sábado, 9 de março de 2013

Autobiografia na Música - Boca do Céu / Bourréebach - Capítulo 52 - Por Luiz Domingues



Uma nova edição do festival FICO aproximou-se, e dessa forma, a toque de caixa, gravamos e inscrevemos quatro músicas : "Assim Como", "Desacomodação", "Blues Encanto" e "Consciência Geral", todas do Laert. E nesse ínterim, o Laert conheceu um baterista, através de um amigo seu, do curso colegial, que estava a finalizar, inclusive. O rapaz chamava-se, José Claudio, e tinha um nível técnico semelhante ao do Cido Trindade. 
O baterista, José Claudio, algum tempo depois, nos anos oitenta, a atuar como componente do Violeta de Outono 

Dessa forma, começamos a ensaiar com ele, e a dinâmica com a proximidade do FICO, mudou : aos sábados, ensaiávamos na casa da Pollyana Alves, e aos domingos, voltávamos à minha residência, para ensaiar com o Zé Claudio. Mas como tal situação mostrava-se precária pela logística que dispúnhamos, mal acertávamos a banda, e um novo problema começou a surgir. Desta vez foi o guitarrista, Osvaldo Vicino, que começou a faltar nos ensaios, de forma recorrente. Na realidade, ele já vinha a dar mostras de desgaste há algum tempo, mas agora às vésperas de uma nova edição do FICO, tornou-se preocupante a sua falta de assiduidade, e pior, o visível ar entediado que começava a tornar-se uma constante em seu semblante.
E o pior aconteceu... não classificamos nenhuma música para o FICO, o que desalentou-nos muito, visto que encaramos esse revés, como um retrocesso. Foi inadmissível que tivéssemos participado em 1977, com muito menos técnica individual de cada um, fora a inexperiência, em contraste com um ano a mais, onde havíamos crescido nesses aspectos. Por outro lado, em 1978, pesou contra, a nossa desorganização com troca constante de componentes, e ensaios feitos de uma forma improvisada, algumas vezes com teclado, outras com bateria etc. E o pior de tudo : as gravações que mandamos ao Festival, foram precárias por conta dessas dificuldades citadas. Por incrível que pareça, havíamos mandado um material melhor em 1977, e nesse aspecto, merecemos a desclassificação. Mas haveria um último cartucho possível para usado em 1978 : um festival organizado pelo Teatro Paulo Eiró.

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Autobiografia na Música - Boca do Céu / Bourréebach - Capítulo 51 - Por Luiz Domingues


Após essa frustrante exibição, seguimos na captura de novos membros para a banda. As melhores vocalistas que apareceu-nos, foram mesmo a Eva, e a Pollyana Alves. A Eva tinha mais emissão vocal, aparentemente e o visual mais adequado aos nossos anseios, mas a despeito da voz da Pollyana Alves ser mais comedida, tinha ótima afinação. 


          Pollyana Alves, em foto bem mais atual, dos anos 2000 

Seu visual era bem comportado, mais a parecer-se com Karen Carpenter do que Grace Slick. Ficamos sob uma grande dúvida sobre qual das duas escolher, mesmo por que ambas tinham suas qualidades e para agravar a nossa indecisão em decidirmos, nas reuniões que tivemos com as duas, elas tornaram-se amigas entre si, e cada dia ficou mais difícil tomar uma decisão. Foi quando o Laert ofereceu a sugestão para efetivarmos ambas, na banda. Foi uma ideia exótica em princípio, mas ao pensarmos bem, não seria uma má solução, com duas vozes femininas, e mais o Laert, nós quase teríamos a possibilidade sonora de uma banda como "The Mamas and The Papas", em mãos...

Para a bateria, ainda não tínhamos uma perspectiva em vista, mas sabíamos que poderíamos contar com o Cido Trindade, em alguma eventualidade.


Então, passadas as férias escolares, marcamos um ensaio oficial da nova formação, para o início de agosto. A residência da vocalista, Pollyana Alves foi oferecida-nos por ela mesma, com total apoio dos seus pais, que ajudavam-na demais, e como não tínhamos mais um baterista fixo, ao menos por enquanto, não havia a necessidade em ensaiarmos na minha casa, imediatamente, até segunda ordem. E o argumento definitivo que convenceu-nos sobre sua habitação : ela tinha um piano e um amplificador de guitarra, disponíveis. Dessa forma, eu e o Osvaldo Vicino tocaríamos plugados no mesmo "Bag U65", da Giannini, e o Laert tocaria piano. A Eva tinha uma pandeirola meia-lua e ... bingo ! O barulho estava garantido... foi em um domingo, dia 13 de agosto de 1978, que realizamos o nosso primeiro ensaio. Agora o Bourréebach estava formado por Laert; Osvaldo; Luiz; Eva, e Pollyana, a faltar-nos somente um baterista, para fechar o sexteto. A casa dela, era na verdade um apartamento, localizado no Bairro do Limão, zona norte de São Paulo. Usávamos dois ônibus para chegar lá...

Como tínhamos força de vontade ! Levávamos mais de duas horas, só para chegar lá, e mais duas, para voltar, com instrumentos na mão...

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Autobiografia na Música - Boca do Céu / Bourréebach - Capítulo 50 - Por Luiz Domingues


Claro, houve uma atenuante nesse episódio inteiro. Se por um lado fomos prejudicados pelo pessoal do equipamento, pela fato do atraso por eles cometido, ao chegar horas além do combinado, e sermos totalmente sabotados por um som não mixado adequadamente, a realidade foi que o público presente fora também muito desinteressado, pois o foco ali foi o bingo. Além do mais, não tratou-se de um público jovem, mas pelo contrário, um contingente formado por pessoas de meia-idade, e muitos idosos, o que caracterizou uma plateia que poderia ter sido até hostil. Mas como estavam realmente muito focados no bingo, nem notaram que tocávamos, e dessa forma, aquele som horrível, decorrente de uma ausência absoluta de uma mixagem, minimamente decente, não os incomodou, por incrível que pareça. Isso sem contar o mapa do palco, que foi completamente ridículo. Por uma falha no tablado improvisado como palco, o Cido Trindade teve que deslocar a sua bateria para a frente, longe da linha dos amplificadores. Se a monitoração já estava horrível, sem ouvir o baixo; guitarra, e teclados, com o som direto dos respectivos amplificadores longe de sua audição, ele tocou de uma forma muito insegura, no limite para manter o ritmo no andamento correto. Para quem é baterista, sabe bem que tocar dessa forma é um horror. Apresentamos nessa noite, as canções : "Blues Encanto", "Serena" e "Assim Como". O plano seria para tocar muito mais, contudo, naquelas condições horríveis, ali delineadas, decidimos cortar o show logo no início, a continuar sob tais circunstâncias insalubres. Ficamos chateados, logicamente, mas a vida prosseguiu...


O próximo passo seria continuar a ensaiar, e procurar um novo baterista, e uma vocalista feminina.
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sexta-feira, 8 de março de 2013

Autobiografia na Música - Terra no Asfalto - Capítulo 19 - Por Luiz Domingues


Ainda a descrever a banda que vimos a atuar no Victoria Pub, logo que chegamos ao palco principal da casa, eu não acreditei que estava por escutar, "Woman From Tokyo", do Deep Purple,  com um vocal tão sensacional. E a banda tocava com um swing funkeado a la Mark IV, da época do Tommy Bolin. Mas em contraste a isso, vou mencionar, caro leitor : foi desagradável ver essa formação do Terra no Asfalto, desmoronar-se dessa forma.
Todavia, era mesmo frágil a vida de uma banda cover, pois ali o comprometimento fora só para tocar e visar ganhar dinheiro.
Sem a vontade para vencer na carreira, como uma banda autoral, sempre norteia seus esforços, a estrutura de uma banda cover é oca, não tem química. Cada um só pensa em si, e abandona o barco por qualquer proposta de 10 "dinheiros" a mais que seja oferecido. Em uma banda autoral, o artista está a investir em si mesmo, no seu sonho, e por tratar-se de um sonho coletivo, sente-se irmanado, dentro de um espírito de fraternidade, formado por seus pares que buscam o mesmo. Não existe o fator do sonho para uma banda cover, e sonhar é fundamental para quem enxerga a música como um trabalho de arte, e não algo burocrático e meramente construído com a intenção exclusiva em ganhar-se dinheiro. Apesar disso, não quer dizer que não possa haver prazer em tocar, e que não haja amizade entre os componentes. O fato de não haver comprometimento artístico, certamente deixa tudo menos sólido, mas o clima pode ser amistoso, é claro. No "Terra no Asfalto", o clima sempre foi bom, independente das diversas formações que tivemos. Houve ao longo de sua história, uma ou outra indisposição por um motivo ou outro, mas nada muito conflitante, a não ser um fato que ocorreria logo no início da formação de dezembro de 1980 (que por sinal, tornar-se-ia a mais longa e sólida fase dessa banda). No próximo capítulo, falarei sobre os passos adiante do Terra no Asfalto.
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quarta-feira, 6 de março de 2013

Autobiografia na Música - Terra no Asfalto - Capítulo 18 - Por Luiz Domingues

Mas o fato desalentador mesmo, foi que a banda estava a desmantelar-se. Contudo, fomos ainda tocar em uma micro apresentação em forma de teste, no Victoria Pub, apesar disso.
Mesmo por que, a intenção da banda foi em prosseguir, a providenciar-se um novo baterista, e com Wilson e Gereba a assumir as duas guitarras. A casa estava com um ótimo público. Havia pelo menos quatrocentas pessoas a circular em suas dependências.

O fabuloso vocalista, Próspero Albanese, em foto dos anos setenta, quando brilhou muito no histórico, "Joelho de Porco"

No palco principal (havia dois), tocava nesse instante, uma banda cover, fixa da casa. Não lembro-me o nome desse combro, mas recordo-me que o baixista em sua formação, era o celebrado, Celso Pixinga e o vocalista, Próspero Albanese, o famoso vocalista do Joelho de Porco, nos anos setenta, por ocasião da gravação de seu excelente álbum : "São Paulo, 1554-hoje" (de 1975). Os músicos estavam a executar uma seleção com músicas do "Deep Purple", e eu lembro-me em ter ficado boquiaberto a ouvir o vocal impressionante do Próspero. Cantava idêntico ao Ian Gillan, com um "punch", exuberante. Recordo-me da reação estapafúrdia da parte do Gereba, que não tinha nenhuma cultura Rocker, ao ficar embasbacado com o vocal incrível do Próspero, mas sem saber quem ele era, ou representava na história do Rock brasileiro, e assim afirmar, prosaicamente, algo do tipo : -"olha o gordão, canta p'ra caralh"... sim, nesse aspecto, Gereba tinha razão.
E havia um pianista, sensacional. Não faço a menor ideia quem era, mas lembro-me em de ver o rapaz tocar com um "swing" incrível, ao estilo de grandes pianistas versados pelo estilo do Blues de New Orleans, tais como : Dr. John, Leon Russell e outros dessa linhagem nobre da Louisiana. Era um autêntico freak, com um cabelo imenso, armado até a cintura, e bigode típico de "bandido mexicano"... e o sujeito tocava demais. Fizemos nossa apresentação durante o intervalo dessa banda, por uns vinte a trinta minutos, e apesar de não termos sido tão sensacionais como eles (com exceção do Fernando "Mu", é claro), foi ótimo, pois as pessoas dançaram, aplaudiram, e assim não deixamos a a euforia gerada pela banda fixa da casa, cair.

Esse teste aconteceu no dia 29 de fevereiro de1980, dia bissexto, e marcou-se como a última apresentação dessa formação. As portas do Victoria Pub ficaram abertas para nós, por conta da boa impressão que causamos, mas mediante desculpas, o Paulo Eugênio não teve como agendar-nos naquela circunstância, e aí, culminou no fato de que perdemos a nossa chance, naquela que foi uma das mais cobiçadas casas noturnas de São Paulo, nessa época. Com tal desfecho, o Terra no Asfalto passou por momentos difíceis, ao tentar reformular-se. Na prática, precisávamos de um baterista novo e aí surgiu a opção do Luis "Bola".
 

O Luis"Bola" (cujo apelido só podia ser alusivo ao seu porte físico, digamos, robusto), fora o baterista do projeto de música autoral que o Fernando "Mu" tentara desenvolver, desde 1978, mais ou menos, com a presença também do baixista, Roatã Duprat, filho do maestro, Rogério Duprat. O Luis Bola era tecnicamente bom, Rocker com sólida formação e um bom rapaz. Tinha uma coleção de vinis, incrível, e toda importada, pois seu pai era piloto da Vasp (a antiga Viação Aérea São Paulo, desativada nos anos noventa), e fazia a rota São Paulo / Milão, habitualmente. Dessa forma, o "Bola" elaborava a lista, e o seu pai vinha com a mala recheada com bolachas... ouvi muito o som genial do Frank Zappa em sua residência, nesses meses em que convivemos.
Mas mesmo ao encontrarmos um bom baterista para entrar em nossa banda, perdemos o embalo forte com o qual estávamos a obter, e dali em diante, só foi aparecer uma nova data, em abril de 1980.  E foi um show inusitado, cuja história eu narrarei no próximo capítulo.
Continua...

segunda-feira, 4 de março de 2013

Kim Kehl & Os Kurandeiros - 6 de março de 2013 - Quarta-Feira - Magnólia Villa Bar - Lapa - São Paulo/SP


               Kim Kehl & Os Kurandeiros

                  Dia 6 de março de 2013
                   
                  Quarta-feira  -  21:30 h.

                  Magnólia Villa Bar

                  Rua Marco Aurélio, 884

                  Lapa

                  São Paulo  -  SP


KK & K :

Kim Kehl - Guitarra e Voz
Carlinhos Machado - Bateria e Voz
Nelson Ferraresso - Teclados
Phil Rendeiro - Guitarra e Voz
Luiz Domingues - Baixo

Participação Especial : Alexandre Rioli - Teclados  

                        

sexta-feira, 1 de março de 2013

Autobiografia na Música - Terra no Asfalto - Capítulo 17 - por Luiz Domingues

Essa foi uma das histórias mais engraçadas do Terra no Asfalto ! Passamos do susto ao relaxamento total, sob um piscar de olhos. Não lembro-me do nome do PM. Nunca mais o vimos, apesar dele ter deixado contato para auxiliar-nos em qualquer situação, incluso ao oferecer-se para fazer segurança particular, como trabalho extra, fora de seu emprego dentro da corporação.


A apresentação, apesar desse stress da demora em começar, foi muito boa, e o gerente acalmou-se, ao sinalizar que poderíamos agendar mais apresentações. Mas esse contato só seria concretizado a partir da reencarnação do Terra no Asfalto, com nova formação, no final de 1980. Isso porque o Fernando "Mu" acabara de aceitar uma oferta irrecusável para a sua carreira, e o Cido Trindade, também estava de saída.
No caso do Mu, a Celina Silva, esposa do tecladista, Sérgio Henriques, o havia indicado para ser guitarrista / violonista da banda de apoio ao espetáculo teatral e musical "Calabar", peça de autoria de Chico Burque de Hollanda, e que estrearia logo a seguir, em abril de 1980, a apresentar a atriz / cantora Tania Alves, como protagonista dessa montagem. O Fernando "Mu" não pensou duas vezes, e aceitou a oferta, visto ser qualificado para o trabalho, e acima de tudo, ser uma grande oportunidade para a sua carreira.
O cachet fixo oferecido, mostrava-se excelente, fora a quantidade de contatos e portas que abriria, ao conhecer tanta gente do mainstream da música, e meio teatral / TV.
Logo na estreia, para você, leitor, ter uma ideia, o Chico Buarque em pessoa estava a assistir, além de vários outros artistas famosos da música, e do teatro. 

E o Cido Trindade, que paralelamente ao Tato Fischer, estava também desde o segundo semestre de 1979, a tocar na banda de apoio do ex-vocalista dos Novos Baianos, Paulinho Boca de Cantor, recebeu um convite para continuar nessa banda, agora para  acompanhar a cantora emergente, Eliete Negreiros (já relatado, também, no capítulo dos "Trabalhos Avulsos"). Com essas perdas, o Terra no Asfalto esmoreceu, e passou por momentos difíceis nos meses seguintes.

Continua...