Realmente, com esse temperamento petulante que o Fernando "Mu" possuía, tinha tudo para dar errado, todavia, ele realmente evadiu-se logo, mas por outro motivo, parecido com o que tirou o Sérgio Henriques da nossa banda. Conto a seguir, no momento oportuno. E assim, fizemos a nova apresentação no dia 13 de janeiro de 1980, no Bar Opção. Desfalcados de Geraldo "Gereba" e Sérgio Henriques, e a estrear o Mu como novo "lead guitar", tocamos como um quarteto, visto que o Wilson ficou à margem nessa noite, para aguardar uma nova oportunidade.
Tocamos aquele repertório que o Mu estipulara, e foi muito bom.
Mesmo a atuar como quarteto apenas, a apresentação correu muito bem, pois o Mu era excepcional, mesmo. Suas bases harmônicas; solos; contra-solos e desenhos rítmicos, eram executados sob altíssimo nível. E ele cantava bem, igualmente. Dividiu bem com o Paulo Eugênio, os vocais, e cantou solo, músicas do Elton John, Traffic e Bob Dylan, por exemplo. Cerca de 30 pessoas apareceram nessa apresentação. Claro que havia muitos amigos, mas foi um bom público, se considerarmos que aquele bar ficava em um buraco escondido, quase debaixo de um viaduto e longe da rua agitada da boêmia do bairro, que era a Rua 13 de maio.
O segundo show dessa fase, foi marcado para o dia 20 de janeiro de 1980, no mesmo bar. Ensaiávamos lá de terça a sexta, gratuitamente, e nada mais justo que tocássemos lá, pelo menos nessa fase inicial das atividades da banda. E para a nossa surpresa, quase dobramos o público, ao movimentarmos mais de cinquenta pessoas nessa nova apresentação. A formação foi a mesma, como quarteto.
Nesse ínterim, com maior convívio, aprendemos a entender melhor o temperamento do Fernando "Mu". Ele era altivo, mas após esse tempo de convivência, percebemos que era mais uma espécie de reserva de proteção que ele carregava ao lidar com estranhos, conta de suas inseguranças particulares. No fundo, era um sujeito bom e mais solto, tratou de contar-nos histórias sobre como entrara na música etc. Ele era da geração Woodstock. Enlouquecera lá por 1969 / 1970 e passou a estudar teoria musical, e guitarra de uma maneira compulsiva, a alimentar o sonho de ser músico / artista.
Tinha tido problemas com os pais, por conta dessa obsessão, mas seguira em frente. Tentou engatar trabalhos autorais na década de setenta, mas nada frutificou a contento. Tornou-se uma lenda na noite, exatamente por tocar demais, e ter um temperamento difícil. Seu último trabalho próprio, ocorrera com Roatã Duprat e Luis Bola, como já comentei antes. Essa banda, além do trabalho autoral, costumava tocar o repertório do King Crimson, com perfeição.
Continua...
Neste meu segundo Blog, convido amigos para escrever; publico material alternativo de minha autoria, e não publicado em meu Blog 1, além de estar a publicar sob um formato em micro capítulos, o texto de minha autobiografia na música, inclusive com atualizações que não constam no livro oficial. E também anuncio as minhas atividades musicais mais recentes.
domingo, 2 de dezembro de 2012
Autobiografia na Música - Língua de Trapo - Capítulo 11 - Por Luiz Domingues
Desde o final de 1979, eu estava a desenvolver trabalhos paralelos ao Língua de Trapo, pois precisava ganhar dinheiro. E entre tantas coisas, o mais duradouro foi uma banda focada nos covers, chamada : "Terra no Asfalto". Essa banda surgiu em dezembro de 1979, e durou até junho de 1980, mais ou menos, em sua primeira fase. Mas no final de novembro, surgiu a ideia de reformulá-la, e diante dessa perspectiva de um trabalho fixo a ser executado em bares, tive que optar por sair do Língua, pois haveria um choque de agendas. Fui para o Terra no Asfalto, que durou até junho de 1982. Tem muitas histórias do Terra no Asfalto, nos capítulos específicos sobre esse trabalho. Eu havia tido uma briga feia com meu pai, por insistir em querer ser músico profissional. Precisava ganhar dinheiro, e assim, não foi possível continuar no Língua de Trapo, que estava a crescer, mas ainda não proporcionava renda, para nenhum componente. Fiquei muito chateado, lógico.
Dividido fiquei, pois sempre odiei tocar covers. Não tinha cabimento em minha concepção, deixar uma banda a praticar um trabalho autoral, para ir trabalhar em uma banda de covers para tocar em bares. Se o fiz, foi por extrema necessidade.
Ao analisar hoje em dia, o conceito não mudou, pois a realidade daquele momento exigiu tal postura de minha parte. Não tenho como arrepender-me, pois eu não era vidente para supor que já na metade do ano de 1981, o Língua sairia desse estado inicial de quase amadorismo, para tornar-se uma banda com empresário, exposição na mídia, e agenda lotada.
Foto da contracapa do primeiro LP do Língua de Trapo, lançado em 1982. O segundo elemento, da esquerda para a direita entre os sentados, ao lado do Laert, é Luiz Lucas, que tornou-se o baixista oficial, doravante, pois Ayrton Mugnaini Jr. substituiu-me emergencialmente apenas, no início de 1981
Observei o sucesso meteórico deles, com dor no coração, por sentir-me uma espécie de Pete Best, mas a torcer pelos meus amigos, sem nutrir nenhum sentimento negativo, primeiro porque sou espiritualista (por conseguinte, não consigo alimentar sentimento de inveja, dadas as minhas convicções de cosmoética), e segundo, por que eles não queriam que eu saísse. Foi decisão minha.
Foi duro comunicar à eles... fiquei a adiar por dias, a fim de criar coragem. Mesmo por que fora uma autoimolação, quase um Haraquiri, com o perdão pelo exagero. O Laert ficou muito chateado, claro. De todos os membros, foi com quem eu tinha a mais velha ligação artística. Estávamos a lutar juntos, desde 1976, e foi como se estivesse a abandoná-lo naquela luta. Por quantas adversidades tínhamos passado juntos desde 1976 ? Foi duro para ele, e isso só aumentara o meu pesar.
Nesta foto acima, o Língua de Trapo já contava com o baterista, Nahame Casseb, popular "Naminha" (a usar barba e óculos, na parte de trás, ao lado do vocalista, Pituco Freitas). Tal foto deve ser de meados de 1983, pouco antes de eu retornar à banda.
Continua...
Dividido fiquei, pois sempre odiei tocar covers. Não tinha cabimento em minha concepção, deixar uma banda a praticar um trabalho autoral, para ir trabalhar em uma banda de covers para tocar em bares. Se o fiz, foi por extrema necessidade.
Ao analisar hoje em dia, o conceito não mudou, pois a realidade daquele momento exigiu tal postura de minha parte. Não tenho como arrepender-me, pois eu não era vidente para supor que já na metade do ano de 1981, o Língua sairia desse estado inicial de quase amadorismo, para tornar-se uma banda com empresário, exposição na mídia, e agenda lotada.
Foto da contracapa do primeiro LP do Língua de Trapo, lançado em 1982. O segundo elemento, da esquerda para a direita entre os sentados, ao lado do Laert, é Luiz Lucas, que tornou-se o baixista oficial, doravante, pois Ayrton Mugnaini Jr. substituiu-me emergencialmente apenas, no início de 1981
Observei o sucesso meteórico deles, com dor no coração, por sentir-me uma espécie de Pete Best, mas a torcer pelos meus amigos, sem nutrir nenhum sentimento negativo, primeiro porque sou espiritualista (por conseguinte, não consigo alimentar sentimento de inveja, dadas as minhas convicções de cosmoética), e segundo, por que eles não queriam que eu saísse. Foi decisão minha.
Foi duro comunicar à eles... fiquei a adiar por dias, a fim de criar coragem. Mesmo por que fora uma autoimolação, quase um Haraquiri, com o perdão pelo exagero. O Laert ficou muito chateado, claro. De todos os membros, foi com quem eu tinha a mais velha ligação artística. Estávamos a lutar juntos, desde 1976, e foi como se estivesse a abandoná-lo naquela luta. Por quantas adversidades tínhamos passado juntos desde 1976 ? Foi duro para ele, e isso só aumentara o meu pesar.
Nesta foto acima, o Língua de Trapo já contava com o baterista, Nahame Casseb, popular "Naminha" (a usar barba e óculos, na parte de trás, ao lado do vocalista, Pituco Freitas). Tal foto deve ser de meados de 1983, pouco antes de eu retornar à banda.
Continua...
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Autobiografia na Música - Língua de Trapo - Capítulo 10 - Por Luiz Domingues
O último show do Língua de Trapo em que atuei, nessa minha primeira passagem pela banda, foi o do lançamento da fita demo, "Sutil como um Cassetete". Ainda haveria uma participação em Festival, a concorrermos, mas show mesmo, esse foi o último, dessa primeira passagem pela banda. Nesse show, de fato, estávamos a lançar a fita, mas as vendas começaram para valer só no início de dezembro de 1980, pois o processo de duplicação foi absolutamente amador e caseiro, e com o estouro surpreendente das vendas, tivemos que contratar um serviço profissional. Então nesse show, que ocorreu no dia 19 de novembro de 1980, eu já havia comunicado à banda que havia tomado a decisão em sair, e o músico / jornalista (na época, ainda estudante como todos nós, da mesma faculdade Cásper Líbero), Ayrton Mugnaini Jr. esteve presente, já a demonstrar ter decorado todas as músicas, para entrar na banda, a substituir-me.
Ayrton Mugnaini Jr., em uma foto mais ou menos da época em que substituiu-me no Língua de Trapo, no início de 1981, quando de minha primeira passagem pela banda
Ele é um gênio musical, o sujeito com conhecimentos mais enciclopédico sobre a música em geral e o Rock em específico, que eu conheci na vida, tanto que tornou-se a seguir, um grande crítico musical, logo que formou-se como jornalista, a escrever em jornais de grande circulação; revistas especializadas e programas de rádio.
O show foi realizado em uma casa noturna chamada, "790", que todo mundo chamava como : "Sete-nove-zero", localizada no bairro do Itaim-Bibi, zona oeste de São Paulo. Tal apresentação, no entanto, obteve um público pequeno, com apenas trinta pessoas na plateia, mas tratava-se de um dia útil e além do mais, estava fora do circuito normal que o Língua de Trapo frequentava normalmente nessa ocasião, no ambiente universitário. Por quê eu quis sair ? Eu não gostaria de ter saído, essa é que foi a verdade...
Laert Sarrumor
Eu gostava muito de fazer parte da banda, e tinha o sentimento de que apesar de não ter essa mesma criatividade e verve humorística, dos companheiros, eu fora ao lado do Laert, a mais remota semente da banda, plantada em 1976, no "Céu da Boca" / "Boca do Céu" / "Bouréebach". Entretanto, como estava a passar por sérios problemas pessoais devido às pressões familiares que impeliam-me a ter a obrigação em autoafirmar-me como músico, nesse sentido, desde 1979, paralelo ao Língua de Trapo, fiz vários trabalhos paralelos.
Guca Domenico
Então, chegou-se em um ponto onde eu percebi que tornara-se impossível não haver conflitos com choque de datas dos shows das duas atividades, no mesmo dia. Por priorizar um trabalho que rendia-me remuneração rápida, tive que sair do Língua de Trapo, com pesar. Sei que o Laert ficou chateado, afinal estávamos juntos na mesma luta, desde 1976, ao sairmoso do amadorismo total para algo que crescia, mas naquela ocasião, ficou difícil para as minhas combalidas forças, ante as necessidades prementes.
Continua...
Ayrton Mugnaini Jr., em uma foto mais ou menos da época em que substituiu-me no Língua de Trapo, no início de 1981, quando de minha primeira passagem pela banda
Ele é um gênio musical, o sujeito com conhecimentos mais enciclopédico sobre a música em geral e o Rock em específico, que eu conheci na vida, tanto que tornou-se a seguir, um grande crítico musical, logo que formou-se como jornalista, a escrever em jornais de grande circulação; revistas especializadas e programas de rádio.
O show foi realizado em uma casa noturna chamada, "790", que todo mundo chamava como : "Sete-nove-zero", localizada no bairro do Itaim-Bibi, zona oeste de São Paulo. Tal apresentação, no entanto, obteve um público pequeno, com apenas trinta pessoas na plateia, mas tratava-se de um dia útil e além do mais, estava fora do circuito normal que o Língua de Trapo frequentava normalmente nessa ocasião, no ambiente universitário. Por quê eu quis sair ? Eu não gostaria de ter saído, essa é que foi a verdade...
Laert Sarrumor
Eu gostava muito de fazer parte da banda, e tinha o sentimento de que apesar de não ter essa mesma criatividade e verve humorística, dos companheiros, eu fora ao lado do Laert, a mais remota semente da banda, plantada em 1976, no "Céu da Boca" / "Boca do Céu" / "Bouréebach". Entretanto, como estava a passar por sérios problemas pessoais devido às pressões familiares que impeliam-me a ter a obrigação em autoafirmar-me como músico, nesse sentido, desde 1979, paralelo ao Língua de Trapo, fiz vários trabalhos paralelos.
Guca Domenico
Então, chegou-se em um ponto onde eu percebi que tornara-se impossível não haver conflitos com choque de datas dos shows das duas atividades, no mesmo dia. Por priorizar um trabalho que rendia-me remuneração rápida, tive que sair do Língua de Trapo, com pesar. Sei que o Laert ficou chateado, afinal estávamos juntos na mesma luta, desde 1976, ao sairmoso do amadorismo total para algo que crescia, mas naquela ocasião, ficou difícil para as minhas combalidas forças, ante as necessidades prementes.
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Sutil como um Cassetete.
Autobiografia na Música - Trabalhos Avulsos (Cínthia) - Capítulo 16 - Por Luiz Domingues
O dono do salão, desesperado por ver o clima tenso com a saída repentina da cantora, e o publico enlouquecido, pediu-nos para tocar qualquer coisa, na esperança do ânimo acalmar-se. O Gereba, mesmo bêbado, foi esperto e iniciou o riff da música, "I'm Goin' Home", do Ten Years After, que ele tocava à perfeição. Ele começou o solo, e eu e o Luis Bola fomos juntos, sem pestanejar.
Temíamos que um Rock naquele lugar, e com aquele público, pudesse até piorar as coisas, mas os rapazes enlouqueceram completamente !
E aí fomos a emendar Beatles; Led Zeppelin; Grand Funk, enfim, tudo o que eu e o Gereba tocávamos normalmente no Terra no Asfalto, incluso Novos Baianos, especialidade dele, Gereba, e salvamos a noite. Ao final, o empresário veio pagar-nos, e nessa altura, já havia esquecido todo o mal-estar, e nesses termos, disse-nos que a cantora era temperamental, mas que chamar-nos-ia outras vezes etc e tal.
E para ficar mais engraçado ainda : o dono do salão estava eufórico, ao dizer-nos que contratar-nos-ia para uma apresentação solo, pois fomos considerados a "melhor banda que já tocara ali"...
Bem, ao considerar-se o nível de músicos que ali tocavam regularmente, acho que ele teve razão em sua afirmativa. E para agradar-nos, ofereceu-nos comida e mais bebidas. Nesse instante, o Gereba enlouqueceu de vez, e algo mais bizarro aconteceria !
Mas o Gereba, bêbado como encontrava-se, resolveu aceitar a "gentil oferta", e ficou com as três moças, com padrão de beleza aprovadas pelo dono do salão, digamos assim...
Dessa forma transcorreu meu segundo trabalho paralelo, realizado no dia 22 de abril de 1980, em um salão cujo nome não recordo-me e infelizmente não anotei, perante um público com aproximadamente quinhentas pessoas presentes. Nunca mais acompanhamos a Cínthia, depois dessa noite. Essa história foi mesmo sui generis.
Ela mataria o Gereba, a esganá-lo, se pudesse. Não sei o que foi pior : se o fato dele ter ficado bêbado e assim errar demais a harmonia das músicas e derrubá-la no seu show, perante o seu público; ou se pela paquera de baixo nível que perpetrou para cima da cantora...
E sem dúvida, uma coisa que abomino como músico : tocar com bêbados ou Junkies. Essa história do Gereba não foi a primeira em que passei vergonha por conta de irresponsáveis que não controlam seus instintos antes dos shows e sobem ao palco, fora de si. Em relação à pressão do público, é verdade... os soldados só queriam divertir-se. E quanto às promessas do dono do salão, nunca retornamos, ali, de fato. Não teria o menor cabimento agendar show em uma espelunca obscura daquelas, com aquela ambientação brega de baixo nível. Por fim, recusar as "beldades" ali presentes foi uma questão de sobrevivência...
Tocamos por uns 45 minutos, talvez um pouco mais, depois que o show da Cínthia, encerrou-se, prematuramente. Voltamos rapidamente para São Paulo com os instrumentos e equipamentos, eu, Luis Bola e o motorista da Kombi. O Gereba permaneceu no salão periférico, por sua conta. Acreditávamos que quando ele acordasse, submetido a uma ressaca, e com aquelas mulheres ao seu redor, teria um sentimento forte de arrependimento pelas más escolhas feitas sem conscîencia alguma na noite anterior. E como agravante, ainda estar em algum lugar de Carapicuíba, longe, mas muito longe de sua casa. Deveria usar dois ou três ônibus para voltar para a sua casa. Mas a história ficou ainda mais hilária se eu contar para você, leitor, que ele apareceu no dia seguinte, e feliz da vida. Ele apreciou a noitada e não demonstrou arrepender-se, de forma alguma.
Não houve nenhuma brincadeira entre nós, pois o Gereba era um sujeito muito simples. Ele certamente não entenderia o teor de nossas brincadeiras, e poderia até ofender-se com as nossas observações, enfim... e diante desse desfecho, convenci-me de que tem gosto para tudo neste mundo...
Para ilustrar essa história, achei um blog que tem uma matéria com a Cínthia. Ela tornou-se radialista, há muitos anos.
http://webcache.googleusercontent.com/se
Encerrada essa etapa, no próximo capítulo de meus relatos sobre os "Trabalhos Avulsos", que realizei, vou narrar uma passagem ainda mais hilária do que essa aventura brega, vivida em um salão de periferia.
Continua...
sábado, 1 de dezembro de 2012
Autobiografia na Música - Trabalhos Avulsos (Cínthia) - Capítulo 15 - Por Luiz Domingues
Eu e o Luis Bola com visual de Rockers, aquela Tama imensa...
Mas tudo dissipou-se quando a Cínthia entrou em cena, com uma roupa provocante, e trejeitos ao estilo da Gretchen, a enlouquecer os soldados, que urravam com aquela lascividade ali expressa.
Tocamos uma; duas; tocamos a canção das Frenéticas e daí, subitamente, o Gereba começou a errar a harmonia das músicas.
Quando percebemos, ele já estava completamente bêbado, e na sua loucura, passou a flertar abertamente com a cantora, que pôs-se a ficar nervosa. Ela anunciava a próxima música e o Gereba, transtornado, virava-se em minha direção e perguntava-me : -"como é mesmo essa aí ?
O show arruinou-se, com vários erros crassos, e ela só a fulminar o o Gereba com seus olhares carregados com ódio, por estar envergonhada pelos seus erros de harmonia, na guitarra.
Ele por sua vez, bêbado e lânguido com ela, interpretava seus olhares raivosos, como correspondência aos seus anseios... Foi hilário, mas trágico na hora, é claro ! Lembro-me dela a tentar disfarçar o mal estar, quando falou com o seu público, mas este por sua vez também estava embriagado, e na prática, aqueles soldados só queriam saber do corpo dela...
Então ela virava-se para o Gereba, após anunciar a próxima música e dizia : -"maestro, vamos"... e ele respondia-lhe com gracejos...
O clima tornou-se insuportável, e a faltar ainda duas músicas para o encerramento, ela decidiu acabar, ao despedir-se do público, e a sair furiosa do palco, ao xingar o Gereba. No meio daquela balbúrdia, com mais de quinhentos soldados a urrar, ainda assim conseguíamos ouvir seus gritos no camarim, a exigir que o seu empresário não pagasse-nos etc e tal.
Não tiro a razão dela, pois o Gereba agiu muito mal ao embriagar-se e pior ainda por ser inconveniente com ela, mas na verdade, estava tudo errado, desde o começo, pois aquele esquema amadorístico em de tirar músicas ao meio dia, para tocar a meia noite, por mais simples que fossem, fora lamentável. Mas aí aconteceu algo muito insólito, que salvou a nossa noite... como se estivesse por adivinhar, o Luis Bola acabou por divertir-se, enfim...
Continua...
Autobiografia na Música - Boca do Céu - Capítulo 31 - Por Luiz Domingues
E chegou a grande hora...
Sem impedimentos, tocamos as nossas duas
músicas separadamente, a intercalar com os outros concorrentes. Estávamos muito
mais seguros agora, e eufóricos. Portanto, a performance da banda nas duas
músicas, foi muito superior. "Serena" não atingiu nenhuma
classificação, mas "Revirada" ficou em segundo lugar no resultado final do Festival. Sinceramente,
a despeito de nossa deficiência técnica, creio que merecíamos ter ganhado o
festival, pois fomos os mais aplaudidos. A música vencedora era pobre. Foi
defendida por três garotas a cantá-la em uníssono, acompanhadas de um violonista.
Era uma canção fraca, brega e romântica, cujo refrão dizia:
"Por quê te amo, e não quero te esquecer..."
Mas era compreensível que vencesse, pois o
júri despreparado, formado por professores de matérias sem relação com arte e música em específico, não daria a vitória à uma
banda de cabeludos, a tocar Rock, e com uma letra a contestar a ditadura...
Para compensar, convidaram-nos a fazer um
show exclusivo, dois sábados adiante, quando os cinco primeiros colocados tocariam
novamente. Isso para nós, foi mais importante do que ganhar o festival. Além de
tocarmos "Revirada" novamente, poderíamos fazer um show com trinta
minutos. Ficamos eufóricos ! Foi uma grande vitória para uma banda
absolutamente iniciante e com quase todos os componentes em fase de
aprendizagem musical, ainda muito preliminar. Como prêmio, ganhamos um troféu, que guardo
até hoje na minha memorabilia. Nessa final do “Femoc”, o público foi muito
bom. Aproximadamente quinhentas pessoas compareceram ao ginásio de esportes do
Colégio Estadual de Segundo Grau Oswaldo Catalano. E no sábado, 27 de agosto de
1977, fizemos o show da festa de entrega dos troféus, para um público formado por
aproximadamente duzentas pessoas. Antes de tocarmos, houve um minuto de
silêncio em condolência pela morte de Elvis Presley...
Tocamos as cançõs : "Mina de Escola";
"Tudo Band"; "O Mundo de Hoje"; "Ah se você
soubesse"...; "Consenso Geral", e uma versão livre (e pobre...)
de "Meus Caros Amigos", do Chico Buarque. E claro, "Revirada", a celebrar o
nosso segundo lugar. Foi uma vitória e tanto para quem engatinhava na música. Recebemos
vários convites para shows de Rock, que nunca realizaram-se, mas adoramos
chamar a atenção dessa forma ! Em relação ao fato de não termos vencido o
festival, mas chamado tanto a atenção, mesmo dessa forma, sim, foi a tal questão da proporcionalidade.
Muitas vezes, aquele elogio simplório da
professorinha primária pode ter mais impacto na vida de uma pessoa, que uma
grande realização obtida na vida adulta. Essa comparação cabe aqui, pois a
alegria que sentimos por termos sido aplaudidos, termos ganhado o segundo
lugar, e convidados a fazer o show de encerramento, duas semanas depois, foi
enorme, em detrimento de coisas realmente maiores que obtive já como adulto e
músico profissional.
Foi normal para os padrões de um festival
amador, e mal organizado, que privilegiassem uma música "careta" para
vencer o festival. Que perdoem-me aquelas garotas, que inclusive eu nem
conhecia, e não eram da minha classe na escola, mas a música, e a performance delas, foram
insípidas. Nem acredito realmente que a questão da
ditadura reinante à época fosse o motivo dessa decisão para não conceder-nos o
primeiro lugar. A questão ali fora o despreparo do corpo de jurados, composto por
professores do colégio. O único professor mais progressista da escola, era o
professor de português, "seu" Murilo, e ele não esteve nesse júri. Dos
outros, não poderíamos esperar outra atitude. Surgiu-nos dois ou três convites para
tocarmos, posteriormente. Um deles veio através do pessoal da banda de bailes, "A Gota", que
alugou o equipamento para o festival. Mas tudo foi apenas o discurso de ocasião, no calor
da emoção. Depois, esses contatos murcharam e nada aconteceu. Para nossa sorte,
independente desses convites, tínhamos uma esperança boa para o mês de outubro.
E logo mais contarei em detalhes, esse que seria (e o foi, na verdade), o ápice da
carreira do Boca do Céu, sem dúvida. Não recordo-me de "briga" por
causa do troféu. Lembro-me do Laert ter ficado com ele por uns tempos, e depois
ele ter ficado definitivamente comigo. Está na minha memorabilia. Acredito até
que os jurados deram-nos o segundo lugar para não contrariar o público, que
aplaudiu-nos bastante, apesar das inevitáveis torcidas para as outras
concorrentes. Sem querer ser chato, mas sendo realista, a
música que venceu o festival, era fraca. Pobre na sua estrutura harmônica;
cafona; com uma letra romântica, brega, e com interpretação muito sonsa. Nós
não éramos bons como gostaríamos de ser, mas pelo menos tínhamos muita força de
vontade, ao contrário daquelas meninas caretas, a cantar em uníssono, como se
estivessem na sala de estar de sua casa, na noite de natal, com o objetivo de
encantar os seus avós... e tem mais : não tinha comparação a letra
do Laert, com a música delas. Seria como comparar Gilberto Gil em relação a um
compositor popularesco qualquer, daqueles que faziam sucesso no programa de TV : “Clube do Bolinha”. E
sobre a questão do troféu, este poderia ficar com o Laert ou Wilton. Seria justo, sendo
eles os compositores da canção premiada, "Revirada".
O troféu que ganhamos, graças ao prêmio como agraciado com o segundo lugar de "Revirada", no Festival I Femoc de 1977, acima em duas fotos
Continua...
Autobiografia na Música - Boca do Céu - Capítulo 30 - Por Luiz Domingues
Quanto ao festival Femoc, o nosso baterista, Fran
Sérpico ficou até o final e soube do resultado. Lembro-me que havia também
vários colegas do colégio para avisar-me, à disposição, igualmente.
Continua...
A nossa reação pelo resultado obtido ?
Claro que ficamos eufóricos. Classificamos as duas músicas, e isso foi o máximo
para nós, a despeito da concorrência ser tão ruim ou pior, com exceção da banda
do guitarrista, "Cri", que tocava melhor que todos, mas que culminou em não sobrepujar
ninguém, também a denotar que o critério do corpo de jurados fora baseado em
qualquer fator, menos conhecimento musical...
Sobre o fato do Fran Sérpico não ter ido conosco ao show do Joe Cocker, ele realmente não saía muito conosco. Não que não quisesse, mas por ainda ter pouca idade (se eu tinha acabado de completar dezessete, ele devia ter cerca de quinze, para dezesseis anos de idade), ainda vivia sob a mão pesada dos pais. Então, foram poucas as ocasiões em que foi em shows comigo; Laert, e Wilton. E o Osvaldo também não saía muito.
Às dezesseis horas do domingo, estávamos
agrupados e prontos para o soundcheck no colégio. A adrenalina estava a mil por
hora. Nossa classificação para a etapa final e a excitação por termos assistido
o show do Joe Cocker, na noite anterior, somadas, deixaram-nos eufóricos. Euforia perigosa, por sinal, pois éramos
inexperientes e ruins tecnicamente, portanto essa falta de foco poderia
atrapalhar-nos e muito.Sobre o fato do Fran Sérpico não ter ido conosco ao show do Joe Cocker, ele realmente não saía muito conosco. Não que não quisesse, mas por ainda ter pouca idade (se eu tinha acabado de completar dezessete, ele devia ter cerca de quinze, para dezesseis anos de idade), ainda vivia sob a mão pesada dos pais. Então, foram poucas as ocasiões em que foi em shows comigo; Laert, e Wilton. E o Osvaldo também não saía muito.
Continua...
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