segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 176 - Por Luiz Domingues


O show foi muito energético, com o adendo de que a presença de palco do Fran Alves mostrou-se esfuziante, mas não sabíamos exatamente como reagiriam os fãs do trabalho, pois foi algo totalmente inusitado para quem acostumara-se há anos, em ver-nos em formação como Power Trio, visto que o vocalista anterior, Chico Dias, mal teve tempo para marcar presença na banda. Outro ponto, com a entrada do Fran Alves e a mudança de comportamento radical que a banda buscara musicalmente, foi de fato, muita mudança em questão, para o público absorver. Tínhamos consciência de tais elementos, mas não da dimensão de sua consequência, certamente. Bem, de que forma reagiria o público ?

Entenderia que o momento '85 seria para que o nosso trabalho  tornar-se mais pesado ? E quem gostava d'A Chave do Sol das apresentações do programa "A Fábrica do Som", entre 1983 e 1984, com aquele Jazz-Rock setentista e pleno em arranjos elaborados, o que acharia ? Os "headbangers" oitentistas passariam a considerar a banda como interessante em seus anseios metálicos ? Em suma, muitas dúvidas tivemos em nosso âmago, naquele instante.

De qualquer forma, de nossa parte, confiávamos em nosso direcionamento adotado, com a decisão em incorporar um vocalista com potencial, como o Fran Alves, e também em relação às novas músicas com tais características, contudo, foi uma incógnita a reação do público com tantas mudanças por nós promovidas. Nessa estreia, o Fran apresentou-se com muita garra. Aliás, essa era uma de suas qualidades. Quando pisava no palco, deixava de lado o rapaz sereno; tranquilo e equilibrado, para dar vez a um vocalista decidido, com 100% de entrega à performance; banda e à música. E nessa entrega artística, ele empreendia o melhor de si, ao dar margem às vezes, para deslizes, o que era normal e de certa forma esperado, pois só a constância traria o equilíbrio perfeito e portanto, foi uma questão de tempo. Cito tais desequilíbrios como excesso de vontade para imprimir uma mise-en-scené muito vigorosa, e algumas vezes, por conta disso, errar na dose. Serei mais direto : nesse primeiro show oficial em específico, ao sentindo a pressão para querer impressionar o público, ele exagerou um pouco na movimentação cênica, e duas ou três vezes desequilibrou-se, literalmente, quase ao cair no palco, além de trombar comigo e Rubens, ao fazer movimentações mais fortes, e por considerar-se que nós também movíamo-nos bastante (eu, bem mais do que o Rubens, nessa época). No entanto, o Fran era muito criterioso e quando chegou no camarim,  disse-nos de imediato que exagerara e precisava melhorar nesse quesito, ao demonstrar um grande discernimento. Fran sempre foi um sujeito muito preciso nas suas observações e humilde, reconhecia os seus erros, sem nenhum sinal de melindre, ao denotar uma enorme hombridade, qualidade que eu admirava nele. Quanto à parte musical, a sua voz mega potente, impressionava. Era uma emissão vocal, portentosa, e com afinação incrível.

Ele gostava de usar o trêmulo na voz, mas ao analisar hoje em dia, creio que a sua intenção não fora imitar vocalistas setentistas de voz rouca, tais como : Rod Stewart e Noddy Holder (Slade - e este, uma influência confessa do Fran), ou para citar alguém da época em curso (anos oitenta), Kevin Du Brown, (do Quiet Riot), mas a sua intenção real foi buscar um "drive" natural do diafragma, para potencializar o vocal. Para nós, foi um grande show, e estávamos muito felizes pela performance poderosa do Fran, e ele também esteve radiante. 

No entanto, naquele mesmo dia eu colhi, particularmente, uma série de opiniões divergentes, e fiquei chateado com as colocações que ouvi. Algumas pessoas não haviam achado a inclusão do Fran Alves, boa para a banda, e críticas desagradáveis ocorreram. Ouvi reclamações sobre o excesso de trêmulo na voz dele. Outros reclamaram dos excessos cênicos, e uma opinião que achei pesada na hora, fez com que eu pensasse detidamente a posteriori. O produtor do show, Barbieri, chamou-me de lado no camarim, e disse-me que precisávamos pensar no aspecto visual do Fran, pois ele destoara do trio. De fato, o Fran apresentou-se a usar uma calça vermelha acetinada, mas sem a presença de uma camisa, usou uma capa também de cetim, parecida com capas ritualísticas de umbanda e candomblé, igualmente vermelha, com detalhes em preto, sobre o seu dorso.

Dessa forma, realmente pareceu um visual ritualístico, para destoar de nós três restantes, que usávamos calças de couro ou veludo; camisas de seda ou cetim; botinhas e adereços Rockers bem setentistas, como lenços indianos e / ou echarpes. Para piorar, apresentou-se descalço, a realçar a diferença com os demais.

Ingênuos, nem percebemos tal discrepância enquanto  aprontávamo-nos no camarim. Em minha percepção, particularmente, achei a capa que ele usou, interessante, e o fato de subir ao palco descalço e sem camisa, pareceu-me muito mais uma atitude hippie, que remetera ao Caetano Veloso dos bons tempos, quando este usara o famoso "Parangolé" do artista plástico, Hélio Oiticica, do que aparentar usar trajes oriundos da prática de rituais de religiões afro-brasileiras (nada contra tais vestimentas, mas dentro de seu ambiente ritualístico, e não em show de Rock, somente isso, deixo claro !).

E da parte do Fran Alves, certamente que pensara o mesmo, ao considerar estar trajado sob um visual Rocker, e compatível com a importância daquele show, fora estar de acordo com os demais integrantes da banda.  


Além disso, pesou o fato dele não ter tido maiores opções de figurino disponíveis naquele momento. E nesse fator, só restava-nos torcer para que a banda obtivesse o quanto antes uma agenda positiva, que permitisse condições para que ele pudesse preparar-se melhor nesse quesito. Fora isso, que era algo corrigível, preocupou-me as opiniões sobre o vocal dele não ser compatível com a banda, mesmo diante de músicas novas, com características mais pesadas. No entanto, a vida seguiu, e permanecemos amplamente confiantes e muito contentes com a entrada dele em nossa banda. 

Esse show foi gravado direto da mesa de som, com carinho pelo nosso técnico e amigo, Canrobert, e por muitos anos, eu mantive essa fita K7, bem guardada. Em um dia de 1989, um amigo, que gravitou na órbita da banda em 1984, apareceu em minha casa, e pediu-me emprestado tal material, com a promessa de devolução em poucos dias, com o objetivo de fazer uma cópia. Bem... espero até hoje a devolução (2013, quando escrevi esse trecho da narrativa), e nem é preciso descrever o quanto lamento essa perda, pois era o único registro da voz do Fran Alves  ao vivo, a atuar como vocalista d'A Chave do Sol. Nesses tempos em que coloco a minha energia na construção de minha autobiografia, e por conseguinte, promover o resgate total de material inerente (além da possibilidade de lançamento no You Tube), tal material seria um tesouro inestimável para os fãs da banda, para nós mesmos, ex-integrantes, e para a viúva e os dois filhos do Fran. Apenas lamento a mancada, "seu" Hélio... 

Continua...

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