segunda-feira, 29 de junho de 2015

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 352 - Por Luiz Domingues

Estávamos escalados para fazer dois shows na cidade de Caraguatatuba, no litoral norte de São Paulo.

Seria aniversário daquele município e a prefeitura local queria promover uma grande festa, com um palco montado numa de suas praias, e com isso havia a promessa de que arrebataria uma grande multidão.
Bem, isso por si só, já era sensacional e ajudava a nos dar a sensação de que estávamos recuperando rapidamente o fôlego, após o rompimento com o Studio V, e a enorme frustração gerada pela falsa expectativa criada por parte dessa produtora, de que seria "fácil" o nosso encaminhamento ao mundo mainstream por intermédio deles.

Porém, não se tratava apenas de uma boa oportunidade de fazer um show legal para uma multidão, porque envolveu uma série de desdobramentos de bastidores, que a nosso ver, eram ainda mais interessantes.

Tudo começou ainda no final de março, quando os amigos da banda Proteus, que era uma banda que despontava no cenário do Hard-Rock paulistano oitentista, nos alertaram que a gravadora RCA Victor estava abrindo portas para o Rock pesado e eles, e muitas bandas, estavam levando material para avaliação nessa gravadora, onde não haviam frescuras e filtros, portanto, era uma porta se abrindo.

Claro, a RCA Victor tinha sido muito grande na história da indústria fonográfica brasileira, mas naquela época, estava aquém de algumas concorrentes suas do mercado e dava até para entender que não tendo naquele instante, o mesmo status de outrora, estivesse com uma proposta mais humilde e aberta a receber artistas off-mainstream para avaliações mais democráticas e sem contaminações de tráfico de influências, como outras majors que estavam por cima no ranking, naquele instante.
O saudoso Alex, baixista do Proteus, um bom amigo que nos deixou precocemente.
Joe Moghrabi e Ciro Botini, outros membros do Proteus, também. Joe embrenhou-se no mundo do virtuosismo do Jazz-Fusion, após o término das atividades dessa banda, e é muito respeitado nesse meio, e também no mundo didático da guitarra nos dias atuais. Quanto à Ciro Bottini, é um apresentador de sucesso, há décadas, no canal Shoptime, braço comercial dos canais Globosat.

Sabedores disso, e com material na mão pronto para ser entregue, corremos para o escritório da RCA Victor, e o contato inicial sugerido pelos amigos do Proteus, não era com o diretor de repertório, mas um divulgador de obras da empresa, conhecido por um apelido sui generis : "Bip Bip". 
Esse rapaz, era experiente no meio, conforme apuramos, trabalhando na empresa há anos como divulgador, e para quem não conhece a hierarquia na indústria fonográfica, o cargo de "divulgador" era muito importante na estrutura dessa indústria. Eram os responsáveis para espalhar os discos produzidos pelas empresas em todas as emissoras de rádio; TV e imprensa escrita, promovendo os artistas e sua obra. 

Antes mesmo de se criarem departamentos de assessoria de imprensa internos, as empresas delegavam aos seus divulgadores tal função e por décadas, eram os divulgadores que agendavam aparições dos artistas nos programas de TV; entrevistas nas emissoras de rádio, e na imprensa escrita.

E a "cereja do bolo" para tais profissionais, era garantir a total distribuição dos discos nas emissoras de rádio de todo o Brasil, garantindo a massificação da obra, e houve época, que isso era TUDO na vida de um artista...
Nos anos oitenta e no caso, já caminhando para o final da década, essa logística já se conspurcava, pela cada vez maior presença da instituição vergonhosa do "Jabá", portanto, o poder de influência pessoal dos divulgadores, estava diminuindo, fazendo com que seu papel estivesse sendo reduzindo drasticamente, remetendo-os à uma condição de simples office-boys, para levar o material às rádios, pois a execução ou não das "músicas de trabalho" de seus artistas, estava condicionada a outro tipo de acordo de bastidores, digamos assim, de forma amena...

Bem, feita essa breve explicação, "Bip Bip" era um divulgador experiente, apesar de ser ainda jovem, aparentando ter "trinta e poucos anos" na ocasião. 
Esse exótico apelido, remetendo ao intrépido personagem dos desenhos animados (a ema Road Runner, oficialmente em inglês, mas também conhecida como "Papa-Léguas", ou "Beep Beep" pelo ruído que emitia, e aportuguesado para "Bip Bip").

Ele tinha esse apelido, pelo motivo de ser um sujeito elétrico tal como a ave do desenho animado, além de muito magro fisicamente, também uma característica da personagem.

Bip Bip era um rapaz receptivo, falante e muito elétrico conforme constatamos quando o conhecemos pessoalmente. Muito objetivo e sem nenhuma afetação por trabalhar e conhecer os meandros de uma companhia fonográfica de porte, era simples, humilde, acessível, portanto, convenhamos, algo raro, entre funcionários dessa indústria que tinham "Síndrome de Bozó", geralmente, pelo uso do crachá ostensivo pendurado no pescoço, e atitude arrogante, decorrente.
Nessa conversa preliminar que tivemos com ele (eu e Rubens fomos nessa primeira abordagem), nos falou que antes de mostrarmos o nosso material para o diretor de repertório da empresa, tinha uma proposta a nos fazer.

A Rede Bandeirantes de TV iria transmitir ao vivo, um grande show a ser realizado numa praia de Caraguatatuba, organizado pela prefeitura local, em comemoração ao aniversário daquela cidade praiana.

Não haveria cachet, mas a exposição midiática advinda, seria um tremenda oportunidade de investimento na carreira, e mais que isso, a gravadora veria com "bons olhos" quem se dispusesse a participar.

Claro, não haveriam despesas e toda a infraestrutura estava garantida, com hotel legal; restaurante; transporte, e a garantia de que o equipamento de som e luz seria de grande porte, com uma empresa top no mercado, contratada para garantir tal qualidade técnica.
Bem, não vivíamos mais a euforia total de 1986, e estávamos nos reconstruindo naquele instante, mas interpretamos isso tudo como uma grande oportunidade.

Além do mais, independente do esforço extra e quase prosaico que a irmã do Zé Luis faria para tentar mais uma abordagem na Warner, se a RCA Victor estava abrindo portas, nossa obsessão pela Warner ou outras gravadoras que gozavam de maior prestígio na ocasião, deveria ser repensada, numa nova mudança de rota.

Dessa maneira, aceitamos participar do evento.

Continua...

Um comentário:

  1. Oi Luiz, adorei relembrar os anos dourados do Rock brasileiro. Hoje continuo elétrico e ainda divulgando. Obrigado pelas palavras de carinho. Abçs Bip Bip

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