Som", e também por aparições no "Realce", o anárquico programa apresentado pelo argentino, Mister Sam, na TV Gazeta. Esses garotos mostraram-se extremamente simpáticos e de imediato cativaram-me pela sua humildade; entusiasmo juvenil, paixão pelo Rock etc. Claro, falaram-me sobre a sua banda com bastante entusiasmo e convidaram-me a assisti-los, oportunamente.
E de fato em um uma chance que surgiu logo a seguir, eu fui mesmo vê-los em ação, em um show bem produzido por eles mesmos, realizado no belo teatro interno do Colégio Rio Branco. Não lembro-me ao certo, mas acho que pelo menos três deles estudavam naquele colégio, localizado no bairro de Higienópolis, na zona oeste de São Paulo. Nesse específico show eu que assisti, ao final de 1984, lembro-me que o público lotou o auditório, e ainda que a maioria da audiência fosse formada por alunos e colegas deles, o importante foi que eles conseguiram lotar o espaço e o show deles foi muito bom, dentro da proposta sonora que adotavam e ao considerar-se serem garotos na faixa dos quatorze anos de idade, na ocasião. No entanto, em dado instante de sua performance, um efeito pirotécnico que utilizaram, gerou um princípio de incêndio, por acidente, é claro. Fora um momento do show em que o vocalista aparecera com uma bandeira do Estado de São Paulo em uma das mãos e na outra, a segurar uma tocha acesa. Na empolgação, ao agitar ambas, a bandeira incendiou-se e um pedaço dela tocou na cortina cenotécnica, mas felizmente os funcionários do Teatro foram ágeis, e erradicaram as chamas bem rapidamente.
Bem, depois disso, os assisti em outras oportunidades e tornei-me amigo e entusiasta de seu trabalho, mais pela empolgação com o qual demonstravam por seu trabalho, do que exatamente pelo som, pois definitivamente, o Heavy-Metal é uma vertente que nunca agradou-me, e o som deles era muito calcado no Metal oitentista, via Iron Maiden. Independente dessa questão estética, é claro que seria um prazer tê-los a dividir um show juntamente com A Chave do Sol, naquele palco do Sesc Pompeia.
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