segunda-feira, 8 de junho de 2015

Autobiografia na Música - Pitbulls on Crack - Capítulo 82 - Por Luiz Domingues

O livrinho era sem dúvida o material adicional mais interessante e bem arrumado dentro da lata. O restante do material era meramente de apoio, mas à medida que o marqueteiro da gravadora foi agregando mais patrocinadores, o material aumentou em volume, fazendo da lata, um verdadeiro baú de coisas inusitadas. Uma camiseta com a estampa do cão em motivos psicodélicos estava agregada, também, mas itens como uma "carteirinha de hippie", chamava a atenção pelo caráter praticamente pejorativo. Tinha os traços infantis de um cachorrinho dócil, estilizado como "hippie bonzinho", e sinceramente aquilo parecia material de congregações religiosas tentando aproximar-se da linguagem jovem, mas de uma maneira totalmente fora da realidade, diluindo ideias em formato pasteurizado, e de extrema docilidade infantiloide.

Uma argola pseudo-psicodélica; um chaveirinho da garrafa de Coca-Cola; bolinhas de gude; um pacote de sopa; uma vela; e um pacote de incensos, também completavam a lata. Então, no cômputo geral, havia um desequilíbrio. Se por um lado o livrinho trazia textos sérios sobre os anos sessenta, o restante do aparato remetia a coisas infantis, ou mesmo antagônicas. A Marina fez um ótimo projeto gráfico desse material de apoio, baseada na capa de sua própria autoria, mas em alguns aspectos, o tom ficou dúbio entre seriedade e uma velada gozação, e claro que não era sua culpa, mas fruto de impressões não condizentes com o espírito que eu ansiava, portanto vindo de outros opinantes.
De fato, eu não podia controlar tudo e sendo justo, não era correto forçar uma barra, se nem todos compactuavam de meus ideais. E sendo muito realista, na prática, só eu estava 100 % imbuído de levar isso a ferro e fogo, com a determinação de um cruzado...
Analisando sob o ponto de vista do trabalho musical do Pitbulls on Crack, essa dubiedade até que fazia sentido, ainda que involuntariamente, porque o som tinha influências sessentistas (aliás, numa análise mais fria, eram mais setentistas, baseadas no Glitter Rock britânico), mas nem de longe era um "resgate" hippie, contracultural, ou que remetesse explicitamente a essa época.
Pelo contrário, as letras das canções tinham uma acidez cockney, muito mais ligada ao punk rock setentista pós-1977. Todo esse aparato pseudo-hippie nada tinha a ver com a letra de "Death on the Christmas Day", por exemplo, onde a história contada na canção, tinha mais a ver com os filmes de terror do tipo "Sexta-Feira 13" ou "A Hora do Pesadelo"...


Continua...

Nenhum comentário:

Postar um comentário