sábado, 4 de outubro de 2014

Autobiografia na Música - Sala de Aulas - Capítulo 24 - Por Luiz Domingues


E como eu narrei ao final do trecho anterior, as eleições presidenciais começaram a esquentar as discussões em toda parte, e na minha sala de aulas, por incrível que pareça, isso não foi diferente. Constatei tal fenômeno com certa surpresa, pois a minha clientela básica era formada por adolescentes e / ou recém saídos dessa condição etária, portanto, seria natural que falassem o tempo todo sobre música, e nas raras ocasiões diferentes, em qualquer assunto, menos política. Entretanto, eu empolguei-me com o interesse que senti da parte de vários deles, e sendo assim, entre um riff e um exercício extenuante no baixo, as conversas sobre a sucessão presidencial acaloravam-se. A imensa maioria era simpática à Lula; Brizola ou Covas. Talvez alguém tenha citado Ulysses Guimarães, mas absolutamente ninguém nutria simpatia pelo Collor.

Em um determinado ponto da campanha, eu decidi-me pelo candidato Mário Covas, do outrora simpático PSDB, e muitos alunos cobraram-me um posicionamento mais incisivo. Queriam que eu fosse ao diretório central desse partido, e oferecesse-me à prestar um depoimento em sinal de apoio público. Muitos artistas estavam a aderir à campanha do Lula e de outros candidatos progressistas, e no caso do Covas também houve esse tipo de adesão. Em princípio, eu considerei que deveria fazê-lo em respeito à minha consciência e para contribuir com um futuro melhor para o Brasil, mas ponderei e achei melhor manifestar-me apenas como cidadão, na urna. De fato, a política é volátil.
O Covas era um político de fibra que eu admirava, mas o seu partido veio a perder-se tempos depois, e hoje em dia mostra-se como um mero conglomerado fisiológico, decepcionante e cercado por quadros suspeitos em sua conduta, desses que pessoas de fibra como Covas e Montoro, fundadores do partido, nutriam asco. Ainda bem que eu não fui expor-me publicamente, sob o risco de ficar estigmatizado posteriormente.

E tem mais um fator que pesou em minha decisão para não envolver -me diretamente na campanha : apesar de ser reconhecido publicamente no meio Rocker brasileiro, para os olhos do grande público, eu não era ninguém. Se precisasse explicar aos atendentes do comitê quem eu era, e o que desejava, realmente não fazia sentido o apoio, nem para a minha pessoa, tampouco à candidatura Covas. A minha namorada na época, incentivou-me também bastante a tomar essa atitude, mas eu ponderei os prós e os contras, e limitei-me a uma militância reservada e claro, o meu reles voto insignificante, depositado na urna, foi esmagado pelos que aclamaram a candidatura de quem venceu em 1989.

De volta a falar especificamente sobre as aulas, o final de 1989 confirmou o que eu já disse anteriormente, ou seja, observei uma forte tendência de mudança no perfil de meus alunos. Antes majoritária, a clientela entusiasta do Heavy-Metal, começou a diminuir acintosamente. A frequência de garotos a usar camisetas pretas com estampas a exibir caveiras; escatologia; e morbidez em geral, pôs-se a minguar.

Foram os ecos da nova década que chegava, para varrer do mapa, ou pelo menos a confinar em nichos específicos, as tendências oitentistas em geral. Houve lampejos retrô através do "Guns'n Roses", o nome a revelar-se como a "bola da vez" nessa virada do ano de 1989, para 1990. Entretanto, também o som do movimento "grunge", mostrou a sua face nessa virada, certamente. Enfim, para fechar o meu relato sobre o ano de 1989, o baixo astral da vitória do candidato presidencial arrogante e certamente coadunado com o continuísmo do conservadorismo feudal, foi rapidamente quebrado, assim que tomou posse a seguir. E as minhas aulas começariam uma nova Era, com uma aproximação muito forte com ideias retrô, e que esquentaria demais após 1992, para proporcionar bons frutos, aliás ótimos, conforme relatarei na sequência.  
Continua...
 

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